Rude Girl

11 Capitulo 11 — Tempo


Notas iniciais
Finalmente o momento tão esperado. Aniver da Harlow!!! Segurem o coração que ai vem emoção. Aviso logo abaixo. Não pulem ok. Boa leitura ♥

Eu não me levantei ou fui a lugar algum quando Jared acompanhou Amélia para voltar à porta. Depois de nossas despedidas, me vi agora olhando para os rostos aflitos dos meus irmãos, que me observavam com curiosidade e acho, que com um pouquinho de frustração.

Eu tive que sorrir para eles.

— Vocês escutaram tudo? — indaguei divertida.

Nenhum deles sorriu.

— Sim e... — Jad limpou a garganta — Você gostou dela, não é? — Ele fez a pergunta como se a resposta fosse ser a que ele mais temia, e isso me entristeceu, tanto por ele achar que eu o deixaria e também por ele se ressentir por eu ter me dado bem com minha tia. Parecia que eu estava no meio de uma guerra.

— Ela é... Afável — decidi. Eles engoliram em seco — Ei, isso não quer dizer que eu vou ir morar com ela. Não precisam fazer essa cara.

Eles ainda pareciam inquietos.

— Vocês estavam rindo — Apontou Dana, me observando. Eu assenti.

— Estávamos, mas ainda quero morar aqui.

— Por enquanto — murmurou Jared um pouco ressentindo. Suspirei, sentindo seu medo.

— Jared eu...

E então a campainha voltou a tocar. Meu irmão nem mesmo hesitou em se levantar e ir atender a porta, era óbvio que ele queria fugir de conversar comigo, no entanto eu não o deixaria assim tão fácil, ele precisava entender o que estava em jogo.

— Não quero que fiquem nervosos só porque me dei bem com ela — falei a Dana, essa mesma mordeu o lábio nervosamente e disse.

— Não é nervoso. Acho que está mais para medo — corrigiu, e eu a mirei com pesar. No que fui me meter?

Estava massageando as têmporas de olhos fechados quando vozes de repente adentraram em minha casa, o que me fez gemer, ao lembrar quem poderia estar entrando. Vamos Harlow. O dia só está começando.

— Casa maneira — Rangi os dentes ao ouvir Jodie, e Dana pareceu notar, pois sorriu e balançou a cabeça, levantando-se para receber o povo intruso.

— Fiquem a vontade pessoal — falou. Eu resmunguei em desgosto quando vi a cara de Liam e Jodie, então Jonah e Lizze, e logo Jack e Stef. O que eu não esperava, era Jimmy ser o último da fila e ainda estar ao lado de Jared, e esse nem mesmo lançar punhais com os olhos para ele. Na verdade meu irmão estava ocupado demais olhando a turma entrar, ou mais especificadamente, ele estava curioso com a forma que aquela moça, Caroline, olhava em volta da nossa casa. Eu nem sabia por que ela estava aqui, e nem mesmo prestava atenção.

Só estava chocada demais. No entanto quando ia perguntar, eu encontrei o olhar de Jimmy, e ele sorria largamente para mim, e quando soltou uma piscadela discreta, eu corei, lembrando do piti que tinha dado hoje cedo. Percebi antes de desviar o olhar, que ele havia mudado de roupa, vestia preto agora, mas continuava lindo. Droga!

— Marrenta numero dois! — Me assustei quando uma sombra pulou na minha frente. Arregalei os olhos quando Jonah me pegou nos braços.

— Aaaah. Porra! Me coloca no chão Jonah! — gritei. Ele não o fez, só me apertou em seus braços.

— Garota pilantra. Escondeu essa história da asma e dos ataques de pânico — Ele censurou. Bufei, me empurrando para longe de seus braços.

— Não precisava contar.

— Somos seus amigos Harlow — Virei o rosto para Jack, que me mandava um sorriso simpático, porém magoado — Queríamos ter sabido.

— Não seria de grande ajuda — tentei convencê-los, voltando a sentar no sofá. Tentei ignorar o fato que Jodie não tirava os olhos de mim durante um segundo, e foquei em olhar os outros, que pareciam mesmo muito decepcionados comigo.

— Gente, sentem em qualquer lugar. Vou pegar comida — Dana falou, tentando aliviar a tensão. Eu agradeci.

— Desculpe se os magoei. — falei sinceramente. Acho que isso fez com que todos amolecessem, pois pude ver uns sorrisinhos.

— Nós perdoamos você. Como não o faríamos? — Disse Lizze, e no momento seguinte caiu ao meu lado no sofá, abraçando-me de lado. — Eu sinto pelo que está passando.

— Todos nós sentimos — Stef sentou do meu outro lado, e alcançou meu ombro sorrindo — Aposto que dá vontade de correr.

— Pra caramba — falei, desabando a cabeça no sofá. — Eu só queria poder me trancar no quarto e nunca mais sair. — Isso chamou a atenção do meu irmão de volta, pois ele deixou de observar Caroline e me olhou, completamente triste.

— Trancar-se não vai adiantar — Jodie arriscou falar.

Suas palavras trouxe a tensão de volta, pois nossos olhos se cruzaram e todos à volta sentiram a tensão. Foi bom que Dana tenha aparecido nesse momento com uma badeja cheia de sanduiches. Ela a deixou na mesinha e depois voltou à cozinha, saindo da mesma dessa vez com copos de suco. Eu deixei de lado o que Jodie dissera, não querendo brigar no momento, mas mesmo assim, as guardei para mim, sabendo que ela estava certa.

De relance, assisti Dana servi todos, e estava pronta para ver ela servir Jimmy com o suco, só que jogando ele em sua cabeça, seria engraçado e a vingança perfeita para o que aconteceu hoje através do telefone, mas então eu quase perdi o queixo.

Dana simplesmente o olhou, empurrou a bandeja para cima, e sorriu. Ele aceitou, sorrindo para ela radiante e muito satisfeito, e aquilo com certeza foi à gota d’água para mim. Por isso pulei de pé e apontei para os dois.

— Que porra é essa?! — Berrei.

Dana deu um pulo e Jimmy se engasgou com o suco, e quando me olharam, pareciam assombrados. Todos viram o mesmo que eu, e ainda sim sorriram de forma divertida, como se fosse à coisa mais natural do mundo, o que naturalmente não era. Eles estavam ficando malucos? Dana estava falando com o Jimmy!

Olhei para Jared, e arregalei os olhos quando ele sorriu.

— Por que merda está interagindo normalmente com ele? — questionei a Dana. Virei para Jared — Por que não está chutando sua bunda magra para fora da nossa casa? E por que caralhos está com esse sorriso imbecil no rosto Jared?! — Minhas perguntas estavam o divertindo? O que estava acontecendo?

Risos rondaram, e eu quis socar cada um naquela sala, Jared e Dana era os principais. Jimmy seria apenas o troféu.

— Fizemos as pazes — Dana falou sorrindo de lado. Arregalei os olhos e olhei Jimmy.

Ele também estava adorando minha reação.

— Desculpe. Achei ter ouvido que fizeram as pazes — soei confusa, os olhando. Ela riu.

— Eu disse isso. — falou e eu surtei.

— O que. Mas... como...

— Conversamos Harlow — foi Jared quem falou, sentando-se ao lado de Jack no sofá, e sorrindo para mim. — Percebi que estava sendo um idiota com ele.

— Um idiota com... — Estava confusa demais— Jared. Você bebeu? — indaguei. Seria o único motivo que daria para meu irmão superprotetor estar sorrindo para Jimmy.

Ele gargalhou. — Claro que não.

— Então alguém aqui fez você fumar um crack muito forte, por que estamos falando de Jimmy. Jimmy. Jared.

— Ela ainda não sacou — Jonah riu, jogando-se na poltrona ao lado de Caroline, que apenas assistia em silencio.

— O que eu não... — Parei, olhando profundamente nos olhos de Jimmy, percebendo sua felicidade, o brilho que ele emanava e o seu sorriso. Cai no sofá, embasbacada — Ai merda. Eu não posso ter dormindo tanto. O munda tá acabando.

E então todos passaram a rir juntos, enquanto eu ainda processava. Jared e Jimmy, amigos? Dana e Jimmy, amigos também. Sim. Aquilo era definitivamente o fim do mundo, já estava completamente pronta para me deitar no caixão e ser enterrada.

~*~

Horas mais tarde, quando eu já tinha me recuperado momento “Amigos para sempre” entre meus irmãos e Jimmy, todos nós sentamos no chão da sala e formamos uma roda ao meio depois de empurrar os sofás para a parede, fazendo com que Dana e Jared sorrissem enquanto observavam tudo.

— Então vai mesmo para Malibu? — Liam perguntou, me olhando meio pra baixo com a noticia. Jodie não falará mais nada, só observava e conversava de vez enquanto com Caroline, que estava ao se lado igualmente quieta. Por mim estava ótimo assim, não queria brigar.

— Eu vou, mas será só dois meses.

— Podemos ir com você — Stef sugeriu, e só porque eu já tinha ouvida aquela opção, eu ergui uma sobrancelha e olhei de canto para Jimmy. Ele sorriu para mim, mas não parecia arrependido e deu de ombros.

Suspirei.

— Não vai rolar gente. Amélia quer ficar comigo a metade do tempo — falei, e os olhei com um sorriso — Mas obrigada por sugerir. Seria mesmo bom viajar com vocês.

— Podemos fazer isso quando voltar — Jonah sorriu — Que tal Paris? — Rimos, mas todos pareciam pensar na opção.

— Não. Podemos ir em um passeio para o caribe! — Lizze se empolgou logo ao lado — Imagina como é aquela praia. Um eterno paraíso.

— Já eu voto em Amsterdã — Liam sorria de lado maliciosamente, e olhou para Jodie — Posso pensar em muitas coisas para fazer lá. Passeio de barco seria algo incrível! — Eu vi a reação de Jodie para aquilo enquanto deixava a conversa com Caroline e pensava, logo depois ela sorriu de lado no que eu achei, foi atrevimento para seu novato.

— Eu gosto de barcos. Posso fazer algo muito bom e molhado dentro de um barco — E olhou sugestivamente para Liam, fazendo-o arregalar os olhos e engasgar. Foi impossível, por mais raiva que eu sentisse da reação, eu comecei a rir igual uma hiena, olhando a expressão chocada e interessada do lutador.

— Oh Deus! Isso foi demais. — Quase cai no chão de tanto rir, e mesmo naquele estado, percebi que havia ficado um silencio estranho no ar, isso antes de todos se juntarem a mim nos risos. Percebi depois que parei que era a primeira vez que ria de algo que Jodie falou, e quando a olhei, eu fui surpreendida com um olhar cheio de esperança, uma alegria que via antigamente quando éramos amigas, e aquele sorriso perigoso significava que não desistiria de mim.

Mordendo o lábio e a encarando, eu senti, depois de muito tempo ignorando, certa satisfação naquilo, porém desviei o olhar, não querendo lhe dar mais esperanças, pois ainda não entedia o que era esse sentimento novo e não sabia se era uma cogitação de desculpá-la. Eu encontrei com outros olhos, dessa vez escuros e com um toque de caramelo, e ele parecia feliz, na verdade parecia radiante enquanto me observava. Estranho.

— Bom. Eu acho melhor mandar noticias para nós em garota — Jack me apontou o dedo — Estaremos esperando.

— Claro. Se eu não estiver dormindo — falei provocante, ele me acertou uma almofada. — É brincadeira! — ri. — Eu vou chama-los por via-escape, afinal de contas, não farei nada de interessante lá, já que não conheço ninguém.

— Você pode tentar se encontrar com Damien — Jodie falou de repente, hesitante, obviamente queria me testar para ver se cairia em cima dela com ignorância. Eu ia mesmo fazê-lo, entretanto peguei o olhar estreito que meu irmão deu do sofá, fazendo me lembrar de nossa conversa mais cedo. Suspirei.

— Quem é esse Damien? — Nem fui eu que precisei perguntar. Jimmy resolveu abrir a boca, e parecia que seu humor tinha caído de repente.

Ergui uma sobrancelha para ele, mas depois me virei para Jodie, que só prestava atenção em mim.

— Então? — perguntei também. Notei que ela quase sorriu, mas se aguentou e apontou para Caroline.

— É irmão dela. — respondeu. Olhei a loira, ela sorriu para mim, ajeitando-se no seu lugar, e percebi logo de cara que a moça nunca estaria desarrumada, pois até ali, sentada no chão, ela parecia uma mulher competente.

—E como ele é? — indaguei curiosa. Ela sorriu mais.

— Ele é como eu — falou simplesmente. Franzi a testa, querendo mais discrição — Damien é meu irmão gêmeo — Concluiu, e todos se chocaram, menos Jodie, que riu.

— Eles são um o focinho do outro — disse a observando — Damien é mais alto, porém, tem o mesmo cabelo loiro, os olhos escuro, o rosto e corpo de um deus...

— Jodie. — Liam rosnou, mas a namorada apenas piscou um olho para ele.

— Ele mora há muito tempo na Califórnia, justamente em Malibu — Caroline explicou suavemente — Jodie o conheceu quando ele me fez uma visita na faculdade.

— Quantos anos vocês tem? — perguntei, e percebi que meu interesse estava deixando Jimmy inquieto, por isso continuei. Eu amava irritá-lo.

— Temos vinte e dois, mas ele é três minutos mais velhos que eu — sorriu de lado e puxou a manga da blusa. Mostrou os números que eram marcados lá como uma tatuagem — Ele me fez fazer isso no nosso aniversário de dezoito anos. Disse que precisávamos de algo para nos diferenciar e comemorar a idade tão esperada. Eu não acreditei quando ele me fez marcar a hora do nosso nascimento.

Rimos com ela. Era uma coisa legal de se fazer entre irmãos.

— Qual é sua faculdade mesmo? — Lizze perguntou — Jodie nos falou, mas me esqueci.

— Estou em meu terceiro ano de Direito. — disse orgulhosamente — Quero ser advogada criminal.

— Nossa — Me surpreendi — Isso sim é uma decisão. Seu irmão também optou por isso?

— Oh não. Damien não tem nada de responsável — falou, e parecia apreciar o que dizia, pois sorria amável — Ele gosta bastante de diversão, por isso escolheu Design de game.

— Que maneiro! — Jonah sorriu interessado. — Eu também faço Design de games. Mas estou encerrando meu primeiro ano.

— Dan e eu começamos a faculdade com dezenove anos. Está completando o terceiro também.

— Dan? — Ri um pouco. Olhei para Dana, sentada ao lado de Jared. — Seria interessante o seu Dan e a minha Dan juntos no mesmo lugar. — murmurei. Caroline sorriu e olhou Dana, que corava tentando ficar longe dos olhares.

— Eu o chamo assim desde pequena. Porém ele prefere Damie.

— E ele ficaria bem em me conhecer? — perguntei duvidosa.

— Mas é claro que sim. Dan é um amor, e se eu pedir ele vai proteger você até da sua própria sombra — garantiu. Eu estava começando a gostar disso.

— Bom, não faz mal conhecer novas pessoas. — murmurei para mim mesma, mas todos escutaram, principalmente Jimmy. Ninguém parecia perceber, mas eu via como ele contorcia a face e apertava os lábios, estava fazendo a mesma coisa que rolou do clube da luta, me fuzilava com uma fúria de esquentar a pele.

Sorri de lado, encarando de volta.

Seus olhos brilharam em fogo escuro, e não querendo um assassinato de mim mesma no tapete, desviei o olhar e continuei atenta à conversa.

— Você já trabalhou com algum cliente? — perguntei a Caroline, ela suspirou.

— Não literalmente, isso somente acontecerá quando estiver com um certificado na mão. No entanto eu trabalho como aprendiz de um advogado em Pheonix. É uma maneira de aprender mais coisas. Ainda existem muitas barreiras a percorrer.

— Se me permite perguntar — Todos erguemos os olhos quando Jared entrou na conversa — Que tipos de barreiras se refere?

Caroline se virou um pouco para poder olhá-lo e falou.

— Bem, minhas barreiras são a de confiança e profissionalismo — falou, nenhum de nós entendeu, então recorreu à outra forma de explicar. Olhou por um instante para Jared, e franziu o cenho — Você tem um porte duro, decidido. Um rosto mais velho que o de sua irmã Dana, então pode ser que tenha por volta de vinte oito anos... Pela forma que agiu na casa dos pais de Liam por causa de Jimmy carregando Harlow, opto dizer que sua profissão requer cuidados. Com certeza é um médico. — Ela piscou um momento — Sua forma de falar exige muitos estudos, então obviamente não esperou até os vinte anos para entrar na faculdade e estudou em casa, o que com minhas contas, faz-me notar que já está formado. Então, pode ser um residente em seu primeiro ano ou interno, portanto aqui vai uma forma para você entender minhas dificuldades — fez uma cara pensativa, e sorriu — Para um interno, o mais difícil, eu suponho, é controlar suas emoções diante um paciente, estou certa?

Jared, ainda pasmo com sua observação, assentiu, engolindo em seco.

— Ótimo. Pense em mim como se fosse uma médica. Eu preciso ter o mesmo juízo, a mesma postura profissional e a mesma sabedoria. No entanto, a diferença de um médico para um advogado, é que em uma cirurgia, ele está cercado de enfermeiros para ajudá-lo a encerrar aquela etapa e salvar aquela vida. Se o perderem, eles vão ficar decepcionados? Sim. Mas ficaram decepcionados em grupo. Já uma advogada como eu, tem que está lá sozinha para defender a suas provas. E eu ainda estou em dificuldade de enfrentar a culpa sabe. Para ser uma advogada realmente boa, preciso saber formar argumentos para todos os juris, e se perder aquela audiência, não só fico com uma culpa, mas também perco meu cliente. Acredito que nessa parte, os cirurgiões e advogados se coincidem, pois perder uma vida ou uma audiência, é tão triste quanto, mas ambos precisam processar, e se não fizerem, bem... Tudo vai pelos ares. Por isso o profissionalismo. Para sabermos nos controlarem em uma situação triste.

— Devo concordar com isso — Ele sorriu de lado, admirado — Minha primeira cirurgia no hospital me deixou marcas. Foi duro ter que manter o controle, e sendo um interno na época, eu tinha que estar lá para aprender, e percebi na minha quinta cirurgia, que perder a cabeça por uma morte só nos faz mais miseráveis. Na sala de cirurgia o certo é respirar fundo e falar em voz alta e firme o horário em que a pessoa morreu. Talvez para você sirva pensar que aquilo é necessário. Existe vitorias e derrotas. Pode começar a numerá-las, assim pode se forcar em ultrapassar os fracassos com acertos.

Caroline ficou em silencio então, olhando meu irmão sem uma expressão no rosto, mas aos poucos ela sorriu, e desde que ela chegou na casa, acho que foi um dos maiores sorrisos que ela já deu. Arregalando os olhos, troquei olhares com Dana, percebendo o óbvio.

Ela também parecia chocada, observando os dois, mas depois levou à mão a boca e riu. Eu fiz o mesmo, sabendo que ela estava pensando que Jared finalmente, havia encontrado alguém para proteger além da gente. Ele tinha namorado uma ou duas vezes, mas nada muito serio, e por mais que fosse estaria acabando agora, pois o olhar que ele mandava para Caroline era pura fascinação, havia brilho em seus olhos, como se estivesse desvendando o mais excitante dos mistérios. Ambos pareciam se encaixar perfeitamente.

— É impressão minha — Lizze sussurrou no meu ouvido, rindo — Ou esses dois estão se encarando muito? — sorri com ela.

— Pode ser — falei. Eu quis que aquilo fosse verdade, pois realmente estava na hora do meu maninho se apaixonar e viver a vida dele.

— Então — Jodie segurava um sorriso malicioso no rosto quando cutucou Caroline — Já que estão se dando bem, você bem que podia ir no hospital que ele trabalha. Você não disse que precisava colocar seus exames em dia? — Como se tivesse saindo de um transe, Caroline franziu a testa, confusa, depois olhou para amiga do lado, parecendo completamente desvairada.

— Eu não disse...

— Sim — Jodie a beliscou do lado — Você disse!

— Mas o que... — Ela gemeu quando Jodie voltou a beliscá-la, mas só depois de vários desses, ela pareceu entender o que a doida queria dizer. Caroline teve as bochechas vermelhas.

— Precisa de ajuda? — Meu irmão estava de repente bem feliz — Posso levá-la onde trabalho. Adoraria ajudar. — Caroline corou mais, e agora eu prendia o riso com muito mais força, porém Dana parecia que ia sufocar, pois deu um pulo do sofá.

— Gente eu... preciso... Tô indo — E ela começou a gargalhar enquanto subia as escadas, mas não antes de gritar para o irmão — Mostra aquele lugar nos fundos do hospital mano! Ela vai gostar! — Eu arregalei os olhos, assim como Jared, que olhou para cima das escadas corando fortemente enquanto eu, bem... Me joguei no chão rindo. O por que?

Bom, era que os fundos do hospital onde Jared trabalhava — na maior parte do tempo — tinha internos se pegando longe do residente, que maravilhosamente, era meu irmão. Eu mesma já tinha visto um casal tirando as roupas lá, e Jared quase enfartou quando me arrastou de lá. Meus amigos já estavam cientes do lugar, por isso tão bem começaram a rir, deixando Caroline e Jared corados, e sem reação.

— O que há nos fundos do hospital? — Caroline quis saber. Jodie tinha ficado confusa também, pois não sabia do que se tratava, mas então Liam cochichou para ela, e ela se engasgou em uma gargalhada enquanto Jared gaguejava uma resposta.

— Na-nada. Não existe nada lá — Eu estava começando a ficar sem fôlego, e foi quando estava cogitando jogar um copo de água na cabeça, que o celular de Jad tocou. Ele pareceu mentalmente aliviado e se levantou.

— É do hospital e preciso... Atender — falou e correu para a cozinha sem hesitar.

— Oh meu Deus Caroline! — Stef e Lizze gritaram — Ele ficou na sua.

— Ele não está na minha. — A garota corou mais — Só estávamos conversando.

— Desculpe loira, mas eu sou irmã dele e ele nunca conversou daquele jeito comigo e nem com ninguém — Ela engoliu em seco, olhando para onde Jad tinha ido.

— É impressão.

— Não. É ele tá muito na sua — ri alto. Ela ficou sem graça e então perguntou.

— O que tem nos fundos do hospital? — Isso rendeu a mais risos, deixando a pobre garota frustrada e sem nenhuma resposta. Depois de horas assim, Jared retornou, porém de alguma forma muito cautelosa ele havia subido e se trocado. Agora estava vestido para trabalhar, usando seu jaleco branco e tinha sua habitual maleta na mão.

O mundo pareceu parar para as meninas, pois elas sempre babavam no meu irmão quando estava de jaleco, principalmente Lizze, que sorria super interessada. Mas eu estava mais é focada na reação de Caroline, que com certeza se agradou com a visão dele daquela forma.

Eu vi-a mirar meu irmão cuidadosamente, e depois pressionar os lábios muitos juntos e desviar o olhar, ficando ainda mais vermelha.

— Nossa. Está de parabéns em Jad — Lizze comentou sorrindo. Meu irmão riu, já acostumado com as provocações da garota que me morava ao nosso lado, mas Jonah só grunhiu, enlaçando a cintura da loura possesivamente.

— Estou saindo Harlow. Falei com Dana e ela estará de olho em você, ok? — Assenti e deixei que ele beijasse minha testa — Seja boa.

— Eu sempre sou boa — sorri. Ele também, e bagunçou meu cabelo. Com sua timidez de volta, ele se voltou a Caroline e sorriu — E então? Vira comigo ao hospital? Não é longe. Posso ajuda-la nos exames depois que resolver um caso que apareceu.

A garota hesitou, trocando o olhar entre ele e chão.

— Um. Bem eu...

— Ela vai! — Jodie deu um empurrão e se levantou, puxando a loira assustada com ela — Certifique-se de examiná-la muito bem — falou, e acho que Jad e Caroline quase perderam o queixo a olhando. Jodie ergueu uma sobrancelha — O que estão esperando? Vai. Vai. Xô! A Caroline está de carro mesmo, faça a gentileza de leva-lo, querida ex-colega de quatro. E se divirta.

— Jodie — Caroline gemeu quando foi empurrada com Jared para porta pela maluca. Ela nem os deixou falar, só acenou um tchau e fechou eles do lado de fora.

— Eles vão se pegar — garantiu sorridente, e eu nunca ri tanto na minha vida depois. Tanto que nem impliquei com ela durante o resto do dia, e nem mesmo durante a noite, que resolvemos passar conversando entre nós. Estava tudo muito bom, e naquele instante, eu quis que aquele dia nunca acabasse, pois os próximos eu sabia que seriam uma grande merda.

~*~

E como sempre, eu estava totalmente certa. Os dois dias seguintes que faltavam para meu aniversário fez-me ficar estressada, deprimida e totalmente preguiçosa. Na terça-feira, depois que todos foram embora e eu percebi que estava finalmente sozinha, eu passei a olhar em volta e ficar agoniada, tanto que fui atrás de Dana, o que não serviu de grande ajuda, pois ela estava terminando de fazer um relatório para o escritório. Quando fui para meu quarto, eu quase pulei da janela de tão entediada, e como era cedo demais, eu desisti de tentar arranjar algo para fazer e resolvi ir para o colégio mesmo estando muito atrasada.

Grande merda de diferença. Tudo que consegui quando cheguei lá foi uma bronca da professora e um infeliz ataque de asma no meio da aula. Com os olhos de todos assistindo tudo. Aquilo me fez louca antes de sair correndo da sala para me trancar no banheiro. Sozinha, eu usei minha bombinha e matei o restante das aulas lá, fugindo de tudo e de todos. Não percebi o tempo passar, porém eu tive de sair do banheiro quando me acharam.

A diretora Cassandra acabou por chamar Dana no colégio, que ficou horrorizada ao saber que fiquei trancada no banheiro depois de um ataque no meio da sala de aula. Ela tentou falar comigo, mas me recusei, estava seriamente decidida a ficar muda durante esse três dias odiosos. Não falaria nada até que a merda do aniversário acabasse.

Terça-feira acabou e quarta chegou, mas eu nada falei. Tranquei-me no quarto e não permiti que ninguém entrasse. Só me arrastei na escuridão do meu cantinho e abracei a fotografia, olhando pela janela enquanto minha caixinha de música tocava.

— Harlow, não faça assim querida — Jared batia em minha porta a cada instante, sempre um pouco mais desesperado — Você precisa comer. Vamos meu anjo, me deixe entrar.

A música continuou tocando enquanto encarava porta, mas nada tirava àquela solidão do meu peito, nem mesmo a voz preocupada do meu irmão.

— Harlow? — Ele tentou novamente. Quando continuei em silencio, ele pareceu desistir, pois parou de bater.

Durante minutos eu esperei que ele arrombasse, mas nada aconteceu, portanto me levantei e fui até a janela, abraçada a fotografia. O céu estava escuro, e quando olhei para o relógio, senti minhas barreiras enfraquecerem. Era quase meia noite, o que significava que era quase quinta-feira. 15 de junho. O dia da morte de Hope e meu aniversário.

Prendi o lábio entre os dentes, fechando os olhos bem apertando enquanto me encolhia entre o guarda-roupa e a parede, desejando que aquele esconderijo fosse o suficiente para me esconder de tudo. Mas mesmo se fechasse os olhos, eu ainda sofria com o peso sobre meu coração. Eu queria poder chorar como aconteceu na casa de Liam, mas as lágrimas não vinham quando pedia ao Deus que muitos falavam que existia. Implorava por um amparo para que pudesse me erguer dali, pois nem mesmo a fome fazia-me querer sair, tudo que restava para mim era aquele silencio torturador, que só me fazia afundar mais.

Estava tão cansada, tão cansada. Meu corpo já magro por natureza, estava tremulo por ter rejeitado refeições, minha boca estava seca por um copo de água, mas até isso era difícil de conseguir.

O que estava acontecendo? Simples. O órgão que era meu coração estava chorando as lágrimas que meus olhos não conseguiam derramar, e muito, mais muito lentamente.

Fechar os olhos não era uma opção, eles permaneceram encarando o relógio, contando até que o inevitável acontecesse. Com cinco minutos faltando, tudo em mim tremia, como se estivesse com um caso sério de epilepsia, mas eu me abracei e forcei a continuar a contagem, respirando entre sôfregos fracos.

Cinco... Três...

Me apertei mais, molhando os lábios.

Dois...

Em um momento de desespero, eu senti quando a falta de ar chegou, mas mesmo com a garganta se fechando, eu disse, gaguejando e sussurrando, o último numero.

— Um.

Meia-noite.

15 de junho.

A avalanche de sensações me abalou e eu tossi, me arrastando até minha mochila, mas em minha pressa para abri-la, deixei o retrato cair. Sem oxigênio, olhei-o, sentindo tudo se apertar e mesmo assim, as lágrimas não pingaram. Pensei em jogá-lo contra a porta, mas o desejo fez-me retrair, então corri para pegar a bombinha. Horas depois estava de volta ao meu esconderijo, embrulhada nos cobertores, de olhos fechados para que o dia passasse mais rápido e não aquela lerdice de sempre.

Jared e Dana bateram mais duas vezes na porta antes de realmente desistirem, e quando os raios solares apareceram no céu completamente, eu suspirei, olhando aquele dia tão bonito. Pensei em como umas pessoas estariam comemorando seu aniversário com os familiares, rindo com amigos, pensei em como gostaria de ter aquilo, e também imaginei como seria poder chorar, mas só que de alegria.

Eu queria aquilo. Ah Deus. Eu queria muito, mas como poderia ignorar a dor? Olhar para um bolo e lembrar que minha mãe... Minha mãezinha, nesse mesmo dia do calendário, lutara contra as dores do parto só para me dar a vida e em seguida, partir para sempre. Por que era tão injusto? Eu nunca tive uma mãe para abraçar, eu nunca ouvi-a cantar para mim como Jad e Dan ouviram, eu não vi seu rosto, e eu nunca iria ver. Nunca olharia em seus olhos para dizer “eu te amo”. E isso machucava, fazia-me querer ter ido em seu lugar a cada instante longo de inquietude.

Os minutos passaram e eu fiquei ali, apenas respirando, parada no meio da bagunça, mas o dia não terminava. Jamais terminava.

Perto das três da tarde uma batida me fez abrir os olhos, mas nem a voz de Jared e nem a voz de Dana chamou, só bateram. Eu não me movi. Mais uma batida, e nada de voz. Na terceira eu vi a maçaneta mexer, e logo fiquei apreensiva quando ela fez um clique. Eu sabia que Jared tinha chave, mas ele nunca ousou usar quando eu demonstrava querer ficar sozinha.

Assisti a porta abrir lentamente, e então, para minha surpresa, não era Jad e muito menos Dana. Aqueles cabelos loiros pertenciam a uma pessoa totalmente diferente, assim como aqueles olhos que rodaram o local, ficando quase sem reação com o estado que estava meu quarto. Ele procurou entre as coisas, e quando se inclinou para frente, olhando onde eu estava, seus olhos se arregalaram, a boca caindo um pouco enquanto as mãos iam para a cabeça em sinal de completa aflição.

Eu sabia que imagem ele via; Uma garota magra, com um rosto desidratado e olhos escuros, a boca seca e vestida em uma camiseta que mais parecia um trapo velho. Cobertores a cercando enquanto a mesma abraçava as pernas e um quadro com uma foto, mais acuada que um camundongo fugindo de uma armadilha.

Jimmy se aproximou devagar, apertando os lábios juntos ao se abaixar a minha frente. Logo depois piscou os olhos tristes para mim, me olhando melancólico.

— O que aconteceu com você pequena? — murmurou desolado, e levou a mão até meu rosto para tirar meus cabelos bagunçados dos olhos. — Fale comigo Harlow. Eu te peço — disse todo consternado. Eu apenas olhei, parada no lugar e d’baixo de seus olhos chorosos. — Por favor... Linda, você não pode continuar fazendo isso. Está se afundando tanto pequena — Alisou meu rosto, depois seus olhos caíram para o que eu tinha entre os braços e as pernas. Tentou pegá-lo de mim, mas me agarrei mais forte ao retrato, mordendo os lábios fortemente.

Jimmy me olhou contraído.

— Venha comigo linda. Eu vou ajudar você a tomar um banho. — Pisquei para ele, sem me mover quando ele estendeu a mão, ele novamente suspirou e gentilmente, passou um braço por trás das minhas costas e outro por de baixo das minhas pernas. Ele caminhou por cima nas minhas coisas no chão, sua bochecha encostando-se a minha cabeça e sua respiração bem perto, mas naquele instante, eu não fui afetada pela proximidade, estava ocupada demais tremendo ao olhar para onde ele me levava.

Ele andou pelo corredor para o banheiro, e quando empurrou a porta, Dana estava lá preparando as coisas para um banho. Quando ela me olhou, seus olhos imediatamente se encheram de lágrimas, mas não disse nada, apenas apontou para a cadeira que havia dentro do box. Jimmy me colocou lá com cuidado, mas assim que ele se afastou, eu comecei a cair para o lado por não ter firmado meu peso.

Ele me segurou, praguejando fraquinho.

— Segure ela enquanto a lavo — pediu minha irmã. Jimmy assentiu, e continuou com as mãos nos meus braços. Dana se aproximou e baixou-se com uma bacia em mãos. Deixou no chão e me olhou mordendo os lábios. — Vamos cuidar de você querida. Prometo — E beijou minha testa, para depois tirar sem que percebesse, o quadro das minhas mãos. Voltei a tremer incontrolavelmente, me sentindo desamparada com ele longe de mim. Gemi, começando a sufocar.

— Calma. — Jimmy sussurrou em meu ouvindo, encostando seus lábios ali. Acariciou minhas costas e nuca, mantendo um contato muito perto — Vai ser rápido pequena. Apenas aguente.

O carinho me ajudou a ficar calma enquanto Dana trabalhava em tirar minha camisa. Percebi, que a todo o momento, enquanto Dana me despia, Jimmy tinha os olhos fechados e o rosto enterrado no meu pescoço, ainda sussurrando palavras gentis e calmas em um modo de dar-me privacidade e amparo ao mesmo tempo. Senti quando Dana começou a me lavar, esfregando meus braços, as pernas e pés, subindo para os ombros e o rosto. Assim como Jimmy, eu fechei os olhos, deixando que eles cuidassem de mim, e enquanto ambos faziam isso, minha mente brincou de ligar e pagar, deixando aquela minha parte desligada resfolegar durante o banho, como se estivesse lamentando. E eu realmente estava. Lamentava o tamanho da espera para que pudesse finalmente abrir os olhos e chorar, lamentava a dor que o vento me trazia e como a água que Dana pingava em meu corpo, fazia me sentir deprimida. E aquilo parecia que duraria por mais de mil anos, a dor nunca cessando, nunca dando uma trégua. Como o frio de uma promessa quebrada, aquilo era eterno, mesmo que alguém segurasse minhas mãos eu sentia-me caindo. Profundamente despencando.

Eu queria tanto acabar com aquilo. E eu tentei falar para Dana ou até para Jimmy, mas minha boca não se movia e a voz não saia. Durante todo o processo de lavagem, depois quando Dana me secou e então colocou um vestido e uma nova calcinha e mim, eu nada fiz ou disse. Ela penteou meu cabelo enquanto Jimmy me olhava em meus olhos, os dele um pouco vermelhos, como se lutasse contra suas lágrimas, o que era injusto, pois ele conseguia chorar, mas eu não.

Pronta, Dana assentiu para Jimmy, e logo ele estava me pegando nos baraços novamente, enquanto eu abraçava o quadro. Dana colocou sapatilhas em mim, e em seguida, nós três seguimos pelo corredor até as escadas. Devagar, ele desceu comigo, quando chegamos à entrada da sala, ele se inclinou e beijou minha testa, olhando profundamente em meus olhos.

— Você é importante. Para mim, para seus irmãos, e para todos seus amigos — Dana também chegou ao meu lado e alisou meu rosto, encostando nossas testas.

— Ela pode não estar aqui... Mas eu estou querida. E eu te amo e sempre vou amar — Ela fungou, e deixando um beijo no meu nariz, se afastou.

Jimmy deu um passo para dentro da sala, e foi então que tudo ficou confuso. Eu olhei em volta, chocada com o tanto de gente espalhada pela casa. Encontrei Ethan e Amara, juntos lado a lado, sorrindo para mim. Mais afastados estavam Jack, Liam, Stef, Jodie, Caroline, Michelle, Mick, Lilah, Dolly e até os pais de Jimmy, Kane e Erin... Mais afastados estava à família de Jonah e de Stefany. Até mesmo Linnea e Carter com a filhinha Ivy, e também a família de Lizze.

Senti minha boca abrir em choque, olhando em volta com confusão até que Jimmy me abaixou para ficar em pé. Eu vacilei, mas ele me segurou.

Firme, olhei para as paredes, para as fotos que foram grudas ali. Todas de mim com todos eles, mas principalmente de minha mãe. Hope em uma balança sorrindo ao alisar uma pequena barriga com meu pai, Hope com Jared e Dana, e Hope cantando. Tudo com Hope. Comecei a respirar rápido, tropeçando em meus pés enquanto rodava sem saber para onde olhar, mas quando parei Jared estava em minha frente, e atrás dele, havia até mesmo Amélia.

Jad segurava um bolo, e no bolo tinha o rosto de minha mãe também.

Era como estar em uma sala de espelho e ter seu reflexo por todo lado, mas naquele momento, não era o meu rosto que me perturbava, era o da minha mãe.

— Não — O soluço saiu ao mesmo tempo em que as lágrimas finalmente pingaram. Jared não disse nada e nem sorriu, nem as pessoas ao redor, era como se soubessem o que ia acontecer e eu não. Eu não queria disso. Eu queria me trancar. Eu queria fugir daquele sentimento avassalador, da tortura — Não. Não. Eu não eu não quero Jad — A formar como implorei, o jeito que minha voz saiu, fez com que os olhos dele reagissem e enchessem de lágrimas, mas ele continuou quieto, me fazendo percebe que agora, ele ficaria mudo e me deixaria falar. Dizer tudo que entalava na minha garganta, mas o problema era que eu não sabia controlar a emoção, e aquelas fotos, toda aquela decoração. O bolo. Eles mexiam com minha cabeça, eu não queira vê-los eu não queria nada daquilo na minha frente!

Bufando entre soluços consegui encontrar minha força para ir até Jared. Larguei o quadro no chão e agarrei o bolo de suas mãos, com uma fúria vinda do fundo da minha alma eu o atirei contra aquelas fotos grudas nas paredes. Enlouquecida, cheia de raiva, de tristeza, cheia de culpa.

— Parem! Parem de fazer isso — gritei olhando os rostos. — Nada disso é meu... Nada disso devia ser para mim! — Marchei para as paredes e comecei a arrancar as fotografias, rasgando-as no meio. — Ela não ta aqui! Ela foi embora. Não existe Hope, não existe aniversário para mim! Ela morreu! Hope Cooper morreu para sempre. Ela se foi e... me deixou. Me deixou aqui... — Agarrei os cabelos, perdida com a visão de tantos rostos em lágrimas. Com tantas fotos rasgada. Funguei, caindo no caindo ao lado do porta-retrato no chão. O peguei e funguei, chacoalhando a cabeça, desolada, meu coração doendo tanto que me tirava o ar — Ela morreu. Morreu... Morreu e é minha culpa. Somente minha. Ela... ela foi... minha mãe foi e eu não aguento, não aguento o quanto está doendo... Eu não quero mais. Tenho que lembrar todos os dias que eu devia ir, não ela... quero pare, por favor. Parem.

Encostei a testa no chão, soluçando, sem forças. Alguém se ajoelhou comigo, e quando mãos me puxaram para levantar, eu encontrei com os olhos fortes de Jared, e eles me acolheram e me abraçaram enquanto suas mãos me sustentavam de joelhos. Ele segurou meu rosto, forçando-me olhar para ele, e com a insistência do guerreiro que eu sabia que ele era, o vi abrir uma caixa de veludo vermelho, e de lá, ele tirou o tão precioso diadema.

Olhei a peça fungando, e quando Jad o colocou em minha cabeça, eu pude sentir o peso de usá-lo, pude sentir o significado de tê-lo.

— Um dia nossa mãe me pediu para cuidar de você se ela um dia não estivesse por perto — sussurrou ele, capturando meu queixo entre os dedos. — Esse dia chegou há muito tempo Harlow, mesmo assim, eu não pude acalmar seu coração o suficiente para fazê-la superar. E isso também dói em mim... Porque além de ser minha irmã, você também é minha filha. Eu a peguei no colo, cuidei de febres, beijei seus machucados, e cada vez que eu o fazia, eu me sentia mais pai do que um irmão mais velho. E vê-la assim rasga-me o coração, e eu queria de verdade, poder pegar essa sua culpa para mim, mas eu posso querida, o trabalho de mandá-la embora tem que ser seu. E sei que é egoísmo meu, mas eu te peço Harlow... Leve a cabeça filha, abra os olhos logo antes que seja tarde demais, pois se você não conseguir... Eu também cairei com você, e farei de tudo para que eu seja o mais afetado. — Seus polegares arrastaram-se por minhas bochechas para secar as lágrimas enquanto as dele própria desciam, ele sorriu — É tão parecida com ela. Tão bonita minha querida. Então tente, mas tente com querer, pois eu também não aguento mais lhe ver assim. Todas essas pessoas estão aqui, porque querem seu bem, Jodie quer seu bem — Funguei, levando minhas mãos para seu rosto também, e quando ele beijou meus dedos, um sorriso escorregou por meus lábios. Ele também sorriu, fascinado.

— É minha família Harlow, e não desistirei de você. Quer brigue ou até me bata. Eu sou por você e você é por mim. Para sempre. Eu, você e Dana — Ele virou o rosto, e como se chamasse, Dana correu para nós, já se ajoelhando conosco. Lágrimas pingando ao alisar nossos rostos.

— Nossos pais podem não estar aqui fisicamente, mas emocionalmente, eles estão — Ele sorriu, puxando nós duas para perto. — E nós te amamos Harlow, apesar de tudo. Te amos pra sempre. E a tiara em sua cabeça é uma das formas da nossa mãe demonstrar que também lhe ama. Agora olhe aqui— Segurou meu rosto e deu um sorriso largo — Seque essas lágrimas minha garota, vá viajar com nossa tia e divirta-se muito. Viva cada momento da sua vida, pois você a merece, não por nossa mãe ter lhe dado ela, mas por ser humana. Todos ganham o direito de viver e você ainda não o aproveitou, portanto chega de lamurias e solidão em uma data tão especial, porque hoje é o seu dia... Somente seu minha linda menina.

E então ele me abraçou, levando eu e Dana ao seu encontro enquanto nos apertava. Dan beijou meu rosto, depois o de Jared, me fazendo rir, pela primeiríssima vez, no meu aniversário, e aquilo foi tão. Tão bom. Que voltei a chorar. E percebi que eu amava poder chorar de felicidade, o sentimento se espalhava por todo o meu peito até que estava rindo alto, enquanto apertava meus irmãos em abraços fortes e desesperados. Eles pareciam chorar de alívio, e quando percebi, todos estavam a nossa volta, me parabenizando, me abraçando, me sufocando com sorrisos e toques. Quando estava afastada de todos, eu olhei em volta e encontrei três pessoas apenas observando, e ao conseguir me desvencilhar dos outros, eu caminhei para a primeira.

Amélia tinha os braços cruzados, e olhava com um meio sorriso. Não falamos, e acho que nem precisava de verdade. Então tudo que ela fez foi estender uma passagem de avião.

— Partimos na próxima semana — falou. Eu sorri, e assentindo, me virei para ir até a outra pessoa que me observava de longe. Essa parecia querer esconder que chorará, mas era impossível não notar seu nariz rosado e os olhos vermelhos.

Apertei os lábios a olhando.

— A cabeça ta melhor agora? — Ela perguntou, e eu mal consegui conter o sorriso.

— Foi sua ideia não é? — indaguei, indicando tudo em volta. Ela ergueu uma sobrancelha curiosa.

— Como pode saber? — indagou, eu ri, balançando a cabeça.

— Jodie, a única pessoa inteligente o bastante para saber que eu só precisava quebrar algumas coisas, para cair na real, é você. Então podemos poupar as curvas e apenas apertarmos as mãos? — Ela reprimiu um sorriso, me olhando divertida.

— Eu não vou apertar sua mão — falou. Eu fiquei tão surpresa que parei de sorrir — Eu vou dar um de Michelle e pegar você em um abraço agora mesmo, sua garota rabugenta. — Ela me pegou totalmente desprevenida, apertou-me tanto que eu ri, passando os braços a sua volta também — Eu pensei que nunca fosse fazer isso de novo — Podia ser alucinação, mas apostava que ela tinha fungado. Mas fingi que não percebi, pois eu mesma estava controlando mais lágrimas.

— Eu também pensei — falei e suspirei — Mas estou feliz que não seja verdade.

— Também estou — falou, e afastou-se em seguida, esfregando os olhos distraidamente. — Droga de cisco que não me deixa em paz! — grunhiu, eu ri.

— Sei. Cisco. — balancei a cabeça, e vendo que Liam vinha até ela, dei um passo para trás — Até daqui a pouco Jodie.

Ela sorriu.

— Até Harlow.

Meu coração voltou a palpitar rápido quando cheguei ao último. Ele não podia conter o sorriso que crescia a cada passo que dava até ele. Seus braços cruzaram, e quando fiquei a sua frente, ele piscou, me olhando carinhosamente.

— Então...

— Então — murmuramos juntos. Sorrimos em seguida, e logo ele se endireitou e apontou para tiara na minha cabeça.

— É linda.

— Obrigada — toquei-a com as pontas dos dedos. Ele assistia todos meus movimentos.

— Venha — Ele estendeu uma mão para mim — Você precisa comer. — Eu não recusei, pois eu realmente queria algo para aplacar aquele buraco no estômago, mas acho que tocar em sua mão deu-me mais um motivo para ter o estômago revirando. Ele parecia afetado também, pois sorriu de lado e continuou parado, e como se algo surgisse em sua mente, ele sorriu largo, se aproximando e colando a bochecha na minha. Fiquei ofegante quando ele, suavemente, sussurrou.

— Está pronta para viver sua vida pequena? — tudo em mim tremeu em antecipação, mas eu sorri, e com um suspiro decidido, assenti com a cabeça, ele riu e se afastando e pegou meu braço para enlaçar ao dele. Olhou-me com aquele jeito sedutor que somente ele tinha — Bem. Já estava na hora. Então para que você viva bem, vamos te alimentar. Com muita carne e muito bacon. Fritas são maravilhosas para se viver bem — E tirando-me uma risada alta, ele me puxou para cozinha, onde minha vida finalmente começou.

~*~

Notas finais
Genteeee, o que você acharam? Por favor, espero que tenham gostado e que tenham chorado litros, pois eu o fiz enquanto escrevia. Portanto comenteeeem. Bem, a rodada de diverção acabou por minuto agora e preciso comunicar algo sério. Estou levando minha mãe amanhã de volta para o hospital, para todos os efeitos, ela ficará internada e eu ficarei ao seu lado. Portanto não sei se será possível posta na sexta, eu posso até pedir a minha irmã para fazer isso, mas ainda preciso ter a resposta definitiva do médico. Então, me perdoem desde já, e claro, obrigada a aqueles que foram compreensíveis com minha "situação". Amo muito todos vocês e espero que nada de ruim aconteça. Torçam por mim e minha mãe e eu voltarei logo. Beijinhos e até próxima, talvez não muito longa.