Rude Girl
10 Capitulo 10 — Inesperado
Notas iniciais
Quando acordei no dia seguinte, por mais que eu tivesse dormido durante toda a noite, meu corpo estava cansado e a preguiça de me arrastar para fora da cama era grande, contudo fiz uma força e empurrei os pés para o chão.
Franzindo a testa, olhei em volta, tentando lembrar-me o que tinha acontecido ontem, no entanto tudo que precisei para recordar foi olhar a bombinha na minha escrivaninha, dando-me motivo para bufar e ficar mal humorada.
Porra. Eu tinha tido um ataque na frente de todos, como fui permitir isso? Com certeza terei que me esconder em um buraco ao dar de cara com os Corey agora, era vergonhoso.
De repente eu deixei esse assunto de lado ao notar algo não muito melhor. Havia amanhecido, era um novo dia... Ou melhor dizendo, era um dia a menos para meu aniversário. Franzi o cenho novamente e olhei para o retrato dos meus pais, reprimindo a depressão que queria emergir. Isso era absolutamente maravilhoso. Pensei com ironia. Ter que escolher entre me enterrar na depressão ou ir para escola.
Olhando no relógio, fiz careta ao notar que estava atrasada para o colégio, então pulei da cama e me troquei depressa, me enfiando em um jeans e uma camiseta qualquer. Passei meu fone em volta do pescoço e peguei o celular, em seguida o enfiei no bolço da calça e peguei a mochila, me inclinando na cama. Foi ao fazer isso que a visão da bombinha me fez hesitar.
Se Jared havia deixado ali, era porque queria que eu levasse e não desgrudasse mais dela.
— Que ótimo — murmurei e agarrei a coisa para enfiar na bolsa.
Desci as escadas de dois em dois degraus, passando pela cozinha direto para porta. Não poderia tomar café ou me atrasaria mais.
Estava pronta para sair, quando Dana apareceu atrás de mim com as mãos no quadril.
— Onde pensa que vai? — questionou ela, erguendo uma sobrancelha.
Pisquei de volta confusa.
— Aonde mais eu iria? Para o colégio ora. — disse de forma óbvia. Dana negou, vindo até mim e tirando a bolsa do meu ombro.
— Você vai ficar hoje em casa. Ordens do Jad — falou, e me empurrou de volta para sala.
— O que? Por que? — perguntei chocada. Jared nunca me deixava faltar, ainda mais nos finais das aulas.
— Lembra-se o que aconteceu na casa do Liam? É exatamente por isso — falou, tirando meu celular e o fone da minha mão — Você precisa descansar. Em breve teremos visita.
Ainda estava confusa.
— Que visita? — questionei, ela suspirou.
— Não se lembra que Amélia vem hoje? — fiz careta — Já entendi.
— Será que não podemos marcar para outro dia? Hoje é segunda-feira, o pior dia da semana! — me frustrei, jogando a cabeça para trás — Não estou a fim de conversar com a nossa titia — A ironia fez Dana sorrir. — Você não devia estar trabalhando? E Jared, cadê?
— Jad foi ao hospital ontem a noite para ficar de plantão, assim vai poder estar aqui quando Amélia chegar. Quanto a mim, fiquei em casa para tomar conta de você — virei os olhos, assistindo ela caminhar para cozinha. Pulei do sofá para segui-la.
— Eu não preciso que cuidem de mim.
— Ah, precisa sim — riu ela, lavando uma louça que tinha na pia — Sente. Precisa comer.
— Dana...
— Estou falado sério Harlow. Jad eu quase morremos do coração ontem quando Ethan nos ligou — Ela se virou com uma carranca enorme — Sabe o medo que tivemos de não chegar a tempo?
— Eu sei ok? — Me sentei na cadeira e capturei uma bolacha de um dos pratos — Acho que o ataque de pânico só serviu para acionar o botãozinho da asma. Não pude evitar.
— Não estou lhe culpando querida — Ela se sentou, secando as mãos ao me olhar carinhosamente — Só estou dizendo que precisa se cuidar. E comece a andar novamente com sua bombinha, para não correr o risco de acidentes como esses.
— Mas e se não funcionar? — franzi a testa ante essa opção — Não entendo o que me fez ter um ataque de pânico naquele momento, porém me faz pensar se vai acontecer de novo. E se acontecer e a bombinha não ajudar? E se não conseguir chamar vocês? — Então arregalei os olhos ao perceber — O que farei quando estiver em Malibu? Quem vai dar minhas injeções?
Eu vi quando o medo sobrevoou o rosto da minha irmã, e quis me chutar por fazê-la sentir-se assim. Mas ainda temendo, ela sorriu e segurou minha mão, alisando-a como se quisesse transmitir conforto.
— Você vai saber se cuidar e nada vai acontecer. São apenas dois meses Harlow, você pode aguentar isso. — disse convicta, mas já eu não tinha tanta certeza disso.
— Será mesmo?
Horas mais tarde, depois que tomei café da manhã e depois que Dana me obrigou me deitar um pouco para descansar, eu desci e me joguei no sofá, e nesse mesmo momento, meu celular apitou com uma mensagem. Da para imaginar como fiquei surpresa ao ver que era de Jimmy?
Em forma novamente pequena?
Sem me conter, eu sorri, olhando para aquela mensagem com cautela, porém uma felicidade estranha. Chacoalhei a cabeça, apagando o sorriso e considerando ter perdido um parafuso quando desmaiei de sono na casa do Liam.
Por que continua me chamando assim? É irritante. E sim, eu estou muito bem! Agora tenha um bom dia.
Respondi de volta, crente que ele não mandaria mensagem novamente, mas me enganei completamente. Bufando, olhei o que era dessa vez, no entanto assim que abri a mensagem, senti minhas bochechas queimarem ao dar de cara com uma foto dele. Ele tinha me enviado uma foto!
E porcaria. Ele estava tão malditamente bonito. Tinha aquele sorriso zombeteiro e cheio de segredos nos lábios, e os olhos estavam miudinhos, o que me fez ter certeza de que ele clicou a foto enquanto ria com muita vontade. O cabelo estava uma bagunça, ele vestia uma blusa branca e de mangas, e essa — eu não entendi muito o por que— estava com manchada de tinta vermelha, amarela, azul, de todas as cores, assim como sua testa. Ele estava de costa para uma grande janela, o que me fez pensar onde ele estava, pois eu já tinha entrado em todos os cômodos da casa dele, e nunca tinha visto uma janela como aquela.
Receio me abalou junto com uma raiva descomunal ao pensar que ele estava em algum motel com outra mulher. E ele parecia feliz, o brilho nos olhos dele na foto me garantia isso. Cretino!
Não me mande fotos! Não gosto de ver seu rosto durante a manhã. Me deixa em paz.
Atirei o celular no outro sofá e enfiei a cara na almofada, grunhindo e abafando um grito de raiva. Estava me odiando profundamente por ter acreditado no imbecil quando ele disse que gostava de mim. Bem feito sua anta. É o que acontece quando se é burra.
— Harlow? — Virei o rosto. Dana me olhava com a testa franzida da cozinha. — Está tudo bem? Não está ouvindo seu celular tocar?
Ela tinha razão, ele gritava como um condenado. Enfiei a cabeça na almofada.
— Não vou atender — falei, minha voz sendo abafada — Não vou atender esse... erg!
— Otchi! — Ouvi os passos dela se aproximarem — Do que está falando?
— Nada! Não estou falando de nada! — gritei, mas não soou alto mesmo assim. Dana parecia confusa, mas se levantou para voltar à cozinha. Assim que ela desapareceu, o telefone da casa tocou, bufando, me sentei e peguei a porcaria.— O que? — perguntei irritada.
— Será que pode explicar o que eu fiz dessa vez? — Arregalei os olhos, e senti o sangue ferver. Claro que ele iria ligar no fixo, já que não atendi o celular. Porra!
— Vai se ferrar Jimmy.
— É serio. O que foi que eu fiz?! — Ele parecia frustrado. Isso me deu mais raiva.
— Nasceu Jimmy. Isso que você fez! — gritei e bati o telefone no gancho. Não demorou cinco minutos para ele tocar novamente.
—Eu devo perguntar? — Dana gritou da cozinha. Eu grunhi.
— Não! — berrei de volta, e peguei novamente a porcaria do telefone. — Pare de me ligar.
— Não até saber o porquê de estar brava comigo — disse firmemente — Tudo isso é por causa da foto?
—Não. Que dizer. Sim! — cai deitada no sofá, confusa. Jimmy com certeza estava nessa também.
— O que tem de mais nela? Eu não mandei para lhe irritar, pelo contrário, queria alegrar sua manhã — Mas era muito metido.
— Não seja pretencioso garoto. E eu não quero ver fotos suas quando esta com... — segurei minhas palavras, mordendo a língua e depois a unha. Queria me enfiar de baixo da terra.
— Quando estou o que? Não estou tão feio assim — Ele parecia ofendido. Mas que idiota. Canalha.
— Não se finja de vitima. Tenha um pouco de respeito por mim seu babaca — Queria ter desligado, mas a forma como ele gritou exasperado me fez ficar com o telefone na orelha.
— O que? Como assim? Que respeito? Não estou entendendo Harlow. — Agora parecia mesmo desesperado, e não sei se foi aquilo, mas eu explodi como se fosse uma dinamite.
— Não está entendo? Não está entendo? Pois então olha a sua volta, ou melhor, olhe onde dormiu! Eu não quero que me mande a merda de fotografias dos motéis em que você passa a noite, e onde come suas vadias! — Eu estava respirando depressa, e quando olhei para cima, vi Dana, pasma e com a boca aberta enquanto secava um copo. Ela balançou a cabeça e correu de volta para cozinha, e eu corei, não acreditando que tinha dado esse piti.
Percebi também que Jimmy estava incrivelmente quieto, tudo que ouvia era uma respiração rápida e quase ofegante. Com certeza ele estava ofegante depois de passar a noite com uma...
— Harlow, o que... Você... — E então ele começou a rir profundamente, e a intensidade de sua risada fez meu estômago embrulhar e meu rosto queimar.
— Do que está rindo seu babaca?! — ralhei incomodada. Ele riu mais, e quando um ruído de algo tombado me assustou, eu percebi que ele tinha caído no chão de tanto rir. — Jimmy!
— Ah... Me desculpe, mas... vo-você é tão boa que... — Comecei a ficar inquieta, e apostava que meu rosto era uma mancha em vermelho — Meu Deus Harlow, eu não estou em nenhum motel com nenhuma vadia — Ele ria abertamente — Estou em um apartamento sim, mas nunca trago ninguém aqui.
— Hmm — murmurei rancorosa, mas depois me repreendi ao escutar sua risadinha. — Pare de rir porra!
— Não dá pequena. Isso foi à coisa mais engraçada que você já fez — Ele respirou fundo, ainda rindo, mas aos poucos parando. Eu até podia ver o bico em minha boca. — Estou dizendo Harlow. Estou em um apartamento alugado por meus pais. Eles me deram, e estou completamente sozinho. — Ainda tinha minhas duvidas. Mas não falaria mais nada, pois ele parecia gostar de me ter implicando, então acabei por dizer.
— Não me importo. Vou desligar — Eu ia mesmo fazê-lo, mas ele falou antes.
— Pois não está parecendo querida — Ele tinha uma voz absolutamente alegre — Consigo ouvir o ciúme em sua voz — Arregalei os olhos, chocada.
— Eu não estou com ciúmes de você!
— Mentira — Ele ronronou em êxtase — Mas acalme-se pequena, estou mesmo sozinho.
— Foda-se Jimmy! — E antes que desistisse ou ele falasse algo mais, eu desliguei, e fiquei ali, parada sem nenhuma reação, porém depois eu enfiei o rosto na almofada e gritei.
Eu absolutamente me odeio.
~*~
Depois do pequeno show com Jimmy no telefone, Dana me mandou tomar banho para poder receber nossa titia. Fui somente por que não queria dar motivos para aquela... Mulher, achar que eu era mal cuidada ou mal criada — o que às vezes eu realmente era.
Me enfiei em baixo do chuveiro e lavei os cabelos, ao sair vesti a roupa mais confortável que tinha, e quando estava finalmente pronta, desci as escadas penteando o cabelo molhando.
Encontrei um Jared caído no sofá em seu jaleco branco e com olhos fechados. Sorri, me aproximando lentamente, não querendo acordá-lo, e com muito cuidado, afastei o cabelo escuro de seus olhos cuidadosamente, mas não é como se a delicadeza tivesse adiantado, pois assim que o toquei seus olhos abriram no salto e ele sorriu para mim.
— Oi — falou divertido, sorri de volta.
— Oi — sentei ao seu lado, cruzando a pernas em baixo de mim quando ele se ajeitou e bocejou — Você está exausto. Precisa dormir.
— Não — Balançou a cabeça negativamente — Amélia está chegando e tenho que estar acordado. — Esfregou o rosto, suspirando pesadamente — Tomarei um banho e um café. Estarei acordado e disposto bem rápido. — Isso não me agradava nem um pouco. E Jared sabia disso, pois me olhou sorrindo e pegou minha mão em um aperto firme — Estou bem querida.
— A merda que está.
— Harlow — Suspirou — Por favor, não vamos discutir. Não quando temos que receber sua tutora, nossa tia. E você ainda não está cem por cento para se estressa comigo.
— Eu estou ótima — resmunguei, largando a escova no sofá e abraçando as pernas — Só queria fugir daqui. Falar com Amélia não estava nos meus planos preferidos.
— Também não estava nos meus, acredite. — falou, e sorriu, afastando meu cabelo para trás da orelha — Mas olhe pelo lado bom. Ela irá embora rapidamente, e depois, seus amigos viram vê-la.
— O que? — Virei o rosto mais rápido que o necessário, o que causou uma dor indesejável no pescoço. — Erg! Droga. — Esfreguei a nuca com uma careta.
Jared deu uma risadinha, se recostando novamente no sofá.
— Eles estão preocupados com você. Principalmente aquela menina que eu cuidei uma vez. A Jodie — Eu quase rosnei quando ele disse esse nome, mas me limitei a somente olhá-lo de cara feia. Jad ergueu uma sobrancelha — Ainda com raiva dela pelo visto. — Deduziu quietamente.
Eu me frustrei.
— Ela foi embora sem se despedir! — gritei — Eu não vou voltar a ser amiga de alguém que não se importa com meus sentimentos.
— Harlow, por acaso você está se ouvindo? — perguntou ele suavemente — Está dizendo que Jodie não se importa com seus sentimentos, mas é ela que está correndo atrás para lhe conquistar novamente. Acha que se ela não se importasse, ela tentaria alguma coisa com você e esse seu rancor? — Fiquei quieta, desviando os olhos dele nem um pouco a fim de admitir que ele estava absolutamente certo, como sempre.
O seu sorriso foi divertido e amável quando se levantou.
— Pense direito no que está fazendo com ela, Harlow. Não quero ter que olhá-la se corroer quando achar que foi sua culpa, Jodie ter desistido de correr atrás da sua amizade — Ele se inclinou e beijou minha testa — Eu sou seu irmão, vou estar sempre ao seu lado, mas sinto dizer que não poderei consolá-la dizendo que não foi sua culpa, pois se Jodie desistir, é porque você a levou a fazer isso. Aquela menina é dura, mas aprendi recentemente com um de seus amigos, que para todos existe um limite, até mesmo para ela.
E com um último sorriso sábio, meu irmão se virou e subiu as escadas para o quarto dele. Eu não conseguia me mover, portanto permaneci ali, cogitando as palavras dele, e acho que me martirizei por um bom tempo, pois quando percebi já eram duas horas da tarde, e campainha da casa estava tocando.
Eu me tornei gelada e olhei para as escadas quando Jared e Dana apareceram juntos, ambos bem vestidos para receber Amélia. Dana tinha o cabelo em um rabo de cavalo e estava em uma das roupas que usava para ir trabalhar. Uma blusinha regata branca, e uma saía preta de cintura alta. Eu sempre pensei que ela ficava seria demais vestida daquele jeito, por isso implicava com ela.
Jared exalava a mesma seriedade da irmã do meio, vestido em jeans escuros e blusa de manga azul, o que me fazia sorrir às vezes. Eles eram tão parecidos em tudo, até na forma elegante de se vestir. Era algo que eu admirava nos dois.
— Vou atender — Jared falou, e me olhou — Seja boa. — E então se foi, deixando-me indignada.
— Eu sempre sou boa! — Dana caminhou para sentar ao meu lado.
Sorriu e pegou minha quando comecei a roer a unha.
— Vai dar tudo certo.
— Seria péssimo se eu só deixasse um bilhete para ela dizendo que vou viajar? — Arrisquei perguntar, Dana riu.
— Acho que não seria bom. — Droga!
— Acho bom você ter uma das injeções de Jared por perto — murmurei, ela logo empalideceu.
— O que? Por que? Está passando mal? — Ela já ia me revistar para ver se estava com febre ou algum outro sintoma, mas eu neguei, afastando suas mãos.
— Não. É para o caso de eu me estressar e pular no pescoço da Amélia. Só um sedativo vai me tirar de cima dela se isso acontecer — Agora um sorriso divertido tomou a face preocupada, ela balançou a cabeça.
— Seja boa Harlow.
— Qual é a de vocês? Eu sou muito boa — Eu grunhi mais estressada ainda.
Dana gargalhou, e para meu completo desgosto me abraçou forte.
— Ah querida, eu amo você — Vire os olhos, mas de qualquer forma devolvi o abraço e sorri de lado, apreciando suas palavras.
Nos afastamos quando Jad voltou a sala, dessa vez com Amélia ao seu lado. Dana ficou de pé, mas eu continuei sentada, avaliando a mulher com cuidado, enquanto essa mesma observava a mim e Dana com curiosidade.
— Boa tarde minha sobrinhas — falou com um sorriso. Nem eu nem Dana o retribuiu, mas minha mana mais velha acenou para o sofá.
— Deseja sentar-se? Algo para beber ou comer? — Amélia foi para o sofá que Dana apontava e sentou, e eu fiquei um tanto intimidada quando ela ficou mais perto. Amélia tinha uma beleza que abalava a mente de uma pessoa. Era algo que fazia você se sentir para baixo mesmo estando toda arrumada ou em cima de um santo de 15cm. Amélia Santino era linda e sexy, e o pior era que ela sabia disso.
— Uma água está de bom tamanho, querida — falou ela com uma voz aveludada. Dana torceu o nariz, mas ficou quieta e caminhou para cozinha para pegar a água da mulher.
Jared continuou de pé, mas olhava Amélia com seriedade.
— Eu e Dana ficaremos na cozinha enquanto... Conversam — Ele me olhou, suavizando a expressando e mostrando um sorriso de lado — Estarei perto.
Como eu não tinha nenhuma opção, eu assenti para ele, demonstrando que tudo ficaria bem. Ele hesitou, mas depois que Dana retornou com a água e entregou para Amélia, ambos suspiraram e partirão de volta para cozinha. Deixando-nos sozinhas.
Por um segundo, só nos encaramos, nenhuma das duas tentou quebrar o silencio, o que fez aquela sala parecer claustrofóbica e o olhar dela fogo em minha pele.
— Sobre o que você quer conversar? — Fui a primeira a falar.
Amélia olhou o copo nas mãos, depois cruzou as pernas perfeitamente torneadas e o colocou na mesinha de canto. Ela respirou uma, duas, três vezes antes de me olhar, e senti o sangue correr por minhas veias, quente e rápido, fazendo minha jugular palpitar mais forte. Para tentar controlar minha maldita respiração, respirei varias vezes.
— Engraçado. Você infernizou Jared para poder conversar comigo, agora que eu tô aqui, você apenas fica me olhando e não fala nada. — sorri sarcástica, me encostando no sofá — Então já que você não quer falar, eu falo.
Ela não parecia chocada com minha reação, só continuou quieta, me ouvindo.
— Vou deixar as coisas claras entre nós duas. — Olhei-a profundamente dentro dos olhos — Eu vou ir nessa sua viagem, mas isso não quer dizer que concordo em ficar com você ou até morar ao seu lado. Meu lugar é aqui!
Ela ergueu uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Como sabe que aqui é seu lugar? — Fiquei pasma com a ousadia da pergunta, tanto que apertei os olhos.
— Meu lugar é com Jared e Dana. Não existe outro para mim.
— Poderia existir se soltasse as rédeas para me conhecer — disse simplesmente, e só então se inclinou mais para frente — Eu senti sua falta Harlow.
— Mentira!
— Não. Não é — Fiz careta quando seu rosto contorceu no que pareceu sinceridade, mas não me deixei levar — Você Harlow, se parece tanto com sua mãe. — Ela me olhava com uma expressão estranha, ela fez minha pele arrepiar. — Confesso que quando vim morar com vocês e eu tive que cuidar não somente de Martin, mas de crianças, eu achei que estaria perdida e que a melhor forma de cuidar do assunto era colocá-los em um internato. — Não demonstrei o quanto essa confissão doeu, só permaneci fria como pedra.
Amélia suspirou.
— Eu ia fazer isso. Mas então eu conheci você — Seu sorriso foi quase amável, porém ainda não me convenceu — Foi algo tão diferente. É óbvio que me importava com Dana e Jared, afinal eles são meus sobrinhos também, no entanto eu não entendia o porquê, mas com você era diferente. Seu rosto, por mais que esse fosse parecido com da minha irmã, eu vi a filha que eu nunca poderia ter. Queria mesmo lhe proteger.
Franzi o cenho, a olhando em confusão.
— Como assim, “A filha que nunca poderá ter”? Você é jovem, pode ter filhos — falei convicta, mas seu sorriso triste levou a toda à confiança que pus nas palavras.
— Na verdade não posso — falou. — Eu sou estério, Harlow.
Eu não tinha palavras. Jared nunca tinha me contado isso. Apesar que algo tão pessoal ele provavelmente não sabia, mas ainda sim, não deixava de ser chocante.
Amélia notou que eu queria saber como isso era possível, ou se era hereditário, pois se apressou a falar.
— Meu pai foi estério em sua juventude. Mas infertilidade masculina embora possa ter muitas causas, em alguns casos é possível curá-la. E ele conseguiu como pode comprovar — sorriu de lado, e eu me senti mal por ela pela primeira vez.
— Então ele passou para você? — Assentiu — Minha também foi afetada? Ela fez cirurgia? Foi isso que ajudou seu pai?
— Sim. Ele passou por uma serie de tratamentos, e não, Hope nunca foi infértil. Sou a única das filhas que teve esse problema, provavelmente por ser a primeira que ele gerou depois da cirurgia. — Ela franziu a testa, obviamente não gostando de falar disso.
Curiosa demais para me parar, perguntei.
— Por que não faz a cirurgia também?
Amélia riu, balançando a cabeça.
— A muito já me conformei com meu estado, querida. Não quero recorrer a uma cirurgia, até por que, eu não sei lidar com uma criança agora. Sei trinta e cinco anos é uma ótima idade para ter filhos, mas... A ideia de passar por um cirurgia não me agrada — Estreitando os olhos, olhei de relance para sua cabeça.
— Não vejo nenhum cabelo branco. Não deviam crescer quando estamos perto dos 40?
Amélia ergueu uma sobrancelha, e então me surpreendeu por rir alto e com humor. Até sua risada era bonita, debati mentalmente.
— Já ouviu falar em tinta para cabelo? — questionou divertida, e ergueu uma mecha castanha para olhar — Não é minha cor natural, um pouco mais claro no tom, mas vem direto da caixinha. Uma mulher precisa se cuidar.
Eu tentei, mas um sorriso de repente surgiu em meus lábios.
— Não me importo muito com beleza — confessei. Ela sorriu.
— Ah. Eu sei. — Me olhou com aquela expressão esperta — Deixe-me falar. Eu não era muito bonita quando adolescente. Na verdade, Hope sempre foi um pouco mais vaidosa que eu, ela era muito magra, assim como você, mas a forma que se arrumava, fazia a falta de carne e tamanho serem coisinhas insignificantes. Já eu sempre optei pelo jeans rasgado e camiseta largada.
— Ah. Isso sim é uma mentira! — falei inconformada. Olhando-a das pontas dos pés com saltos até o rosto com maquiagem — Você tem um “Q” de elegante, e não consigo lhe imaginar em jeans rasgado e camisa velha.
Amélia me olhou sorridente antes de abrir sua bolsa e pegar um papel de dentro. Estende-o para mim, e quando olhei, não podia acreditar. Era ela e minha mãe. Ambas com rostos, olhos e cabelos superparecidos, no entanto, não era de se notar como agora atualmente.
Hope estava com provavelmente 25 anos e já que Amélia era onze anos mais nova que minha mão, deveria estar com catorze ano. Elas eram mesmo diferentes no quesito moda. A mais nova vestia um calção grande cheio de bolsos e uma blusa enorme que parecia mais uma barraca, e quase gargalhei ao comparar o cabelo arrumadinho da minha mãe, para o cabelo desgrenhado de Amélia. Hope estava em um vestido comportadinho e sorria, enquanto a irmã mostrava o dedo do meio e tinha a língua para fora.
Eram totalmente opostas.
— Uau. — Era que tinha para falar.
Amélia riu novamente.
— Eu sei. Impressionante. — Entreguei a fotografia para ela novamente — Eu tomei juízo quando... bem. Quando comecei a trabalhar, precisava ter uma boa aparência.
— Como conseguiu ir daquilo para isso? — Apontei para ela toda e depois para mim — Olha para mim. Sou uma tabua escondida em trapos com nomes de roupas.
— Isso não é verdade. — Ela sorriu radiante me avaliando — Você é linda naturalmente, ou esqueceu-se de quem é filha? — Eu tive que sorrir de volta, satisfeita que ela admirasse minha mãe — Hope também tinha todo seu perfil. Ela ficava louca por isso, e assim que ela viu que estava entrando em forma quando teve sua primeira menstruação, ela logo se matriculou em uma academia. A recompensa dela foi ganhar uma bunda empinada — Não pude aguentar, joguei a cabeça para trás e gargalhei, só para notar o que estava acontecendo.
Porra. Eu estava me dando bem com ela. E pior. Eu estava rindo e me dando bem com ela. Olhei para cozinha seria novamente, ciente que Jared e Dana escutavam a conversa, e provavelmente estavam morrendo de medo do que aconteceria agora que eu estava provando o que era estar perto de Amélia. E a merda era que eu gostava.
Ela estava falando comigo sobre minha mãe, coisa que nenhuma dos meus irmãos tentaram fazer, o papai fora comentado em muitas ocasiões, mas não o nome de Hope. Talvez seja isso que me fazia sentir tão à vontade ao lado daquela mulher.
— Está tudo bem? — Voltei a terra com sua voz, e engoli em seco.
— Sim eu... — Respirei fundo — Estou confusa. Por que voltou depois de tanto tempo?
Amélia entendeu que a diversão se fora e ficou seria me olhando profundamente.
— Eu estou sendo sincera ao dizer que queria revê-la — falou — Eu moro sozinha em uma casa enorme em Malibu. Eu tenho tudo. Emprego, comida, dinheiro, e caras para dormirem comigo quando quero.
— Opa. Essa parte é desnecessária — falei, erguendo as mãos e sentindo as bochechas queimarem. Amélia sorriu maliciosamente, mas deixou de lado.
— Eu tenho tudo — continuou — Menos alguém para conversar de verdade. Ou alguém para nadar naquela maldita piscina enorme. E eu queria, nem que fosse por dois meses, chegar do trabalho e encontrar aquela casa bagunçada, justamente por que existe um adolescente morando comigo. Eu quero ter o prazer de olhar em volta e ficar brava, para depois eu fazer minha própria bagunça. Eu quero dar boa noite a alguém e ser acordada durante amanhã por causa das panelas sendo derrubadas na cozinha — Sua expressão foi mais triste que a de antes, causando algo no meu peito — Eu quero uma única vez na vida, ter alguém ao meu lado e me sentir feliz por isso.
Droga. Eu estava em uma grande merda para resolver. Isso era um fato duro e comprovado, porque olhando para Amélia, eu percebi que ela não era a mulher ruim que eu pensava, na verdade poderia ser a mãe que Hope não pôde ser, e acho que agora eu compreendia o medo de Jared ao mentir para mim e nunca contar sobre Amélia.
— Bem, então acho que está resolvido — falei alto. Amélia ganhou uma expressão atenta.
— Do que está falando? — Indagou. Eu suspirei, e mesmo que meus instintos estivessem em duvida, eu falei, olhando nos olhos.
— Irei viajar com você. — Seus olhos então brilharam e eu quase sorri — Quando partimos?
~*~
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