Rude Girl
1 Capítulo 1 — Meu grande inferno
Notas iniciais
Dor de cabeça. Uma porra de dor de cabeça logo pela manhã não é um bom sinal. Talvez servisse apenas de combustível para que eu acerte alguém na cabeça com um livro, mas ainda sim, era insuportavelmente doloroso ter que sair da cama para ir ao colégio quando se estava em um mau humor matutino e com a maldita TPM a seu enlaço.
Eram sete da manhã, e eu me encontrava arrastando meu corpo magricelo pelo quarto tentando vestir uma roupa qualquer. Com uma habilidade que eu não sabia ter, sai do quarto tentando por a bota em um dos meus pés enquanto me apoiava no outro. Estava na merda hoje. Com certeza estava!
— Harlow! Desça já! — Minha cabeça estourou e eu grunhi. Droga de irmã mais velha.
Caminhei pelo corredor até chegar às escadas e desci, chegando a cozinha bem no momento em que Dana voltou a gritar.
— Eu vou costurar sua boca Dana! Juro que vou se não parar de gritar! — Eu gritei também e quase sorri quando ela deu um pulo para trás assustado, porém estava mal humorada demais para sorrir.
—Enxaqueca logo de dia? — perguntou com uma sobrancelha erguida. Eu sabia o que ela significava. Era a expressão: Eu sei o que você na noite passada.
Bufei, jogando a mochila na cadeira e a olhando com ressentimento.
— Não conte a Jared — pedi. Ela virou os olhos e sussurrou para mim.
— Você precisa parar com isso Har. É a segunda vez em uma semana que te pego bebendo! — Suspirando, massageei as laterais da minha cabeça, olhando-a suplicante.
Dana era o tipo de irmã responsável, mas que quando era mais jovem, já fez uma besteira. Com seu rostinho arredado e o cabelo escuro como o de Jared, ela parecia com o papai, porém os olhos tinha aquele toque de azul esverdeado, o da nossa mãe que eu também havia puxado. Ela era uma mulher de vinte anos muito bonita, e durante quase todo tempo falava no dia de meu aniversário de 17 anos, que era daqui a cinco dias. Ela parecia bem animada para me dar um presente, assim como Jared. Ao contrario de mim, que na verdade preferia estar em baixo das cobertas nesse dia infeliz. Mas nunca conseguia o que queria.
Na minha casa éramos em três depois da morte do papai e da mamãe — Que ocasionalmente morreu porque eu resolvi nascer e lhe tirar as últimas forças — Jared era o mais velho, o primigênio chato de 29 anos, um médico formado e seguindo com seu cargo nada fácil como residente. Durante dia e noite ele estuda e trabalha nunca ficando parado em casa ou tendo tempo para nenhuma de nós, e eu sabia que não podia reclamar mesmo sentindo sua falta, Jared batalhava para cuidar de Dana e de mim, sozinho, e agora estava preste a se graduar, eu sentia orgulho dele mais do qualquer ressentimento em meu peito.
— Eu só estava nervosa, precisava esfriar a cabeça — disse desinteressadamente e me inclinei para frente quando ela colocou um prato de panquecas a minha frente.
Ouvi quando puxou a cadeira e se sentou, observando-me em silêncio.
— Não pode mais acontecer! O que vai ser na próxima vez que se irritar? Drogas? Não posso ficar encobrindo suas artes Harlow — fiz careta para o prato, sabendo que ela estava absolutamente certa em me repreender, mas não admitiria isso. Portanto falei:
— Não vou mais fazer. — Ela estreitou os olhos para mim duvidosa, mas de qualquer forma suspirou e tomou um gole de seu suco de laranja.
— Muito bem. Agora por que não me conta o que aconteceu? — Não estava mesmo a fim de dividir o motivo da minha repentina raiva, por isso manti a boca fechada. Dana bufou — Harlow, por favor, como posso ajudar se você se fecha tanto?
— Não quero falar sobre isso.
— Assim como não quis falar daquelas garrafas de vodca em seu quarto? Ah, okay, eu entendo.
— Não seja sarcástica.
— Você vai fazer dezessete anos! Mas age como se fosse uma criança virando a boca e batendo o pé quando não quer conversar. — Assenti, mostrando a ela que estava ouvindo, porém eu não prestava a menor à atenção. Acho que ela sabia, pois suas orelhas ficaram vermelhas assim como seu rosto ao levantar. — Você é impossível!
— E mesmo assim ainda tenta falar comigo.
— Sou sua irmã! — frustrou-se. Eu também, por isso me coloquei de pé e a olhei com arrogância.
— Sim Dana. É minha irmã, não minha mãe. Por isso faça o favor de me deixar em paz — Peguei minha mochila e sai pisando duro para fora da casa, ignorando os chamados de Dana que se tornaram mais baixos, a cada passo dado para formar uma distancia.
~*~
Segundo ano do colégio. Merda total. Minha vida na escola era baseada em infernizar os fracassados e andar com meu grupo do terceiro ano. Porém agora eu não tinha mais eles para chamar de “Meu grupo.”
Jack, Lizze, Jonah e Stef, e até mesmo o idiota do Jimmy, se formaram no ano passado, deixando-me nesse fim de mundo para que os imbecis novos do terceiro tomassem a nossa mesa. Era inadmissível ver aquele bando de marmanjo rindo e se divertindo no lugar que um dia era meu e dos meus amigos. A minha vontade era arrastá-los de lá um por um sem nenhum remorso. Sim. Invasores bastardos.
Por um instante de bad forte, eu me permitir olhar em volta do jardim do colégio Whitman; As pessoas sorriam em seus determinados grupos, brincavam e jogavam bola, havia os nerds, os intelequituais, os renegados, e claro, os populares. Sentada de baixo de uma das árvores no intervalo, sozinha comecei a recordar do meu primeiro dia naquele inferno.
Jared tinha acabado de nos conseguir uma nova casa e éramos novos nas redondezas. Tivemos de nos mudar por causa de seu novo emprego em um hospital publico. Não conhecia absolutamente ninguém e meus irmãos haviam me obrigado ir para a escola. Estava na sétima série, e como bem sabem, quando se é novata em uma nova escola você não faz outra coisa a não ser orar para que ninguém a perceba ou venha fazer merda no seu terreno. Eu pelo menos era assim.
Com quatorze anos eu ainda era um pouquinho — quase nada — controlada por meu irmão. Nunca havia ido para diretoria... Isso mudou quando coloquei o pé dentro da minha nova sala, e acabei por esbarrar no professor, que acidentalmente estava segurando uma caneca de café.
Bem. A parte chata não foi eu ter queimado meu professor com café pelando, mas sim ter o xingado de um nome não muito bonito e tê-lo acusado de cegueira. A diretora não engoliu minha desculpa de que eu não sabia que justo aquele era meu professor de física. Fui suspensa no meu primeiro dia, deixando um Jared “P” da vida e um professor me odiando.
Depois desse episodio lamentável, meu nome pareceu seguir de sala em sala como se fosse vento. Meu desejo de ser a invisível se foi e acabei por me tornar o motivo de piada. Porém com uma semana de humilhação, eu parei de bancar a bobinha, passei a agir como eles mereciam. Grossa, terrivelmente ameaçadora. E minha primeira vitima da minha arrogância foi nada mesmo que Eloise Phoenix. Isso mesmo que você ouviu — ou leu —. Eloise estava no segundo colegial, e sendo uma loira linda de grandes olhos escuros e sorriso bonito, era óbvio que ela seria a popular entre as meninas.
Sempre pensei nela como uma daquelas frescurentas que gritava ao ter uma largada subindo em seu pé, e foi por isso certo dia, que eu agi tão má com ela, mesmo depois dela ter acabado me ajudar. Lembrar era interessante quando estava sozinha.
— Vamos Harlow! Você consegue! — O idiota gritava, ficando nas pontas dos pés e elevando meu celular a cima da minha cabeça. A raiva ferveu dentro de mim enquanto pulava para tentar recuperá-lo. Os risos em volta trazendo vertigens aos meus olhos.
— Eu vou arrancar suas bolas se não me devolver! — Ele gargalhou, e quando tentei acertá-lo no meio das pernas, ele desviou e me enlaçou com os braços, apertando-me contra seu corpo.
— Até que você fica atraente se fazendo de durona. Quem sabe essa boquinha não seja boa para outra coisa que não seja xingar.
— Vai se ferrar Bryan.
— Uhuh. Ela ta nervosa — Mais risos, e dessa vez eles fizerem meu emocional fraquejar, no entanto eu não estava disposta a cair na frente desses babacas.
Tentei me soltar novamente, angustiada por estar tão perto do garoto, pensei em jogar o cotovelo contra seu estômago e pisar em seu pé. Eu teria tempo o suficiente para me desvencilhar dele e seus amigos, e ainda conseguir meu celular de volta, que custou uma fortuna para Jad.
Comecei a pegar fôlego para fazer exatamente isso, mas quando fui agir, ouvi uma voz, e depois alguém ao fundo gritando.
— Hey! Soltem-na! — Os garotos olharam por cima do ombro e bufaram, desinteressados.
— Gata, por que não vai atrás do seu namorado de cabelo azul e nos deixa com a diversão? — Eu não estava entendendo nada, mas assim que vi com quem eles falavam, franzi a testa.
— Ela não é um brinquedo. E Jonah não é meu namorado! — Notei-os virar os olhos como se já tivessem ouvido isso antes, mas um menino, que achei que se chamava Connor, falou:
— Bem, então eu estou disponível para ser. — Foi a vez de Eloise de virar os olhos.
— Nunca, Connor. Agora façam o favor de soltá-la. Ou querem que eu chame meu amigo Liam para convencê-los? — Nenhum pareceu querer encarar o tal Liam, tanto que gemeram e inesperadamente, Bryan me largou.
Eu não tive tempo de firmar as pernas, acabei por cair na terra molhada da chuva como uma boneca, dando motivo de risos para os imbecis.
— Ta ai seu celular magrela — Bryan riu, e o jogou na lama junto a mim, batendo no ombro dos amigos enquanto partiam.
— Seus babacas! — Eloise gritou.
Evitei erguer o olhar enquanto me levantava, pegando meu celular antes. O toque da garota em meu braço me surpreendeu-me fazendo dar um pulo.
— Ei, tudo bem — Ela ergueu as mãos em sinal de paz, os olhos escuros piscando para mim com suavidade — Só quero ajudar.
— Eu não preciso da sua ajuda — Rangi os dentes, a loira pareceu ficar chateada, mas não se moveu para partir.
— Tem certeza que não? Eu tenho uma blusa nova no armário, posso emprestar já que a sua sujou de lama e...
— Eu não pedi nada seu! — Ela estremeceu com meu tom duro e suspirou, derrotada. Vi-a tirar a mochila das costas e abrir. Tirou de lá um paninho e o estendeu para mim, quando não me movi para pegá-lo, ela se aproximou e o colocou em minha mão, fechando-a por cima.
— Limpe o rosto pelo menos. Quem sabe não venha me devolver o lenço depois — Ela sorriu e piscou um olho. Quando se virou, eu não continuava confusa, me perguntando o porquê dela ter me ajudado, mas não encontrei respostas, apenas olhei o paninho e suspirei.
No dia seguinte eu a procurei pelo colégio, apenas na intenção de devolver o paninho, no então só fui encontra-la no intervalo quando estava cercada de pessoas. Eu esperei elas diminuírem até que sobraram quatro meninos e uma menina.
O que estava sentado atrás de Eloise, tinha um cabelo tão azul que poderia se ver de longe, o que me fez pensar que era o tal Jonah que Eloise disse não ser seu namorado. O que era bem surpreendente, já que o olhar do moleque não se distanciava da loira nem que por duas horinhas. Ele estava sempre atento as suas ridas e a cada gesto que a menina fazia. Era um pouco engraçado o amor não correspondido. Ainda mais quando não era apenas um casal com esse problema, e sim dois.
O carinha sentado em cima da mesa secava a morena bonita que estava na frente de Eloise, fazia isso quase como se quisesse confessar algo só que não tinha coragem. Aquele olhar castanho, mesmo de longe, poderia colocar uma mulher de joelhos... Menos a morena, que nem sequer percebia que estava sendo admirada.
E havia os dois últimos meninos, um deles tinha uma garota entre os braços. A gorota sorria sugestivamente para o cara atrás dela e acariciava os cabelos ao olhar para um espelho. Mirei o menino, ele franzia a testa para a garota como se estivesse entediado, achei que aqueles músculos todos com certeza era motivo de treinamento, pois era a única opção para que ele seja tão grande. Era bonito, aqueles olhos cinza com aquele sorriso de lado quando esse virou para falar com o menino ao seu lado.
Aproximando-me mais, não pude ter uma boa vista dele porque estava de costas para mim e balançava a cabeça para o que os amigos diziam. Tinha um cabelo ondulado na cor dourada, fios finos que chegava a brilhar ante o sol. Não parecia forte como os outros três, mas ainda sim, tinha um “Q” no modo como ele mexia os ombros, ou no modo como chacoalhava o cabelo, que era terrivelmente sensual. Com certeza eu não era a única a achar tal coisa, pois onde olhava tinha meninas babando sobre o loiro da mesa.
Estava insegura sobre ir até lá, mas algo me puxava para aquela mesa, e com certeza não era o lencinho de Eloise.
— Vamos lá Harlow. Eles não são monstros — Encorajei, engolindo em seco ao começar andar.
Os outros notaram que eu estava indo em direção à mesa dos “Populares” e começara a falar, a rir por minha ousadia de querer estar perto deles. Ignorei a todos, a não ser por um ou dois que mostrei o dedo do meio. Quando mais perto chegava, mais eu notava as diferenças entre mim e eles. Todos lindos, as meninas com curvas a desejar, enquanto eu era reta igual uma talba.
Eu não tinha cabelos brilhantes como o loiro, ou a beleza pálida de Eloise, muito menos tinha aquele sorriso sexy do garoto da mesa, ou a pele morena daquela garota. No meio deles eu era um peixinho fora d’água, e não entendi porque depois de constatar isso, que eu continuei andando. Era insano, era absolutamente desnecessário, mas eu continuei andando.
Até chegar ao lado deles, e ficar sobre a vista de Eloise.
— Oi — disse a ela, mas serviu para chamar a atenção de todos na mesa, que viraram imediatamente para me olhar. Engoli em seco, não desviando os olhos da loira, que abriu um grande sorriso ao se por de pé.
— Harlow! Que bom que veio falar comigo — Ela realmente parecia animada, o que me deixou meio sem graça. Eu tinha um monte de palavras em minha cabeça, mas o que vieram foram as mais surpresas.
— Você sabe meu nome? — Ela sorriu para minha forma espantada.
— Claro que sim. Quem não saberia o nome da menina que derrubou café quente em Collin — Suspirei exasperada.
— Claro que você saberia disso. Todos tem uma fixação com meus vexames — disse insatisfeita, fazendo rir de leve.
— Não se importe com essas bobagens. Aliás, ninguém aqui gostava de Collin, foi bem merecido! — Ergui uma sobrancelha, quase cedendo a um sorriso. Em nenhum momento desde que tinha chegado naquele colégio, ninguém foi simpático comigo. Ela estava sendo, só não sabia o porquê.
— Hm. Bem, vi devolver isso e... Desculpar-me por ter sido... Grossa. — Continuei sem olhar para os outros, com medo de ver se também riram de mim por eu estar tentando conversar com a popular do colégio, no entanto eu sentia o peso do olhar de todos, da escola inteira na verdade.
— Não precisa se desculpar. E pode ficar com lenço, apenas disse àquilo para que viesse falar comigo — fiquei sem reação, olhando-a em silencio.
— Por que? — O sorriso dela diminui um pouco e ela suspirou.
— A verdade é que eu tenho visto como fica sozinha aqui e... sei lá, quis lhe conhecer. Afinal de contas, nós somos vizinhas. — Essa foi novidade. Tanta que arregalei os olhos.
— Somos vizinhas? — Ela assentiu positivamente.
— Mudou-se há quatro dias para a rua aqui à frente, não? Há quatro minutos daqui? Oh, e tem um irmão e irmã mais velha — Oh, merda. Isso não pode ser bom.
—Eu... Sim. — respondi incerta. Talvez ela estivesse sendo boa só para saber onde eu morava e me atacar quando eu estivesse dormindo. Caramba, teria que providenciar trancas para as janelas e portas.
— Não fique me olhando como se eu fosse invadir sua casa — Ela disse. O que me assustou como o inferno, mas não demonstrei, apenas ergui o queixo e cruzei os braços.
— Obrigada por ser boa comigo. Fique com seu pano, preciso ir — joguei o lenço para ela e me virei, pronta para correr deles e me fechar mais uma vez, mas eu fui impedida por um corpo que se colocou a minha frente.
Engasguei, tropeçando para trás quando o loiro se pôs na minha frente.
— Hey!
— Nervosa baixinha? — Ele sorria. E por um momento eu quase levei a mão à boca para segurar minha baba. Pela primeira vez olhando seu rosto, tive de morder a língua para não deixar a boca cair. Ele era malditamente atraente, aquela boca desenhada era uma tentação perigosa, e os olhos castanhos transmitiam diversão e malicia. Percebi assim que o vi, que estava para encontrar muitos problemas.
Engolindo meu interesse sobre ele, franzi a testa, repassando o que ele havia dito. Chamou-me de baixinha?
— Não é da sua conta! — Ele ergueu uma sobrancelha, me analisando.
— Respondona também. Fascinante.
— Vai se ferrar — rosnei. Ele gargalhou, jogando a cabeça para trás de uma forma irritantemente bonita. Tentei passar por ele, mas ele me barrou. — Sai!
— Jimmy, não perturbe a garota. — A morena parecia insatisfeita e com uma carranca. O loiro não se importou.
— Você tem uma irmã pelo que Lizze disse —Ele me mirou de cima a baixo — Vou deduzir que ela se parece com você, porém muito mais em forma. Seus olhos são bonitos e azuis, assim como os cabelos. Então posso imaginar que ela também os tenha... Hmm. Pode me apresentá-la? — Mas o que... Não podia acreditar que ele estava perguntando sobre Dana. Como ele podia sequer pensar que eu deixaria que chegasse perto da minha irmã?
Acho que o fato dele ter dito que meus olhos e cabelo eram bonitos não serviu para diminuir minha raiva, pois eu marchei para cima do mauricinho com faíscas fervilhando por dentro do meu peito. Ele arregalou os olhos um pouco com a proximidade, mas permaneceu parado, me olhando fixamente como se estivesse preso, e por um instante louco, achei que se dividia entre a vista de minha boca e meus olhos.
Com certeza estava errada, já que ele pedia para conhecer minha irmã.
— Escute aqui, Jimmy... Se chegar perto da minha irmã, cortarei fora as suas bolas e darei para os cães comerem. E ainda não satisfeita, deixarei que meu irmão estraçalhe seu corpo com os objetos pontiagudos de trabalho. — Eu vi uma chama estranha brilhar bem no fundo de suas íris, e sabendo que era absolutamente de raiva, eu sorri, e lhe dei as costas, me afastando do grupo.
Não dei cinco passos antes de Eloise gritar, com uma voz risonha.
— Nos vemos amanhã Harlow!
No dia seguinte eu incrivelmente fui para colégio com Lizze, e ganhei um lugar ao seu lado na mesa dos “Populares” deixando muitos com uma inveja vista à milhas. Conheci Jack, o do sorriso sexy que era caidinho por Stefany, a morena do dia anterior e prima de Lizze. E também tinha o fortão, o tal de Liam que todos tinham medo e namorava a garota ruiva chamada Helen. O do cabelo azul eu acertei, era o tal Jonah, que na verdade era uma figura. Todos eram maravilhosos comigo, menos Jimmy.
A partir do momento que eu o ameacei na frente de todos, o loiro pareceu pegar rancor e passara a me irritar todo o santo dia. O que me fazia querer bater, chutar e até mesmo pensar em jogá-lo na frente de ônibus. Se for ver em uma forma diferente agora, as coisas não tinham mudado entre nós... A não ser pelo fato que ele tinha me beijado. Não uma. Mas duas vezes.
Eu não estava disposta a admitir para os outros, mas o babaca beijava bem pra caralho. Das duas vezes que fui pega por ele, minha cabeça rodou e alucinou ir muito mais além. Porém não era possível, pois é de Jimmy que faltávamos, o insuportável que eu odeio. Eu não podia e não iria me submeter a essa atração sem sentindo para no final me machucar.
Jared estava certo. Jimmy não se importava com as mulheres, não se importava com meus sentimentos. Não iria dar chance para que ele quebrasse meu coração mais do que já está. Não era Dana, que com apenas um sorriso dele, se derreteu completamente e aceitou uma voltinha pelo parque... Não. Eu era mais, eu era muito mais que isso. E ceder estava fora de cogitação para ele e também para...
— Harlow? — Porra!
Fechei os olhos, me perguntando o porquê desse povo aparecer justamente quando estou tentando me manter afastada. Que droga eu tinha? Mel?
Contorci a mandíbula, cerrando os dentes ao virar o rosto e olhar para a cara da minha ex-amiga. Eu não estava acostumada com seu novo visual. Ás vezes pensava que gostava dela mais com toda aquela maquiagem preta e exagerada, pois a aparência de agora eu não conhecia.
Enquanto olhava para Jodie, tentei não me condenar terrivelmente por desejar a velha marrenta de volta. Ela não merecia aquela vida de novo apesar de tudo. Mesmo depois de ter dado as costas para seus novos amigos, e ter partido para o Arizona sem ao menos conversar ou se despedir.
Sim. Ela realmente fez isso.
Bom. Como um breve resumo da história; Jodie — Que na verdade se chama Elizabeth Jodie — e eu, nos conhecemos há um ano atrás através de Liam Corey, aquele que foi citado lá em cima no meu flashback do meu primeiro dia de aula.
Liam é um lutador de Box e agora está com vinte anos de pura gostosura. E só para constar, ele largou Helen e tornara-se namorado dessa mesma garota que estava a minha frente. Ele a conheceu quando teve de mudar do nosso colégio para o de Jodie onde ela era famosa por arranjar encrenca e socar a fuça de quem atravessava o caminho dela. Por alguma razão maluca, Liam se viu encantado com a forma que a garota o peitava a todo o momento, todos os dias tendo uma nova história para contar sobre “A garota que o vencera em uma briga.” O que era absolutamente irreal, pois o garoto era, literalmente, um lutador em formação. Era impossível que uma menina sem treinamento tivesse o vencido.
Ele surtiu uma preocupação tão forte por ela que chegou a segui-la para todos os lados mesmo que essa quisesse manter distancia.
Elizabeth... Ou como ela preferia: Jodie, acabou por se tonar um grande problema na vida de todos nós, mas não um problema do tipo — Porra tira essa garota daqui. — Mas sim um que dava dó de se olhar e presenciar. Nunca na minha vida tinha cruzado com uma pessoa que se automutilava, e ver que ela fazia exatamente isso fez um espanto espalhar-se por meu peito com uma rapidez descomunal, e quando percebi o quão defeituosa ela estava, eu imediatamente me apeguei. Ver seu corpo com cicatrizes foi mais um espanto, e quando descobri sobre seu pai, tudo que mais quis foi matar o maldito infeliz.
Edgar Jodie. Ele prendera não somente ela, mas a mãe, Marissa, dentro de casa, surrando-as como se fosse um tipo perigoso de animal. Infelizmente, Marissa morreu por culpa desses maus tratos, deixando a filha com Edgar. E não acabava por ai... Jodie tinha uma irmã mais nova, que também sofrera por causa do desgraçado, irmã que ela tivera de manter afastada por culpa do pai.
Ao conhecer Liam, Jodie conseguiu amigos, que consequentemente somos nós... Jack, Lizze, Stef, e o bobão do Jonah. Conseguiu novos pais e mais uma irmãzinha — Linnea e Carter e sua filhinha Ivy. — E por obra do destino conseguiu encontrar sua irmã, Michelle, que a todo instante em que ela passava pensando que estava longe, na verdade estava perto até demais.
Mitchie, irmã adotiva de Liam, na verdade era a irmã que Jodie tanto desejara conhecer.
Respirando fundo e deixando os pensamentos de lado por um momento, foquei em Jodie a contragosto.
— O que faz aqui? — questionei mal humorada. Ela torceu o rosto daquela forma que sempre fazia quando queria dar uns socos em alguém. E com certeza o alguém da vez era eu.
— Eu vim conversar. Aproveitei o tempo livre na faculdade para vir até aqui e...
— Perdeu seu tempo — disse, voltando os olhos para minha antiga mesa. O bufar insatisfeito da garota foi meu prêmio.
— Está sendo infantil, Harlow.
— É a segunda vez que me dizem isso hoje. Então será que pode me achar “Infantil” em outro lugar? Quero ficar sozinha até a próxima aula. — Jodie grunhiu, batendo seu pé com botas pretas no chão.
— Eu vou bater em você, pirralha. — Cerrei as mãos, chegando ao meu limite. Levantei-me, enfrentando-a mesmo com meus um e sessenta e dois de altura.
— Isso é ótimo. Pois estou louca por uma briga.
— Por que está fazendo isso, merda? — Gritou com raiva — O que queria que eu fizesse? Estava entrando na porra de uma depressão. Não conseguiria me despedir de vocês! — Eu sei que ela estava certa, e queria saber perdoar, mas as palavras não faziam o ressentimento passar e muito menos apagar a lembrança de como doeu ver que ela, a única mais parecida comigo no grupo, havia partido sem se despedir. Foi como perder um braço ou uma perna.
— Eu não quero suas explicações, Jodie. Eu fico feliz que tenha se achado, que tenha dado a volta por cima e ganhado um superemprego no jornal, mas ouça só uma coisa — Apontei um dedo a sua cara, sentindo as palpitadas do meu coração — Eu não quero fazer parte disso mais, eu ofereci apoio quando você estava mal, fiquei ao seu lado quando aquele monstro lhe mantinha presa! Eu tentei ser sua amiga e mesmo assim, nem mesmo um “Tchau” você se designou a dar para mim. Não vou voltar a andar com você só para que tenha a oportunidade de fazer isso de novo... Diferente dos nossos amigos, eu guardo rancor — E pisando duro, virei-me, peguei minha mochila, e corri para dentro do colégio, odiando mil vezes que a próxima aula fosse física quântica.
Lá vamos nós, professor Collin.
~*~
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