Rota Zero
52 Zinnia - parte 2
Notas iniciais
December
ZINNIA — parte 2
Os Contest começavam bem cedo em Undella e havia muitos espectadores. A arena era na praia, apesar disso, a estrutura era muito boa, sendo o palco um grande tablado ladeado pela arquibancada e o telão preso por colunas de treliças. Por causa da estrutura, havia uma proximidade maior com o público e era possível divisar seus rostos nitidamente da distância do tablado. O que fazia meu estomago revirar, já que eu poderia ver a feição de cada um.
O vestiário era misto e assim que cheguei com Haila, antes dos portões abrirem, percebi que havia uma grande confusão entre os participantes. As garotas da organização tentavam ajeitar uma fila, mas era quase impossível.
— O que está acontecendo? – Haila questionou ao ver a algazarra que se formava, mas eu não fazia ideia. Vi Lila no meio da multidão e ajeitei a mochila no ombro para ir de encontro a ela, mas uma das mocinhas da organização me parou primeiro.
Pediu me cartão de inscrição e com uma caneta marca texto laranja riscou uma parte, me devolvendo em seguida. Olhei para o cartão, apenas para ver que a modalidade na qual estava inscrito tinha sido grifada, mas realmente não sabia por que já que isso nunca tinha acontecido.
— Deedee – Lila finalmente saiu do meio do pessoal. – O que aconteceu com o seu cabelo?
— O que está havendo? – Haila perguntou cortando o assunto.
— Eles estão remanejando o pessoal do Contest – disse depois de tomar folego. – Tivemos menos inscritos do que o necessário. Algumas categorias não têm competidores nem para as eliminatórias da primeira fase.
— Por que tem tão poucos?
— Muita gente decidiu voltar para casa depois do que aconteceu em Nimbasa, acho que é natural.
— Então eles vão cancelar?
— Não, só estão remanejando. Minha categoria só tinha quatro competidores, então fomos remanejados – disse me mostrando o cartão. Apesar de estar escrito Beauty na categoria, havia uma grande marca alaranjada por cima.
— Isso é legal? – Haila puxou o cartão da minha mão apenas para comparar as marcas.
— Sim, embora não seja recomendado. Os coordenadores que não quiseram mudar de categoria tiveram seu dinheiro de volta.
— E você, o que decidiu fazer?
— Bem, eu queria tentar outras categorias, então concordei em mudar. Eles analisaram as habilidades dos meus Psyducks e está tudo certo. Não vou poder usar alguns ataques, mas outros estão liberados.
— Está tudo bem para você? – Lila vinha treinando duro e se dedicado bastante, mas tudo isso voltado para sua categoria.
— Sim, só espero que seja para você – e me lançou um olhar que não entendi. – Agora, nós somos rivais – e apontou para as marcações laranja nos cartões.
=8=
O vestiário era misto e ainda estava bastante confuso por causa das mudanças de categoria. Beauty, Cute e Clever tinham sido canceladas por falta de participantes suficientes e os que desejaram foram realocados para Cool ou Tough. Mesmo com essas mudanças, ainda era muito baixo o número de participantes e eu me perguntava por que o Contest não era cancelado afinal.
De acordo com Lila, manter as coisas funcionando era uma prova de que tudo estava certo com o mundo e a diversão trazia seguridade para as pessoas. Eu concordava, mas muita gente parecia não pensar assim e provavelmente aquele seria o último Contest antes do evento entrar em recesso.
Para minha infelicidade, eu não iria me livrar de Clarice tão cedo, já que ela também tinha sido realocada para Cool, categoria que sempre participara com o Audino. David também estava lá, andando de um lado para outro ao lado de seu majestoso Serperior, e eu me perguntava como o Pokémon dele evoluía tão rápido. Havia algumas outras caras conhecidas, mas muitas novas, provavelmente por causa da mistura de categorias.
Lila estava ao meu lado, trajando o vestido azulado, mais nervosa do que eu poderia imaginar, com seus Psyduck ao lado dela, encarando os outros Pokémon ali. Eu tinha tirado Chiclete da Pokéball e ele parecia bem mais integrado ao ambiente, embora eu também estivesse muito nervoso.
— Belo visual – David comentou ao sentar no banco diante de mim. Havia aquele ar presunçoso no rosto – eu não sabia que já estávamos no carnaval.
Eu sabia que aquela roupa cheia de babados chamaria a atenção, mas realmente não esperava que David fosse gastar o tempo dele com isso. Mas era David e ele não perdia tempo em me diminuir.
Percebi que ele deu uma longa olhada em Chiclete, ainda um Riolu, mas não disse nada. Depois de nosso último confronto, eu tinha mostrado que mesmo meu Pokémon ainda em sua forma inicial, ele não era fácil de ser derrubado e isso deve tê-lo feito ponderar sobre comparar meu pequeno lutador azul com seu imponente Serperior.
Abri a boca para dar uma resposta qualquer, mas de repente, a voz de Cindy retumbou na arena arenosa e reverberou no vestiário. A ouvi falar sobre as mudanças nas categorias do Contest por causa do baixo número de inscritos e posteriormente, apresentar as juízes do evento.
Não era nenhuma surpresa que Caitlin e Cynthia fossem juradas, afinal, eram as pessoas mais populares e influentes da cidade, mas realmente fiquei surpreso ao ouvir o nome de Roxie. Ela tinha chegado bem tarde no dia anterior, suja e exausta, mas não tinha me dito nada que faria parte do Contest. Percebei os olhos de Lila sobre mim após anunciarem o nome da rockstar, tão surpresa quanto eu e só pude menear com a cabeça.
Depois das devidas apresentações, Cindy anunciou que a categoria Cool aconteceria primeiro e que as apresentações seriam por ordem de sorteio. Apesar do nervosismo habitual, eu não me sentia tão nervoso como Lila parecia, mas tudo isso foi por terra quando Cindy chamou meu nome como primeiro do sorteio.
Não que realmente fizesse diferença a ordem, mas aquilo começou a me deixar muito nervoso. Eu seria o primeiro a dar a cara no tablado e minha apresentação serviria de parâmetro para as outras. Voltei Chiclete para a Pokéball e me encaminhei até a arena, Lila me abraçou e desejou boa sorte antes de eu sair do vestiário.
Pisei no tablado e senti a estrutura se mover com meu peso, se assentando adequadamente sobre a areia. Cindy acenou para que eu fosse até o centro da arena. O sol matinal brilhava no céu, mas não muito quente. A arquibancada era realmente muito próxima da arena e pude divisar Haila na primeira fileira, com Abóbora no colo que parecia querer se libertar e correr até mim.
— December – Cindy disse animadamente – vocês devem se lembrar dele – disse se voltando para a plateia – do Contest de Nimbasa. – Ouve um burburinho na plateia que me deixou ainda mais nervoso. Eu só esperava que ela não disse nada sobre desclassificação e mancha na carreira, eu tinha ouvido aquele discurso dezenas de vezes. – Muito bem, December, se está pronto pode começar.
Finalizou se afastando do centro da arena e se posicionando ao lado das juízas. Meus olhos se encontraram com o de Roxie, e ela sorriu discretamente. Apesar do que deveria parecer, aquilo me deixou ainda mais nervoso. Eu não fazia ideia dos seus critérios de avaliação.
Dei um passo para o trás no tablado e joguei a Pokéball, que rolou pelo piso. Quando chegou bem ao meio, Riolu saiu e terminou com um gracioso rolamento, parando com uma das patas levantadas e o leque aberto, exibindo o grande dragão purpura.
Então ele deu um giro completo com o objeto, o fechou e se posicionou, ficando ereto e fazendo uma longa reverência. Depois ficou ereto novamente e juntamente levantamos as mãos acima das nossas cabeças e as abaixamos em um movimento lento.
Quando o leque ficou diante do rosto de Chiclete, ele o abriu novamente, girou-o na pata e o levantou sobre a cabeça, erguendo umas das pernas com o movimento. Uma música leve e delicada que Haila me havia ajudado a escolher tocava ao fundo, ele girou o leque novamente, abaixou a pata levantada e abriu as pernas em um movimento de tesoura. Eu ainda estava imóvel no fundo da arena, com as mãos paradas diante do rosto, mas podia ver pelas frestas entre os dedos que parte do público parecia entediada com nossa apresentação.
Chiclete deu um pequeno giro no chão, com o leque girando sobre sua cabeça e voltou à posição inicial. Ereto, fechou o leque e fez uma nova reverência. O som da música havia ficado ainda mais lento e baixo e eu podia ouvir o público comentando da minha apresentação curta, chata e inexpressiva.
Então a música parou por completo e um gongo soou alto pela arena. Vi que algumas pessoas se sobressaltaram e não pude deixar de sorrir internamente. Com grito, que saiu ainda mais alto que o gongo, puxei um leque da parte de trás da calça e o atirei contra Chiclete.
Mesmo de costas, ele desviou habilmente, jogando o corpo para o lado e retornou a posição normal, como se nada tivesse acontecido. Tínhamos ensaiado aquilo dezenas de vezes, mas eu realmente tinha atirado o leque com muita força, porque quase acertei Haila, na primeira fileira e a vi fechar a cara. Abóbora em seus braços parecia muito animado e imitava com as patas curtas os movimentos de Chiclete, com um leque imaginário.
Dei outro grito e sai correndo na direção de Chiclete, com o punho fechado para desferir um soco, ele se virou e aparou o golpe com o leque fechado, redirecionando meu punho para o lado. Quando fui desferir um segundo soco, a música começou forte e rápida, acompanhada de tambores. Eu tinha ficado receoso sobre essa escolha, mas Haila havia me garantido que era perfeito.
Chiclete aparou o segundo golpe e saltou acima de mim, em uma acrobacia perfeita. Me virei e tentei acertá-lo com uma sequências de soco, que ele desviava ou aparava com o leque. No último golpe, que o acertaria em cheio, ele abriu o objeto, cobrindo minha visão e virou o corpo, me dando uma rasteira.
Quando cai, senti o tablado estremecer, e com ele o público. Podia ouvir gritos, ver pessoas ficando de pé e isso me deu um novo ânimo. Haila havia dito, durante nosso treinamento, que por mais que eu não gostasse de Contest, eu tinha um talento natural para a primeira etapa, e eu era obrigado a concordar.
Enquanto me levantava, Chiclete posicionou o leque diante do corpo, com os braços estendidos e uma cara de quem procurava briga. Avancei sobre ele e novamente, ele me evitou com o leque, mas em um movimento com as mãos, consegui girá-lo no eixo e arcar o leque de sua mão.
Mesmo que tudo aquilo fosse ensaiado, a plateia parecia nervosa, como se eu fosse um vilão batendo no mocinho. Fechei o leque e o bati contra a outra mão. Avancei contra ele, tentando atingi-lo com o leque como se fosse uma espada, enquanto ele graciosamente desviava dos meus movimentos.
Com um rolamento, ele se aproximou do leque que eu havia arremessado, praticamente fora do tablado e o pegou. Então se levantou, abriu o leque teatralmente e o posicionou sobre a cabeça.
Depois disso, avançou sobre mim, correndo e girando o leque ao lado do corpo. Fechou- o rapidamente antes de desferir um golpe que aparei com o outro leque. Então, girou o leque novamente, abrindo e fechando-o apenas para dar um enorme efeito visual e acertou meu braço que segurava o leque, só que de baixo para cima, fazendo o objeto voar pela arena.
Após isso, apontou-o para minha garganta, como uma faca curta. Pude sentir a plateia parar de respirar nesse momento. Os olhos de Riolu pareciam sérios, como se aquela luta fosse mesmo real. Só depois de algum tempo, ele se virou, abrindo o leque e girando-o graciosamente nas patas, se exibindo para o público.
A música então parou abruptamente e novamente o gongo soou, enquanto ele fechava o leque e fazia uma nova reverência. Se virou para mim e me cumprimentou com o gesto, do qual retribui, então me estendeu o leque, como uma espécie de aperto de mão e fizemos as pazes.
A música parou por completo e com ela vieram os aplausos e gritos do público. Vi meu Riolu sorrir, então ambos nos viramos e acenamos para o público. Haila parecia bastante orgulhosa, já que ela havia me ajudado a ensaiar e dado ideias para a parte instrumental.
Roxie parecia impressionada, mas orgulhosa. Caitlin comentava algo animadamente com Cynthia, mas esta não parecia tão animada com minha apresentação.
Cindy veio ao centro do tablado e até ela parecia bastante animada, pediu um salva de palmas e me desejou boa sorte.
Enquanto saia da arena, pude a ouvir chamar o segundo competidor, Lila. A garota já estava no corredor entre o vestiário e a arena quando cruzei com ela, e parecia ainda mais nervosa do que antes.
— Vai ficar tudo bem – disse tentando tranquilizá-la.
— Como vou conseguir me apresentar depois do que você fez? – Disse aflita, me abraçando enquanto eu desejava boa sorte.
Lila sumiu no corredor enquanto eu voltava para o vestiário. Quando entrei, todos os olhares se voltaram para mim, mas eu não soube dizer o que eles significavam. Havia um pequeno telão ali dentro que transmitia nossas apresentações e pude ver Lila se ajeitar no centro do tablado, enquanto Cindy a apresentava.
Quando a apresentadora se afastou, Lila atirou suas Pokéball no ar, libertando seus Psyduck. A música que tinha escolhido era um pop animado e grudento, daqueles que fica na cabeça por dias.
Charmander e Bulbasaur pararam graciosamente em uma pose exagerada, com suas pequenas gravatas azuis balançando.
— Ok meninos – pude ouvir Lila comandar – vamos lá.
Ela atirou seis bolas para o alto, parecidas com bolas de tênis, mas elas eram escuras e tinham desenhos que faziam parecer pequenas galáxias. A dupla usou seus poderes psíquicos para manter as bolas no ar e fazê-las girar rapidamente, dando um efeito muito bonito.
As bolas então foram perdendo altura até formarem um bambolê em torno dos dois. Ainda giravam, mas sem tanta força e Lila deu um giro em torno deles, fazendo a saia levantar e exibindo o segundo forro, que tinha a mesma estampa que as esferas.
Lila começou a dançar pelo palco, como se fosse um balé e os Psyduck acompanhavam seus movimentos, girando as esferas em torno de si. Eles então se posicionaram um diante do outro e começaram a rebater as esferas, como os malabaristas fazem no circo. O grande arco formado pelas esferas que vinham e voltavam era muito bonito e eu imaginava que daria outro feito vendo ao vivo.
Lila então tomou distância e saltou no meio do arco que girava rapidamente, caiu graciosamente diante do público e teatralmente fez uma finalização, acompanhadas dos Psyducks que deixaram as esferas suspensas no ar e levantaram os bracinhos curtos.
Eu imaginava que a noite, num ambiente fechado aquilo ficaria muito melhor, mas a plateia pareceu gostar e aplaudiu intensamente. Pude ver o grande sorriso de Lila na tela e me senti feliz por ela. Ela estava indo muito bem, mesmo tendo mudado de categoria no último segundo.
Depois de Lila, um garoto se apresentou com um Manectric fazendo uma bela exibição de luzes, depois outro se apresentou com um Baltoy, e achei que era um Pokémon muito estranho que não combinava com Contest. David e seu Serperior tiveram uma apresentação bastante bonita e surpreendente baseada em encantadores de serpente. Ver aquela cobra verde sibilar pelo tablado era impressionante e ao mesmo tempo assustador e me fez entender porque Haila tinha um pé atrás com Serpio.
Clarice foi a última, em uma apresentação demasiadamente fofa. Aquilo combinaria muito bem com a Audino, mas parecia estranho por causa do tamanho e da aparência pouco amigável da Granbull. Antes dela, um cara com um Skarmory fez uma apresentação bem interessante. O bicho se movia tão rápido que mal pude acompanhar seus movimentos através da tela.
Quando todos se apresentaram houve um pequeno recesso para que as juízas conversassem entre si e dessem suas notas. Cindy voltou vinte minutos depois e se posicionou diante do telão. Apenas oito competidores iriam para a próxima fase, Cindy começou a falar, mas foi como se algo tivesse desligado dentro de mim, só voltei a mim quando senti Lila me chacoalhando pelos ombros.
— Você não está feliz? – Ela tinha um sorriso enorme no rosto. Claro que eu estava, mas meu cérebro parecia ter desligado quando ouvi Cindy anunciar o primeiro nome e ser o meu. Pela televisão no vestiário pude ver meu rosto aparecer no telão acompanhado da nota máxima. Nem mesmo David que sempre passava em primeiro tinha tido notas perfeitas e claro que meu cérebro estupido não iria processar isso de forma adequada.
Lila tinha passado em quinto, David em terceiro e Clarice em sétimo. Por último, tinha ficado o cara do Skarmory, o que achei injusto, pois eu tinha gostado da apresentação dele.
A segunda fase também seria por sorteio e a primeira luta era o garoto do Manectric contra uma garota com um Vaporeon. Eu não prestei muita atenção, devido ao meu estado de torpor pela minha classificação na primeira etapa, só lembro que foi um bocado demorada e que no final o rapaz com o Pokémon elétrico vencera a disputa.
Próxima luta foi o cara do Skarmoy contra o do Baltoy. E assim como na apresentação da primeira etapa, o Pokémon voador era mesmo muito rápido. O Baltoy realizava movimentos bonitos, mas quase não acertava golpe algum. Depois de dois ou três rasantes de Skarmory, o Pokémon foi mandado para fora da arena e os pontos do garoto chegaram a zero.
Eu tentava me distrair com a luta, mas na verdade, minha mente estava em outro lugar. Com o resultado dos sorteios até então, eu pegaria algum conhecido no combate. Ou David, Clarice ou Lila.
Eu realmente não queria ter que enfrentar Clarice por conta do nosso histórico e eu não sabia se estava pronto para o David. Mas não me agradava ter que lutar contra Lila, seria estranho, afinal, éramos amigos.
O terceiro sorteio aconteceu e David enfrentaria Clarice, o que colocava Lila no meu caminho. Encarei-a e ela apenas sorriu e segurou minha mão. Eu realmente não queria lutar contra ela.
Na televisão podíamos ver David e Clarice se posicionando na arena. O grande e majestoso Serperior contra a enorme e mal encarada Grangran. Vi David falar algo, mas não era possível entender as palavras. Certamente, estava provocando a garota, como ele sempre fazia no início de uma luta.
Achei que Clarice fosse cair rápido, afinal, ela não era uma boa treinadora. Mas Grangran era firme e realizava os movimentos com uma perfeição impressionante. Ela conseguiu até derrubar os pontos de David pela metade.
Mas assim como no meu último Contest, ela caiu diante do Leaf Blade de Serperior, muito mais poderoso agora, em sua forma final. Embora seus pontos não tivessem se reduzido a zero, a Granbull estava fora de combate. Ela emburrou a cara como sempre fazia e foi direto do tablado para a ambulância do Centro Pokémon. De certa forma, aquilo me deixava feliz, pois mostrava que ela realmente se importava com a Pokémon.
Ouvi Cindy chamar nossos nomes e a mão de Lila, que permanecia atada a minha me deu um aperto. Apesar da expressão leve, eu sabia que ela estava igualmente nervosa e relutante. Caminhamos juntos pelo corredor que levava até o tablado e só nos separamos quando cada um tomou seu lado na arena.
Enquanto Cindy explicava as regras, desviei os olhos para Haila. Ela parecia igualmente ansiosa por nos ver batalhar, mas não exatamente com o mesmo desamparo que me afetava. Ela realmente queria nos ver em ação.
Cindy deu o sinal e a batalha começou. Lila atirou a Pokéball na arena e um dos Psyducks saiu desajeitado. Lancei minha Pokéball e Riolu saiu com um seu característico rolamento. Por um segundo, o vi titubear, afinal nas últimas semanas, ele e os Psyducks estavam sempre juntos. Ele me encarou por cima do ombro, como se esperasse um sinal e eu apenas confirmei com a cabeça. Sim, infelizmente, ele teria que lutar contra Lila.
— Eu não vou pegar leve só porque é você, Deedee – Lila sorriu. – Muito bem, Charmander, vamos começar com Water Gun.
Charmander abriu o bico e pude ver um jato de água sair dali.
— Chiclete, desvie – mas eu nem precisava realmente comandar, o azulado já tinha se jogado de lado – Force Palm! – Gritei e ele rolou pelo chão até chegar perto o suficiente de Charmander.
Mas antes que pudesse desferir o ataque, o Psyduck pulou de lado, fazendo com o que jato de água perdesse o controle e molhasse os espectadores da primeira fila. Haila inclusive.
— Counter – gritei do outro lado da arena e Riolu pulou sobre Psyduck, o problema era que o chão estava encharcado, os pés escorregaram e o golpe pegou apenas de raspão, mas o suficiente para que ambos perdessem o equilíbrio e fossem ao chão.
O placar de ambos apareceu e pontos foram descontados dos dois lados. Lila por ter tomado o golpe e eu por ter realizado de maneira tão porca. Os dois Pokémon se levantaram rapidamente e se encararam. Então tomaram uma distância que pareceu segura e se colocaram em posição de combate.
— Chiclete, Force Palm – ordenei novamente e ele avançou sobre o pato, mas Lila gritou um novo comando antes que pudesse atingi-lo.
— Confusion – e vi o Psyduck levar as mãos a cabeça e os olhos ficarem totalmente brancos. Eu conhecia o golpe, em partes, porque Lila havia usado contra o Absol, mas não surtira efeito por ser um Pokémon noturno.
Chiclete parou o golpe no meio do caminho e do nada, voltou o punho para si próprio, atingindo o focinho. Fiquei olhando a cena sem entender, enquanto algumas pessoas na plateia riam.
Riolu olhava para todos os lados, como se houvesse uma horda de Pokémon furiosos atrás dele a e começou a correr em círculos agitando os braços freneticamente. Para alguém que tinha tido total controle de seus movimentos na apresentação, ele estava sendo ridículo.
— Desculpa, Deedee – Lila gritou do outro lado da arena. – Mas eu quero muito essa fita.
Eu entendia o lado dela, por mais que fossemos amigos, aquilo era uma competição. Enquanto eu pensava nisso, Chiclete corria descontrolado pela arena e meus pontos iam reduzindo a metade.
Então ele mudou de rota e foi de encontro a Charmander, com um grito gutural, derrubou-o no chão e sentou sobre seus quadris e então começou a desferir golpes na cabeça amarela, similares ao Force Palm que eu havia ordenado.
Os pontos do meu placar continuavam caindo e via Lila tentar dar comandos para Charmander, sem sucesso.
— Chiclete, pare. Chiclete – mas ele não me ouvia, ainda estava sob efeito do golpe do Psyduck. – Chiclete – dei um passo, pisando na linha que demarcava meu limite na arena. Ele não iria parar e eu teria que tirá-lo de lá, mas se eu pulasse no combate seria desclassificado novamente. Não que isso realmente importasse perante o estado de Charmander. – Chiclete! Chiclete, você vai mata-lo – e diante do meu grito um silêncio perturbador desceu sobre a arena. Desviei os olhos para Cindy, mas ela parecia imóvel, espantada demais com a situação. – Chiclete, pare com isso agora – e acho que nunca minha voz saiu tão alta e forte.
O Pokémon parou no mesmo momento, encarando o colega surrado abaixo de si, como se tivesse despertado de um sonho terrível. Lila caiu de joelhos no seu lado da arena, aliviada. Meus pontos estavam quase no zero e eu me sentia péssimo pelo que tinha acontecido. Não era culpa de ninguém, mas ainda assim, meu Riolu tinha socado o pobre Psyduck.
— Talvez nós devêssemos parar – comecei, me voltando para Lila, mas ela já tinha se levantado e ajeitava o vestido.
— Chardy – e seu Psyduck levantou desajeitado. – Você está bem? – E embora não parecesse, ele confirmou com um aceno. – Então vamos continuar – se voltou para mim.
— Mas Lila...
— Se eu vou vencer é porque lutamos e eu venci, eu não vou ganhar porque você desistiu da luta.
Olhando-a ali, do outro lado da arena. Forte e determinada, percebi que era eu quem deveria invejar sua coragem. Acenei com a cabeça.
— Certo, Psyduck, Aqua Ring – e um círculo de água envolveu o Pokémon, em poucos segundos, a coluna de água se defez e Psyduck pareceu muito melhor, com parte de seus ferimentos curados. – Ok, vamos continuar, Water Gun.
A rajada de água veio forte, mas Chiclete desviou, pulando para o lado, então se levantou e correu até o Pokémon, desferindo um Falce Palm perfeito. Desta vez, o golpe foi certeiro e o Pokémon se dobrou de dor. O placar de Lila apareceu, reduzindo seus pontos pela metade.
— Chiclete, de novo – meu Pokémon deu um giro, mas antes atingir o golpe, Charmander pulou de lado e lançou outro Water Gun. Pude ver o sol refleti r no jato de impacto e formar um belo arco-íris. Chiclete tinha sido coberto pelo jato e aquele provavelmente era meu fim.
Mas antes que meu placar aparecesse, Riolu pulou do meio da água, com os pelos molhados e brilhando ao sol e acrobaticamente deu um giro, antes de acertar um novo Face Palm em Charmander. O pato se inclinou, apoiando as patas na cabeça atingida e caiu no chão. Deveria ter doido, pois ele estava se contorcendo bastante.
O placar de Lila apareceu e descontou novos pontos, fazendo com que ficássemos empatados.
— Chardy – ela chamou e o Pokémon rolou ficando de frente para ela. – Você está bem? – O bicho deu um pio quase mudo, mas seja lá que expressão estivesse fazendo, vi Lila sorrir.
O Psyduck se levantou, cambaleante e foi até Lila, se enrolando em suas pernas. Ela passou a mão sobre o pelo amarelado e então fez um sinal para Cindy, que não entendi.
O placar dela zerou e eu fiquei com a vitória.
— Espera – falei do outro lado da arena. – Você disse que não iria desistir.
— E não estou. Mesmo que continuarmos a lutar, certamente você vencerá.
— Mas Lila...
— Chiclete é muito superior a Chardy, continuar lutando só vai ser ruim para ambos. Eu reconheço a sua vitória.
— Achei que você quisesse vencer...
— E eu queria, mas agora, você vencerá por nós – e deu uma piscadela.
Chiclete atravessou a arena e parou ao lado de Charmander, então através de sinais averiguou se o amigo estava bem e voltou ao meu lado, muito sorridente. Mesmo depois de tudo, ele parecia feliz e satisfeito com a batalha.
— Muito bem, Chiclete. Você se saiu muito bem, em tudo. – E dei um tapinha no alto da cabeça peluda.
Ele abriu ainda mais o sorriso e de repente começou a brilhar intensamente. A luz o envolvia e me cegava e enquanto isso acontecia podia ouvir comentários vindo da plateia. Pelo canto dos olhos vi Haila ficar em pé em seu lugar e Roxie também.
Quando finalmente a luz se extinguiu meu pequeno Riolu não existia mais. Em seu lugar, Pokémon muito maior, quase da minha altura e com uma expressão muito mais séria. Era mais forte e musculoso, mesmo que seu braço ainda trouxesse a cicatriz da mordida do Absol e seus ombros fossem desnivelados.
— Ora, ora, que bela surpresa – Cindy começou estridente em seu microfone – E nosso pequeno Riolu evoluiu para um Lucario.
Lucario? Eles não evoluíam apenas por felicidade? Fiquei olhando o bicho diante de mim e sem querer esbocei um sorriso, o qual ele retribuiu.
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