Notas iniciais
Cá estou, um dia atrasada, mas estou! Última parte do Contest de Undella, espero que gostem! Boa leitura!

December

ZINNIA — parte 3

Novo recesso de quinze minutos e eu não me cabia em felicidade e não era nem pela vitória no Contest. Não acreditava que meu Chiclete tinha evoluído.

Lila estava ao meu lado, fazendo um curativo na cabeça de Psyduck e muito sorridente.

— Fico feliz que você não tenha evoluído no meio da batalha – disse se voltando para Chiclete – ou não teríamos chance.

Clarice estava sentada no fundo do vestiário, com uma expressão de poucos amigos. David me encarava de canto de olho, provavelmente não muito feliz pela evolução do meu Pokémon.

— Lila, está bem mesmo termos terminado nosso combate daquele jeito?

— Era o melhor jeito, para todos. Eu não iria forcar Chardy, nem fazer você se sentir culpado depois. Na sua luta em Nimbasa, você se arriscou para salvar Chiclete. Eu não sou tão corajosa de pular no meio da arena, mas sabia que aquela era a hora de parar.

Eu tinha orgulho da decisão dela e senti que ela uma coordenadora melhor do que e por isso, ela merecia a fita que tinha e eu merecia o que tinha, nada. Mas ela tinha me dito que agora eu venceria por nós dois, então eu teria que me esforçar para honrar aquelas palavras.

Cindy voltou ao palco e convocou para a segunda rodada do Contest, também por sorteio. Meu nome foi chamado, junto com o Misha, o garoto do Manectric.

Fomos para a arena e tomamos nos respectivos lugares. Ele deveria ter a mesma idade que eu, cabelo preto bem curto e era muito pálido. Ele sorriu do outro lado e acenou amigavelmente, antes de libertar seu Pokémon. Manectric pulou no centro da arena e fez um ruído bem alto e intimidador, mas Chiclete não pareceu realmente impressionado. Fez uma pequena mesura enquanto Cindy terminava de falar e se preparou para o combate.

— Muito bem, Asta – Misha começou – Spark.

Manectric abriu a boca e formou uma pequena esfera dourada que saiu voando pela arena, na direção do meu Lucario. Chiclete desviou. Asta veio correndo em sua direção, lançando mais esferas luminosas, que meu Pokémon precisava desviar.

Não sei por quanto tempo durou, mas eles ficaram nisso pelo que me pareceu uma eternidade, se estudando e desviando, girando na arena.

— Muito bem Chiclete, Face Palm – alguém precisava tomar a iniciativa, ou eles ficariam naquilo a vida toda.

Chiclete avançou e preparou o golpe, mas Manectric desviou no último segundo. O soco atingiu o tablado e rachou com a força do golpe. Pude ouvir um “oh” vindo da plateia e até eu me impressionei.

Embora eu soubesse que Chiclete era agora um Lucario, eu não tinha total conhecimento de suas habilidades e forças. E precisaria me adaptar a isso em meio a uma batalha. Manectric deu uma nova saraivada de Sparks que meu Pokémon desviou.

Misha pretendia me vencer com golpes à distância. Ele sabia que eu precisava de contato direto para acertar Manectric, os Sparks não eram para me acertar, mas sim para cansar Chiclete e então fazer dele um alvo fácil, eu precisava de uma forma para reverter isso.

— Chiclete, avance. – Meu Pokémon correu pela arena, na direção de Asta, que saltou para longe e começou uma nova rodada de Spark. – Desvie, mas continue avançando. – Gritei.

Ao invés de pular para os lados como sempre fazia, ele movia o corpo minimamente, apenas para não ser atingido. E estava indo muito bem, até que um Spark veio direto e ele não teria como desviar. Talvez por instinto, ele fechou o punho e tentou esmurrar a esfera, mas com o contato, seu corpo foi invadido por uma descarga elétrica e desabou no chão.

Meu placar apareceu descontando alguns pontos. Chiclete estava caído no chão e eu podia ver o pelo arrepiado pela estática. Ele estava de barriga para baixo e os olhos estavam abertos, mas não pareciam focar coisa alguma.

Misha sorriu do outro lado da arena, mas não aquele tipo de sorriso que David usava, era mais como se finalmente seu plano tivesse dado certo.

— Asta, termine – ouvi Misha ordenar.

Achei que viria uma nova onde de Spark, mas desta vez, o quadrupede avançou pela arena e parou em cima do meu Pokémon. Manectric parecia gigante perto do meu Lucario caído.

— Bite.

Eu conhecia aquele golpe e Chiclete também, tinha sido o que Absol usara para lacerar seu braço. Vi a boca enorme se abrir e exibir os dentes pontiagudos. Vi meu Lucario se mexer minimamente. Aquela era minha única chance. Se Manectric executasse o golpe com sucesso, não só eu perderia mais pontos, como provavelmente, Lucario estaria fora de combate.

— Agora! – gritei.

Chiclete se virou entre as pernas do Pokémon, ficando de barriga para cima e então desferiu um soco no estômago do Pokémon, com força suficiente que pude ouvir de onde estava. Asta fez um barulho seco e aos poucos as pernas fraquejaram até cederem ao peso e desabar em cima de Chiclete que sumiu no mar pelos amarelos e azuis.

— Chiclete – mas era impossível saber seu estado após sumir sob o Pokémon.

A arena se tornou silenciosa e demorou até que Cynthia mandasse Cindy verificar como estavam os Pokémon. A garota se aproximou e analisou Asta. O Pokémon realmente estava apagado e fora de combate. O placar de Misha chegou à zero. Cindy deu a volta e puxou parte dos pelos do Manectric tentando encontrar Chiclete, mas era impossível visualizá-lo.

De repente, o corpo de Asta se moveu e rolou para o lado, Chiclete se levantou, apoiando as patas no chão. Ele parecia torto e amassado, mas bem. Com Manectric tombado de lado, podia ver a marca do soco certeiro, mesmo com os pelos. Eu realmente precisaria tomar cuidado com a força de Lucario, ou isso iria me complicar.

Cindy encarou o monstrinho e então a mesa julgadora. As três mulheres conversaram por alguns segundos, meu placar apareceu, mas meus pontos não foram alterados.

— E a vitória vai para December e seu Lucario – Cindy anunciou no microfone. E apesar da situação estranha, a plateia gritou e aplaudiu.

Meus olhos se dirigiram para Haila e a vi fazer um sinal positivo com o dedo, como se para me consolar de ter apagado o pobre Asta.

Enquanto me retirava da arena, emparelhei com Misha, que tinha retornado o parceiro a Pokéball e se encaminhava para a ambulância do Centro Pokémon.

— Me desculpe – pedi sem jeito.

— Por que está se desculpando? – Ele pareceu realmente surpreso com meu pedido.

— Seu Pokémon...

— Essas coisas acontecem – me cortou – você foi muito engenhoso em baixar sua guarda para me por numa armadilha.

Eu não tinha certeza se as coisas tinham acontecido dessa forma, pois Lucario tinha visto a tal brecha melhor do que eu. Mas não pude deixar de sorrir diante do comentário, que me parecia um elogio indireto.

— Eu espero que possamos nos enfrentar novamente. E eu vou me preparar para não perder desta vez – finalizou antes de sair por outro caminho e ir à direção da ambulância.

Cruzei com David no corredor que levava até a arena, mas ele sequer me olhou, parecia compenetrado demais. Cheguei ao vestiário e analisei Chiclete, para ver se estava tudo bem.

O local estava vazio, exceto Clarice sentada em um banco do outro lado. Lila não estava mais lá e imaginei que só poderia estar na arquibancada, ao lado de Haila, embora eu não a tivesse visto durante minha luta contra Misha. Os outros competidores já tinham ido embora ou se reunido nas arquibancadas.

— Nada mal – resmungou.

— Obrigado – eu achava que depois da nossa conversa no Centro Pokémon eu não precisaria mais ter contato com ela por um tempo. – E Grangran?

— O nome dela não é esse – rosnou. – Vai ficar na ambulância por mais algumas horas – respondeu por fim, em um tom mais ameno.

Abri a boca para perguntar algo, mas ouvi a voz de Cindy, vinda da televisão anunciando a luta entre David e Wilner, o cara do Skarmory.

Se bem me lembrava, Skarmory tinha vantagem por ser voador, mas o Serperior de David parecia muito mais bem treinado. Eu não sabia se Wilner era treinador de outra categoria ou se nós apenas nunca havíamos nos cruzado. E embora eu tivesse gostado da sua apresentação e tivesse derrotado Baltoy em pouco tempo, ele não me parecia realmente habilidoso. Ou seja, eu enfrentaria David na final.

Os dois se posicionaram, cada qual em um canto da arena e libertaram seus Pokémon. Serperior surgiu majestosamente na arena. Enquanto a Skarmory sobrevoou o ambiente e parou, flutuando com um lento bater de asas.

— Vamos lá –David gritou e Serperior serpeou rapidamente pelo tablado, com a boca aberta, exibindo os dentes.

O corpo se enrolou e ele deu um salto para alcançar o Pokémon que voava não muito acima do solo. A ave girou o corpo grande e metálico, sem o menor esforço, apenas desviando o suficiente. Ao menos foi isso que pude ver, com a agilidade do movimento.

Mas segundo após a manobra, Serperior bateu no tablado da arena com tanta força que chegou a estremecer. O bicho ainda estava consciente, mas parecia gravemente ferido. Não dava para ver exatamente, mas parecia haver sangue tingindo o piso.

Skarmory voava pelo ambiente, majestosa. O placar de David sequer havia descontado seus pontos, mas Serperior estava fora de combate.

A plateia estava em silêncio, e Cindy ainda parecia surpresa e chocada. Quando finalmente o choque e o torpor pareceram abandonar David, ele chamou seu Pokémon de volta e virou as costas antes mesmo que Cindy pudesse fazer algum anúncio.

E ali estava eu vendo a única coisa que achei que nunca viveria para ver, David perder. E não havia sido uma derrota esplendorosa, após uma batalha árdua e difícil, ele tinha caído no primeiro golpe, sem que eu realmente pudesse entender o que havia acontecido.

— Você está ferrado – Clarice me tirou de meus pensamentos.

E por mais que não tivesse gostado da frase, ela tinha razão. Com a derrota de David, Wilner e sua Skarmory seriam meus adversários na final.

Houve um novo recesso e quando Cindy chamou meu nome senti minhas pernas tremerem. Havia muita excitação ali, era a final da minha categoria no Contest e eu nunca tinha chegado tão longe, mas também havia medo e muito. Primeiro porque teria que lidar com Chiclete, agora quase da minha altura e principalmente por Wilner, que tinha vencido vários competidores fortes, incluindo o David e eu nunca tinha derrotado o David.

Wilner era um homem forte de cabelo muito curto e traços marcantes, deveria ser uns dez anos mais velho do que eu e tinha passado pelo Contest como se fosse um passeio no parque.

Eu vinha de uma luta desgastante e embora Chiclete não estivesse ferido, sabia que estava exausto. Achei que ele poderia descansar durante a disputa pelo terceiro lugar, mas nem David nem Misha pareciam querer levar aquilo adiante, tanto o Serperior de David como o Manectric de Misha precisavam de tratamento médico e a disputa ficaria de lado.

O Skarmory de Wilner voou pela arena majestosamente, assim que ele o libertou. Não era um Pokémon bonito, mas tinha seu charme executando movimentos com uma leveza que seu tamanho e tipo pareciam não lhe permitir.

Como de costume, joguei a Pokéball de Chiclete no chão e ele saiu dela com um rolamento e parou em posição de combate no meio da arena, com o lenço de rendinha balançando no pescoço.

— E para as finais, temos Wilner, experiente coordenador que já venceu a Liga Sinnoh no ano anterior e o estreante December, que vem se tornando sensação nos Contest com seu comportamento... – ela desviou o olhar em minha direção a procura de uma palavra que fosse menos brusca que excêntrico, mas não achou nenhum e só sorriu. – Será um embate emocionante entre dois Pokémon metálico. Podem começar.

— Muito bem, Chiclete – como eu queria o livro da minha mãe naquela hora, afinal eu não sabia quase nada sobre Lucarios. – Vamos começar com Force Palm.

O azulado concordou com a cabeça e correu na direção de Skarmory que apenas flutuava poucos centímetros do chão, mas antes que pudesse desferir o golpe, o bicho deu uma guinada e levantou voo quase sumindo do meu campo de visão, por ficar entrecortado pelo sol.

De onde estava seria impossível alcançá-lo e nenhum golpe que eu conhecia poderia realmente ajudar. Desviei os olhos momentaneamente para a plateia e Haila chacoalhava os braços freneticamente como se quisesse me avisar de algo, que claro eu não entendi.

— Se já fez seu movimento – a voz de Wilner me fez voltar a arena. – Vamos pegar leve, Sissi, Air Cutter.

Quando dei por mim, Skarmory já estava quase colada a Chiclete, só tive tempo de mandá-lo desviar, o que ele fez habilmente, pulando para o lado com uma agilidade impressionante. Sissi parou o movimento logo após perceber que não atingiria meu Pokémon, mas a onda de choque do vento que havia movimentado ainda existia e se Chiclete havia desviado, eu não era assim tão esperto.

Levei a mão ao lado esquerdo da barriga, abaixo da costela, pois sentia uma dor latejante ali. Minha mão ficou manchada de vermelho e pude notar que a camisa lilás, alugada da butique, estava com um rasgo enorme, do ombro até a barriga, deixando meu peito amostra e muito sangue vertia dali.

Pela quantidade de sangue e pela cara da Lila, sentada na primeira fileira ao lado de Haila, eu deveria estar morrendo, mas a loira, parecia calma e controlada, o que me fez imaginar que não deveria ser tão grave assim.

Chiclete estava em pé na arena e me olhava por cima do ombro, como se não soubesse como reagir. Wilner me encarava do outro lado da arena, mas não parecia realmente abalado com minha lamentável situação. Seu imenso Skarmory sobrevoava o ambiente com uma placidez invejável.

Cindy ficou quieta, sem conseguir narrar o que se desenrolava, ninguém esperaria que Chiclete conseguisse habilmente desviar do golpe do pássaro e provavelmente ninguém esperava que a força do golpe atravessasse a arena e me atingisse em cheio, nem mesmo eu. E por isso, estava esfarrapado e sangrando, depois de um Air Cutter certeiro.

Roxie, que estava na mesa de jurados, fez menção a se levantar, mas Caitlin, que estava ao seu lado a puxou pelo braço. Se ela se intrometesse e alguém soubesse que nós tínhamos alguma ligação fora do Contest, eu poderia ser desclassificado, por mais que Roxie fosse muito mais exigente como jurada do que Caitlin ou Cynthia.

— Talvez devêssemos parar por aqui – Wilner resmungou do outro lado da arena, mas não estava sendo caridoso. A batalha estava se arrastando mais do que ele desejava, a julgar pela velocidade em que abatera Serperior, e era visível que até sua parceira já estava cansada. Seu desistisse, ele venceria, mas eu não tinha ido tão longe para parar agora, ainda mais quando meu Chiclete estava indo tão bem.

— Eu estou bem – minha voz saia como um gemido. – Podemos continuar, certo, Chiclete?

E o Pokémon azul pareceu receoso por um momento, mas vendo minha decisão, balançou a cabeça afirmativamente.

— Nós podemos fazer uma pausa – Cindy começou ao perceber que o sangue da minha camisa estava escorrendo e gotejando no chão. Mas se calou quando não dei atenção.

— Certo, nós treinamos muito esses dias e sei que você está pronto – disse a Chiclete. – Focus Blast e depois evasiva.

Vi meu Pokémon avançar para o meio da arena a toda a velocidade, as mãos juntas diante do corpo como se canalizasse um fluxo de energia ali. Parou bem embaixo do Skarmory, que preparava um Steel Wing e mergulhava em direção ao solo, a bola de energia que meu Pokémon canalizava se materializou em uma massa alaranjada e reluzente e com um soco, Chiclete mandou-a para o alto, mas nunca vi se o golpe realmente atingiu o Skarmory. Senti um gosto metalizado na boca e a visão começou a ficar turva e distante, então tudo ficou escuro.

=8=

— Eu perdi? – Foi a primeira coisa que consegui perguntar nitidamente para as garotas diante de mim no vestiário. Encarei ambas, mas elas apenas se entreolharam como se nenhuma quisesse me responder. – E o Chiclete?

— Infinitamente melhor do que você – Haila revirou os olhos como se estar naquele estado fosse culpa minha. – Ele está com a Roxie.

— Eu perdi? – Repeti, desta vez com mais ênfase. Eu não me lembrava do que tinha acontecido na arena, nem como tinha chegado até o vestiário.

— Bem, não exatamente – Lila começou – Eles fizeram um recesso por você ter apagado. Geralmente os Pokémon tombam na arena e não seus treinadores. Eles não sabiam bem o que fazer, então deram um recesso.

— E Wilner?

— Bem, ele não pareceu feliz com o recesso, mas como Chiclete ainda está apto a lutar, Roxie disse que seria injusto você ser desclassificado, já que a regra se estende apenas aos Pokémon.

Tentei me levantar, mas as pernas fraquejaram. Mas eu não podia desistir. Eu tinha ido longe, Chiclete estava indo muito bem e eu tinha prometido a Lila que vencería por nós dois.

— Você está muito machucado, talvez devesse desistir – Lila ponderou.

— Se ele não voltar, será desclassificado – Clarice se manifestou.

Eu não estava preocupado em ser desclassificado por uma mácula na carreira ou qualquer ladainha do gênero, mas pela primeira vez, eu realmente queria fazer isso. Depois de ter ficado em primeiro nas eliminatórias, depois de ter lutado contra Lila, ter evoluído Chiclete, ter passado por Misha e ter chegado as finais, eu realmente queria fazer aquilo.

— Deedee, você está sangrando muito – Lila comentou ao ver minha roupa manchada. – Você precisa de curativos.

— Eu vou ficar bem – Minha visão ainda estava um pouco turva e eu quase não tinha forças para ficar de pé, mas se eu demorasse muito ali, acabaria sendo desclassificado.

— Sabe – Haila me chamou – você vai ter problemas para devolver essa blusa.

=8=

Estava de volta a arena, com nossos Pokémon apostos. Havia um silêncio perturbador na plateia e pelo canto do olho podia ver Haila e Lila na primeira fila. Roxie parecia apreensiva também, assim como Cindy, que relutantemente, tinha anunciado que a luta prosseguiria.

Eu mal conseguia enxergar a arena nitidamente e minha mão precisava apertar o ferimento que doía absurdamente. No final, antes de eu sair do vestiário, Clarice havia arranjado um kit de primeiros socorros e feito um curativo na minha barriga. Ela não era muito habilidosa, mas era o suficiente para que eu não ficasse sangrando no tablado.

Wilner parecia inabalável do outro lado da arena, na companhia de Sissi. Chiclete também parecia ótimo. E por isso, eu estava disposto a continuar. Havia uma pequena marca acima do olho esquerdo que eu não me lembrava de ter antes de ter apagado.

Só então me ative ao placar de Wilner e percebi que alguns pontos tinham sido descontados, assim como dos meus, o que significava que o golpe que Chiclete tinha executado enquanto eu desmaiava tinha tido resultado, mas também significava que Sissi tinha acertado seu Steel Wing.

— Muito bem, Chiclete. Focus Blast – a frase saiu enrolada, mas meu parceiro entendeu.

O Pokémon azulado correu pela arena, se concentrando na esfera de energia. Sissi voava numa altura alcançável, mas quando Chiclete a atacou, ela se esquivou graciosamente.

Tentei de novo e de novo, mas nenhuma das tentativas funcionava. Assim como acontecera com Manectric, a distância era uma vantagem para a Pokémon voador e uma vantagem dupla, já que ela não precisaria se aproximar para atacar.

— Vamos Sissi – Wilner ordenou e a Pokémon deu um mergulho em parafuso tão rápido que Lucario não teve tempo de desviar. O golpe o atingiu em cheio, mandando para um dos cantos da arena.

Quando ele tentou se levantar, ela finalizou com Steel Wing, que novamente, colocou meu parceiro no chão. O placar apareceu e meus pontos foram descontados até a metade.

Chiclete se levantou desajeitado e se posicionou. Havia marcas na pele, mas nenhuma delas parecia profunda.

— Nada mal – Wilner gritou do outro lado da arena – você tem mais fibra do que imaginei.

A situação não estava boa para o meu lado, eu teria que acertar Sissi com um golpe perfeito para poder igualar nossa situação e considerando a vantagem que suas asas lhe davam, eu dificilmente conseguiria fazê-lo.

— Sissi – Wilner comandou com um aceno.

A Pokémon deu um rasante rápido pela arena, o mesmo golpe que havia usado contra o Baltoy. Chiclete conseguiu desviar, com um esforço absurdo enquanto a alada dava um giro na arena e voltava a posição inicial, ao lado do coordenador.

Só então percebi que aquele movimento era padronizado, toda vez Sissi, voava do mesmo jeito, com o mesmo ângulo de inclinação e quando terminava, fazia a volta e retornava para o mesmo ponto. Se havia um padrão, talvez eu conseguisse achar uma brecha e realizar um bom golpe durante a aproximação.

— Sissi – e a Skarmory voltou ao ataque. O mesmo padrão, mas eu realmente ainda não tinha pensando em como aproveitar essa vantagem. Aconteceu o mesmo da outra vez, ela deu um rasante, Chiclete desviou, pulando para o lado, mas Wilner parecia enjoado desse cenário – Steel Wing.

A Pokémon parou no meio do voo e fez um semicírculo, até parar de frente com Chiclete e preparou as asas para o ataque. Lucario deu um passo para trás, mas tropeçou na parte do tablado que havia quebrado na luta contra Manectric.

Era isso.

— Chiclete – gritei – use as pernas.

Não foi muito especifico, mas ele entendeu. Chutou o pedaço do piso quebrado para cima, levantando uma barreira entre ele e Sissi. O problema é que com isso, uma nuvem de areia também subiu cobrindo boa parte do campo.

Eu não podia ver Sissi nem Chiclete e não sabia muito bem o que estava acontecendo. Mal conseguia divisar Wilner do outro lado, mas ele parecia enxergar tanto quanto eu. Apesar disso, a nuvem não era muito alta, o que me fez perceber que a Skarmory estava apenas a poucos centímetros do chão.

Meus olhos esquadrinharam a arena, procurando alguma saída. Eu realmente estava vendo muito embaçado, mas eu precisava resistir até o final. Meus olhos desviaram para o telão, que tentava, sem sucesso, mostrar o que acontecia na arena. Ah, era isso que Haila estava tentando me mostrar no começo da batalha.

— Chiclete – chamei sem nem ao menos saber onde ele estava – vá para o telão.

Parecia uma ordem idiota e pude ouvir um murmurar atrás de mim. Vi meu Pokémon sair da nuvem com um salto e correr a toda para onde eu tinha ordenado. Provavelmente minha voz serviria para orientar Sissi e ele precisava ser rápido.

— Suba!

Eu não sabia se aquela ação era legal, mas as pernas de treliça do telão estavam dentro da área delimitada da arena, e era um risco que eu teria que correr.

Chiclete subiu rapidamente pouco mais de três metros, vi Cindy olhar confusa para a mesa julgadora e Roxie fazer sinal para que ela deixasse seguir. Enquanto Chiclete subia, a nuvem de areia se dissipou e pude ver Sissi voar em sua direção.

— Agora, Brick Break – eu conhecia o golpe de ver no livro da minha mãe, nem sabia se Chiclete conseguiria executá-lo com exatidão, mas a diferença de pontos estava muito desvantajosa.

Ele saltou da coluna treliçada e com um giro ficou exatamente sobre Sissi, que não conseguiria mudar de direção naquela curta distância. Então ele desceu o braço, com a mão em forma de lâmina sobre o corpo metalizado.

O golpe foi certeiro, dado em pleno ar, mas ambos caíram com um estrondo no tablado. Mais areia levantou e ficou em suspensão no ar e o placar de Wilner descontou mais pontos, menos do que eu ansiava.

Quando a poeira baixou, pude ver Chiclete em pé, apesar do golpe, ele tinha machucado a própria pata, o que provava que ele não o executara corretamente. Sissi estava no chão, uma das asas pendendo ao lado do corpo.

Wilner curvou as sobrancelhas bastante irritado. Sissi não voaria por enquanto e a vantagem que ele possuía tinha ido para o ralo. Sem perceber, estava sorrindo. A Pokémon tinha virado um alvo fácil no chão e eu não precisaria de muito para derrubá-la. Eu iria ganhar, eu sentia isso, e cada célula do meu corpo parecia vibrar de excitação.

— Chiclete, Force Palm – eu sabia que não seria um golpe muito eficiente. A mão boa estava machucada, mas era melhor eu realizar pequenos ataques certeiros, do que tentar reduzir todos os pontos de Wilner de uma vez e contar com a sorte, como acontecera com o Manectric. Além disso, eu não queria machucar a Pokémon.

Chiclete começou a avançar pelo tablado, mas Wilner tinha outros planos.

— Flash Cannon.

Eu conhecia o golpe, tinha visto na televisão uma vez em um campeonato Pokémon que meu pai estava assistindo. Era o tipo de golpe que praticamente varre todos os adversários do outro lado do campo. Chiclete estava muito perto, não iria dar para desviar, não pelo raio de ataque do golpe.

— Chiclete, se proteja.

Ele cruzou as patas diante do corpo, mas o golpe veio como uma maré violenta que arrasta tudo ao seu redor. Tentou travar as patas no chão, usando as unhas dos pés, mas não ser literalmente carregado pela luz branca e impactante, mas mesmo assim, pude vê-lo sendo arrastado pelo piso.

Embora fosse um golpe rápido, pareceu correr em câmera lenta diante dos meus olhos. Quando finalmente Sissi parou, os pelos dos braços estavam chamuscados e havia um rastro de unhas por todo o piso.

— Ele está fora – gritou Wilner e só então percebi o quanto meu Pokémon tinha sido arrastado pela força do golpe. Ele estava fora da área da arena, o que era considerado automaticamente desclassificação.

Cindy correu, dando a volta no piso e parou ao lado do meu Pokémon, que ainda tentava se recuperar do golpe.

— Ele está em cima da linha – proferiu no microfone.

Linha era considerado ainda dentro da arena e pude ver Lila e Haila suspirarem aliviadas. Meu placar apareceu e começou a descontar os pontos. Tinha sido um golpe seco e direito, perfeitamente bem executado por Sissi. Por isso, quando meus pontos zeraram, eu não podia dizer que estava realmente surpreso.

Cindy olhou para mim, depois para a mesa e por último se voltou para a plateia.

— E o vencedor é Wilner e sua Skarmory – finalizou apontando para seu lado na arena.

Chiclete parecia cansado, um pouco machucado, mas nada realmente grave. Uma boa noite de descanso era tudo o que ele precisava. Ele tinha se saído muito bem e eu estava muito orgulhoso. Sorri e foi a última coisa que fiz antes das minhas pernas fraquejarem e eu ir de encontro ao chão.

Preferia ter desmaiado porque dei uma cabeçada contra o tablado que doeu um bocado. A comemoração de Wilner foi interrompida quando Cindy correu na minha direção tentando me acudir. Mas foi Roxie, que tinha pulado por cima da mesa julgadora, quem conseguiu me levantar do chão.

— Você está péssimo, Deedee – disse enquanto me puxada e não pude deixar de notar, apesar da dor, que pela primeira vez, ela não tinha me chamado pelo nome todo.

=8=

Se eu tinha reclamado das habilidades de enfermaria de Clarice, pior eram as de Roxie. Ela simplesmente tinha arrancado a blusa da butique e me enrolado em tanto esparadrapo que eu parecia uma múmia.

Eu estava no pódio, sem camisa e todo enrolado, com Wilner ao meu lado. Sissi estava totalmente recuperada assim como meu Chiclete, graças a Lila, que tinha usado o Aqua Ring de Psyduck para dar uma revigorada na dupla.

Apesar do jeito sisudo e durão de Wilner, ele veio me cumprimentar pela batalha. O terceiro lugar estava vazio, já que Manectric e Serperior ainda estavam na ambulância do Centro Pokémon, aparentemente, as juízas tinham decidido que tanto David como Misha ficariam com o lugar e dividiriam o prêmio em dinheiro.

Cindy fez uma longa introdução antes da premiação. Cindy deu a fita para Wilner e o parabenizou. Caitlin me deu uma caixinha, como uma espécie de prêmio de consolação. O prêmio em dinheiro seria depositado em nossas contas, me contou Roxie e eu embora não fosse uma quantia muito grande, como o primeiro, mas para quem estava no vermelho, era recompensador de qualquer forma.

Abri a caixa e vi que havia uma Sun Stone dentro. Curvei as sobrancelhas sem entender, afinal por que eu precisaria daquilo se meus Pokémon não eram do tipo planta? Talvez fosse uma escolha aleatória, eu poderia vender, já que nunca usaria para coisa alguma. Mas então me lembrei que Haila era especialista em Pokémon Grass e muitos deles só evoluíam sendo expostos a Sun Stone. Talvez fosse útil para ela.

Sissi e Chiclete receberam faixas coloridas e nós tiramos muitas fotos após receber uma longa salva de palmas. Depois voltamos para o vestiário, enquanto a arena era ajeitada para os competidores da etapa Though.

Lila e Haila estavam no vestiário e pareciam muito felizes por mim. Me abraçaram e parabenizaram e até Clarice acabou me cumprimentando com um sorriso.

— Nada mal – Roxie me parabenizou, antes de voltar ao seu posto como jurada. – Aparentemente essa história de mudança é verdadeira. – E passou a mão pela minha cabeça, bagunçando meus cabelos.

=8=

Depois de ter entregado Foie Gras para minha mãe e ter ido jantar com Haila, arrastei a menina de volta ao hotel onde estava hospedado, parei em uma loja antes, mas entrei tão rápido que ela ficou me esperando na porta.

Roxie ainda não tinha voltado e o quarto estava mergulhado na escuridão. Acendi a luz e coloquei a sacola com as compras sobre a única mesinha do quarto.

— Qual é o favor?- Haila perguntou se jogando na minha cama.

— Você se lembra da primeira coisa que me disse quando nos conhecemos?

— Que você era idiota? – Revirei os olhos, realmente ela tinha dito isso, mas não era esse o ponto.

— Sobre o meu cabelo...

— Que estava horrível – ela me cortou – e ainda está – disse dando uma boa encarada no meu visual.

— Eu quero mudar isso.

— Mesmo? – Arqueou as sobrancelhas – você está mesmo se importando com o seu visual para o Contest.

— Não é por isso.

— Então?

— Quando as coisas aconteceram em Nimbasa, você cortou seu cabelo, certo?

— Sim, mas...

— Uma mudança externa para mostrar todas as mudanças internas que ocorreram – disse e ela apenas confirmou com a cabeça. – Eu preciso disso também. Eu ainda vejo meu rosto no espelho e pareço o mesmo de sempre, o mesmo que chorava e se sentia terrivelmente inseguro. Eu não quero me ver mais dessa forma.

Haila ficou me encarando por um longo tempo, e de repente, senti como se tivesse dito a coisas mais estúpida da vida. Como ela mesma tinha dito antes, não era porque funcionava com ela que funcionaria comigo. Mas desde que voltamos do falso Ixia, eu me sentia incomodado com minha cara no espelho, era como ver uma pessoa que a qualquer minuto iria fraquejar novamente.

— Certo – disse se levantando – quais seus planos?

— Você promete não rir?

— Eu tenho certeza que vou rir agora que você pediu isso – e abriu aquele sorriso que eu não gostava muito.

Fui até a sacola e tirei o que tinha comprado lá de dentro. Achei que Haila desataria a rir, mas ela me olhou com uma estranheza enorme, quase como se não me reconhecesse.

— Tem certeza disso? – Ela parecia meio chocada.

— Sim.

— Isso é meio exagerado, até para você.

— Haila!

E eu entendia a reação dela. Talvez ela esperasse que eu pedisse para cortar, mas não pintar meu cabelo. Garotos não pintavam, de maneira geral, ainda mais de cores tão chamativas. Eu gostava de roxo e provavelmente pintaria o cabelo dessa cor, mas na loja não tinha esse tom, então tivera que escolher entre as poucas opções.

Não que fosse pintar o cabelo todo, apenas a franja que era mais comprida que o resto do cabelo e vivia caindo na cara.

Eu nunca tinha pintado o cabelo antes e não imaginava que fazia aquela porqueira. Tinha tinta por todo o lado no banheiro e Haila tinha manchado umas duas toalhas tentando evitar que aquilo pingasse no chão. Enquanto esperava o tempo de reação fiquei pensando que realmente ficaria estranho e feio, mas eu não podia mais voltar a trás.

— Para mim isso é um símbolo – Haila disse de repente. – De que você está aceitando seu lado coordenador.

— Eu não...

— Qual é, algo tão espalhafatoso só poderia ser coisa de coordenador, é quase como escrever na testa. – De certa forma ela tinha razão, apenas coordenadores e artistas em geral tinham um perfil mais alegórico. – Você gosta de Contest, eu sei disso e também sei que você se sai muito bem neles. Deveria parar essa birra com sua mãe e aceitar seu destino.

— Você não quis aceitar o seu.

— É diferente, você me imagina mesmo cuidando de um monte de bebês Eevee? – É realmente não.

— Eu tenho receio de estar fazendo isso porque fui condicionado a fazer, sabe, por ser um Charleston.

— Se você se diverte fazendo, acho que não tem problema – deu de ombros.

Quando o tempo terminou, Haila lavou meu cabelo e depois secou com uma tolha e penteou.

— Até que não ficou ruim – disse puxando a franja para o lado e tirando de cima do meu rosto.

No meio da cabeleira negra, uma longa ponta cor de rosa aparecia chamativa. Era o mais próximo de um roxo e o que mais combinaria com a camisa de babados que tinha alugado na butique.

Apesar do meu receio inicial, eu tinha gostado do resultado. Eu parecia mais alegre e dinâmico, como um coordenador seguro e experiente e e realmente aquilo me daria outro ânimo para entrar no Contest.

Talvez Haila estivesse certa, talvez eu realmente tivesse nascido para aquilo.

Ouvi a porta da frente se abrindo e me virei para ver Roxie entrando, cansada e suja. Jogou a mochila de qualquer jeito no meio do quarto e deu um longo bocejo. Depois encarou Haila por alguns segundos, confusa da sua presença ali, mas isso ficou para segundo plano quando desviou os olhos sobre mim e viu as madeixas rosa no meu cabelo.

— O que diabos você andou fazendo sem mim?

Notas finais
N/T: Ué, mas a Zinnia não apareceu? Não, como eu havia dito nas notas lá na primeira parte, Zinnia também é uma cor, um tom entre vermelho e rosa. Acho que o estado final do Deedee, com cabelo pintando e todo ensanguentado dá para entender porque escolhi a cor. A luta do David é minha preferida, assistam Equilibrium e vocês vão entender no que me inspirei. De resto, temos alguns clichês e afins. Não quero mais escrever um capítulo tão longo, é ruim para dividir depois. É isso. Comentem! Beijokinhas e até!