Rota Zero
51 Zinnia - parte 1
Notas iniciais
December
Zinnia — parte 1
Eu estava com uma dor de cabeça enorme, como se alguém tivesse batido meu cérebro dentro de um liquidificador. Havia um zumbido nos meus ouvidos e meus olhos demoraram um longo tempo para focar a imagem diante de mim.
Lila estava inclinada sobre mim e falava muito rápido, mas eu não estava acompanhando nada, sua imagem era turva e eu mal conseguia diferenciá-la.
— Ele está vivo? – Reconheci a voz de Haila, meio preocupada, meio irônica e uma cabeça loira entrou no meu campo de visão, pareando com Lila.
— Talvez devêssemos levá-lo ao hospital, ele não parece nada bem... – Lila encarou a menina e depois voltou seu olhar a mim, bastante preocupada.
Só então percebi que não estava mais na arena, mas de volta ao vestiário. Os vestiários eram mistos desta vez, isso explicava Lila, mas Haila não deveria estar ali. Ela estava com Abóbora no colo e ele parecia muito alvoroçado, mas ela não tencionava soltá-lo.
Aos poucos o ambiente se tornou mais nítido, assim como Haila e Lila pareceram mais dentro do foco. Além da dor de cabeça descomunal, sentia muita dor do lado esquerdo do corpo, como se tivesse tomado um encontrão.
— Eu perdi? – E encarei ambas, mas elas apenas se entreolharam como se nenhuma quisesse me responder. – E o Chiclete? – Desta vez minha voz saiu mais alta e um pouco mais desesperada. Olhei para os lados e não vi ali, o que era um mau sinal.
— Infinitamente melhor do que você – Haila revirou os olhos como se estar naquele estado fosse culpa minha. – Ele está com a Roxie.
Se ele estava com Roxie, isso só poderia significar uma coisa...
— Eu perdi? – Repeti, desta vez com mais ênfase. Eu não me lembrava do que tinha acontecido na arena, nem como tinha chegado até o vestiário.
— Bem, não exatamente – Lila começou – Cindy fez um recesso a hora que você apagou. Você não precisa voltar para arena, sabe. Você não está realmente em condições de batalhar.
— Se ele não voltar, será desclassificado – eu não via a pessoa, mas reconhecia aquela voz. Clarice. Não demorou para que ela parasse atrás de Lila, cabelo arrumado, vestido amarelo.
Percebi que Haila e ela trocaram um olhar fuzilante, mas não disseram nada, desde que Haila viera comigo para Undella, elas estavam fingindo não se conhecer, o que de certa forma, me deixava aliviado.
Meus olhos deslizaram para o vestido de Contest que Lila usava, era azul bem escuro com desenhos de seres marinhos na saia. A cor e o estilo combinavam perfeitamente com as gravatinhas que Charmander e Bulbasaur usavam. Era um vestido que ela mesma confeccionara, diferente do terno cheio de rendas que Haila me obrigara a alugar porque combinava perfeitamente com o meu cabelo. Mas percebi que havia algo de diferente na peça.
— Seu vestido... – Minha voz praticamente não saiu.
Vi Lila morder os lábios e me olhar ainda mais apreensiva. Só então percebi que o diferente do vestido era sangue e o sangue era meu.
=8=
Eu já tinha tomado uma advertência verbal da mulher da hospedaria e provavelmente Roxie tomaria outra, quando voltasse da sua viagem atrás das informações misteriosas. De acordo com a funcionária furiosa, seu digníssimo hotel não era um albergue.
Haila e Lila estavam ficando no Centro Pokémon, mas passavam mais tempo comigo no hotel do que em seus próprios alojamentos. Elas estavam mais barulhentas do que de costume, o que não me animava em nada, faltava menos de vinte e quatro horas para o Contest e eu estava nervoso e preocupado. Havia muito mais ali do que simplesmente participar por causa do prêmio, da vontade da minha mãe ou mesmo para agradar Chiclete, mas era difícil externar como eu me sentia em relação a tudo.
Lila tinha trazido uma sacola e de dentro tirou um vestido azul escuro, que ela usaria no Contest. Era muito bonito e ela mesma tinha confeccionado. Para combinar havia gravatinhas azuis para seus parceiros, que corriam pelo quarto, ruidosamente.
— Você deveria usar algo assim – Lila falou animada e Haila reprimiu sua vontade de rir se distraindo com os quadros do quarto que Roxie havia rabiscado no seu surto de raiva.
— Eu já disse que não gosto de Contest exatamente por isso. – Bufei.
— Aposto que Chiclete iria gostar de vocês com roupas combinando – Lila lançou um olhar ao Pokémon que tomava sol na varanda.
Meu Riolu ainda estava fora da Pokéball, desta vez, por minha opção. Eu já tinha recapturado-o, mas gostava da companhia dele, ainda mais agora que tudo parecia resolvido.
Ele olhou para Lila com os olhos brilhantes e pareceu concordar com suas palavras. Pronto, minhas defesas estavam desarmadas. Como, diante daqueles olhos pidões, eu iria recusar?
— Mas mesmo que eu gostasse, eu não tenho uma roupa legal – disse me jogando na cama e encarando o teto. E não tinha mesmo, era só um monte de calças pretas e blusas roxas, todas já surradas por causa da viagem.
— Bem, tem uma butique que aluga roupas aqui em Undella, pode ser útil. – Sugeriu Lila.
Eu conhecia a loja, passara na porta algumas vezes, tudo era muito bonito, mas também muito caro e eu não tinha tanto dinheiro assim.
De certa forma, ir para o Contest não era de todo ruim, se eu ficasse entre os três finalistas, haveria prêmios em dinheiro, e o meu já estava quase no final. Mas considerando que eu ainda não estava em total sintonia com meus Pokémon, se eu passasse da primeira eliminatória já seria um avanço.
Era verdade que desde que Haila soubera que Lila me inscrevera no Contest, vinha me obrigando a treinar. Todas as manhãs, aprecia no hotel e junto de Leaf e Couve-Flor, colocava Chiclete e eu para treinarmos. Abóbora nos acompanhava, achando aquilo uma grande e divertida brincadeira. Nós tínhamos tentando treinar Peach e Serpio, mas os dois já não eram muito amigáveis, juntos no mesmo ambiente, era uma péssima combinação.
Depois do segundo dia, até os Psyducks e Lila treinavam com a gente e o Absol, ainda sem nome, nos acompanhava meio afastado, fingindo desinteresse.
— Qual é, vamos lá. – Lila parecia muito animada com a ideia. Eu não queria fazer nada daquilo, mas diante da expectativa de Chiclete, de sermos uma dupla perfeita para o Contest, acabei cedendo.
Saímos para rua e não precisamos andar muito, pois a butique não era longe do hotel. A mulher que nos atendeu não pareceu muito animada, certamente porque nenhum de nós tinha realmente cara de quem teria dinheiro para comprar algo ali. Mesmo de má vontade, ela nos levou até a sessão masculina e nos deixou a vontade.
Haila e Lila reviravam as araras, enquanto eu olhava as peças sem muito interesse. Eu não tinha um senso muito apurado de moda, mesmo que minha mãe tivesse tentado me educar para isso. Riolu estava ao meu lado e encarava as peças de roupa com a mesma falta de entusiasmo. Provavelmente, ele tinha em mente nossa apresentação com faixas de karate em Nimbasa e não roupas de baile.
Lila veio trazendo várias peças, a maioria com estampa de fundo do mar ou Pokémon aquático, muito verde e azul, nada realmente do meu gosto, por mais que muitas peças fossem realmente bonitas. Mesmo assim, experimentei peça a peça, com os acessórios em Chiclete só para concluir o que eu já sabia, aquele não era meu estilo.
Lila pareceu bastante desanimada por eu não ter escolhido nada que fosse do seu agrado, mesmo que realmente a gravatinha verde com desenhos de corais tivesse ficado muito boa em Chiclete.
Eu já tinha desistido totalmente da ideia quando Haila apareceu com uma camisa lilás, cheia de babados e rendas. Era chamativo e brega e eu definitivamente não iria usar aquilo.
— Prove. – Ela estendeu a peça na minha direção.
— Nem pensar – era babado demais até para um vestido de boneca. Mas ela não me esperou recusar novamente, me empurrou para dentro do provador e jogou a blusa lá dentro.
Mesmo sendo estranha, a blusa caiu muito bem e eu gostei bastante da cor. Apesar disso, não conseguia ver nenhum acessório que combinasse com a peça.
Quando sai do provador, percebi o olhar de deboche das duas meninas.
— Tem um pouco de roupa nos seus babados – Haila provocou quase rolando de rir.
— Ah, é até bonitinho vai – mas Lila parecia querer rir como Haila.
— Tá ridículo isso, eu vou tirar – e me virei voltando para o vestiário, mas Haila me puxou antes que eu pudesse fechar a cortina.
— Eu acho que você deveria ficar com ela – só se fosse para derrotar meus adversários com crises de riso, nem pensar que eu usaria aquilo. – Além disso, Chiclete ficou bem com o acessório.
Só então vi que havia um lenço da mesma cor amarrado ao pescoço do meu Riolu, tinha umas franjinhas e rendinhas e era muito delicado para um Pokémon lutador. Mas ele não parecia tão incomodado com o acessório como com os outros.
— Haila, isso tá ridículo – disse em protesto.
— Talvez isso faça você mudar de ideia – e pegou dois objetos sobre uma cadeira. Eram dois grandes leques pretos, com desenhos de um dragão lilás e flores. Era realmente muito bonito.
Ela os deu para que Chiclete os segurasse e ele abriu e fechou-os várias vezes com velocidade. Maldita loira azeda, sabia que iria me comprar com aqueles leques.
Assim, de alguma forma, Haila havia me convencido a alugar aquela blusa ridícula de babados, assim como o lenço para meu Riolu e os leques, que ele sequer desgrudava. Aquilo tinha saído mais caro do que eu imaginava e o resto das minhas economias estavam indo para o aluguel daquelas peças. Era bom que eu me saísse bem, ou estaria totalmente no vermelho e teria pedir dinheiro para minha mãe e ela me passaria um sermão do tamanho do mundo antes de dizer não.
Lila não entendeu qual era a dos leques e fiquei feliz por isso, pois era meu grande trunfo na apresentação. Embora treinássemos juntos, fazendo exercícios de fortalecimento, agilidade e batalha, nossas apresentações de Contest eram treinadas separadamente. Não iriamos concorrer entre si, pois éramos de categorias diferentes, mas a dança do começo era o grande espetáculo do Contest.
Eu estava muito ansioso para ver o que Charmander e Bulbasaur poderiam fazer sem ser uma apresentação cômica, e imagino que depois do aluguel dos leques, eu havia aguçado a ansiedade dela.
— Talvez devêssemos comer alguma coisa – protestou a morena depois de andarmos alguns quarteirões. Era quase hora do almoço e minha barriga também estava rocando.
Paramos na lanchonete onde eu geralmente almoçava com Roxie quando não comíamos no hotel. Eu andava preocupado com seu sumiço, esperava que quando voltasse de Lentimas, ela já estivesse de volta, mas não havia nenhum sinal dela e toda vez que eu tentava ligar para seu Xtransceiver não havia sinal. Ela tinha ido atrás de uma pista da Team Plasma. A líder acreditava ser falsa, mas e se fosse verdade e tivessem feito algo com ela? Não éramos exatamente amigos, mas tínhamos convivido juntos por todos aqueles dias e de alguma forma havia me afeiçoado a ela, como uma irmã mais velha.
— Algum problema? – Haila questionou ao me ver muito silencioso a mesa.
— Estou preocupado com a Roxie – disse remexendo minha comida com o garfo. – Ela foi para a Rota 12, talvez eu devesse ir até lá...
— Não é uma boa ideia – Lila me cortou.
— Mas...
— Ela não queria você lá, lembra? – Lila estava no quarto quando Roxie foi veemente contra acompanha-la nessa atividade.
— Além disso, Roxie é uma líder, não vai ser abatida tão fácil – Haila completou.
— Mas ela disse que seriam só dois dias... – E quase uma semana havia se passado sem qualquer notícia. Eu sabia que Roxie era forte e independente, mas e se fossem muitos Team Plasma que chance ela teria?
— Talvez ela esteja tirando férias de você – provocou Haila.
— Como você? – Rebati e ela instantaneamente fechou a cara, aparentemente nossa separação temporária tinha virado uma espécie de tabu e não deveria ser citada.
De repente, meu Xtransceiver começou a tocar e meu coração deu um salto. Era Roxie, só poderia ser. Mas a vida era injusta, piscando na telinha do meu Xtransceiver o nome de Cheren.
Fiquei encarando seu nome na telinha sem ter certeza do que fazer. Se eu não atendesse seria estranho, mas eu não fazia ideia do que dizer a ele. Se eu sumisse novamente, provavelmente ele contaria a minha mãe e isso seria problema dobrado. Mas e se ele perguntasse da Roxie?
— Oi – atendi sem o menor ânimo, mas com o melhor sorriso que consegui colocar na cara.
— Hey – ele passou a mão pelo cabelo e sorriu – como está?
— Bem e você? – Ele não tinha me ligado só para bater papo furado, tinha?
— Ocupado, Lenora transcreveu algumas partes do livro para Elesa e agora elas estão tentando interpretar os textos e achar no mapa da região as possíveis locações, mas esses poemas são muito antigos, o relevo de algumas regiões deve ter sido alterado. – Desviei os olhos da telinha para as garotas sentadas diante de mim. Visivelmente Lila estava com um olhar perdido, de quem não está entendendo nada, mas Haila me olhava assustada e eu sabia o porquê.
— Cheren...
— O quê?
— Você não está falando demais?
— Não é como se você já não soubesse disso, certo? – Abri a boca para dizer algo, mas ele prosseguiu. – Eu sei que você, Alanna e aquela sua amiga estavam na reunião. – Vi os olhos de Haila se arregalarem. – Roxie me contou. – E ele deu um sorriso torto e condescendente.
— E está tudo bem para você? – Eu sabia como Cheren era o tipo certinho que não violava as regras. Se não éramos para estar lá, não deveríamos estar lá e ele ficaria bastante irritado com isso.
— Não é nenhum segredo de estado – ele deu de ombros. – Mas mesmo se fosse, eu confio em você.
Eu me senti estranho diante daquilo. Nós não éramos próximos e eu nunca havia feito nada para merecer a confiança do líder. Era como receber um elogio por algo que não se merece. Fiquei encarando-o do outro lado da tela sem realmente saber o que dizer.
— Bem – ele passou a mão pelo cabelo novamente e desviou o olhar como se sentisse constrangido pela maneira como o encarava. – De qualquer forma, Roxie pediu para que eu te ligasse.
— Roxie?
— Sim, ela está em Lacunosa Town. – Minha mente deu uma volta completa antes de processar tudo. Por que diabos Roxie estava em Lacunosa e por que Cheren sabia disso e eu não? – Ela teve um problema com o Xtransceiver e precisou ir até a cidade para consertar. Ela não lembrava seu número de cabeça, então me ligou e pediu que te avisasse que está bem e que deve estar de volta hoje à noite.
Me senti aliviado em ouvir tais palavras, eu andava muito preocupado com ela e com o fato de não ter notícia alguma, mas se o Xtransceiver ela tinha quebrado, isso explicava porque ela andava incomunicável.
— E como foi com o Ixia? – Não era como se ele estivesse verdadeiramente curioso, provavelmente esperava que eu concordasse com seu discurso no hotel e confirmasse que o velho era um charlatão.
— Bem, eu acho – não queria contar a ele sobre nossa pequena confusão.
— Você já achou suas respostas, sobre a Team Plasma? – Desta vez a pergunta pareceu genuína, como se realmente quisesse saber da resposta.
— Eu ainda estou procurando – respondi incerto, mas ele sorriu e eu não pude deixar de sorrir de volta.
— Certo, se cuide e ligue-me se precisar de algo – e com um aceno desligou.
— Eu não sabia que você era tão amigo do líder de ginásio de Aspertia – Lila falou impressionada.
— Bem, o ginásio dele é na minha cidade... – embora eu realmente não me considerasse amigo do Cheren.
— Marlon sempre disse que ele é muito arrogante e metido a inteligente. – Eu concordava com Lila, do meu pouco contato com o líder, ele tinha mesmo uma aura inteligente que o colocava num patamar acima dos pobres mortais. Mas depois de vê-lo discutir com Alder, conversar frivolidades com Roxie e tentar me consolar no meu momento de desespero, talvez eu o visse além do que o garoto dos olhos de Adizia.
— Eu estava certa sobre a Roxie – Haila comentou quando Lila parou de falar sobre a relação não muito próxima entre Marlon e Cheren. Olhei para ela sem entender. – Ela está em Lacunosa tirando umas férias de você. – Provocou com um sorrisinho.
=8=
Haila e eu caminhávamos pela orla da praia, aproveitando os últimos raios de sol. Leaf e Chiclete iam marchando a nossa frente, enquanto Abóbora e Couve-Flor nos ladeavam. Era engraçado ver como a semente tinha realmente se apegado a Haila e eu ficava muito feliz por ele.
Lila tinha se despedido na metade da tarde, ela tinha planos de passar o resto do dia na companhia de Clarice, fazendo compras com a menina na vã tentativa de desenrolar algum romance entre Bulba e Grangran.
— Você está bem? – Haila perguntou de repente. Encarei-a sem entender. – Você está muito quieto...
— Sim, eu só estava pensando na ligação de mais cedo – disse sem jeito, enfiando as mãos nos bolsos.
— Cheren disse que Roxie está bem, achei que isso te deixaria feliz.
— Sim, eu estou feliz por ela.
— Então? – Ela curvou a sobrancelha esperando que eu continuasse. Eu tinha me esquecido como era ter Haila por perto, que nunca se contentava com minhas tentativas de desviar o assunto e sempre me fazia dizer o problema.
— Cheren disse que confia em mim.
— E isso não é algo para se ficar feliz?
— Sim, mas isso é estranho, eu não fiz nada para merecer isso.
E percebi pela expressão dela que entendeu onde eu queria chegar. O maior problema era que eu não sabia lidar com aquelas palavras. Era estranho imaginar que alguém que eu julgava quase como desconhecido poderia dizer aquilo para mim, enquanto por semanas eu me digladiava sobre a confiança que meus Pokémon depositavam nas minhas escolhas. Eu não era esperto ou invulnerável, não era como se fosse a pessoa certa para se depositar muita confiança.
— Diz isso por causa dos seus Pokémon? Achei que você já tivesse resolvido isso.
A verdade é que eu também, mas depois de falar com o falso Ixia e oferecer Couve-Flor para Haila, eu tinha ficado com uma ponta solta. Na verdade, duas. De acordo com Cassie, Peach tinha visto algo em mim e por isso decidira me acompanhar na viagem, mas ela não me obedecia e não parecia que confiava em mim, mas na pior das hipóteses, eu poderia devolve-la a menina quando achasse necessário. Foie Gras era uma situação ainda mais critica, eu poderia dizer que não sabia nada sobre ele. De todos os meus Pokémon, ele era o mais isolado e negligenciado, até mesmo mais que o Absol, que relutantemente tinha ingressado no meu time. Eu não tinha talento para com ele, e ele nenhum interesse em mim. Eu o alimentava e o mantinha seguro e para ele, isso parecia ser o suficiente, mas qualquer treinador, mesmo o mais inexperiente, sabia que isso não levaria ninguém a lugar algum.
— Eu sei o que o Ixia nos disse, mas eu não acho que essas palavras servem para todas as situações. Quer dizer, o que vou fazer com a Peach e o Foie Gras?
Quando meus treinos com Haila começaram, eu tentei treinar ambos, mas Peach, embora colaborativa quando Chiclete estava participando, ainda era bastante desobediente e depois de um estranhamento entre a Pokémon e Serpio, que parecia vê-la como um apetitoso lanchinho, achei que seria mais seguro mantê-la na Pokéball. Foie Gras por outro lado, me ignorou totalmente, ficando o tempo todo no galho de uma palmeira onde treinávamos. Ele não participava, não interagia com meus outros Pokémon e nem relutava quando eu o chamava de volta. Não importava se eu dava Pokéblocos ou tentava interagir com ele, era como se minha presença para ele não fizesse diferença.
— Talvez eu devesse libertá-lo – falei por fim, encarando o dia que se esvaia rapidamente.
— Achei que você tivesse desistido disso – ela cruzou os braços, visivelmente brava pelo que eu dissera.
— Mas não há nada que eu possa fazer...
— Acha que minha situação com o Serpio é fácil? – E se virou pra mim. – Acha que gosto de andar com uma bomba ambulante que a qualquer descuido pode se voltar contra mim? Nem todo Pokémon é fácil de lidar, Deedee.
— Mas...
— Não tem nada demais, se você não consegue se dar bem com ele, tente. Se você quer que ele goste de você, faça algum esforço. Mas se você realmente não se importa, admita isso e não coloque a culpa sobre ele. – Ela estava muito brava, e eu sentia que aquelas palavras não eram apenas para mim, mas também para si mesma, como uma forma de se convencer de todas as incertezas que a companhia de Serpio provocavam.
Haila estava certa, o Pidove tinha sido meu primeiro Pokémon capturado e embora eu tivesse ficado muito feliz com a captura, eu realmente nunca tinha lhe dado o devido valor. Eu tinha capturado Couve-Flor no mesmo dia, e de alguma forma, criado um elo maior com a semente. Eu tinha pensado em várias formas de tornar Pidove mais ativo no meu time, mas quanto mais tempo se passava e mais problemas eu arranjava, menos tempo eu dedicava para solucionar nosso relacionamento.
O tal vínculo do qual tanto me orgulhava e que era muito firme com Chiclete e Bacon, nunca tinha se formado entre nós e até mesmo Simi ou Leaf eram muito mais próximos de mim do que a pequena ave.
— O que eu deveria fazer?
— Você pode deveria tentar treiná-lo, conquistar a confiança dele. – Ela disse sabiamente. – Mas talvez esse não seja o momento. Você tem o Contest para se preocupar, e agora tem o Absol no seu time...
— Mas é isso que venho fazendo – completei com um muxoxo. – Tudo o que aparece sempre parece mais importante do que treiná-lo. Eu não quero continuar assim.
— Talvez seja como a Roxie – e aquele sorrisinho cínico novamente. – Talvez ele precise de umas férias de você.
Ela realmente tinha gostado daquela piada. O problema é que eu não via como me afastar mais de Foie Gras poderia ser vantajoso.
— Eu me lembro de uma vez, quando o Jaden estava tendo problemas com o Wailord, ele o deixou um tempo no DayCare e depois tudo voltou ao normal. – Ela comentou pensativa. Fez uma careta ao citar o nome do irmão, mas realmente lhe parecia algo válido.
— E como uma separação pode fazer as coisas voltarem ao normal? – Perguntei sem entender.
— Fez para nós, incendiário.
Por mais que não estivesse totalmente convencido disso, de certa forma Haila tinha razão. Meu tempo longe dela me fez perceber como sua amizade e companhia eram importantes para mim e como ela era muito do meu norte. Talvez, um tempo sem ter Pidove a mão me fizesse pensar seu significado no meu time, assim como também seria um tempo para que o Pokémon avaliasse sua situação em relação a mim. Mas eu não poderia simplesmente larga-lo em qualquer canto.
— Acha que é uma boa eu deixa-lo em um DayCare?
— É uma opção, mas eu não acho que você vá ter dinheiro para isso...
— Eles são pagos?
— Claro – me encarou como se eu tivesse dito a coisa mais estupida do mundo. – Existe um especialista que irá tratar do seu Pokémon nesse meio tempo, não achou que alguém iria fazer isso de graça, achou?
Na verdade, achava. Eu não sabia praticamente nada sobre eles, exceto que eram um tipo de creche para Pokémon.
— Eu não tenho dinheiro para isso – choraminguei. Entretanto, era para uma causa nobre e talvez minha mãe concordasse com isso. Não sem me passar um sermão, mas se ela não me dava dinheiro para os meus luxos, certamente não recusaria para o bem estar de um dos monstrinhos.
Puxei o Xtransceiver e liguei para minha mãe, não demorou para que ela atendesse. Ela me encarou demoradamente, depois espiou Haila, por cima do meu ombro.
— Ah, sua namorada está de volta – disse animadamente enquanto eu fechava a cara. Acho que Haila estava tão acostumada a ouvir esse tipo de coisa que nem seu deu ao trabalho de comentar. – E então, vocês vão vir para o lançamento do meu livro? –Questionou com os olhos brilhando.
— Que livro? – Haila perguntou me encarando confusa.
— Ah, depois eu te explico – cochichei para ela. – Não, mãe, não vamos ter tempo para isso, você sabe. – Começava a me arrepender de ter ligado.
— Então, a que devo sua atenção, já que você nunca liga para sua mãe – choramingou exageradamente.
— Eu preciso de dinheiro – os olhos fingidos se estreitaram e me encararam através da telinha.
— É só para isso que você se lembra de mim – rugiu. – Pois que eu me lembre, alguém disse que seria independente e faria as coisas ao seu próprio jeito, imagino que isso inclua ganhar dinheiro.
— É para uma boa causa – ótimo, ela iria usar minhas palavras contra mim. Adizia não disse nada, apenas curvou as sobrancelhas esperando que eu continuasse. – Eu preciso de dinheiro para deixar um Pokémon no DayCare.
— Por que você precisa de um DayCare? – Claro que ela iria perguntar, eu não queria contar a história, mas não tinha saída.
— Eu preciso deixar o Foie Gras lá por enquanto, até nós nos acertarmos.
— Foie Gras?
— Sim, meu Pidove.
E foi só falar a palavra Pidove que a expressão dela mudou por completo. Minha mãe amava Pokémon, mas muito mais Pidove. Ela tinha Violeta, que era filha de uma Unfezant que ela usava em Contest.
— Por que você quer deixar seu Pidove num DayCare? – E pelo tom ela estava brava, não dramaticamente brava, brava de verdade.
— Bem, eu não me adaptei muito bem com ele e tenho negligenciado sua criação. Achei que seria uma boa saída deixá-lo num DayCare até que as coisas se resolvessem...
— E como as coisas vão se resolver se você vai abandoná-lo? – Rugiu.
— Eu não vou abandoná-lo – rebati firme – é só... – mas comecei a me enrolar, eu não sabia nada de DayCare, mas não era só um deposito de Pokémon pelo que Haila havia me dito.
— Esqueça essa ideia estupida, eu não vou te dar um centavo para isso. – Negou com a cabeça.
— Mas mãe...
— Se você acha que ele precisa de um lugar, por que não aqui?
— Ai? – Repeti maquinalmente e pareci idiota o fazendo.
— Sim. Está é sua casa, você pode mandar seus Pokémon para cá se quiser, eu vou cuidar deles.
— Sério? De graça?
— Isso é jeito de falar com a sua mãe – e Haila riu, mas não debochadamente. Imagino que ela não tivesse esse tipo de relação com os pais e para ela deveria ser diferente a maneira como Adizia e eu nos relacionávamos.
— Isso é mesmo sério? – perguntei ainda inseguro. – Ou é só por que é um Pidove?
— December!
Não me parecia má ideia. Minha mãe adorava Pidoves, Violeta estaria lá e ele seria muito bem cuidado pela minha família, além disso, era de graça.
— Acho que está bem, então – disse me preparando para desligar o aparelho, quando Haila me deu um cutucão.
— Não seria bom ver se Foie Gras está bem com isso?
A loira tinha razão, não importava o que eu ou minha mãe decidíssemos, a escolha final seria dele. Peguei a Pokéball e libertei o monstrinho. Ele deu um voo baixo, em semicírculo até pousar no chão, não muito longe de onde Leaf, Chiclete, Abóbora e Couve-Flor brincavam. Apesar da distância, ele não fez menção de se unir ao grupo.
— Oh, ele é realmente pequeno – resmungou minha mãe, através do Xtransceiver. E realmente era, perto da Pallaluna, Pidove da Cassie, Foie Gras parecia um filhotinho. Virei o Xtransceiver em outra posição, para que minha mãe pudesse vê-lo melhor, mas ele virou o rosto arrogantemente ao ser enquadrado. – Ele é bem temperamental.
— Um pouco – respondi sem muita convicção.
— Vá, pergunte a ele – Haila me empurrou quase me jogando em cima do Pokémon.
— Oi, Foie Gras – e ele continuou com a cara virada. – Eu sei que temos um relacionamento distante, mas eu gostaria de melhorar isso. – Nenhuma reação. Estava começando a me sentir um idiota em falar com um Pokémon que não me dava moral. – Eu estive pensando que talvez você merecesse umas férias, para pensar na nossa relação sabe. Talvez uma temporada no DayCare... Ou talvez você gostaria de ficar com a minha mãe.
— Olá Foie Gras – e a voz esfuziante saiu do meu Xtransceiver, foi tão alto que a ave se sobressaltou. Então voltou seus olhinhos para a telinha e encarou a mulher ruidosa do outro lado que acenava animadamente como que para uma criança pequena. – Eu peço perdão pelo meu filho que não soube cuidar de um Pokémon tão nobre, mas nós gostaríamos muito de corrigir isso. Se você vier viver comigo, posso te dar toda atenção que você merece e se no futuro, quiser voltar com esse idiota, será sua opção.
Minha mãe não estava ajudando nada me chamando de idiota, mas tinha conseguido a atenção da ave, o que eu já considerava um sucesso. Ele demorou um tempo, mas depois de um pio alegre que eu nunca tinha ouvido e fez um aceno com a cabeça.
— Está tudo bem mesmo? – Perguntei incerto e ele fez o mesmo gesto. Pela primeira vez desde que o capturara, ele parecia feliz e isso me deixava feliz também.
=8=
Estávamos perto do Centro Pokémon, de forma que minha mãe praticamente me obrigou a realizar a transferência naquele momento mesmo. Ela desligou o aparelho apenas o tempo de sair de casa e ir até o Centro da cidade e quando se posicionou, me telefonou novamente.
Fiquei feliz de o Centro estar vazio e rapidamente, minha Pokéball foi de Undella até a longínqua Aspertia. Quando ela o recebeu, libertou-o imediatamente e ele deu um pequeno voo até parar sobre seu ombro. Ele nunca fizera nada disso comigo, mas eu também nunca dera muitas chances a ele. Eu me perguntava se agora, ao lado da minha mãe, um dia ele iria retornar para mim.
Quando minha mãe desligou, fiquei um longo tempo encarando a máquina de transferência que aguardava ser utilizada de novo. Eu me sentia estranho. Era como se tivesse tirado um grande fardo dos ombros, mas me sentia culpado por não ter mais que pensar em o que fazer com Foie Gras. Eu o negligenciei e no final, sobrara para outra pessoa consertar meus erros. Não era como se eu realmente tivesse evoluído.
— Você não deveria estar triste, afinal, ele está com a sua mãe – Haila se posicionou ao meu lado.
— Parece que eu estou trapaceando – resmunguei ainda encarando a máquina.
— Por que diz isso?
— Eu simplesmente me livrei dele, ao invés de resolvê-lo como você tinha me dito para fazer – senti minha voz oscilar, eu iria chorar a qualquer momento.
— Eu sei o que eu disse – respirou fundo – mas aquele é meu ponto de vista, não significa que esteja certo. Não significa que funcionaria com você. Além disso, também fui eu a sugerir umas férias entre vocês. – Eu queria realmente acreditar naquilo, mas eu ainda me sentia inseguro, como se tivesse tomando a saída mais simples, o caminho mais fácil. – Se meus Pokémon estiverem felizes, será o suficiente para mim.
— Eu te disse isso – encarei-a ao ver que ela usara uma frase que eu dissera várias vezes. Principalmente depois do nosso encontro com o falso Ixia.
— Então acredite no que você diz.
Haila tinha razão, Foie Gras estava feliz e para mim, isso bastava. Não adiantava me martirizar ou ter pensamentos egoístas, ele não era feliz comigo e dificilmente eu o faria, não sendo o tipo de pessoa que eu era naquele momento.
— Bem, estou morrendo de fome – ela mudou de assunto. – Talvez devêssemos comer aqui perto – e passou a mão pelo cabelo curto que vez ou outra caia sobre os olhos.
— Haila, eu preciso de um favor.
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