Rota Zero

67 Vírgulas e pontos finais.


Notas iniciais
Oi pessoal! Tudo bem? Eu sou meio boca grande as vezes. Eu sinto que como tudo já ta em chamas que ta no final da fic, que o próximo capitulo sempre é o ultimo. mas não quer dizer necessariamente que estejamos a dois do final. Então não se preocupem, como já sabem não corremos com desenvolvimento e ainda tem muuuita coisa pra rolar. Sobre o capitulo, ficou gigante e eu decidi não separar porque como o nome sugere são apenas virgulas e pontos finais. Coisas que precisam definir, rever, analisar e botar fim... além é claro, de sentir.

Haila

VÍRGULAS E PONTOS FINAIS.

Ele segurou meu braço gentilmente, mesmo assim o movimento enviou uma onda de dor ao meu corpo. Trinquei os dentes para não gemer, queria parecer forte para Dee e os outros na minha frente, mas acho que minha expressão deixou parte disso a desejar.

— Você deu muita sorte, sabe – o socorrista comentou com um leve sorriso no rosto, nada como diversão, o sorriso dele transmitia uma certa tranquilidade, talvez até alivio.

Todos que me atenderam comentavam algo parecido. – A bala perfurou seu braço, mas não acertou diretamente nenhuma veia importante ou osso. Um centímetro pra direita e provavelmente você precisaria de uma transfusão ou quem sabe pior.

A memoria trabalhou depressa, trazendo a cena de volta a minha mente como no momento em que eu havia vivido aquilo. Chutei o Team Plasma a minha frente e seu companheiro reagiu depressa. A dor demorou um segundo pra se espalhar. A principio houve apenas o impacto.

Logo em seguida a cena era Jaden, seus olhos tomados por uma fúria assustadora, ordenando ao Pokémon Steel que atacasse os próprios companheiros. Serrei o punho e balancei a cabeça, voltando à realidade, desejando em pensamento que ninguém tivesse percebido meu devaneio. – Tudo certo agora. Você só precisa de descanso, – o socorrista comentou depois de fechar a presilha da tipoia no meu braço.

— Obrigada! – Tentei responder com um sorriso, mas aparentemente eu tinha feito algo certo na vida quando decidi não ser uma atriz.

— De nada, – respondeu se levantando, – tente fugir das balas da próxima vez, – e com uma piscadela foi embora, para a próxima maca ocupada a minha esquerda. Mal sabia ele o quanto isso poderia ser difícil.

— Ataduras trocadas, – Deedee comentou casualmente, como se estivesse me convidando a falar.

— Porque estão todos me olhando? – Perguntei olhando para o rosto curioso dos três, – eu já disse. Não suporto mais isso aqui, vamos logo.

— E pra onde iriamos? – Lila perguntou devagar, como se tivesse medo de perguntar.

Eu tinha pensando muito sobre isso e parecia haver apenas dois caminhos a se fazer. Ir em frente com a busca por Lenora e Rose, ou voltar pra casa. Um deles ainda sim, me parecia muito mais logico. – Marlon está fazendo a segurança da região da Seaside Cave, Cheren e Roxie estão investigando regiões costeiras, Elesa ta enfurnada em Nimbasa e Burgh em Castelia, e quanto a Clay... – torci o beiço, – mas Skyla estava disposta a ir atrás da Team Plasma, não dos lendários. Acho que é a melhor opção.

Desmond abriu a boca para dizer algo, mas pareceu ponderar por um segundo, antes de voltar a falar, – com os lideres de ginásio divididos desse jeito não sei se poderão derrotar a Team Plasma. Mas Haila, – fez uma pausa e eu já sabia o que ele ia dizer, – você acha que seria bom ir lá, depois de tudo?

Ele se referia ao que eu fizera com Skyla e seu Pokémon. Parecia haver tanto tempo isso que às vezes eu fingia ter me esquecido desse episódio, mas acho que eu sempre carregaria aquilo comigo. – Temos informações, ela vai ter que me ouvir de qualquer maneira. Além disso, talvez seja a hora de pedir desculpas.

=8=

Foi muito mais difícil conseguir uma carona do que pensávamos. A caminhada para fora da cidade, indo em direção à rodovia, foi também pior do que eu esperava e talvez, não fosse pelo fato de já ter sentido dor parecida, eu não teria aguentado a ardência no meu braço.

Agora havia cicatrizes dos dois lados. Eu estava cheia delas. Uma leve lembrança na testa de quando Tom tinha me empurrado no penhasco. Quatro num ombro por causa da mordida de Serpio. Mais duas na panturrilha vindas do ataque do Crygonal na Seaside Cave. Uma do mesmo lado, na parte exterior do braço, vindo do tiro de raspão no telhado do hotel em Black City e agora o furo de batalha ficaria no meu braço esquerdo para me lembrar sempre do dia em que descobri que meu irmão me traíra e a Unova.

Esse pensamento ficou dançando na minha mente enquanto sentíamos o balançar do caminhão que aceitara nos dar carona até Mistralton City. Horas de viagem, vendo paisagens frias e tristes, apesar do sol ainda brilhando sobre nossas cabeças.

Quando finalmente chegamos à cidade, tarde da noite, estávamos exaustos. Lila cochilara no ombro de Desmond e Dee, sentado ao meu lado, estava tão quentinho que quase adormeci encostada a sua nova blusa roxa.

No Centro Pokémon, apenas uma mulher mais velha com uma Lilligant via o noticiário sozinha, sentada no sofá vermelho. O enfermeiro de plantão estava olhando o computador, digitando coisas aleatórias no programa de texto.

Conseguimos um quarto e depois um banho rápido me arrastei para a beliche debaixo para Dee como de costume. Os outros conseguiram dormir depressa, mas o sono demorou a me pegar. Eu chorei sozinha à noite com raiva de mim mesma, por ainda me sentir tão mal por tudo aquilo.

Mas lagrimas não mudariam o que eu vi.

=8=

Já tinham se passado horas e a lugar nenhum havíamos chegado. Era um desperdício completo de saliva e tempo, nada mais do que isso. Minha perna balançava sem parar enquanto eu ouvia Airgon, pai de Skyla e Looker voltar à discussão sem fim, assim como da ultima vez que estive ali, meses atrás.

Depois de detalhar todo o acontecido em Opelucid ao grupo eu só tinha uma função ali, garantir que uma posição concreta fosse tomada finalmente e para minha sorte o primeiro grito de Airgon tinha sido ao meu favor;

— Isso é um ato de guerra, dezenas morreram, centenas estão desaparecidas e milhares desalojados, – bateu na mesa com tanta força que fez os olhos de Dee vacilarem por um instante com a surpresa. – Precisamos caça-los.

— Eu concordo, temos sido passivos a toda essa situação. Permitimos que a Team Plasma tivesse espaço para recuperar sua força, – era a primeira vez que eu ouvia a voz de Marshal, o Elite Four tipo lutador. Ele tinha chegado junto a Shantaul. A moça parecia ter perdido certa parte do brilho no olhar, sua expressão parecia vazia, mas ainda sim rígida e com o mesmo ar imponente de sempre. A perda de Iris tinha realmente mexido com a mulher.

Foi inevitável que a cena final de Jaden voltasse a minha mente, a frieza com que ele agia, a segurança em seu olhar. Não precisei pedir a Dee que não dissesse nada sobre Jaden durante os depoimentos, ele se manteve firme e simplesmente “esqueceu” de relatar o fato do Team Plasma loiro que atacara Iris ser meu irmão.

Mas o nome de Deidran não havia sido esquecido. Contamos cada detalhe que conseguimos nos lembrar do nosso breve dialogo, da morte cruel do pai de Iris e demos o melhor possível à descrição da Team Plasma que acompanhava o monstro.

Roxie erguera o olhar, atenta a cada palavra que dizíamos, as cores no rosto dela mudavam de vermelho a mais pálido que o normal de acordo com que repassávamos tudo. Provavelmente lembrando-se do seu próprio desespero ao receber nossa ligação avisando oque estávamos indo fazer. Termos a informado antes do ocorrido tinha levado os Rangers até lá e de certa forma nos salvado.

O detetive Looker, Skyla, o mesmo líder Ranger que vinha nos acompanhando e os representantes da policia local não conseguiram expressar muito além do que suspiros e vez ou outra cochichos entre meio as anotações, pasmos com o que vivemos.

— Engraçado você dizer isso Marshal, – o tom de Looker transpirava irônica, – até agora tudo o que você fez foi dar entrevistas e alegar que tudo está na santa paz. Não o vi levantar e ir atrás de uma sequer pista.

As feições do Elite four se contraíram, de forma que seu rosto ficou assustador, – você deveria ter mais respeito com pessoas mais poderosas, Looker. Você não quer sair com hematomas.

— Suas ameaças não me preocupam, sabemos muito bem de onde seu titulo de Elite veio, – rebateu sem ter medo, – temos preocupações maiores aqui. Três grandes operações da Team Plasma debaixo do nosso nariz, – respondeu parecendo indignado, como se a intriga não tivesse sido lançada por ele.

— Eles estão claramente um passo a nossa frente, – Skyla admitiu em pé no fundo da sala assim como da ultima vez que eu estivesse ali. Não tive coragem de encara-la diretamente, mas acompanhava de canto de olho seus movimentos. – Odeio ter que admitir, mas nossa única chance de parar a Team Plasma é capturando os lendários antes dela. Não sabemos sua real intenção com eles, mas sabemos que os lendários tem relação direta com isso.

Roxie soltou uma risada irônica, – não deixa de ser hipócrita da parte deles capturar Pokémon lendários para tentar libertar outros Pokémon, – ela fez uma pausa e pareceu refletir, – temos que tomar uma atitude agora, mostrar repressão o quanto antes. A Team Plasma esta ganhando confiança e saindo das sombras.

“Nossa melhor trainer está morta, o maior risco deles já foi derrotado. Hilbert e Nate, os antigos Champeon estão fora de alcance e Alder já não é mais o que era antes. Temo que eles finalmente resolvam sair da obscuridade e venham com tudo pra cima de nós. – Fechou a mão com força, – essa é uma batalha que não sabemos se podemos vencer.”

— A única coisa que eu sei é que eles vão pagar, – Shantaul não ergueu o olhar para dizer aquelas palavras. Ela parecia num estado de torpor, anestesiada, mas ainda em pedaços por dentro.

Looker tirou os óculos de leitura por um instante e cruzou as pernas, deixando seu bloquinho de notas de lado após terminamos. – Três grandes ataques atrás de lendários, em três cidades completamente diferentes e datas completamente distintas, – ele começou, sem deixar seu tom de voz assumir qualquer sentimento que pudesse ser lido, – e vocês tiveram participação em todos eles. Isso me parece bem improvável – ele se dirigiu a mim e a Dee, me fazendo gelar por dentro.

— Haila salvou a vida de Skyla durante o ataque de Nimbasa e não fosse por ela e Deedee provavelmente eu não teria escapado do atentado de Black City, – Roxie esbravejou e diferente de Looker a repulsa estava estampada em cada silaba dita. – Você não está colocando a lealdade dos dois em jogo, está?

Antes que eu pudesse ter qualquer reação, e provavelmente uma nada agradável para o detetive, ele continuou – só estou trazendo a tona um fato interessante relacionado aos dois. Vocês sabiam que eles estavam envolvidos em um suposto ataque a um bar em Castelia, onde um Team Plasma, nunca visto por outras pessoas além deles e uma amiga, matou o dono do lugar?

— Joslyn foi morto pelo mesmo homem que nos sequestrou em Humillai. Ou sugere que nós mesmos nos amarramos, ligamos para Roxie e levamos ela e Marlon até a Seaside Cave para frustrar os planos da Team Plasma, da qual você sugere fazíamos parte o tempo todo? – As palavras simplesmente foram saindo uma atrás da outra, um sentimento estava crescendo dentro de mim a ponto de eu não aguentar mais e ter que me levantar da cadeira.

“Estou cansada dessa palhaçada, estou cansada da inercia de vocês enquanto o mundo lá fora começa a desabar. Enquanto fazem reuniões, especulam motivos e criam intrigas, – meu olhar ainda estava firme no detetive, – a Team plasma está ganhando poder e saindo das sombras sem medo de vir com tudo. A campeã da Elite Four e um líder de ginásio foram mortos a sangue frio. Pai e filha. Se quer culpar alguém detetive, culpe a si mesmo pela sua incompetência”.

— Eu gosto dessa garota – Airgon apontou pra mim.

— Não deveria, – Looker continuou, – Clay só retirou a queixa contra o ataque do Pokémon dela por causa da sua filha, que inclusive ela atacou em seguida à queima roupa, segundo meus informantes. Ela não deveria estar aqui.

Meu coração deu um salto, foi como se uma faca gelada me cortasse por dentro. Eu sabia que isso seria um fardo que eu teria que carregar, minhas escolhas quando eu estava sem Deedee não eram louváveis e eu teria que lidar com elas mais cedo ou mais tarde, mas eu não podia imaginar que elas viriam à tona dessa forma e principalmente não naquele momento.

Minhas pernas pareceram querer ceder por um instante e tudo o que consegui fazer foi dar as costas a eles e ir em direção à saída. – Você tem razão, eu não deveria. – Eu não tinha argumento quanto isso, a vergonha estava ali o tempo todo e eu não tinha cabeça pra lidar com isso, não agora. Eu já tinha feito minha parte, já tinha dito tudo o que sabia e estava cansada de brigar. Estava cansada de me sentir responsável, estava cansada de estar envolvida nisso tudo.

Mas eu tinha me entregado a situação e não podia mais parar. Não havia outro caminho.

— Haila, – Dee correu até mim, tocando meu ombro bom, o que estava sem a tipoia, – ele está errado, você sabe disso.

O problema era que ele não estava. Clay tinha sido um efeito colateral de Serpio, mas com Skyla não foi bem assim. Eu queria feri-la, eu queria fazê-la pagar por não me permitir ficar com ela. Não foi por traição, eu não estava do lado da Team Plasma, mas agora que minha credibilidade estava em jogo isso não importava.

— Aparentemente seus informantes sabem de tudo, menos do que deveriam, – Skyla se pronunciou com arrogância. – Haila queria batalhar para provar que era forte o suficiente para ir atrás da Team Plasma junto a mim. Quando eu recusei ela tentou me forçar a lutar porque tudo o que ela mais queria era fazer o que pessoas como você não tem colhões pra fazer. Lutar. – Era a primeira vez ela não mantinha o tom condescendente, a raiva estava clara. – O temperamento dela é repreensível, mas sua lealdade inquestionável, assim como a de Deedee. Faça melhor seu trabalho e foque no que é realmente importante, não na vida de dois garotos.

— Acho que você se esquece de que a captura de N e das irmãs dele só ocorreu devido aos meus esforços e o da minha equipe, líder Flying.

— Não use esse tom com minha filha, – Airgon esbravejou. – Sabemos que as irmãs de N se entregaram assim que souberam da captura dele. Não tente levar credito por algo que não fez, isso apenas piora sua imagem. Ainda mais depois do interrogatório, elas ainda afirmam não saber nada. – Ia começar de novo, o mesmo rodeio e brigas.

Eu não tive coragem ainda sim de me virar para encarar os olhos de Skyla. Eu podia sentir meu coração batendo, o sangue percorrendo pelas minhas veias e meu ombro queimar. Eu estava cansada de tudo aquilo. Não estava disposta a continuar, o que eu tinha que dizer já havia sido dito.

— Eu preciso ir, – sussurrei só para que Deedee pudesse ouvir.

— Vou com você – sussurrou de volta tirando a mão que ainda segurava meu ombro. Ele sabia como eu me sentia, ele me entendia melhor do que qualquer um entendia.

Voltamos a caminhar em direção a porta e Marshal interveio, – onde estão indo? Ainda não terminamos.

— Mas nós já acabamos, não há mais nada pra tirar de nós – Deedee rebateu com uma firmeza incomum. Ele estava tentando me defender.

— Deixe eles Marshal, eles precisam descansar – Roxie se intrometeu.

Não esperamos para ouvir resposta, apenas batemos a porta atrás de nós, passando pelos policias que faziam a segurança do encontro, evitando chamar atenção dos repórteres parados a poucos metros da entrada. Aparentemente nem uma reunião com dois Elite Four e dois lideres de ginásio era mais segura ou secreta. As coisas estavam mudando depressa e não parecíamos estar vencendo.

— Como você está? – Dee perguntou assim que saímos do ginásio.

O tempo estava nublado e um vento frio cortava Mistralton City, o aeroporto estava pouco movimentado, muito menos do que da primeira vez que eu estivera ali. A maioria das aeronaves estava em solo e não pareciam ter planos pra arrancar do chão.

Os jornais continuavam noticiando a tragédia de Opelucid e a contagem de mortos parecia subir mais a cada dia, não só vida humana, mas Pokémon também. Campanhas para enviar mantimentos, roupas e cobertores aos abrigos improvidos estavam na TV, no radio e nos alertas dos Xtransceivers.

Repórteres de outras regiões estavam chegando a Unova para cobrir o rompimento da represa. As ações da Team plasma estavam tomando proporção global graças à mídia e isso afetaria diretamente o comercio, o turismo e até mesmo a indústria, segundo Roxie, trazendo Unova para uma possível crise financeira em médio prazo.

E ainda por cima, de alguma forma a noticia de que a Team Plasma estava atrás dos lendários estava começando a correr e isso apenas prejudicaria ainda mais o processo dos Lideres e da policia para deter o grupo extremista. Mas ainda sim a morte de Iris e Draiden ainda estava sendo guardada em segredo. Pânico se instauraria na região se as pessoas soubessem que até mesmo o melhor treinador da região sucumbira ao poder da organização.

Muita coisa estava incerta naquele momento, mas uma verdade estava crescendo no coração das pessoas e no meu. Algo ainda pior estava para acontecer e uma guerra estava a ponto de estourar, mas desta vez, diferente das outras tentativas do grupo extremista, eles não tinham medo de matar para conseguir o que queriam.

— Sinceramente, – o fitei por um instante antes de continuar, – estou cansada e com medo do que está por vir.

— Queria que pudéssemos ter ido aquele SPA – comentou quase em um suspiro. Deedee parecia muito abatido ainda e eu temia por ele depois de termos presenciado a morte de Draiden.

Dee era a pessoa mais boa que eu conhecia. Nutria sentimentos por qualquer um que o desse cinco minutos de conversa e isso era bom, mas em uma guerra, durante o caos e o fogo da batalha isso poderia se usado contra ele. E mais do que isso, as consequências do que ele vira e vivera poderiam deixar feridas nele, que eu temia ainda mais nunca se recuperarem.

Tentei sorrir para deixa-lo mais calmo, mas não obtive muito sucesso. Eu não conseguia tirar Jaden e Deidran da cabeça por um instante sequer. Eu realmente precisava aprender a ser menos sincera. – Sabe, eu continuo odiando quando você tem razão.

— Eu sempre tenho razão – ele disse fazendo uma cara engraçada.

— Claro, – concordei dando um tapinha no ombro dele com meu braço bom, – como quando você resolveu separar a briga entre Leaf e Peach, ou ateou fogo no restaurante de Joslyn, ou decidiu pular na frente do ataque do chiclete, ou decidiu pular aquele balcão no centro Pokémon pegando fogo...

Ele fez uma careta meio que segurando o riso e rebateu – como eu disse, sempre tenho razão.

=8=

“– A chuva piora ainda mais o trabalho das equipes de busca, o numero de mortos continua subindo de acordo com que os Pokémon conseguem rastrear, mas o numero de desaparecidos ainda excede em grande quantidade o numero de corpos encontrados. Não temos uma estimativa correta ainda Grenna, mas esperamos poder confirmar esses dados dentro das próximas horas.”

As pessoas no Centro Pokémon acompanhavam o noticiário com atenção, qualquer noticia relacionada à Opelucid causava o mesmo efeito. Um monte de rostos tristes e preocupados voltados para TV, prestando atenção em cada novo nome de vítima divulgada ou pista, muitas vezes equivocadas, sobre a Team Plasma.

O tempo estava chuvoso e frio lá fora, o que nos prendia na sala comum do Centro Pokémon com mais meia dúzia de pessoas, vestidas com roupas pesadas. Normalmente o lugar estaria cheio de vozes e movimento, mas as pessoas estavam começando a evitar sair de suas casas, ou locais consideravam seguros.

Um ar de urgência corria o olhar de algumas pessoas que vez ou outra entravam pela porta principal em direção ao Mart. E mesmo aquelas seis pessoas ali que insistiram em não se abalar pelos acontecido e seguiram suas jornadas ou sua rotina sem mudança, inexplicavelmente usam um tom de voz mais baixo ali, como em sinal de respeito ao acontecido.

— O que você acha que vai acontecer quando a noticia de Iris se espalhar? – Lila perguntou se encolhendo ao lado de Desmond, no sofá vermelho.

— Nada de bom, provavelmente – Dee respondeu sem olhar-lhe diretamente.

Estávamos esperando noticias de Roxie, uma atualização sobre como afinal de contas tinha terminado a reunião e que decisão tinham tomado a cerca da Team Plasma. Como se já não esperássemos mais inercia por parte deles.

— Minha avó está cogitando sair de Unova por algum tempo e quer que eu a acompanhe, – Desmond jogou as palavras no ar. Saibamos que ele não iria, ele queria ficar conosco e nos ajudar no que pudesse, mas havia certa angustia em suas palavras.

A porta do Centro Pokémon se abriu sozinha, dando caminho à líder de ginásio venenoso. Demos um salto, ficando de pé enquanto ela vinha na nossa direção balançando o guarda-chuva que escorria uma boa quantidade de agua. O olhar de Roxie nunca mais fora o mesmo, sempre era ornamento por olheiras cobertas por maquiagem e um olhar sóbrio e pesado.

Nos cumprimentou com um movimento de cabeça e depois perguntou – tem algum lugar mais privado onde podemos nos falar?

— O quarto – Dee sugeriu, – estamos, os quarto dividindo um. Ninguém mais aparecerá.

Subimos as escadas depressa e nós sentamos nas beliches, depois de conferir mais de uma vez a trinca. – Boas noticias? – Lila perguntou com um sorriso educado no rosto.

— Nunca são realmente, – admitiu, dando uma pausa para tomar ar em seguida. – Elesa se manterá onde está, tentando descobrir qualquer coisa a partir dos transcritos de Lenora, mas o restante de nós começará a se mobilizar.

Desmond soltou um som em contentamento, como se finalmente alguém estivesse tomando alguma decisão ajustada. Mas eu não fiquei tão satisfeita. – É tão simples assim? Draiden e a filha morrem e agora está tomando mundo interessado em ir atrás da Team Plasma? – Tive que perguntar, aquilo estava explodindo dentro de mim.

Ela balançou a cabeça negativamente, – não atrás da Team Plasma, atrás dos Lendários – respondeu com firmeza – não estamos vencendo Haila, a Team Plasma está jogando com a gente. Você acha que Lenora foi sequestrada por que precisavam dela? Eles sempre estiveram dois passos a nossa frente, todas às vezes eles chegaram ao lendário antes que soubéssemos onde ele estava. Eles a pegaram para nos desestabilizar, para brincar conosco. Não importa as idiotices que Grimsley e Looker digam, é nisso que eu acredito.

Todos a encarávamos atentamente, tentando absorver cada palavra do que ela dizia – eles não enviaram aqueles soldados em Black City para nos matar, se eles o quisessem provavelmente já estaríamos mortos. A quantidade de soldados e equipamentos na Seaside Cave deixou isso claro. Eles queriam nos mostrar até onde estavam dispostos a ir se voltássemos a interferir em seus planos, e conseguiram assustar alguns.

— Conseguiram? – Lila perguntou inocentemente.

Roxie a encarou por um instante e algo parecia passar por seu olhar, um sentimento que não pude definir perfeitamente. Algo como tristeza ou apenas dor, mas ela não deu atenção a isso, prosseguiu. – Equipes de buscar saíram por Unova indo atrás de cada pista coletada, vamos atrás de qualquer possibilidade, rumor ou boato. Levantaremos cada pedra se for preciso.

— Isso teve alguma coisa haver com o envolvimento da mídia internacional? – Deedee perguntou. As outras regiões estavam começando a tentar interferir em Unova e a opinião publica estava se voltando contra o presidente. Sem duvida ele colocara pressão sobre as forças armadas, Ranger e os lideres de ginásio para que tomassem uma atitude.

Roxie ergueu as sobrancelhas e sorriu – então quer dizer que vocês acompanham noticiário?

— Não passa outra coisa – Dee deu de ombros.

Ele balançou a cabeça positivamente e deixou que seus ombros dessem uma caída, nos encarando com uma expressão desanimada, – se eu pedir que vocês deixem toda essa confusão conosco e que vão pra casa, vocês vão me ouvir?

— Provavelmente não.

— Não.

— Desculpa.

— Você sabe que não, – respondemos todos praticamente ao mesmo tempo.

– Eu prometi que resolveria a questão, – disse direcionada pra mim.

Eu confiava em Roxie depois de tudo o que passamos. Quase levar uma facada e ser caçada a noite inteira junto da pessoa, de alguma forma acaba te unindo ainda mais a ela. Isso significava que quando o momento chegou depois que ela nos encontrara no caminho a Mistralton City, eu havia contado toda a verdade a ela. Cada detalhe dela.

E ela prestara atenção em cada palavra dita por mim e Dee, sem nos interromper até que finalmente ela estava em dia com os acontecimentos. E ao contrario do que imaginei, não me encheu de perguntas quanto a Jaden. Quis saber o básico e apenas informações que talvez pudessem ajudar a encontra-lo, mas nada além disso. De certa forma essa atitude me enchera ainda mais de confiança em Roxie, porque pra mim estava claro que ela confiava em mim.

— Não faça promessas que não pode cumprir. Essa não é uma questão que simplesmente se possa resolver – fiz um movimento brusco com o braço ilustrando a expressão. – Jaden está com a Team Plasma, ele é um deles e uma hora mais cedo, outra hora mais tarde algum de nós vai acabar o enfrentando – ergui o queixo ao dizer, – espero apenas que seja eu.

Ela pareceu ponderar um pouco e então se levantou, ajustando o vestido curto que vestia, na cintura. O guarda-chuva ainda pingava criando pequenas poças no chão. – Não a grupo de busca formado ainda. Dentro dos próximos dias essa situação deve mudar. Mantenham-me informada sobre qualquer decisão que vocês tomarem e, por favor, – seu cenho franziu – tomem cuidado, eu não posso ficar cuidando de vocês agora.

— Vamos tomar – Dee preocupou-se em responder.

— E não se esqueçam de ligar para os seus pais, – Roxie disse assim que chegou a porta, nos encarando com um olhar ameaçado. – Todos vocês, – disse descaradamente pra mim. – Eles devem estar preocupados e acredite ou não, eles amam vocês.

E é claro, era exatamente o que eu gostaria de fazer naquele momento. Deu uma piscada antes de fechar a porta atrás de si, nós deixando sozinhos no quarto minúsculo do Centro. Roxie era excepcional.

— Falei com minha avó hoje cedo e você Lila? – Desmond quis saber.

— Nunca falei com sua avó, mas preciso mesmo ligar para os meus pais, eles não tem noticias de mim desde Opelucid – Lila comentou abaixando a cabeça, olhando para o dispositivo de cor laranja em seu braço.

Eu não tinha me perguntado realmente em como meus pais estavam se sentindo desde que nós falamos em Nimbasa. Eu não tinha mais uma casa para voltar, segundo meu pai, mas esse fato não me incomodava mais. Eu tinha uma nova família agora, amigos que eu escolhi por algo muito mais forte e poderoso do que uma mistura de genes. Eu os tinha escolhido e eles me aceitado.

Em outro momento eu desabaria se voltasse a ouvir a voz do meu pai, mas nada do que ele pudesse me dizer poderia me ferir. Talvez eu realmente ligasse para casa, pela minha mãe, por Corin, mas ainda não estava na hora.

— Adzia vai ficar louca comigo, – Dee pareceu satisfeito em dizer aquilo, – não ligo pra ela há uma vida.

Alcancei seu cabelo com meu braço bom e puxei uma mecha para o alto, – acho que talvez pudéssemos dar um jeito nesse seu ninho de Patrat antes de ligar pra ela desta vez.

— Se eu ligar – respondeu com má vontade.

Foi então que alguém bateu na porta, a abrindo em seguida. A principio pensei que fosse Roxie que tinha se esquecido de nos ameaçar desta vez, mas antes que eu pudesse ver o rosto do visitante me dei conta de que ela jamais bateira na porta pra entrar onde estivéssemos.

O rosto de Skyla surgiu um momento depois, ela estava molhada, mas não parecia estar com frio, – com licença, – disse cortes, – eu posso falar com você Haila?

Senti como se uma onda elétrica percorresse meu corpo e algo gelado surgisse em meu estomago. Olhei para o pessoal a minha volta antes de conseguir articular uma resposta, mesmo que simples, – claro.

— Estávamos mesmo indo dar uma volta, – Desmond se levantou depressa.

— Não será necessário, – Skyla pediu colocando a mão no ombro do garoto, – eu na verdade gostaria de dar uma volta com você, se estiver tudo bem – pediu de forma educada.

Apenas Dee podia saber a intensidade do desconforto que eu estava sentindo naquele momento. Eu procurei evitar o olhar de Skyla toda reunião e até o momento não tinha direcionado nenhuma palavra diretamente a ela, não fora por somente cumprimentos casuais.

Eu não tinha cara para agir como se não tivesse a atacado, como se não tivesse ferido seu Pokémon e mesmo depois de fora de combate ainda querer varrer o chão do aeroporto com suas penas.

Não podia negar que esperava que ela ainda guardasse raiva de mim, talvez até mesmo repulsa, mas ali, olhando para seus olhos, não pude notar esse sentimento. Na verdade ela parecia completamente confortável e solícita.

— Tudo bem, – agarrei minha blusa em cima da cama, a cinza e surrada, e me despedi dos outros com apenas um movimento de mão. Eu deveria ter sido mais calorosa para o caso de Skyla resolver me matar e jogar meu corpo em uma vala, mas quando sai pela porta já era tarde demais.

Acelerei um pouco os passos para alcança-la. O som do seu salto contra o piso do Centro Pokémon era o único que ecoava pelo corredor. Era quase como se houvesse apenas nós no edifício.

— Roxie comentou que você decidiu se especializar em Pokémon tipo Grass – comentou de forma casual, com um sorriso tranquilo no rosto.

Meu coração ainda batia depressa, mas de alguma forma consegui atuar de forma magistral uma falsa ideia de tranquilidade da minha parte também, – sim, eu consegui me inscrever em Opelucid antes que tudo acontecesse.

— Sua Leafeon tem potencial, é a melhor que já conheci – se estivéssemos em outra situação, talvez meses atrás esse comentário teria surgindo com um efeito de euforia, mas hoje, naquele lugar tudo o que pude fazer foi sorrir e balançar a cabeça em uma afirmativa.

A chuva já havia parado quando chegamos à saída do Centro Pokémon, mas um vento frio ainda cortava do lado de forma. Skyla continuou me perguntando frivolidades até que chegamos a uma praça no alto de uma pequena ladeira.

Demos uma olhada nos bancos e comentamos sobre o fato deles estarem molhados até finalmente nos encostarmos as barras de proteção mais a frente que dava uma vista interessante da parte mais baixa da cidade.

— Eu não venho aqui há anos, – comentou olhando a vista, – o ginásio não me da tempo para esse tipo de coisa. Além disso, são raros os dias em que posso ir ao mercado fazer compras sem ter que parar para cumprimentar uma pequena multidão.

Lideres de ginásio eram subcelebridades, isso estava claro. Alguns mais que outros. Roxie e Marlon eram quase estrelas. Ela pelos palcos e ele pelas competições de Surf. Enquanto lideres como Cheren de cidades menores não tinham tanta notoriedade.

— Mas não estamos aqui pra comentar o fato de você ser famosa, suponho – tentei ser direta. Eu não gostava de joguinhos e quanto mais tempo passava, mais ansiosa eu ficava. Ao passo que minha perna agora subia e descia sem parar enquanto eu fingia olhar a vista a minha frente, encostada a barra de proteção.

Skyla suspirou de forma devagar, deixando o ar sair e entrar com lentidão. Seu olhar estava fixo no nada, mas eu podia notar seus dedos tamborilando a barra de metal enferrujada – você sempre vai direto ao ponto, não é mesmo? – Disse em um tom de voz tranquilo. – Encontrei com Roxie saindo do Centro Pokémon, ela me disse que já tentou falar com vocês sobre a Team Plasma.

Então era sobre isso que se tratava. Ergui minha sobrancelha surpreendida com a atitude da líder. – Infelizmente temos uma decisão tomada, – disse rápido e com clareza, tentando demonstrar firmeza.

— Você vai acabar morrendo se seguir esse caminho, Haila – seu timbre estava baixo e vacilante, mas não tive coragem de olhar seu gosto para poder constatar qualquer expressão. – de alguma forma você e seus amigos parecem estar destinados a se envolver nisso tudo, mas às vezes o melhor é não se entregar a situação. Volte pra casa.

Eu podia sentir meu coração batendo, ouvir o som da minha respiração acelerada junto ao barulho das folhas nas arvores sendo balançadas pelo vento. Podia sentir meu peito vibrar enquanto o sangue era bombeado e meus olhos começarem a marejar.

Me virei para ela e fui acompanhada pelo mesmo movimento, nós duas estávamos frente a frente pela primeira vez desde o acontecido. – Eu não tenho uma casa pra voltar e mesmo se tivesse, acredite quando eu digo que lá não é o meu lugar.

— Nessa guerra também não, – ela respondeu depressa, negando com a cabeça. – Você pode ter idade legalmente para comprar uma casa e morar sozinha, Haila. Mas isso não quer dizer que você não é uma criança e que não tem direito a viver isso.

— Eu não posso, tá bom – contestei tentando não demonstrar o quanto aquilo me incomodava, – eu sei o que está passando pela sua cabeça. Que ainda continuou sendo movida pela raiva, que vou acabar me autodestruindo e eu não te culpo por isso. Mas as coisas mudaram. Eu mudei. Eu cheguei ao meu limite àquela vez, Skyla, e não estou disposta a repetir isso.

— Então volte pra casa, – repetiu com mais veemência, – se preserve. Se dê oportunidade de viver uma vida plena e completa. Aproveite seus amigos, treine e estude para se tornar uma especialista. Deixe que nós resolvamos isso, essa é nossa luta e eu juro fazer o que puder para honrar a morte de Simi.

Foi como se dezenas de agulhas perfurassem minha pele quando o nome do Pokémon foi dito. Skyla ainda se lembrava para dizê-lo, enquanto eu não fazia ideia do qual era o nome do Braviary que ela perdera aquela noite.

— Isso não tem mais haver com Simi, não tem haver com o que eu sentia quando nos...

— Tem haver com seu sendo de responsabilidade deturbado, – impôs, passando por cima de mim, usando um tom de voz desnecessariamente rude. – Você não tem que salvar o mundo Haila, essa não é sua responsabilidade. Você não pode agir como se fosse.

— Eu não preciso salvar o mundo,– gritei finalmente, fazendo um movimento brusco que fez meu braço na tipoia arder, – preciso salvar só os que me importam. Eu não quero saber do destino de Unova, ou quem vai regir a região. Mas sei que com a Team Plasma nenhum amigo ou Pokémon que eu gosto vai estar seguro. Então não posso parar, não posso porque eu não consigo suportar perder mais nada. – Mesmo assim dei um passo para frente, chegando perto o suficiente de Skyla para que ela pudesse sentir meu hálito e continuei – por que você se importa? Por que se importa se eu viva ou morra tentando? Eu te ataquei, feri seu Pokémon e teria te deixado igual se Leaf não tivesse parado, – estava cuspindo enquanto falava, mas eu não me importava mais, – por que fingir que se importa com isso depois de ter brincado comigo e me chutado, sua vadia? Por quê?

Ela não se abalou com meus gritos, se manteve firme me olhando nos olhos, sem titubear. – Porque eu vejo mais de mim em você do que eu gostaria. A determinação, a vontade de lutar, de sair de casa e derrubar tudo até conseguir o que quer. A fúria no olhar e raiva queimando dentro si. Eu era exatamente como você quando mais jovem.

Vacilei, dando dois passos para trás. Eu podia esperar muita coisa de Skyla, mas nunca imaginei que ela fosse me dizer algo parecido. Ela era forte, decidida e completamente independente. E por mais que eu odiasse admitir, ela era o que eu queria me tornar.

— Quando minha mãe morreu meu pai se tornou alguém extremamente fechado e controlador. Ele tomava conta de cada passo meu, cada momento do dia. Hoje sei que foi por medo de me perder, mas na época eu não via dessa forma – revelou sem cerimonia, como se fossemos velhas amigas. – Assim que completei idade, assim como você sai de casa. Vivi muita coisa, vi muita coisa, muitas delas nada agradáveis. Mas enquanto crescia percebi que o que realmente amava eram Pokémon Flying assim como meu pai. Relutei durante algum tempo em aceitar isso, mas percebi que o pior erro que você pode cometer contra si mesmo é deixar de ser quem realmente é por causa dos outros. Mesmo que esse outro seja seu pai.

“Sei que não passamos pelas mesmas coisas. Não temos os mesmos pais e você não levou tanto tempo para se descobrir como eu, – seu tom de voz agora era tranquilo e convidativo, como se ela estivesse louca para compartilhar aquilo comigo. – Mas eu também conheço essa raiva, essa vontade de ser mais forte e melhor para que ninguém possa te comparar a ninguém. Não pense que eu estou fazendo isso por você, sei que não precisa. Estou fazendo por mim mesma e pelo que gostaria que tivessem feito por mim quando podiam”.

— Skyla, eu não sei... – tentei, mas ela continuou.

— Não precisa...

— Preciso sim, – essa foi minha vez de fazê-la parar. – Eu senti que perdi tudo, foi uma coisa atrás da outra. Meu pai, Dee, Serpio, Clay e por fim você. A ultima coisa que me restava era ferrar com a Team Plasma e quando você me tirou isso não sobrou nada – fiz uma pausa, estava sem folego. – Eu enlouqueci, mas isso não justifica minha atitude. Minha Pokémon foi mais sensata que eu. – Meu coração estava disparado e eu podia senti-lo a cada batida, – Achei que você me odiasse depois disso e não sei como agir... – tentei mover os braços, gesticular, mas a pontada no braço me fez ficar quieta, – o que eu quero dizer é, eu estava errada. E eu odeio tudo isso.

Então, contra todas as reações logicas possíveis, ela sorriu. – Você está crescendo muito rápido.

— Não acho que vou crescer muito mais, – tentei desconversar sem graça colocando a mão na cabeça. Eu não gostava dessa coisa de elogios.

— É pouco provável realmente, – reconheceu em tom de brincadeira e eu sorri de volta, talvez por nervosismo, não sei dizer. Mas estava sorrindo.

Senti que minha respiração ficava mais tranquila e minha pulsação se ajustava enquanto nos olhávamos. Era como se o vidro de uma janela em um quarto abafado se quebrasse e uma brisa refrescante invadisse tudo.

Imagino que se fossem outras pessoas renderiam o assunto, tentariam expor totalmente seu ponto de vista acerca daquilo e provavelmente até chorariam depois de se ajustarem, mas eu sabia que não erámos pessoas “normais”. Estávamos resolvidas e pedidos de desculpa não se faziam necessários.

Ficamos em silêncio por um tempo, sentindo frio sem deixar transparecer, olhando a vista a nossa frente, até que Skyla resolver perguntar – você tem alguma ideia de pra onde ir agora?

— Pra ser sincera não.

— Clay esbarrou em algo, – revelou sem me olhar, com o rosto ainda virado para frente. – As novas escavações para a construção do novo ginásio acabaram revelando uma rede de tuneis que era desconhecida a todos.

— Você acha que pode ser o esconderijo pra um lendário?

— Pra ser sincera? Não – sorriu, – mas acho que vale a pena ser verificado. Além do mais, – inclinou um pouco a cabeça para o alto. Estava voltando a chover, – não seria ruim resolver outros assuntos pendentes.

=8=

Continuei encarando o Xtransceiver no braço durante algum tempo. E apesar de a única pessoa a me ligar constantemente ser Cilan, eu não me arrependia mais de tê-lo adquirido. Mas agora, olhando para ele, eu não conseguia deixar de pensar no quão mexida eu ficava quando pensava em ligar para casa.

— Se você não quer ligar não precisa realmente – Dee comentou casualmente. Estávamos sentados sozinhos em uma cafeteria do Centro Pokémon. Nossas reservas financeiras estavam começando a se esvair, mas resolvemos nos dar ao luxo de comer um bom pedaço de torta e tomar chocolate quente, enquanto Lila e Des iam para o tal quiosque de sucos.

Olhei para as presilhas de Audino no cabelo de Dee e me lembrei daquele dia em Nimbasa, minutos antes do ataque, quando apostamos corrida até o quarto no Centro Pokémon. Havia quase o mesmo tempo que eu não falava com meus pais.

— Talvez eu devesse por causa de Corin, – admiti, mas por mais que eu sentisse muito saudade dele a repulsa que sentia do meu pai ainda era maior. Meus sentimentos ainda estavam confusos em relação à Jaden. Raiva, isso estava claro. Magoa, nojo... mas eu não sabia mais dizer se era apenas uma somatória de tudo, ou se no final ele ser um Team Plasma fazia o joguinho dele junto a meu pai se tornar irrelevante.

— Eu acho que você tem que fazer o que você sente vontade, – deu de ombros, – como se você já não fizesse.

Eu dei um sorrisinho orgulhoso, – não ver o Clay nunca mais na minha vida?

Ele deu de ombros, – até ver Skyla em Nimbasa eu não fazia a mínima ideia de que ela existia. Acho que você consegue evitar aquele velho durante o resto da sua vida, pelo menos. – Eu ainda me perguntava que tipo de programas Deedee via na TV quando ainda morava em casa. Lideres de ginásio apareciam em todo o tipo de eventos e comemorações. Era um trabalho gratificante, mas ao mesmo tempo ordinário.

— Segundo Skyla há uma possibilidade de um dos Lendários estar na rede de cavernas descoberta por Clay na semana passada, – trouxe o assunto de volta à tona. – Infelizmente essa é a coisa mais próxima de uma pista que temos para poder encontrar Rose e Lenora.

Ele balançou a cabeça positivamente, não parecia nada animado com a proposta. Opelucid ainda estava muito clara em nossa mente. A morte de Draiden tinha mexido muito com nós dois, mas imagino que ainda mais com Dee.

Mesmo quando Joslyn foi atacado pelo Team Plasma no restaurante em Castelia não vimos realmente sua morte. Mas com Draiden fora totalmente diferente. Foram longos segundos agoniantes até que ele parasse de se convulsionar.

Balancei a cabeça negativamente tentando afastar o pensamento e puxei uma grande quantidade de ar aos pulmões. – E quanto a você, o que quer fazer?

— Pedir dinheiro a minha mãe – comentou revirando os olhos,– como se aquela velha ordinária fosse me dar alguma coisa.

— Pedir não custa, afinal.

Antes que Deedee pudesse realmente decidir se ligaria ou não, o Xtransceiver começou a tocar. Ele virou a tela na minha direção com a expressão tomada de surpresa e uma leve pontada de tedio. Pulou pra o banco ao lado do meu e selecionou o ícone para atender a mãe. Adizia surgiu na tela alguns instantes depois. Estava em algo parecido com um escritório, com uma prateleira repleta de livros atrás de si. Em seu rosto um enorme sorriso se mostrava. Não aqueles sociais para cumprimentos, mas um largo e carismático, como se ela tivesse ganhado um prêmio.

— O que aconteceu com a sua cabeça? – Arregalou os olhos e perguntou depressa, antes que pudéssemos sequer terminar de ler suas feições.

— Bom dia para você também, – Deedee respondeu com um tom um pouco ríspido, – estou bem, obrigado por se preocupar.

Adizia não se importou com o comentário do filho, ergueu apenas uma sobrancelha e lançou um olhar curioso sobre mim. – Então você voltou também, achei que mais cedo ou mais tarde o ogro do meu filho se redimiria com contigo.

— Estou o colocando na linha, senhora Charleston – brinquei já preparada para ouvir o pequeno ruído emitido por Deedee de descontentamento. Mal sabia Adzia que eu era na verdade a má companhia que ela deve ter aviso ao filho para não andar.

Ela pareceu ficar satisfeita com o comentário e fez um leve movimento de cabeça como uma afirmativa, ou quem sabe até uma permissão. – Tenho ótimas novas, um livro meu será publicado!

— Mais um livro você quer dizer, – Dee ressaltou fazendo careta. – Você não está nem um pouco preocupada com o estado do seu filho nesse pandemônio que Unova está se tornando?

Ela balançou a cabeça negativamente e respondeu como se aquele tivesse sido o comentário mais besta do mundo, – claro que eu me preocupo. Que tipo de mãe você acha que eu sou?

— December – chamei a atenção dele para que tentasse diminuir um pouco a rispidez de seus comentários. Inutilmente eu sabia, mas se eu tivesse uma mãe como Adizia Charleston eu provavelmente agiria com mais respeito.

— Bem, a Editora concordou em fazer publicação dentro dos próximos meses, o que será muito bom para as economias da família – continuou de forma orgulhosa.

— Já ouvi toda essa palhaçada antes – Deedee balançou o Xtransceiver como se sacudisse a própria mãe, – você só falou de você mesma até agora.

Adizia gritou algo em repreensão ao ato de selvageria do filho e fechou a cara, – como posso ter colocado uma criança tão impaciente no mundo? Do que você precisa cria? Se for dinheiro eu não tenho.

— Você não acabou de dizer que o livro será ótimo para as economias da família? – Dee gritou, a voz dele saiu até mesmo esganiçada, me fazendo cair na gargalhada. Adizia o deixava louco e eu adorava aquilo.

— Fará, ainda não fez – Adzia ressaltou, – além do mais você agora é independente.

Deedee bufou e virou o rosto, de forma tão infantil que tive que intervir, – por que não lê um pouco pra nós senhora Charleston?

— Não dê corda, não dê corda Haila – Deedee disse com urgência. Mas já era tarde, Adzia já estava foleando o livro e sua voz em uma instante começou a invadir o Centro Pokémon, com uma ênfase silábica surpreendente. Parecia até mesmo uma atriz de telenovelas estrangerias.

Apesar de toda a empolgação, dentro de poucos minutos eu já me arrependia de tê-la pedido para ler. Deedee por duas vezes tentou deitar no meu ombro, mas eu o impedi de me obrigar a passar por aquilo sozinha. Até que houve um momento em que eu mesma parei de prestar atenção e os Pidove bicando a grama, do outro lado da janela se tornaram mais interessantes.

— Vocês estão prestando atenção? – Adizia nós chamou, me fazendo voltar do meu devaneio tedioso.

— Claro que estamos, senhora Charleston, – respondi o mais rápido que pude, dando um leve cutucão em Deedee para que ele parasse de fingir que estava dormindo fazendo o garoto dar um pequeno pulinho.

— Então, o que acharam da introdução do meu novo livro? – E o brilho foi retomado por seus olhos, – pode ser sincera, querida, – me perguntou com mais veemência me fazendo corar. Eu não tinha prestado atenção.

— Bem, é um pouco longa de mais e um tanto brega, – desviei meus olhos do dela, mas era a mãe de Dee afinal, então eu podia ser sincera. – A senhora não fica constrangida escrevendo essas coisas tão piegas?

— Não sei por que estou pedindo a opinião de duas crianças que mal saíram das fraldas, – comentou fazendo uma carranca. Acabei ficando ainda mais constrangida, aparentemente ela não tinha gostado nada do comentário.

— Foi você quem ligou e começou com essa papagaiada toda. – Dee respondeu em um tom rude. – Afinal, você ligou só para se gabar do seu livro novo?

— Eu estava com saudades de você, filho desnaturado. Qual foi a última vez que tive notícias sua? – Eu já sabia exatamente de onde Dee tinha puxado todo o drama.

— Semana passada? – Deedee respondeu girando os olhos.

— Deedee, pega leve. É sua mãe, ela deve ter saudade – tentei freá-lo um pouco. Eu não conseguia imaginar o quanto aqueles dois deveriam brigar em casa.

— E falou à garota que fugiu de casa – me olhou fazendo outro careta, sendo mais irônico do que o normal. Quantos anos ele tinha mesmo?

— Haila, você deveria conversar com seus pais. Você sabe que esse lance de fugir de casa nunca termina bem.

— Mas não foi você quem acabou de falar que a juventude é inconsequente? – Dee arrastou a voz, deixando em um nítido tom de deboche.

— Não use só o que for conveniente a seu favor.

— E quando esse livro vai sair?

— Não sei ainda, o editor precisa revisar, mas deve ser em breve. Por quê? Você vai comprar um exemplar? – Um sorriso fino se formou no meu rosto.

As bochechas de December se inflaram e ele pareceu bastante indignado com meu comentário. – Mulher mercenária, você deveria me dar um de graça.

— Mas não se preocupe Haila, vou te enviar um autografado. – Ela sorriu sem graça e agradeceu, enquanto December ficava ainda mais revoltado com a situação.

— Bem, vamos nessa, mãe. Mande um beijo para o velho. – Ele acenou para a mãe e me deu um leve toque de ombros. Aparentemente não seria dessa vez que Adzia ajudaria financeiramente.

— Cuidem-se e não se metam em problemas. E cuidem bem dos seus parceiros Pokémon.

— Não se preocupe, nós só vamos atrás de um lendário e depois derrotar a Team Plasma. Fora que precisamos fazer a Haila alcançar o nível máximo de especialista... – ele ainda queria irritar mais a mãe e claro, queria que eu entrasse na onda.

Normalmente eu não faria isso, mas quem era eu pra tentar fazer com que Dee respeitasse sua mãe. Então decidi entrar na onda, afinal, depois do meu ultimo comentário, Adizia já deveria estar irritada comigo. – E você precisa ganhar mais fitas – o interrompi depressa.

A mulher reagiu na hora, arregalando os olhos antes de perguntar; – Espera, que história é essa de lendário e Team Plasma?

Deedee desligou o Xtransceiver e tomou uma longa dose de ar, inflando o peito. Parecia satisfeito com seu trabalho corriqueiro de irritar a mãe. – Então é isso mesmo? Vamos mesmo atrás dos lendários? – Perguntei me levantando da mesa.

Ele deu de ombros, – você acha que Adzia gostaria disso?

— Provavelmente, ela deve amar – respondi com um sorriso irônico no rosto.

— Então Driftvil City? – Perguntou ignorando o Xtransceiver que voltava a tocar em seu braço.

Franzi o cenho meio contrariada ainda sim e respondi com desanimo. – Isso não vai ser divertido.

=8=

Acordei no meio da noite depois de outro pesadelo. Mais uma mistura disforme de momentos vividos desde Nimbasa. Minha testa estava suada e minha boca seca, meu coração batia depressa, mas eu tinha aprendido com o tempo a me recuperar depressa depois de abrir os olhos.

Gostava de contar às pessoas que eu tinha criado algum laço desde que saíra de casa. Isso não podia ser manipulado nem subvertido. Sequer planejado por outros, simplesmente acontecera e eu pensava nelas como uma vitória.

Levantei devagar e ainda descalça resolvi descer ao saguão para tomar um gole de agua. Assim que tomei o corredor Dee surgiu pela porta. Seu cabelo parecia um ninho de Patrat, meio pra cima como se tivesse levado um choque.

Ele mal conseguia abrir os olhos, mas sussurrou – está tudo bem? Onde você está indo?

— Volte pra cama, – respondi fazendo um movimento com o braço indicando o quarto, – só vou tomar agua.

Ele fechou a porta atrás de si e veio andando atrás de mim, – eu também quero. Vou com você.

O chão estava frio ao toque, mas era gostoso. Fazia tempo que eu não andava descalça por ai e a sensação ajudou a tirar as lembranças do sonho ruim da minha mente. O saguão principal agora estava vazio, apesar de não ser muito mais que onze da noite.

Me fartei no bebedouro próximo ao pé da escada e enquanto Deedee bebia meu olhar foi de encontro aos telefones na parede. A ultima vez que eu tinha usado um, havia falado com a Professora Juniper e assim como Roxie, ela me encorajara a ligar pra casa.

Havia vários meses que eu tinha saído da casa, mas agora parecia que anos tinham se passado. Fechei os olhos por um instante e percorri novamente o corredor que levava do meu quarto até as escadas e a sala logo embaixo. Senti a textura do sofá e fui em direção à cozinha.

Um vazio se apoderou de mim ao lembrar de minha mãe fazendo biscoitos, com Corin sentado a mesa, balançando as pernas curtas no ar, quanto Jaden lavava a louça. Nem tudo naquela casa tinha sido ruim. Nem tudo oque eu tinha passado tinha sido traumático.

Houve um tempo em que ainda ecoavam risadas por aqueles corredores. Em que o cheiro de tortas, biscoitos e cozidos preenchiam o ambiente. E eu nunca ia voltar pra lá.

Fui andando quase que inconscientemente em direção ao telefone e o tomei nas mãos. Meu dedos ficaram imóveis sobre as teclas, enquanto eu escutava o som grave do aparelho dando linha. Esperando que eu dissessem com quem eu queria falar.

— Se você decidir eu vou estar aqui do seu lado, – Deedee disse baixinho. As luzes do Centro Pokémon tinham sido quase todas apagado. Apenas um ou duas mais finas no teto nos impediam de ficar na penumbra.

— Eu tenho medo, – admiti ainda olhando pras teclas ao lado da tela. – Medo de ele me odiar por tê-lo deixado.

— Corin nunca faria isso.

— Como eu posso saber disso? – Minha voz saiu mais alta e descontrolada do que eu queria. – Eu o deixei lá sozinho. Ele teve de aguentar toda a loucura do nosso pai esse tempo todo, sozinho.

Ele deu um passo, ficando com o ombro colado ao meu e sorriu, antes de segurar minha mão com força. Senti uma leve dor no braço enfaixado, onde a tipoia deveria estar, – você só vai saber se ligar. Ou, se sentir melhor assim, continue sem saber.

Digitei os números depressa, porque se parasse para pensar ia desistir dessa ideia estupida. Era tarde para os padrões dos meus pais, provavelmente meu pai atenderia o telefone, nervoso por alguém atrapalhar seu sono.

Me odiei por não ter parado pra pensar no que diria antes de ligar, mas já era tarde, no quarto toque a tela se acendeu. Um rosto pequeno surgiu curioso na tela. Corin estava de pijama laranja e com o cabelo maior.

Parecia mais velho e mais alto também. Não consegui conter o sorriso e a vontade de chorar explodiu dentro de mim. – Haila? – Ele quase gritou, saltando pra mais perto da tela. – Haila é você mesmo?

— Sou eu Corin, e esse é Deedee, meu companheiro de jornada – apontei para o lado e Dee acenou.

— Haila, por Arceus, é você irmãzona – sala expressão foi mudando e seus olhos se encheram de lagrimas, – você sumiu, achei que nunca mais ia te ver...

— Eu sei, me perdoe...

— Seu cabelo – ele comentou enquanto seus olhos dançavam na tela, – o que houve com seu braço? Quando você vai vir me ver? Você vai vir, não vai?

— Eu vou Corin, vou atrás de você não importa o que aconteça. Eu prometi não foi?

Ele colocou as mãos na tela e seus lábios começaram a franzir. Seu queixo começou a tremer e as lagrimas começaram a escorrer, – eu sinto tanto a sua falta. Você e Jaden... achei que tivessem me esquecido. Pensei que não gostassem mais de mim.

Senti um no na garganta tive que segurar com muito mais força a mão de Dee para não chorar, – eu... nós te amamos Corin, – disse com dificuldade, – e vamos continuar, não importa quanto tempo passe. Assim que eu puder vou correr pra ai, eu vou socar nosso pai se for preciso, mas eu vou te tirar dai. Você vai vir comigo.

— Papai disse que você não ia mais voltar pra casa – a voz dele estava aguda, alta demais. As lagrimas estavam escorrendo pelo seu queixo. – Disse que não era pra falarmos seu nome.

— Eu juro Corin, – a luz do corredor atrás de Corin se acendeu. Meu pai tinha acordado. Eu precisava desligar. – Haja o que houve, eu vou atrás de você.

— Haila, por favor... – ele não conseguiu completar a frase.

— Tenho que ir. Eu te amo!

E apertar aquele botão foi à coisa mais difícil que eu fiz em muito tempo, mais difícil do que invadir uma represa sitiada por Team Plasma. Meus dedos pareciam estar congelados, eu não consegui apertar no primeiro segundo, – eu também te amo, Haila, – ele respondeu e meu pai surgir sem camisa pelo corredor. Nossos olhos se encontraram por um segundo, mas diferente dos meus não havia surpresa nos dele, apenas o mesmo ar orgulhoso.

Quando a tela se apagou meu braço queimava. Minha pulsação estava tão acelerada que eu podia senti-la na ferida ainda se fechando. Mas isso não era nada perto do que eu estava sentindo.

Comecei a chorar sem vontade de esconder. Um choro baixo, mas forte, tomado de angustia, saudade e promessas. Deedee me puxou contra ele e me envolveu nos seus braços, fazendo todas as minhas ultimas barreiras ruírem e todo meu corpo começar a se enrijecer.

Meu nome tinha sido proibido e isso tinha me quebrado por dentro. Serrei os punhos e tentei ignorar a dor, era só isso que eu tinha feito desde Nimbasa. Como mamãe podia permitir aquilo? Como minha própria mãe podia aceitar que o nome da filha se tornasse um tabu? Raiva explodiu dentro de mim, invadindo cada célula do meu corpo, queimando por dentro.

Jaden se unira a Team Plasma e eu era a desgraça da família para o meu pai. Eu era a Mareep negra.

— Eu vou tira-lo de lá, Dee – disse entre meio os dentes. Meu corpo chegava a vibrar de raiva, – eu vou tira-lo de lá nem que seja a ultima coisa que eu faça. Assim que essa guerra acabar. Assim que eu garantir que Unova seja um lugar seguro pra Corin.

— E eu vou estar com você, vamos dar um ponto final nisso, – ele sussurrou de volta, me apertando ainda mais forte contra seu peito. Ele não sabia se conseguiríamos, se alguém ainda poderia parar a Team Plasma.

Puxei Dee contra mim com mais força, eu só queria me sentir segura por um instante. Só queria esquecer que Jaden me traíra por um instante. Eu só queria deixar aquela dor de lado cinco minutos e dormir sem sonhar com mortes, sangue e traição.

Dormir sem ter medo de acordar com uma arma sobre meu rosto, ou pior, o de Dee. Eu só queria que tudo aquilo acabasse, porque eu estava exausta.

Notas finais
Muita coisa? Espero que não, escrever isso foi tão rapidinho que nem senti. 9k que pra mim pareceram 3 quando eu li de novo.