Rota Zero
68 Chuva em Twist Mountain - parte 1
Notas iniciais
December
CHUVA EM TWIST MOUNTAIN — parte 1
— Assuntos pendentes – Haila bufou exageradamente, eu praticamente poderia vê-la espumar. – Skyla, aquela vaca. – não que realmente Haila achasse isso da líder, mas considerando seu humor, vaca até tinha sido um elogio perto do que a menina poderia proferir. – Aquele gordo idiota simplesmente fechou a porta na minha cara antes mesmo de eu dizer o que vim fazer em Driftveil. – Falou encolerizada.
— Haila – Desmond cortou e esperou que a menina voltasse o olhar para ele – nós vimos, nós estávamos lá.
E cena tinha sido exatamente como Haila tinha dito. Quando o assistente de Clay abriu a porta do escritório localizado no centro da cidade, deixou escapar um risinho que só pareceu deixar Haila irritada. Ele nos fez esperar na calçada e sumiu pelo corredor. Quando Clay surgiu, com um gingado exagerado, balançando a barriga, foi apenas para bater com a porta na nossa cara, mais precisamente na da loira. E isso deixou Haila louca da vida, tão louca que ela chegou a chutar a mesinha do quarto no Centro Pokémon. Eu acho que ela teria dado um soco, mas o braço dela não estava tão bom assim.
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Driftveil não era exatamente como eu não imaginava. Era uma cidade relativamente grande, mas não como Castelia ou Nimbasa. A cidade era baixa e espalhada. Havia muitos bairros residenciais e o centro não possuía prédios muito altos. O visual não era moderno, mas não era tão rústico como eu esperava. Era uma mistura dos bairros mais afastados de Castelia com o centro de Aspertia e um pouco da poeira do vilarejo onde tínhamos conhecido Arthur e Tris.
O clima ali também não era como eu esperava encontrar, não havia a calamidade de Opelucid, o clima de tensão de Nimbasa ou luto velado que havia em Mistralton. Parecia apenas mais um dia comum, naquele final de tarde, as pessoas voltam do trabalho, cansadas, afrouxando suas gravatas e pensando no jantar. As crianças brincavam e os velhos discutiam sobre o tempo. Lembrava muito do que Aspertia tinha sido durante todas as outras ações da Team Plasma, como se não fosse problema nosso. E a considerar a posição que Clay havia assumido no último conselho em Nimbasa, Driftveil seguia o mesmo caminho.
Lila e eu estávamos maravilhados com a cidade nova, mesmo que não houvesse realmente nada para se maravilhar, mas Des e Haila não pareciam muito felizes, Haila principalmente. Embora o que Skyla tinha contado sobre Clay pudesse ser considerado uma pista quente, Haila suspeitava que na verdade, era um tiro na água e que a líder só tinha dito aquilo para nos tirar da jogada. O restante dos líderes tinha ido para Icirrus ou voltado para Nimbasa, se houvesse mesmo suspeitas de um lendário na região não faria sentido mandar os lideres para o lado oposto enquanto um grupo de crianças cuidaria do caso.
— Certo, vamos logo ver o Clay – Haila disse de repente, pegando um caminho que era diferente ao que deveríamos tomar para ir ao Centro Pokémon.
— Achei que íamos ao Centro... – Lila curvou as sobrancelhas.
— Sim, mas depois, vamos ver o gordo logo – bufou a loira.
— Achei que você não queria falar com ele – disse encarando-a.
— E não quero – revirou os olhos – mas quanto mais eu demorar, menos vontade vou ter de falar com ele.
— Qual é, Haila, já está escurecendo, por que não deixamos isso para amanhã? – Des sugeriu. O sol sumia rapidamente atrás da Twist Mountain, jogando uma coloração alaranjada sobre a cidade opaca. – Além disso, estamos todos cansados e você em um tremendo mau humor, não acho que seria muito vantajoso conversar com Clay nessas condições.
E realmente Haila estava em um humor terrível. Ela viera toda a viagem de Mistralton até Driftveil reclamando de que Skyla sempre a tratava como criança, mesmo que de forma velada e que ela deveria estar fazendo algo para salvar Lenora e não perdendo tempo sendo “relações publicas da líder voador”. O fato de termos vindo na caçamba de uma caminhonete velha torrando no sol não tinha contribuído para a melhora do seu humor.
O problema é que as palavras de Desmond não a dissuadiram de ver Clay o mais rápido possível, o que havia culminado na cena da porta.
Demorou um pouco para encontramos o Centro Pokémon, fosse porque Haila estava ocupada demais praguejando contra Clay ou porque ela tinha se perdido com o mapa, como era padrão. O Centro era exatamente como qualquer outro, exceto pelo fato que estava vazio. Quando entramos nossos passos fizeram eco no hall principal e o enfermeiro atrás do balcão até se surpreendeu com a nossa presença.
Diferente das outras vezes não ficamos todos no mesmo quarto, como o Centro estava vazio e não havia esperanças que novos treinadores precisassem dele, o enfermeiro sugeriu que ficássemos cada um em um quarto. No final, nos dividimos em dois quartos, Lila e Desmond em um e Haila e eu em outro. Apesar disso, após o jantar, nos unimos todos no quarto de Lila.
Chardy, Bulba e Butterfree corriam pelo quarto, junto com a Abóbora, em uma brincadeira que eu não entendia. Leaf e Couve-Flor estavam no beliche de cima, a Pokémon olhava o quarteto brincando com um ar extremamente entediado. O Liepard do Desmond continuava na Pokéball e para ser sincero não me lembrava de tê-lo visto antes. Imaginava que fosse algo como o Serpio da Haila e que fosse mais seguro mantê-lo encapsulado.
— Então vamos até o World Tournament amanhã? – Lila disse animada, unindo as mãos.
— World Tournament? – Questionei. Percebi todos olharem para mim como se tivesse dito a maior idiotice.
— Você sabe, a arena de batalha – Desmond disse com um tom enfadonho. –É um local para provar suas habilidades como treinadores – inteirou. – Eu disse durante o jantar.
— Achei que a Liga Pokémon servisse para isso – comentei. Durante o jantar, Des, Lila e Haila tinham conversando bastante, mas efetivamente, eu não tinha prestado atenção, mesmo que eu sorrisse e acenasse com a cabeça.
— A Liga serve para treinadores, mas o World Tournament testa suas habilidades como treinador de forma genérica, ou seja, qualquer um de nós pode se inscrever e participar. – Eu não sabia da existência disso e achava bem interessante. Eu sempre acreditei que cada grupo de treinadores ficava em sua respectiva panelinha e não interagia com outros grupos. – E eles pagam uma boa quantia para as melhores classificações.
— Mesmo? – Os olhinhos de Haila brilharam. Vivíamos com a grana contada, mas o caso dela era ainda pior, pois ela não poderia ligar para os pais pedindo uns trocados como eu fazia com a minha mãe.
— Sim, mas é muito difícil vencer. Cynthia é uma das desafiantes nas rodadas finais – e instintivamente fiz uma careta ao ouvir o nome da Champion de Sinnoh. Eu não tinha nada contra ela, mas tinha pegado um pouco da implicância que Roxie nutria pela mulher. – Além disso, – Des prosseguiu – com tudo isso que está acontecendo, o World Tournament deve estar em recesso, como os ginásios.
— Nós podemos ir até lá ver o prédio pelo menos – Lila sugeriu.
— Não estamos aqui para turismo, Lila – Haila respondeu fechando a cara. – E por mim, quanto menos ficarmos aqui melhor.
— Mas sua missão não era falar com o Clay? Você já fez não?– a morena disse ingenuamente. Obviamente que falar com Clay era mais do que ter a porta batida na cara.
Haila revirou os olhos e por mais que eu soubesse que a vontade dela fosse pegar suas coisas e ir para qualquer lugar de Unova que não fosse ali, também sabia que ela não iria aceitar aquele desaforo de graça.
— Eu vou ter que falar com ele novamente – disse com um tom vencido.
— Talvez se formos às escavações novas será mais fácil falar com ele, afinal lá não deve ter portas – Lila disse com simplicidade. Se fosse qualquer outra pessoa, Haila já teria chutado a bunda, mas era Lila, e a menina já tinha se acostumado ao jeito ingênuo da outra. – Além disso, o Word Tournament fica próximo as escavações – disse enquanto abria um mapa de Driftveil e apontava para pontos aleatórios.
— Onde conseguiu esse? – Haila observou.
— Com o enfermeiro – a morena disse animada.
— Por que é um mapa geológico? – A loira se inclinou tentando entender as curvas de nível e marcas geológicas.
— Aparentemente muitas pessoas vem aqui para mineração ou pesquisa de fosseis, então esse tipo de mapa é muito mais útil – explicou.
— E vai ser útil para chegar ao World Tournament? – Haila não conseguia se achar em um mapa normal, imagine um geológico.
— Parte do World Tournament é subterrânea. É uma caverna artificial que o Clay mesmo que construiu – explicou e ao ver nossos olhares espantando complementou – o Des disse durante o jantar, vocês não ouviram?
— Meu cérebro bloqueia tudo relacionado ao Clay – disse divertida, mas provavelmente ela não tinha prestado atenção.
Ao final, decidimos por visitar o World Tournament antes de tentar falar novamente com Clay. O resto da noite correu leve e divertida, com nossos Pokémon brincando pelo quarto, Lila comentando frivolidades e Desmond me enchendo porque eu travava toda vez que via Skyla. Haila não perdeu a chance de contar minha paixão platônica pela líder, obviamente não melhorei a situação dizendo que achava ela bonita, mas a personalidade dela me intimidava.
Eu queria dizer que aquele era um dos raros momentos felizes e de descontração que tivemos nos últimos dias, e mesmo que fosse verdade, ele me parecia tão falso. Não falso no sentido de estarmos fingido estarmos felizes conversando frivolidades. Mas não era algo natural, era como se nós nos obrigássemos a ter esse tipo de conversa para tentar esquecer o mundo ao nosso redor.
Mesmo que Haila estivesse me provocando por causa da Skyla ou irritada por causa do Clay, eu sabia que a mente dela vagava entre lembranças de Jaden com a Team Plasma e o destino de Lenora. Eu sabia que Lila rezava para que Marlon não tivesse o mesmo destino de Draiden e Des, bem, realmente eu não sabia o que o afligia, mas deveria ter algo, a avó talvez.
Eu sabia que se eu não me distraísse com conversas sobre garotas, eu seria arrastado para lembranças relacionadas a Iris. Havia uma pequena parte minha que ainda tinha esperança dela estar viva, já que ninguém ainda tinha encontrado o corpo, mas também havia uma parte minha que se culpava por ter mentido a um homem moribundo. É verdade que Iris estava viva enquanto Draiden agonizava nos meus braços, mas ainda me sentia culpado por ter dito que estava tudo bem.
— Você está um tanto quieto – Haila comentou após voltarmos para o quarto enquanto eu trocava seus curativos. Geralmente Desmond fazia isso, mas a loira tinha decidido voltar para o quarto antes mesmo dele terminar sua longa lista de conselhos amorosos para que eu pudesse conquistar o coração de uma mulher mais velha.
— Você também – embora ela estivesse bastante comunicativa para reclamar do Clay.
— Eu estive pensando...
— Jaden?
— Sim, mas não isso. Por que Skyla nos mandou para cá afinal? – E deu um suspiro exagerado. – Se realmente houvesse um lendário provavelmente Roxie e os outros estariam aqui e se é para convencer Clay a entrar na guerra, certamente há pessoas melhores para isso.
— Distração? – Sugeri. Por mais que Roxie colocasse fé em nós, nenhum deles realmente queria um bando de pirralhos na guerra.
— Mas por que Driftveil? – Ela me encarou confusa.
— Skyla não disse que você tem assuntos pendentes? – Eu não tinha tanta certeza se o assunto pendente tinha alguma coisa a ver com o Clay, talvez fosse algo mais como se encontrar ou encontrar um rumo. Skyla não era tão direta como Roxie, que nos arrastaria pelo cabelo até o lugar onde tínhamos cometido erros e nos faria reparar na marra.
— Ela poderia dizer de uma vez por todas o que é se não é só dar o mindinho para o Clay – bufou – eu realmente não estou com paciência para ficar adivinhando se for mais do que isso.
— Você acha que a Team Plasma pode aparecer por aqui? – Perguntei agora que estávamos só os dois. Não que Des ou Lila fossem assim tão ingênuos, mas eles se esforçavam muito para tentar seguir normalmente com a vida e ficar lembrando da Team Plasma a cada segundo não iria ajudar.
— Sempre há a possibilidade – Haila admitiu. – Afinal não sabemos exatamente todas as ações deles, mas, considerando que Clay é totalmente irrelevante e essa descoberta dele deve ser só uma pedra diferente – revirou os olhos. – Além disso, se o risco fosse tão iminente não acho que Skyla nos mandaria aqui sem um líder pelo menos.
— Temos o Clay – dei de ombros com sorriso e Haila sorriu de volta, em tom de deboche.
Depois da queda de Opelucid, a Team Plasma estava relativamente quieta. Havia perda para os dois lados e a invasão da cidade atrás de um lendário tinha dado em nada. Eu não tinha certeza se fora um erro de interpretação do livro ou Lenora dando pistas falsas, mas poderia ser uma somatória de coisas.
Com exceção do Keldeo, que tinha fugido, a Team Plasma não acertara nenhum outro local de lendário, o que combinava com a teoria de Elesa, que o livro não era fácil de interpretar. Logo, isso explicava o sequestro de Lenora, pois ela parecia ser uma das poucas que sabia realmente entender aquelas palavras.
Claro que havia menção a Team Plasma a cada minuto na televisão, pelos mais diversos motivos. Mas como havia imitadores, como aquele que encontrei em Nimbasa, muitas ações coibidas pela polícia não eram verdadeiramente da Team Plasma.
Eu me perguntava se no meio disso tudo, meus pais estariam bem e Cassie estaria segura. Se Aspertia era uma cidadezinha esquecida no meio do nada, Floccesy Town tinha a escola do Alder e talvez sofresse algum tipo de ataque ou retaliação. Eu deveria ligar para Cassie e conferir se ela estava bem.
Olhei para o Xtransceiver e vi que já estava bem tarde, seria ruim ligar aquele horário. Haila estava lendo o livro da Folha e o lia tão rápido que parecia querer absorver o conhecimento por osmose. Bem, eu ligaria no dia seguinte.
No final, segui o exemplo da loira e tirei o livro da minha mãe que estava esquecido na mochila. Não haveria mais Contest por enquanto, mas com tudo o que vinha acontecendo, seria bom eu aprender um pouco mais sobre combate.
=8=
Quando acordamos naquela manhã, antes mesmo de irmos para o restaurante do outro lado da rua tomar café, o enfermeiro tinha um recado de Dan para Haila e solicitava que ela fosse de encontro a Clay. Tínhamos deixado o Centro Pokémon após o café da manhã e rumado direto para as novas instalações do ginásio. Caia uma garoa leve, mas fria e constante que deixava os cabelos e casacos úmidos.
A mesma chuva que havia arruinado os planos de Lila de conhecer o World Tournament e impedido que eu ligasse para Cassie. Desde que Opelucid havia caído, parte das linhas de comunicação tinham sido direcionadas para outras cidades, a fim de restabelecer a comunicação da região. O problema é que isso sobrecarregava a rede e o sinal caia com uma facilidade absurda, principalmente quando chovia. Exatamente como naquela manhã, enquanto eu tentava ligar para Cassie.
Quando chegamos ao local, passamos por um pórtico escavado na pedra que entrava como uma boca faminta pela encosta de uma pequena montanha. O caminho descia leve e liso para o interior até se abrir em um grande ginásio interno. A construção estava bem avançada, com grandes colunas levantadas nos alicerces e um piso de pedra polida como arena principal. O teto era alto e abobadado, com uma iluminação que parecia fazer a própria rocha brilhar e acender.
Apesar disso, o local não estava pronto, havia operários circulando por ali, levantado sacos de areia, cimento, carregando pedras, manobrando escavadeiras e corrigindo falhas nas paredes. Podia ouvir máquinas de corte, serras e britadeiras em uma algazarra organizada que fazia parecer que a vida seguia seu ritmo normal.
Dan apareceu entre os operários e fez sinal para que o seguíssemos por um pequeno corredor escavado na rocha.
— Está atrasada, pidovezinha – o sorriso fino rasgou as feições.
Haila fechou a cara, já era bastante irritante ouvir isso vindo de Clay, pior ainda deveria ser ouvir as mesmas palavras reproduzidas por seu aprendiz.
– Vamos acabar logo com isso, Dan – respondeu simplesmente.
— Que frieza, mas estamos falando da garota que matou um Steelix, então acho que realmente combina com você.
Eu sabia que era o aprendiz do Clay apenas porque o tinha visto no dia anterior, mas efetivamente não sabia nada sobre ele. Mas ele parecia saber muito sobre a Haila.
— Afinal, o que o Clay quer? –Rosnou. – Ele bateu com a porta na minha cara ontem sem nem ao menos me deixar falar e agora me “intima” a estar na sua presença?
— Skyla ligou para ele, disse que você está aqui encarregada de coletar as informações necessárias. – Ele esperou Haila processar bem aquela informação para complementar – Viraram amiguinhas de novo? Dá última vez ela te largou aqui porque não achava que você merecia acompanhá-la.
— E essas informações são referentes aos lendários? – Fiquei impressionado que ela resistiu a provocação e foi direto ao assunto. Bem, todos havíamos forçosamente amadurecido nos últimos meses.
— Veja por você mesma – disse antes de parar diante de uma abertura similar a uma porta, mas que era fechada com uma cortina. Ele puxou o tecido para lado e indicou que nós entrássemos.
Clay esperava do lado de dentro e não sorriu quando viu Haila entrar, tomando a dianteira do grupo. Ele estava sentado sobre o tampo da mesa e tinha o chapéu enfiado na cabeça até quase cobrir suas grossas sobrancelhas.
— Ai está a Pidovezinha – e vi Haila fechar ainda mais cara, se é que era possível. – Você e a Skyla viraram melhores amigas de novo? – Provocou.
Vi as mãos da menina se crisparem, mas de alguma forma, ela controlou a vontade de pular no pescoço do velhote.
— O que você tem para mim? – Foi direta.
Clay também não parecia interessado em muita conversa, ainda mais com Haila e estendeu uma pasta marrom com vários documentos dentro.
— Só isso? – A voz de Haila soou extremamente apática enquanto folheava os documentos que Clay tinha dado a ela. Apático era até bom perto do humor que ela estava desde o dia anterior.
— O que esperava, uma Pokéball com um lendário dentro? A vida não é fácil, Pidovezinha – provocou o homem mais velho colocando as mãos na cintura. A voz ecoou pela sala cavernosa se propagando infinitamente e assinalando ainda mais o ‘pidovezinha’.
Apesar de a pasta ser grossa, a maioria das informações ali não era muito relevante. Muitos estudos geológicos que não faziam o maior sentido para Haila e cálculos e planilhas que não significavam nada. Havia algumas fotos, a maioria em qualidade tão ruim que fariam Desmond torcer o nariz.
— Creio que Skyla contava com mais do que isso... – a menina chacoalhou a pasta diante do rosto do homem com descaso. Desmond soltou um suspiro carregando, prevendo que aquilo não acabaria bem.
— Se era algo que ela julgava tão importante deveria ter vindo ela mesma e não mandar uma mensageira tão antipática.
O sorriso se abriu exibindo os dentes amarelados e Haila fechou a cara. Puxei a pasta da mão da loira e encarei as fotos, elas retratavam as redes de cavernas e passagens subterrâneas que Clay havia encontrado enquanto escavava seu novo ginásio. As fotos não eram muito nítidas, mas as cavernas pareciam amplas com tetos altos e paredes claras e lapidadas como se alguém as tivesse polido. Talvez fosse a luz, mas as paredes pareciam feitas de ouro e havia estalactites e estalagmites por toda a extensão, como delicadas colunas de uma construção antiga.
— Isso são desenhos? – Lila pendurou no meu pescoço espiando as fotos.
— Onde?
— Aqui – e ela estendeu o dedo e apontou para outra imagem, onde uma das estalagmites estava em um close. Apesar da qualidade duvidosa da foto, era possível ver que em meio a rocha dourada havia, como se esculpido na pedra, símbolos ou desenhos. Me pareciam pedaços de letras escritas pela metade ou um idioma desconhecido.
— Parecem vários Pokémon reverenciando o sol – não me parecia, mas fazendo um pequeno esforço e tendo muita imaginação poderia até se dizer que era exatamente o que ela havia dito.
— Haila – chamei a atenção – você viu isso? – E mostrei os signos que apareciam nas fotos.
Ela não pareceu realmente impressionada, era como uma pessoa que ama tecnologia ver pinturas rupestres.
— Podem ser algum símbolo relacionado aos lendários – arrisquei. Se havia poemas, não seria tão estranho existir desenhos também.
— Mas não havia nada assim em Seaside Cave.
— Bem, quando estávamos lá a Team Plasma já estava trabalhando fazia alguns dias, as escavações e perfurações podem ter destruído os signos – e realmente era uma possibilidade. Embora, Haila também pudesse ter razão e as pinturas poderiam não significar nada. Mas se Skyla a tinha mandado para buscar informações, os desenhos poderiam ser realmente relevantes.
— Você poderia nos mostrar a caverna em questão? – A loira respirou fundo se voltando para Clay.
— Líderes de ginásio e aprendizes tem autorização para entrar na caverna livremente – e sorriso se alargou. Até mesmo eu que era meio lento de raciocínio percebi onde ele queria chegar. – Você é líder ou aprendiz? Acho que não. – Pude ver Dan abrir um sorrisinho cínico.
— Skyla me mandou – e vi que ela controlava a vontade de mandar Clay engolir a maldita caverna com todas as pedras dentro.
— Como eu disse, se ela julgasse tão importante teria vindo por ela mesma.
— Escute aqui – e Haila tinha perdido a compostura – eu não quero saber o que você...
A frase foi interrompida por um barulho enorme vindo do lado de fora da caverna, como uma explosão. As paredes reverberaram e o chão sob meus pés pareceu dançar. Algum cascalho da parede se soltou, tilintando lentamente no solo.
— Tinha alguma explosão programada para hoje? – Clay questionou encarnado seu aprendiz por cima do ombro.
— Não que eu sabia – o garoto disse simplesmente, como se não se importasse. Clay curvou as sobrancelhas cabeludas, como uma ordem, o garoto bufou e rumou para a saída do escritório, mas antes que pudesse atingir o corredor, uma segunda explosão, mais alta e intensa fez as paredes tremerem.
Todos fomos ao chão e uma grossa nuvem de fumaça e pó invadiu o aposento, cegando e dificultando a respiração. O som fora tão intenso que por segundos tudo o que escutava era um apito no ouvido que chegava a doer.
— O que está acontecendo? – Pude ouvir a voz de Lila surgir em meio ao pó de rocha que pairava sobre o ar, mas eu não conseguia divisá-la em meio ao caos.
Mesmo a com a voz de Lila ecoando pelo escritório improvisado, do lado de fora o silêncio reinava. Não havia mais reverberações das explosões ou som dos trabalhadores na arena do ginásio, nem mesmo a chuva lá fora parecia ser capaz de ser ouvida.
— O que está aconte... –mas a frase de Haila nunca se completou.
Um som forte, alto e seco reverberou pelas paredes rochas, vindo da entrada da caverna. A poeira dentro da sala tinha baixado e eu podia divisar Haila ao meu lado, jogada no chão e os olhos cheios de apreensão. O som era de um tiro e nós dois sabíamos muito bem como ele soava.
— Clay, líder de Driftveil, apareça – uma voz retumbou pelas paredes da caverna. – Sabemos que está aqui.
Todos nos entreolhamos antes de encarar o líder, que mantinha um olhar indecifrável no rosto.
— O que é isso? – Pude ouvir Lila cochichar para Des.
— Team Plasma – Haila respondeu. Não dava para precisar, mas explosões e tiros eram alegóricos demais para imitadores.
— Não seremos gentis, líder – a voz repetiu, exageradamente alta. Por mais que as paredes rochosas promovessem reverberação, o som não chegaria àquela altura, quase como se ecoasse dentro de nossas cabeças. – Apareça. – Era uma voz feminina e estridente, mesmo assim era forte e intimidadora.
Algo em torno de um minuto se passou, mas pareceu durar uma eternidade.
— Acho que ele não está nos dando muito crédito – a voz feminina retumbou novamente, agora um pouco mais baixa, como se ela tivesse se afastado do que amplificava sua voz para fazer um comentário particular com alguém. – Certo, Clay – a voz voltou forte e amplificada – acho que você precisa de um incentivo.
Pude ouvir um pequeno rebuliço e alguém começar a gritar e implorar pela vida, havia outras vozes misturadas, o que tornava difícil saber o que estava acontecendo.
— Muito bem, Clay – a voz feminina se fez ouvir novamente. – Eu contei dez trabalhadores ainda vivos, então você tem dez chances de mostrar sua cara feia – então pode ser ouvido novamente o som seco do tiro, que pareceu duas vezes mais terrível pelo som da amplificação, as vozes misturadas se calaram e aquela que pedia clemencia pareceu se esvair completamente. – Quer dizer, nove chances – e a voz saiu demasiadamente divertida.
Pude ouvir Lila gemer apavorada as minhas costas e Des tentar consolá-la. Haila me encarou por um segundo e lançou um olhar selvagem para Clay, exigindo uma posição.
— Aparentemente, o seu amado líder de ginásio não liga muito para os podres cidadãos de Driftveil, já que ele prefere esconder o próprio rabo a honrar o posto que tem e proteger a cidade – a voz ecoou novamente, a mulher sabia realmente como manipular porque logo os trabalhadores restantes se fizeram ouvir. Não dava para identificar as palavras, mas havia tons indignados, clementes e chorosos.
— Certo – a mulher retornou e sua voz ecoou esganiçada e estranha, era impressão minha ou ela estava usando um megafone para se fazer ouvir por toda a caverna? – Daqui um minuto matarei outro trabalhador, se você quiser evitar isso é só mostrar sua cara e me falar sobre as escrituras que encontrou na caverna.
O rosto de Clay assumiu uma expressão curiosa e ele encarou o aprendiz por uns segundos em um olhar que eu não saberia traduzir.
— Você sempre disse que jamais compactuaria com esses terroristas – Dan disse por fim, em um tom de voz muito baixo.
— E não irei – o homem se levantou, ajeitando o cinto. – Vou resolver isso do jeito de Driftveil – e eu não sabia exatamente o que isso significava.
— Eu vou com você – Haila fez menção a se levantar, mas a Clay a empurrou, derrubando-a no chão.
— Segure suas asas, Pidovezinha. Eu não vou lá para brincar.
— Você não vai dar conta, a mulher não deve estar sozinha – Haila cuspiu as palavras.
— Que seja um exercito, vocês dão muito crédito a Team Plasma – e ele sorriu, arreganhando os dentes amarelos. A principio eu acreditei que eram apenas palavras de um adulto para acalmar crianças, mas ele realmente parecia acreditar em seu discurso.
— Do que você está falando, você mal conseguiu lidar com meu Serperior, como... – Haila estava comprando uma briga feia em um péssimo momento. Clay colocou a mão sobre o rosto dela, fechando a boca e eu percebia a tensão nos dedos como se ele quisesse esmagar a face juvenil em milhões de pedaços.
— Eu vou fazer você engolir essas palavras, cadela – E a empurrou novamente. Então respirou fundo, tirou o chapéu da cabeça e espanou o pó sobre ele, depois o recolocou, assentando sobre o cabelo bagunçado. – Dan, não deixe que eles saiam daqui. Eles são sua responsabilidade agora.
O garoto gemeu diante das palavras do líder, mas concordou. Clay puxou a cortina que usava de porta e saiu pelo corredor, pude ver que ele estava com uma das Pokéball na mão e libertou o Pokémon antes de chegar ao salão principal. Senti um pequeno tremor no solo, muito sutil para uma explosão ou terremoto.
— Dig – Dan falou simplesmente ao observar nossas expressões.
Não dava para saber o que estava acontecendo na área do ginásio. Com Clay ali, a mulher da Team Plasma não usava mais o megafone para amplificar a voz. Podíamos ouvir sons de vozes exaltadas, mas as palavras eram incompreensíveis.
— Ele está sendo estúpido se acha que vai conseguir resolver o problema sozinho – Haila resmungou ainda revoltada com o posicionamento de Clay.
— E você prefere estar lá e tomar um tiro também – Dan rebateu.
— Ao menos estaria tentando fazer alguma coisa e não me amedrontando como você e seu mestre.
— Escute aqui...
Mas sons diferentes vindos do salão principal nos fizeram ficar em silencio. Não dava para saber exatamente o que era, mas parecia um combate. O chão estremeceu e havia barulho de rochas se movendo, como se fossem arremessadas. Pude ouvir a gritaria dos trabalhadores e outras vozes mais duras e intensas. De repente, um tiro se fez ouvir e outro e mais outro, até se tornar um fuzilamento. Os tiros eram impiedosos e quanto mais sons deles se faziam, menos do som dos trabalhadores se podia ouvir. Então novamente tudo caiu no silêncio.
— O que foi isso? – a voz de Lila apavorada quebrou o silêncio tangível.
Aos poucos o som de silêncio foi substituído por uma movimentação intensa, podiam-se ouvir comandos e passos, mas não havia mais os sons dos trabalhadores, fossem mexendo em suas ferramentas ou pedindo clemencia. Não havia som de batalha, nem nada que provasse que Clay tinha levado a melhor. Em pouco tempo, passos ecoavam pelo corredor que levava até o escritório improvisado onde estávamos.
— Droga – pude ouvir Dan reclamar, mas mãos se crispavam ao lado do corpo.
— Dan...
— Eu preciso tirar vocês daqui – ele esquadrinhou o escritório.
— Mas não é o Clay voltando? – Lila comentou esperançosa.
— Creio que não – Des disse acabando com o brilho nos olhos escuros.
— Se for a Team Plasma, nós vamos lutar – Haila levou a mão ao bolso, em busca de uma das Pokéball.
— Ninguém vai lutar – Dan cortou, Haila abriu a boca para protestar, mas ele a interrompeu. – Vocês são minha responsabilidade agora, foi isso que o Clay disse.
— Mas o que aconteceu com o seu mestre? – a morena perguntou enquanto se levantava ao lado de Desmond e o resto de nós também se colocava em pé.
— O Clay caiu.
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