Rota Zero
81 Um Trem para Nimbasa - parte 1
Notas iniciais
December
UM TREM PARA NIMBASA — parte 1
— ... e então foi isso que aconteceu – conclui, apertando o botão da máquina automática de café. Só que o líquido não saiu, as engrenagens fizeram barulho, as luzes se acenderam, mas nada saiu do compartimento, deixando meu copo de papel abandonado no suporte da máquina. Que bom, eu tinha acabado de perder uma moeda, minha única moeda.
— E você veio até aqui para me contar isso? – A voz de Dan ecoou pelo corredor movimentado do hospital. Ele ainda usava o pijama hospitalar, com um pequeno nó na manga do braço faltante. Era de manhã e ele estava com uma cara sonolenta, mas bem melhor que a minha.
— Na verdade não – eu o tinha encontrado por acaso no corredor do hospital em Icirrus. Eu tinha ido ver o Des e Dan estava para ter alta.
— E por que me contou? – Ele curvou as sobrancelhas acentuadamente.
— Achei que você gostaria de saber – disse apertando o botão da máquina novamente, na esperança de ter meu café.
— Acho que essa guerra não é mais minha – balançou o braço inexistente, chacoalhando o nó na manga.
Eu tinha encontrado Dan ao acaso, eu nem sabia se ele já tinha tido alta, mas acabei por narrar meus eventos em Anville, excluindo a parte da Roxie. Ele ouviu tudo sem inflexão ou sentimento, como se estivesse ouvindo o resumo de um filme que vira na televisão.
— E quanto a pidovezinha? – Deu uma risada exagerada.
— Achei que você não se importasse com ela...
— E não me importo, mas já que estamos falando de assuntos que não me importam mais... – deu de ombros.
Encarei a máquina automática de café como se fosse a coisa mais importante do mundo. Eu tentava não pensar em Haila, nem nas coisas que Roxie havia me dito sobre ela.
— Está bem, eu espero – e senti minha voz falhar, meio chorosa.
— Deve estar melhor do que você – Dan disse em um misto de provocação e conforto, enquanto batia a mão em meu ombro em um consolo vazio. Então passou por trás de mim e rumou pelo corredor, em direção ao quarto que ocupava.
Encostei a cabeça no plástico da máquina tentando organizar meus pensamentos. Haila poderia, ou não, estar bem, Roxie era uma Team Plasma e agora eles tinham dois lendários. O saldo não estava nada bom. Dei um soco na máquina, meio por raiva, e ele fez um barulho estranho, como se as engrenagens estivessem se movendo.
Então finalmente meu café saiu, enchendo o copo, mas não era o líquido preto e viscoso que eu esperava. Era uma água rala arroxeada com um cheiro extremamente doce. Era chá, mas eu não fazia ideia do que era. Eu detestava chá, mas naquele momento, me lembrei do chá que minha mãe fazia, forte e adocicado, que sempre me deixava enjoado, e estranhamente, aquilo me deu um pouco de conforto.
Sai para o corredor que estava razoavelmente cheio, pessoas transitavam por ali com um ar muito mais tranquilo do que minha última estadia no hospital. A sala de espera estava quase vazia e o som da televisão se fazia audível.
Me sentei em um banco, Lila ainda não tinha retornado da visita ao Desmond e a televisão transmitia algumas notícias dos últimos acontecimentos em Unova. Alguma notícia falando de Flocessy Town, mas por mais que eu desejasse, não conseguia me prender a esse tipo de informação.
Encarei o teto branco e iluminado e podia ouvir o zumbir do resistor da lâmpada que vez ou outra oscilava, quase imperceptível. Eles ainda não tinham arrumado essa maldita lâmpada.
Cheren tinha conseguido minha soltura na prisão em Anville e um jatinho para me levar até Icirrus, já que o único trem até lá sairia apenas no meio da tarde. Jatinho talvez fosse muito, era um biplano barulhento e inseguro que parecia que iria se partir a cada rajada de vento.
A viagem tinha sido curta e turbulenta e eu não consegui dormir absolutamente nada. Meus pensamentos vagavam entre as escolhas de Roxie, a fuga de Haila e como Cheren reagiria ao saber da verdade. Ele e Roxie eram muito amigos.
Quando cheguei na cidade, não sabia muito bem o que fazer, mas acabei indo ao Centro Pokémon. O lugar estava praticamente vazio àquela hora e uma enfermeira de meia idade com um sorriso maternal me atendeu.
— Você tem muitas Pokéball... – comentou enquanto o sorriso sumia e ela assumia um ar desconfiado.
— São as de uma amiga também, ela não teve tempo...
— Entendo, sua carteira de treinador, por favor – e nunca tinham me pedido a carteira de treinador antes. Ela deveria estar mesmo muito desconfiada. O problema era que eu não tinha documento nenhum, todos os meus pertences tinham ficado na delegacia em Anville e provavelmente virado churrasco em meio ao incêndio. Mas eu estava sujo, machucado, com olheiras enormes e o cabelo parecendo um ninho de Patrat enlouquecido, esperava que essa minha aparência ajudasse a criar alguma simpatia na mulher.
— É, bem... eu tive um acidente e perdi minhas coisas... – admiti sem graça.
— Entendo – mas não parecia realmente entender. – Espero que não seja problema ligarmos para a polícia, afinal se você perdeu seus pertences é bom fazer um boletim de ocorrência. – E a expressão não era nada simpática.
Era só o que eu precisava, mais polícia. Eu poderia virar as costas e dar o fora, mas os Pokémon realmente precisavam de cuidado. Ela me encarava de canto de olho, enquanto pegava o telefone e eu só poderia rezar para não arranjar problemas com a polícia local.
— Deedee? – a voz curiosa e estridente preencheu o salão vazio.
Lila estava parada no meio salão, com uma expressão sonolenta no rosto. Os olhos se encheram de lágrimas, e ela correu em minha direção, me abraçando com tanto ímpeto que quase nos derrubou do outro lado do balcão.
— Você o conhece, Lila? – a voz azeda da enfermeira atrapalhou nosso reencontro. Ela tinha afastado o fone do ouvido e me olhava ainda mais desconfiada.
— Sim, ele é um grande amigo meu – disse enfaticamente.
— Ele é de confiança? – e os olhos migraram para as Pokéball espalhadas por sobre o balcão.
— Claro que sim, dou minha palavra – disse pomposamente.
A enfermeira pareceu convencida, e voltou o fone no gancho, antes de completar a chamada. Se aproximou do balcão e recolheu as Pokéball. Inseriu uma a uma na máquina de análise preliminar, antes de me espiar com uma expressão de extremo desagrado e sumir por uma porta lateral.
— Quando você voltou? – Lila chamava minha atenção me puxando pela manga do moletom imundo.
— Faz alguns minutos...
— Mas o trem...?
— Cheren arranjou um voo para mim – expliquei, ela pareceu impressionada e apenas balançou a cabeça.
— Eu fico muito feliz que você tenha voltado – e parecia mesmo. – Mas você poderia ter me avisado, eu iria te buscar...
— Eu encaminhei seus Pokémon para a ala médica – a enfermeira brotou do nada.
— Quando posso vir busca-los?
— Dez dias.
— Dez dias? Espera, eu preciso viajar ainda hoje – se eu não chegasse em Nimbasa até o final da noite, Cheren iria arrancar o meu couro.
— Você pode ir, mas os Pokémon não vão a lugar algum...
– Mas eu não posso deixá-los aqui, nós estamos sob ataque e...
— Dez dias e fique feliz por eu não denuncia-lo para nenhum órgão protetor dos Pokémon, porque as condições deles são absurdas.
— Mas...
— Sem mas e agradeça o fato de você ser amigo da Lila, ou eu não seria tão benevolente – cruzou os braços sobre o peito, dando o assunto por encerrado. – Aqui está análise preliminar dos Pokémon – e me entregou um prontuário. – e seja mais cuidadoso da próxima vez. – Finalizou antes de voltar para a saleta lateral.
— Ela é sua amiga? – Encarei Lila.
— Não tem muito movimento no Centro, então nós ficamos conversando quando eu não estou no hospital com o Des – explicou. – Mas o que você andou fazendo com seus Pokémon para ela estar tão brava?
— Ah... – mas ela não me esperou responder, arrancou o prontuário da minha mão e começou a ler.
O saldo era pior do que eu imaginava: os parceiros da Haila não estavam tão feridos, eram cortes e machucados superficiais, mas eles tinham sofrido por causa da temperatura, descanso e medicação seriam necessários. Os meus parceiros em compensação estavam bem ruins, Chiclete estava com um dos pulmões perfurados, Marsh tinha quebrado a pata em três pontos diferentes, Bacon tinha perdido parte dos tecidos da cabeça, Peach tinha sofrido esmagamento por causa das ações do Serpio e Abóbora não tinha ferimentos muito intensos, mas como ele ainda era jovem, sua recuperação era demorada.
— Deedee – ela assumiu uma expressão sombria no rosto. – Exatamente o que aconteceu em Anville?
— A Team Plasma estava lá – disse desanimado. – Eles levaram o lendário.
Os olhos da menina se arregalaram, então ela assumiu uma expressão ainda mais sombria e os dedos se crisparam em torno do prontuário que segurava.
— Você deveria ter me avisado e não ter lutado contra a Team Plasma sozinho – parecia minha mãe falando, me reprovando de alguma atitude que eu tinha tomado.
— E você acha que chegaria lá a tempo? – Kara praticamente se materializou ao nosso lado. Ela estava com o cabelo úmido e uma aparência ótima, de quem tinha tido a melhor noite de sono da vida. Eu tinha falado com ela fazia poucas horas, pelo Xtransceiver, mas não sabia se ela ainda estava em Icirrus.
— Se você não o tivesse abandonado, talvez ele não tivesse lutado sozinho – e respostas atravessadas não eram o perfil da garota de Humilau.
— Eu não abandonei ninguém, e além disso, essa luta não era minha – respondeu pomposa, devolvendo o que parecia ser uma chave para Lila.
— Essa luta é de todos nós – Lila resmungou enquanto recuperava a chave.
As duas começaram a discutir, mas minha mente vagou. Não tinha sobrado muito de mim, nem dos meus Pokémon e a Team Plasma estava visivelmente levando a melhor. Eu poderia voltar para casa, sempre poderia. Mas eu não poderia virar as costas para tudo o que estava acontecendo, pessoas que eu amava tinham se machucado, eu poderia ter perdido Haila e eu precisava entender o que estava acontecendo com Roxie.
Quando dei por mim, Lila já me arrastava para sua visita matinal ao Des e Kara tinha inventado uma desculpa qualquer para não se fazer presente e foi perambular por Icirrus. Eu não sabia se ela tinha visto o rapaz no dia anterior e nem sabia se realmente eram o mesmo Desmond, mas tudo indicava que sim.
Des ainda estava na UTI, em um coma induzido, e não poderia receber visitas diretamente. O mais próximo que eu poderia chegar, era vê-lo através de um vidro, como os visitantes fazem na maternidade. E a ideia de vê-lo dessa forma, com toda a distância e sem nenhum calor humano, me deixava ainda mais deprimido.
Lila me deu uns trocados para que eu comesse algo na cafeteria do hospital e foi até a UTI, visitar Desmond. Eu realmente queria entrar, ver Des e me sentir melhor por ele estar vivo, mas sabia que não conseguiria vê-lo naquelas condições. Acabei vagando pelo hospital, procurando a cafeteria que eu não fazia ideia de onde era. Por fim encontrei uma máquina automática de café em um dos corredores, teria de servir, e acabei me encontrando com Dan.
— Chá? – a voz de Kara me trouxe de volta. Ela estava sentada no banco a minha frente, me encarando com aquele olhar de julgamento divino e bebericando do meu copo, que eu nem percebera que ela pegara. Aliás, quando ela chegou ao hospital?
— É o que saiu da máquina – dei de ombros.
— E onde você conseguiu dinheiro para isso?
— Lila me arranjou algum.
— Que amável – zombou.
— Não gostou dela?
— É melhor do que a Haila – tomou mais um gole do chá – mas fala demais e tem opinião sobre tudo.
— E as pessoas não são assim?
— A maioria guarda suas opiniões para si mesmo.
— Você não – dei um meio sorriso e do pouco que conhecia a Kara, ela sempre falava o que pensava.
— Mas você sim – e nos encaramos, exatamente o que ela queria dizer com aquilo?
— Escuta, sobre o Des... – mas não terminei a frase, Lila apareceu na recepção, tinha uma expressão aliviada.
— A enfermeira disse que o Des está muito melhor e estável, ele ainda vai precisar passar por mais algumas cirurgias, mas vai sobreviver – e sorriu.
Aquilo era uma boa notícia, excelente aliás. Quando sai de Anville, a condição dele era péssima, não sabíamos se ele realmente aguentaria passar por todas as cirurgias necessárias.
— Ele vai sair da UTI? – perguntei.
— Ainda não, mas isso deve acontecer breve – Lila deu um sorriso mais amplo.
— Mas ele vai ficar com sequelas, certamente – Kara jogou um balde de água fria no nosso ânimo renovado.
— Sim, mas está tudo bem – Lila disse com convicção.
— Está?
— Ele vai sobreviver.
— E é melhor sobreviver de maneira péssima do que ter vida nenhuma?
— Kara – chamei a atenção, mas ela simplesmente ignorou.
— Você acha mesmo que viver com os tipos de sequela que ele terá é melhor do que estar morto? – Kara balançou a cabeça como se perguntasse aquilo sinceramente.
— Do que você está falando? Claro que estar vivo é melhor – Lila parecia sobressaltada, o que era incomum de ver.
— Se você diz – e havia aquela nota de provocação típica da Kara.
— Se você discorda que a vida é importante, você pode morrer – Lila parou ao lado de Kara, balançando os braços aleatoriamente. Me levantei segurando pelos pulsos, antes que ela pulasse no pescoço da garota.
— Kara, parece com isso, esse não é o momento... – tentei intervir, em vão.
— Não é uma questão de estar vivo ou morto, as coisas não são preto no branco como você imagina, a maioria tem muito mais implicações do que isso – se levantou, fez um meneio de cabeça e saiu do hospital, levando meu chá consigo.
Eu sentia Lila tremer sob meu aperto, mas não era com ela que eu estava preocupado. Kara tinha feito um discurso muito parecido com o de Roxie sobre o peso das coisas. Que nem tudo era dividido apenas como certo ou errado, bem ou mal, viver ou morrer. Talvez Roxie tivesse razão e essa guerra fosse muito mais acinzentada do que meus prismas me permitiam ver.
=8=
Estávamos no vagão 12, quase no final do trem que balançava ritmicamente sobre os trilhos, em direção a Nimbasa. Eu não estava nem um pouco animado para ir até lá, mas tinha prometido ao Cheren que chegaria o mais breve possível. A verdade é que eu não sabia o que fazer após chegar a cidade, eu não tinha um norte, ou ideia do que deveria fazer a seguir. E suspeitava que o líder normal me manteria ali mofando até as coisas se resolverem.
Tinha sido uma dificuldade absurda convencer a enfermeira do Centro Pokémon a me devolver os Pokémon, já que eles não ficaram nem três horas direito em tratamento. Eu reconhecia que era maldade, mas eu não podia deixá-los em Icirrus, principalmente depois de descobrir que Lila tinha planos de me acompanhar até Nimbasa. Eu esperava que ela fosse permanecer na cidade ao lado de Des, mas ela estava bastante resoluta quando disse que me acompanharia. A avó de Desmond estava a caminho e ela queria ser útil de alguma forma.
Lila estava sentada ao meu lado, no assento da janela e ainda papagaiava sobre os comentários de Kara, mas eu estava tão cansado e sonolento que só conseguia acenar com a cabeça, sem realmente processar o que ela estava dizendo.
Um passageiro sentado atrás de mim assistia ao noticiário em uma pequena televisão portátil e eu podia ouvir informações sobre Flocessy Town, que se alternavam com o de outras cidades que tinham caído. Algumas cidades tinham batalhando arduamente, outras, aparentemente se rendido, mas as informações eram muito desencontradas.
O som estava baixo e eu podia entender vagamente o que era dito. Então, a voz da ancora do telejornal voltou e uma outra voz, sonora e sensual a seguiu. Meus olhos se arregalaram e instintivamente me virei no assento, encarando-o por cima do banco.
— Pois não? – o homem me encarou de forma suspeita.
— Ah... Sua televisão...
— Você quer ver? – E virou a imagem na minha direção. Eu podia ver a apresentadora na bancada, acompanhada de uma mulher, ela era alta e magra, o cabelo claro era volumoso e caia sobre o ombro, em direção a um decote generoso. Ela não trajava o uniforme de elite, mas eu a reconheceria em qualquer lugar.
— Estamos aqui com uma entrevista exclusiva com a porta-voz da Team Plasma, senhorita Aida – a ancora da bancada apresentou com um sorriso.
Porta-voz, como assim? Aida, ou fosse o nome que tivesse, era Fome, por que ela estava ali? E por que uma Team Plasma estava na televisão e ninguém parecia minimamente abalado por isso?
— Pode assistir – o homem me ofereceu o aparelho. – Eu já estou cansado dessas notícias repetitivas – fiquei sem graça, mas aceitei.
— Obrigada pelo convite, Charlote. Eu fico muito contente que sua emissora seja imparcial nesses eventos recentes e se propôs a ouvir os dois lados – a convidada respondeu. – Muitas pessoas veem a Team Plasma como um grupo ruim, como uma máfia ou um grupo terrorista, mas isso não poderia estar mais errado – disse pomposamente.
— Deedee – Lila começou, mas fiz sinal para ela se calar. Ela se inclinou e espiou a imagem por cima do meu ombro.
— Sei que nossas ações anteriores não foram muito adequadas, e nós fomos punidos por isso. E eu acho totalmente justo. Mas agora, nós só estamos trazendo uma nova ordem para Unova, para o bem de todos, humanos e Pokémon – Fome prosseguiu. Ela falava com calma e a voz dela saia quase melodiosamente. – Vários estudos, como você podem ver – e apontou para um gráfico que apareceu em um telão a suas costas – comprovam que o convívio entre humanos e Pokémon traz muitos malefícios para as duas raças. Nós alteramos seus habitats, hábitos alimentares, de acasalamento. Muitas espécies ditas como “raras” na verdade, estão apenas a beira da extinção.
“Além disso, nós humanos, nos tornamos muito dependentes de suas habilidades e força, e agora os exploramos vergonhosamente. O que a Team Plasma prega é que os Pokémon tenham o direito de serem livres e viverem em seus habitats naturais, com o mínimo de interferência humana.”
— Me parece uma proposta interessante – Charlote disse com um sorriso – mas quais medidas a Team Plasma planeja para isso?
— Para muitos, pode não haver relação, mas nossa forma de governo atual é o principal responsável. Tentamos várias vezes enviar projetos para o presidente, sobre o impacto das nossas ações e os malefícios para os Pokémon, mas sempre fomos ridicularizados e desacreditados. Por isso, desta vez, decidimos ser mais enérgicos.
— Mas você não acha que invadir cidades é enérgico demais? – Charlote perguntou, desconfiada.
— Eu não acredito que os fins justificam os meios, mas muitas vezes, um pouco de força bruta é necessário. Revoluções não se fazem só com a caneta.
— Revolução?
— Todo o nosso sistema precisa ser alterado. Nossos métodos de governo, nossas leis. Nossa guarda e polícia hoje é totalmente dependente de Pokémon treinados, mas o que acontecerá quando os Pokémon não existirem mais, porque os exploramos até o limite. Tudo isso precisa ser alterado e desvinculado.
— Entendo, mas...
— Veja bem, Charlote, chamar nossa ação de invasão é incorreto. Primeiramente, muitas cidades apoiaram as tropas da Team Plasma, afinal, nós trazemos segurança aos locais... – Aida expos, mas a âncora a interrompeu.
— Mas essa segurança da qual você diz proteger, não é a Team Plasma o responsável por causar esses tumultos?
— Não a nova e reformulada Team Plasma. Houveram conflitos, eu não nego, mas não fomos os principais responsáveis. As pessoas ouvem nosso nome e nos atacam, sem nem ao menos ouvir o que temos a dizer – fez uma voz chorosa. – Por isso, fico muito feliz com o seu convite – adulou.
“Sei que pode parecer prepotente da nossa parte, mas essas invasões, como você quis chamar, Charlote, são para a proteção da população. As cidades que agora tem delegações da Team Plasma vão se manter calmas e seguras, até que nossas negociações com o presidente estejam findadas. ”
— Isso me soa como um sequestro – Charlote interpôs.
— Não, claro que não. Qualquer morador é livre para ir e vir, e os prefeitos continuam no controle da cidade. Só estamos impedindo que arruaceiros, esses que dizem proteger o interesse dos Pokémon, mas só estão interessados em manter as regalias que possuem, causem maiores problemas aos cidadãos de bem. Você pode ver por si mesma, como a situação está muito melhor agora em Lacunosa ou Black City.
— Acho que os moradores de Flocessy Town não concordariam...
— Existem muitos revoltosos em Flocessy e tivemos que conter as ameaças, mas garanto que a população está segura. Infelizmente, força bruta precisa ser utilizada algumas vezes, mas não quer dizer que estamos de acordo com esse tipo de prática.
— E quanto a Opelucid?
— A cidade foi destruída pela represa – deu um sorriso.
— Dizem que em consequência de ações da Team Plasma.
— Isso é calunia. Nunca foi comprovado nada do gênero, se fosse, a polícia já teria tomado as medidas cabíveis e nós estaríamos pagando por isso. Sei muito bem do nosso histórico e não acho errado tanto a população quanto as autoridades terem certa desconfiança, mas garanto que somos uma equipe renovada que só quer o bem para Pokémon e humanos.
— Mas você acredita que a população irá aceitar essa ideologia?
— Você não? – Aida rebateu com um sorriso quase maternal – Todos nós queremos o melhor para os Pokémon porque os amamos. Ninguém será obrigado a abandonar seu parceiro, tudo o que queremos é desvincular a obrigatoriedade do uso de Pokémon e conscientizar os treinadores a darem condições mais dignas aos seus parceiros.
Fome continuou falando e falando, e fosse porque ela falava calmamente e com muita segurança, fosse pelos sorrisos afáveis e pelas palavras bonitas, era um discurso fácil de se comprar. Era a mesma mulher que quase tinha me matado em Twist Mountain, mas eu não conseguia odiá-la naquele momento, era quase como se ela fosse outra pessoa ali, na televisão.
— As pessoas não vão acreditar nesse discurso – Lila sussurrou. Mas eu tinha minhas dúvidas.
Eram as palavras bonitas da Team Plasma, as mesmas que Rose tinham usado, as mesmas que tinham me seduzido. As mesmas que faziam as coisas não serem tão simples como certo e errado. Mas era uma jogada inteligente, convencer as pessoas, era muito melhor do que uma guerra civil, isso diminuiria as perdas.
— Eles são bem convincentes – respondi veladamente.
— Como pode dizer isso, é só um monte de besteira. Haila te daria um cascudo se te ouvisse dizer isso, e aposto que a Roxie também – respondeu com certeza.
Só que Lila não poderia estar mais errada. Principalmente, sobre a Roxie.
— Lila... – eu precisava contar sobre Roxie, mas ao mesmo tempo, sentia que não podia fazê-lo. Ela tinha nos traído, mas por outro lado, parecia que se eu não colocasse aquilo em palavras, não seria real.
— Sério que vocês estão vendo essa porcaria? – A voz de Kara me cortou. Ela se jogou ao meu lado, no assento vago. E cruzou as pernas cerimoniosamente.
— O que ela está fazendo aqui? – Lila perguntou encarando a moça.
— Eu paguei a passagem, posso ir onde quiser – Kara respondeu atrevida. Eu me perguntava com que dinheiro, já que era Lila quem andava me bancando, mas eu não tinha certeza se queria saber sobre isso.
— Eu mandei mensagem para ela, antes de sairmos de Icirrus – intervi antes que elas começassem a discutir novamente. Eu não sabia quais eram os próximos passos da Kara, mas achei que seria conveniente avisá-la que estava indo para Nimbasa. De certa forma, ainda me sentia devendo por tudo o que ela tinha feito em Anvile.
— Eu não quero viajar na companhia dela – Lila cruzou os braços e fez um beicinho.
— É mutuo – Kara respondeu com descaso, encarando o outro lado.
Voltei minha atenção ao aparelho, mas a entrevista com Aida já tinha terminado. Devolvi o dispositivo ao homem e me acomodei entre Lila e Kara esperando que elas não fossem se matar até o final da viagem.
Tentei relaxar, talvez até dormir um pouco, mas minha mente não conseguia se desligar. Era estranho pensar nisso, mas a minha primeira viagem de trem tinha sido ao lado da Roxie.
Eu não conseguia processar o que tinha acontecido, a traição dela parecia uma mentira. Havia uma parte minha que desejava ter entendido errado, que eu chegaria em Nimbasa e Roxie estaria lá, pronta para me dar um sermão por qualquer besteira que eu tivesse feito.
Ela tinha ido contra a Team Plasma em Seaside Cave, tinha nos protegido em Black City, nos buscado em Twist Mountain, não fazia sentido essa traição. Talvez ela fosse uma agente infiltrada, uma espiã dentro da Team Plasma, mas se assim fosse, ela não teria batalhado com o lendário daquela maneira.
Talvez, ela estivesse sendo chantageada, a família ameaçada, esse tipo de coisas que os vilões fazem para coagir pessoas boas. Mas conhecia Roxie o suficiente para saber que ela não se intimidaria com isso e que ninguém seria capaz de obriga-la a fazer coisas que não desejasse.
Ela tinha dito que eu não entenderia seus motivos, e talvez tivesse razão. Eu era jovem, ingênuo e estúpido e talvez houvesse implicações que eu não poderia compreender, mas havia outras pessoas, como Cheren ou Elesa, eles, com certeza, poderiam entende-la.
Quanto mais pensava, mais a líder venenosa me parecia culpada e menos desculpas para inocenta-la encontrava. Como ela poderia ter tido tanto sangue frio para estar ao nosso lado e fingir estar lutando pelos mesmos ideais?
Mas mesmo que eu quisesse odiá-la por completo, ainda era Roxie. Quem tinha me ajudado em Nimbasa, me dito sábias palavras em Undella, me orientado e me ajudado como uma irmã mais velha. E eu não conseguia desconectar esse sentimento e pela primeira vez, eu podia imaginar como deveria ser conflituoso para Haila ter que enfrentar o próprio irmão.
De repente, o trem começou a desacelerar até parar por completo. O caminho de trem de Icirrus para Nimbasa era direto, sem paradas e mesmo que houvesse alguma estação no caminho, nós estávamos parados no meio do nada.
— Senhores passageiros – uma voz mecanizada soou no autofalante do vagão – por favor, se mantenham em seus assentos. Vamos retornar a viagem dentro de alguns minutos.
— Parece que tem alguém embarcando – Lila falou incerta, com a cara colada na janela. – Talvez seja a polícia – disse esperançosa – eles devem estar fazendo algum tipo de escolta. – Era um pensamento lógico, mas de alguma forma, eu não me sentia tão esperançoso.
As portas do último vagão se abriram e pude ouvir uma movimentação ali, segundos depois, a porta de vidro que separava os dois módulos se abriu e um grupo de homens armados e uniformizados apareceu. Desse contingente, uma parte foi para o vagão seguinte, enquanto dois deles ficaram no nosso.
Para a infelicidade de Lila, o uniforme não era o da polícia. Era o uniforme preto e característico da Team Plasma. Houve um pequeno alvoroço quando eles entraram, mas as pessoas se calaram ao ouvirem o som das armas sendo engatilhadas.
— Boa tarde – um dos membros da Team Plasma começou. – Desculpem estragar a viagem de vocês, estamos buscando algumas pessoas e não queremos causar transtornos. – Senti Kara puxar a minha toca e cobrir minha cabeça, ocultando o chamativo cabelo colorido. – Assim que terminarmos nossa busca, vocês poderão seguir viagem.
Eles caminhavam pelo corredor do vagão, encarando os passageiros. Kara levou as mãos aos bolsos, buscando as Pokéball e Lila puxava a manga do meu moletom com força. Eu entendia o esforço de Kara em me ocultar, mas não deveria ser atrás de mim que eles estavam. Roxie deveria imaginar que estava morto e congelado no fundo do lago àquela altura.
Pareceu demorar uma eternidade a presença deles ali e eu me sentia cada vez mais tenso e ansioso, como se eu precisasse desesperadamente fazer algo. Mas o que eu poderia fazer? Eu sequer tinha um Pokémon para entrar em combate.
— Ei você, tire o capuz – e só então percebi que um dos Team Plasma falava comigo. – Eu disse para você tirar – e caminhou ameaçadoramente em minha direção.
— Deixe-os – o homem que me emprestara a televisão portátil se levantou, se colocando entre minha fileira de poltronas e o Team Plasma que se aproximava. – São só crianças.
— Fique fora disso, velhote, se não quiser se machucar – o Plasma levantou a arma e apontou para o homem.
De repente, o trem deu um tranco e começou a se mover novamente. Com o tranco, o membro da Team Plasma se desequilibrou e instintivamente puxou o gatilho da arma. Os olhos de Kara se arregalaram por um segundo, apreensivos, antes do cara que havia me emprestado a televisão cair diante dela, com um tiro no meio da cabeça. Ela estava completamente suja de sangue e os respingos manchavam meu rosto e casaco.
Quando finalmente os passageiros do nosso vagão perceberam o que havia acontecido, começou uma gritaria desenfreada, que o outro Team Plasma controlou dando um tiro para o alto.
— Dá para você se controlar? Hawk quer o mínimo de baixas...Temos uma reputação a zelar – deu um sorriso irônico e automaticamente me lembrei do discurso pomposo que Aida tinha acabado de dar a emissora.
— A culpa não foi minha – protestou. – Por que estamos andando, afinal?
O mais velho balançou a cabeça, como se não soubesse a resposta e puxou o rádio comunicador do bolso.
— O que está acontecendo aí? – ele questionou para alguém. – O trem não deveria estar parado?
— Houve uma revolta nos primeiros vagões – uma voz estranha e desafinada respondeu em meio a estática. Ela me parecia familiar, mas deveria ser coisa da minha cabeça. – E eles conseguiram reassumir o controle da máquina.
— Como isso é possível?
— Tem uma líder de ginásio liderando, precisamos de reforços aqui – a voz foi ficando encoberta pela estática.
— E o nosso alvo?
— Ainda não encontramos – mas a voz sumiu completamente, deixando apenas o ruído irritante da estática. – Essa vadia deve ter o escondido.
Então, uma parte das pessoas havia reagido? Isso era bom e havia uma líder de ginásio no trem? Não deveria ser a Elesa, ela não saia de Nimbasa de maneira nenhuma. E com a traição de Roxie, só restava Skyla.
— Quando eu disser, você corre – Kara resmungou para mim quase inaudível. O sangue ainda pingava do cabelo claro e ela parecia mais irritada do que horrorizada. Lila ao meu lado, ainda mantinha as mãos sobre a boca, como se para reprimir um grito de pavor.
— Mas...
— Só corra, se os passageiros tomaram o trem, você vai ficar mais seguro lá na frente.
— Mas eu não vou deixar você aqui – e eu não entendia porque Kara iria se arriscar para me tirar da linha de fogo.
— Cala boca, estamos presos em um trem, não dá para fugir e você vai ser só peso morto em batalha – ela me encarou momentaneamente antes de enfiar as mãos nos bolsos. – Ache a líder e resolva essa merda. Vai!
Ela se virou lançando a Pokeball no meio do corredor e o Graveller pareceu gigantesco no espaço diminuto. Puxei Lila pela mão e sai pelo corredor, ouvia os tiros disparados acertando a couraça de pedra e mais pessoas liberando seus Pokémon enquanto outras aproveitavam a chance para fugir.
Quando chegamos ao próximo vagão, os membros da Team Plasma ali pareciam confusos pela reação no vagão adjacente e demoraram para reagir. Os passageiros avançaram sobre eles, e aproveitamos para ir para o vagão seguinte. Eu queria ficar e lutar, mas Kara tinha razão, sem nenhum Pokémon, eu era apenas peso morto.
Embora fossem poucos metros, pareceu demorar uma eternidade até chegarmos ao próximo vagão, com aquela gritaria, barulhos de tiros e Pokémon sendo liberados no ambiente. Os passageiros que não lutavam se acumulavam nas portas entre os vagões, o que dificultava muito a passagem. Além disso, eu estava cansado, sentia os efeitos da falta de sono e da fadiga sobre o corpo.
Finalmente conseguimos chegar ao próximo vagão e a situação ali era muito mais caótica. Era o vagão restaurante, ele era mais comprido e espaçoso. Tinha várias pessoas caídas no chão e buracos de bala em todos os cantos. Uma das janelas estava quebrada e o vento que entrava tornava tudo ainda mais confuso e bagunçado. Havia um Team Plasma caído no chão e eu presumia que aquele deveria ser o primeiro vagão onde a resistência tinha começado.
Havia uma garota ali, que brigava com um último Team Plasma, mas não era uma batalha Pokémon, como eu esperava. Ela segurava uma cadeira e tentava acertar o homem que desviava com dificuldade, devido a um ferimento na perna, onde uma faca estava cravada. Ela também não parecia levar muito jeito para batalhar daquele jeito, mas de alguma forma, estava levando a melhor.
Só então reparei no cabelo loiro, a pele bronzeada, os olhos selvagens. Ela parecia descansada, mas estava visivelmente mais surrada do que eu, tinha várias marcas pelo rosto e nos pulsos. Podia ser qualquer pessoa, mas parecia Haila e eu só poderia estar delirando.
Mesmo que o que Roxie tivesse dito fosse verdade, sobre a menina estar bem e segura, Haila deveria estar a quilômetros de distância. Eu só poderia estar tendo outro dos meus delírios, onde dali a pouco um Zoroark apareceria e picaria o corpo dela em zilhões de pedaços.
— Haila! – Lila gritou, avançando pelo vagão.
Seu grito assustou a loira que desviou o olhar, o Plasma aproveitou a chance e deu um soco bem colocado, derrubando-a no chão. Se eu estava delirando, por que Lila estava vendo a mesma garota que eu? E por que o Zoroark ainda não tinha aparecido para acabar com meu devaneio?
O Team Plasma tinha aproveitado a chance e pulado sobre a Haila tentando estrangulá-la.
— Dá para dar uma ajuda aqui? – ela se debateu, tentando afastar as mãos do bandido.
Ok, era a Haila, ela era real e estava levando a pior. Lila e eu avançamos rapidamente na direção dela, mas, de repente, Lila tropeçou e caiu. Só então percebi que o Team Plasma que julgava desmaiado estava bastante desperto e a segurava pela perna. Ele parecia não ter muita força, mas ainda assim, a segurava com firmeza.
Lila se debatia tentando se soltar, sem muito sucesso. Eu não sabia se parava para ajudá-la ou ia em socorro da Haila. Em tese, a loira era muito melhor de briga, mas estava levando a pior.
— Ajude a Haila – a morena gritou ao me ver titubear.
Eu não sabia bem o que fazer, só corri na direção da loira e dei um encontrão no cara, tirando-o de cima da moça. Do jeito que ele caiu, a faca afundou no ferimento e começou a esguichar sangue. Eu não entendia nada de ferimentos, mas dos seriados que assistia em casa, quando o sangue esguichava como chafariz era porque tinha atingido uma artéria. Haila levou as mãos ao pescoço, agora com duas mãos perfeitamente desenhadas, e me encarou confusamente, como se não esperasse me ver ali.
— Não era para você estar em Nimbasa? – A voz dela saia arranhada.
— Eu...
— Ah! – O grito da Lila chamou nossa atenção. Ela tentava chutar o Plasma com a perna livre, mas ele a prendia com força. Foi quando vi o Team Plasma lançar uma Pokeball. Um Voltorb saiu do faixo avermelhado e começou a emitir uma estranha luz.
— Vocês não vão derrubar a supremacia da Team Plasma – gritou.
— Não, seu idiota – o outro Plasma, que estava quase inconsciente com a perda de sangue protestou.
— Corram – foi a última coisa que a Lila gritou. Eu não queria deixa-la para trás, mas minhas pernas simplesmente correram ao comando dela. Vi o Voltrob ficar totalmente iluminado enquanto Lila buscava uma das Pokéball nos bolsos.
— Self-Destruct.
A explosão nos mandou voando direto para o outro vagão. A porta que separava os vagões foi arrancada e as janelas de vidro estouraram. Eu sentia meu corpo todo dolorido e um apito infernal soava nos ouvidos.
Quando consegui me orientar, o vagão onde Lila estava tinha virado uma bola de fogo e eu não conseguia divisar nada por entre as chamas.
— Lila!
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