Rota Zero

82 Um Trem para Nimbasa - parte 2


Notas iniciais
Olá, pessoas. Estamos de volta com mais um capítulo de Rota Zero e será que a Lila morreu? Será que ela está bem? Será que eu vou conseguir fazer um capítulo que não tenha alusão a comida (quase todos os capítulos Deedee e Haila aparecem comendo ou bebendo algo). Chega de papo e boa leitura!

December

UM TREM PARA NIMBASA — parte 2

— Lila! – Me levantei e corri na direção do vagão. Não podia ser verdade, ela não podia ter se sacrificado por minha causa. – Lila!

Senti alguém me segurar antes que alcançasse as chamas e me puxar para o vagão seguro. Eu me debatia sem aceitar que tinha deixado Lila para trás. Eu sentia lágrimas se formarem e o ar parecia faltar os pulmões. Só então percebi que era Haila quem me segurava. Ela me apertava mais forte do que o necessário e segurava a vontade de chorar.

Ficamos assim algum tempo, até eu finalmente parar de me debater e Haila me soltou. Eu sentia minhas emoções confusas dentro de mim, tinha acabado de reencontrar Haila e estava tão feliz por vê-la bem, mas ao mesmo tempo, tinha deixado Lila para trás e me doía ver que a mais pacífica de nós só tinha sido arrastada para tudo aquilo porque seguia conosco.

— Você está bem? – Haila perguntou encarando as marcas de sangue no meu moletom.

— Não é meu – disse sem saber se realmente a pergunta se referia a isso ou a explosão. Ela acenou com a cabeça e se virou, indo em direção a outra porta do vagão. – Onde você está indo?

— Preciso encontrar a Skyla e Cilan.

— Mas a Lila...

— Deedee, eu preciso ir – ela comentou duramente, sem me encarar. Skyla estava ali? Ela deveria ser a líder que os Plasmas citaram no rádio.

— Eu vou com você – me virei para acompanha-la.

— É melhor você ficar aqui.

— Eu não vou deixar você sozinha.

— Eu vou ficar bem – respondeu sem convicção nenhuma.

— E como vai fazer se encontrar algum Team Plasma, você não tem quase nenhum Pokémon – eu não queria deixa-la sozinha, não depois de acabar de encontra-la.

— Quase? – Ela me encarou com um olhar que eu não soube dizer o que significava. –Você quis dizer nenhum. Jaden libertou o Couve-Flor – completou ao ver minha cara de estranhamento.

— Como assim? – Como Jaden podia ter feito isso? Couve-Flor amava a Haila.

— Não é o que eles pregam, liberdade aos Pokémon? – Questionou quase indiferente.

— Mas...

— Rose fez a mesma coisa com o Audino da Clarice – respondeu taxativa, virou as costas e seguiu seu rumo.

Haila estava do outro lado do vagão, analisando a passagem. A porta para o outro vagão não existia mais. Tinha sido chumbada a fuselagem, provavelmente por algo muito quente. Até mesmo o vidro tinha se liquefeito e incorporado ao ferro fundido. Era impossível passar por ali. Mesmo que tivéssemos nossos Pokémon inteiros, nenhum deles teria habilidade para transpor aquele pedaço de metal.

— E você não sente por isso? – Questionei enquanto observava Haila procurar uma alternativa.

— Claro que eu sinto, assim como eu sinto pela Lila e pelo Des. Mas eu não tenho tempo para chorar agora – respondeu firme, sem me encarar. – Talvez possamos ir por aqui – Haila falou de repente.

Na fresta entre os dois vagões, havia o espaço de acoplamento, era estreito, mas talvez dessa para passar. Esse espaço geralmente era coberto por uma borracha isolante, mas com o calor para fundir a porta, essa borracha deveria ter derretido. Na lateral do vagão, havia uma escada quebra-peito com os menores degraus que eu já tinha visto. Haila intentava subir por ali e atravessar o vagão por cima, até chegarmos até a Skyla e o Cilan.

— Não me parece uma boa ideia – comentei inseguro. Era coisa de filme de ação, não era algo que eu poderia fazer na vida real.

— Você tem ideia melhor? – Haila falou antes de pular pelo vão e se agarrar a escada com dificuldade. Aos poucos, ela conseguiu se ajeitar e subir até chegar ao teto do trem. – Você vem? – Ela gritou quando chegou lá em cima e admito que me senti tentado a aceitar a proposta de esperar por ela ali, mas eu não iria deixar mais ninguém para trás.

Pulei pelo vão e me agarrei a escada, foi mais difícil do que me parecia, principalmente porque o trem parecia gradualmente ir ganhando mais velocidade. No teto do trem ventava muito forte e eu mal conseguia ficar em pé.

— Precisamos ir até o segundo vagão – Haila sinalizou, e eu só podia imaginar como iriamos chegar até lá. Havia fogo e fumaça vindo de toda a frente do trem.

Quantos dias eu tinha ficado sem a Haila? Dois, três? Não tinha sido tantos, mas ela me parecia tão diferente, muito mais do que as semanas que tínhamos nos afastados por causa da briga. O que tinha acontecido com ela no tempo em que ficou em posse do Jaden para ficar tão durona?

— Des está vivo – eu disse de repente. E Haila me encarou com uma expressão surpresa.

— Ele está bem? – E uma pequena chama da Haila de sempre pareceu reluzir nos olhos claros.

— Ele está em tratamento no hospital, mas vai se recuperar – informei. Eu queria apenas dizer que ele estava bem, mas dizer que alguém que estava em coma induzido e que ficaria com sequelas estava bem parecia uma mentira.

— Que bom! – Ela deu um suspiro de alívio e um sorriso quase imperceptível se formou nos lábios.

— Foi o Cilan quem libertou você do Jaden? – Eu sabia que ele tinha ido atrás dela. Cheren tinha ficado louco com isso.

— Não, nos encontramos por acaso em Victory Road – explicou por alto.

— O que você estava fazendo lá? – Isso explicava como Skyla entrava na conta, eu lembrava dos planos dela de ir até lá, mas como Haila tinha ido parar lá também? O esconderijo do Jaden era naquela região?

— Podemos falar disso depois? – Desviou em tom soturno.

— Certo, ah – falei como só tivesse me lembrado agora. – Eu estou com os seus Pokémon.

— Eu imaginei que você cuidaria deles – deu um meio sorriso. – Como foram as férias sem mim? – E foi o primeiro gracejo que a vi fazer desde que havíamos nos reencontrado. Infelizmente não tinha acontecido férias alguma e talvez ela surtasse ao saber o que tinha ocorrido a sua equipe, mas antes que eu pudesse explicar, ouvi um som de um vidro de quebrando se fez ouvir. – Deedee!

Só então percebi havia tetos solares nos vagões, para melhorar a claridade. Haila tinha desviado deles enquanto caminhava, mas eu não estava realmente prestando atenção e tinha pisado em cima de um deles, que cedeu com o meu peso.

Haila pulou, esticando o braço e tentando me segurar, mas isso só fez com que nós dois caíssemos pela claraboia, no meio do corredor do vagão abaixo. Eu estava estirado no chão e sentindo uma dor enorme nas costas, mas aparentemente não tinha quebrado nada. Haila tinha caído sobre mim, o que tinha amortecido a queda dela.

Eu podia ouvir vozes, mas não conseguia identificá-las. Senti alguém puxar Haila de cima de mim.

— Ei, tira as mãos de mim – ela se debateu, se desvencilhando.

— Calma, garotinha, só queria ver se você estava bem – a pessoa comentou.

— Como se vocês, da Team Plasma, se importassem – ela cuspiu as palavras.

— Nós não somos da Team Plasma, achamos que vocês fossem – uma mocinha de óculos, que deveria ter mais ou menos a minha idade, comentou.

Me sentei no chão e pude ter uma visão melhor de onde estávamos. As duas entradas do vagão estavam seladas da mesma forma, com as portas chumbadas e no interior, havia bagunça e marcas de batalhas. Havia essa mocinha de óculos, um senhor e um cara de rosto largo com jeito de galã de cinema e seus vinte e poucos anos que era muito mais alto do que eu.

— Kean?

— Nos conhecemos? – Ele desviou o olhar de Haila e me encarou confusamente. Sim, você é o babaca que abandonou o Abóbora no deserto.

— Você o conhece? – Haila questionou e percebi que ela também não se lembrava do sujeito.

— Não importa – balancei a cabeça. – É melhor irmos – sinalizei para Haila. Eu não sabia quanto faltava para chegar em Nimbasa, mas parecia que estávamos indo cada vez mais rápido. Eu não sabia quanto mais tempo Skyla conseguiria manter controle do trem e o que aconteceria se chegássemos a cidade com a Team Plasma no comando.

— Para onde vocês vão? – Kean perguntou ao nos ver levantar.

— Precisamos encontrar nossos outros amigos – Haila respondeu secamente.

— Estamos presos nesse vagão.

— Como é?

— Estamos presos aqui, nós chumbamos as portas para que a Team Plasma não tivesse acesso. Vocês não têm como passar – informou, apontando para as portas.

— Vocês são idiotas? – Haila questionou enérgica. – Vocês se colocaram dentro de uma armadilha.

— Nós estamos seguros aqui – a mocinha protestou.

— Se eles jogarem uma bomba pela claraboia, como vocês vão fugir? – E realmente ter se fechado dessa maneira era muito estúpido.

— Eles não vão fazer isso – uma outra voz se fez ouvir e só então percebemos que havia uma quarta pessoa ali. Um rapaz de cabelo escuro e todo vestido de preto. – Eles não iriam querer machucar as pessoas aqui dentro. – Minha mente demorou para processar aquelas feições, mas eu as conhecia.

— Grims...

— Seu filho da puta – Haila tinha voado sobre ele e tentava soca-lo, mas ele segurava os braços magros com maestria. – É tudo sua culpa! Você matou a Lenora, seu traíra! Você que a entregou – Haila estava extremamente alterada. Do que ela estava falando? Lenora estava morta? Ela a tinha visto?

— Eu não sei do que você está falando, sua maluca – Grimsley provocou.

— Você matou a Lenora, seu Team Plasma desgraçado. Eu vou acabar com você, nem que seja a última coisa que eu faça. A morte da Lenora não vai sair impune, seu desgraçado. Você entregou todos os nossos planos, você a entregou nas mãos daquele... – e ela estava tão nervosa que as palavras saiam desencontradas.

— Não foi ele – falei instintivamente.

— Deedee, agora não é hora para os seus discursos pacifistas – ela gritou, ainda tentando avançar sobre o Elite Four.

— Não foi ele – repeti – foi a Roxie. – E o estrago estava feito. Eu não queria contar aquilo assim, em um vagão cheio de pessoas estranhas, mas eu sabia que quanto mais tentasse florear e amenizar aquilo, maior a possibilidade de acabar não contando a verdade.

— Do que você está falando? – Ela me encarou.

— Roxie, foi ela quem entregou nossos planos a Team Plasma – eu não sabia se Roxie estava envolvida diretamente no sequestro da Lenora, mas se ela era uma Team Plasma, com certeza, deveria saber alguma coisa sobre isso.

— Eu não gosto da velha, é verdade. Mas por que eu a mataria? – Grimsley rebateu, soltando os braços da garota.

— Deedee, eu não sei o que andaram te contando, mas Roxie... – Haila começou, como se eu estivesse falando uma enorme bobagem.

— Ninguém me contou nada, eu estava lá, eu vi – e as imagens da captura do lendário voltaram a minha mente.

— Você tem certeza? – Ela me questionou, confirmei com um aceno. – Mas ela sempre nos ajudou e...

— Ela mentiu para mim, mentiu para você, mentiu para todos nós.

— Isso não faz sentido – e finalmente ela deu um passo para trás, se afastando do Elite Four.

— A Team Plasma estava sempre um passo à frente. Grimsley não estava sempre com a gente para saber de todas as informações – desviei o olhar para o homem e ele me devolveu um olhar enjoado.

— Roxie não nos trairia assim, tem que ter algum motivo – Haila protestou e ela parecia aceitar de forma pior do que eu.

— Assim como Jaden tem? – Rebati, mas me arrependi imediatamente do que havia dito, ao ver os olhos da menina escurecerem. – Haila, desculpa, eu não...

— De qualquer forma – a loira me ignorou, se virando para Grimsley – onde você esteve que não ajudou a defender Victory Road?

— Isso não é da sua conta.

— Não é da minha conta? Marshall morreu em batalha, Shantal... – e a voz tremeu. – Você os deixou na mão. Mesmo que não seja um Team Plasma, fugir da sua responsabilidade ainda é traição! – As palavras reverberaram pelas paredes metálicas.

— Isso é só comigo ou você vai passar esse mesmo discurso para a Caitlin, que convenientemente foi para Sinnoh com a Cinthia? – Rebateu atravessado.

— Pare de se esconder atrás dos erros dos outros para justificar os seus – Haila rugiu e achei que ela fosse pular no pescoço magrelo novamente.

— Não fale de coisas que você não sabe, menina.

— Então por que você disse que a Team Plasma não o atacaria? – A loira encarou Grimsley desconfiada.

— Como eu disse antes, eu não te devo satisfação, fedelha – revirou os olhos escuros enquanto espanava as roupas.

— Que seja – Haila revirou os olhos. – Vamos, Deedee.

— E por onde vão sair? – Kean questionou com uma nota de divertimento na voz

— Pelo mesmo local que entramos – Haila encarou a claraboia. Era um local de difícil acesso, mas talvez conseguíssemos subir até lá de alguma maneira.

De repente, houve uma porrada na porta que nos ligava ao terceiro vagão. Foi tão forte que toda a estrutura estremeceu. A porrada aconteceu de novo e de novo, até que o metal da porta começou a ficar avermelhado e o ambiente começou a ficar absurdamente quente.

A garota de óculos e o velho recuaram. Kean deu um passo à frente, se colocando entre Grimsley e a porta. O metal começou a derreter e um Macargo apareceu na abertura, passando pelo metal liquefeito como se fosse nada. O calor que emanava dele era intenso e comecei a sentir como se o local estivesse terrivelmente abafado.

Kean deu um passo para trás, quando o Pokémon de fogo entrou no pequeno espaço, derretendo o chão por onde passava, seguido por dois Team Plasma.

— Ora, ora, o que temos aqui – gracejou o homem que parecia o líder. – Grimsley, Grimsley, vamos parar de esconde-esconde, você só está dificultando meu trabalho.

— Eu não sei do que você está falando – o rapaz de preto falou com um floreio.

— Você, como um Elite Four, deveria ter se entregado e poupado todas essas pessoas – o Team Plasma prosseguiu.

— E facilitar para você?

— Chega de conversa, vamos logo – o homem ordenou.

— Não sem lutar – Grimsley enfiou a mão no bolso das vestes e liberou um Krookodile.

O Pokémon era enorme, maior de qualquer outro que eu já tivesse visto. Ele deu um rugido ensurdecedor, e eu me senti ligeiramente amedrontado. O Krookodile foi para cima do Macargo, se embolando no minúsculo espaço do corredor. O choque entre os dois fez pequenas brasas voarem pelo ambiente.

Eles mal conseguiam se mexer no espaço diminuto e cada movimento que o Macargo fazia, incinerava as poltronas que tocava. Era tão quente, que elas mal pegavam fogo e já viravam cinzas instantaneamente. Krookodile empurrou o Pokémon contra a parede lateral do vagão. Ele parecia sofrer com o calor que emanava do corpo robusto, mas resistia bravamente.

— Isso está muito demorado – o Team Plasma bufou. E lançou um Metagross no pouco espaço que restava. Haila me puxou entre as poltronas, enquanto Kean liberava sua Flygon.

Era um Pokémon bonito e gracioso, as asas se abriam delicadas ao lado do corpo. O Metagross tentou avançar sobre ela, mas ficou preso entre os espaços dos bancos.

— Flyfy, Dragon Tail – a Pokémon girou no ar, se preparando para um golpe perfeito, mas durante o giro, uma das asas passou muito próximas ao Macargo e se incendiu, virando um pedaço de carvão e a derrubando sobre as poltronas a esquerda.

— Façam alguma coisa – a garota de óculos gritou, nos espiando por cima de uma das poltronas.

— Ele não tem outros Pokémon? – Encarei Kean que parecia desesperado com a queda da Pokémon. Não era ele quem tinha se gabado de ter os Pokémon perfeitos?

— Só estamos seguros graças aos esforços do Kean e o Grimsley – choramingou. – Se não fosse por eles, teríamos sido dizimados – complementou desesperada. – Eles não têm mais força de combate.

Flyfy tentava se levantar, mas a asa destruída parecia causar uma dor lacerante. O Krookodile tentava segurar o Pokémon de chamas, mas a pele começava a borbulhar sobre o calor e ele não parecia resistir por muito mais tempo. O metal do vagão começava a se deformar com o calor e o metal estalava a cada segundo.

— Como vocês isolaram as portas? – Haila perguntou desconfiada.

— Kean tem um Magmar, mas ele usou todas as energias para selar as portas – informou chorosa.

— E você não tem nenhum Pokémon? – Haila perguntou a menina.

— Eu só tenho um Pokémon, um Hoppip e ele não foi treinado para batalhar – eu não sabia qual Pokémon era, mas pelo revirar de olhos de Haila, deveria ser bastante inútil para a situação.

— Você, não fique aí parado, dê um jeito nos outros – pude ouvir o que aparentava ser o líder gritar. O outro membro lançou a Pokeball com tanta força, que ela bateu na outra porta chumbada antes de cair no chão e abrir, liberando um Corphish.

Era um Pokémon até engraçadinho, com suas garrinhas, mas Haila deu um muxoxo exasperado ao vê-lo.

— Deedee, você está com o meus Pokémon aí? – Haila perguntou.

— Sim, mas acho que não vai ser muito útil – respondi sem jeito.

— O que quer dizer?

— Eles estão meio congelados – tentei dizer aquilo da maneira mais natural possível, mas claramente não soou assim.

— O que quer dizer com congelados? – E percebi ela se sobressaltar.

— Anvile – eu disse com um suspiro. – Aconteceram muitas coisas e eu precisei da ajuda da Leaf e dos outros – disse com pesar.

— Mas eles estão bem?

— Sim, claro que sim – tentei tranquiliza-la. – A enfermeira do Centro disse que eles só precisam de um descanso – e eu ficava imaginando quando isso seria, em tempos tumultuados como aqueles.

— Bem, pode devolve-los? – Enfiei as mãos nos bolsos e devolvi as Pokéball. Ela as encarou demoradamente, antes de guardar duas no bolso e liberar Leaf.

A Pokemon folhosa pareceu confusa ao ver a treinadora, mas fez seu ruído característico balançado as orelhas alegremente. Ela parecia cansada, mas a aparência estava muito melhor do que quando a retornei para a Pokéball.

— Leaf, Deedee me disse que você está cansada, mas podemos fazer isso, certo? – E encarou o Corphish, que aguardava um comando do treinador. Leaf encarou o Pokémon de água e deu um resmungo positivo. – Certo, Razor Leaf.

A Pokémon se posicionou e agitou as orelhas, as folhas se formaram em torno dela, mas fosse porque ela não estivesse verdadeiramente descansada, o golpe saiu com uma potência muito abaixo e o Corphish recebeu pouco dano.

— Bubble Beam e finalize com Crabhammer – o Team Plasma gritou.

Corphish lançou bolhas de água na direção da Leaf, que saltou de um lado para o outro, usando as poltronas como impulso para fugir do ataque. A agilidade estava bem comprometida, e o que ela faria com graciosidade e destreza, parecia ser executado com esforço extremo. Leaf deu um giro no ar e preparou seus chicotes para atingir o Pokémon aquático, mas ele precipitou a investida e desferiu um certeiro Crabhammer na Pokémon, derrubando-a no chão.

— Leaf!

Eu queria me manter concentrado na luta entre a Haila e o Team Plasma, mas do outro lado, Metagross começou a se mover desajeitadamente pelo espaço do corredor, arrancando os bancos enquanto passava e ia em direção a Flygon caída. Kean gritava comandos, mas ela não conseguia se pôr em pé.

— Vamos Flyfy, não me decepcione – Kean gritava, mas a Pokémon parecia esgotada.

Metagross se aproximou o suficiente e fechou uma das patas, como um soco, eu não sabia que golpe viria dali, mas pela maneira como se portava, seria destruidor.

— Tire-a daí – gritei, mas Kean me ignorou, esperando que sua Flygon fosse reagir.

Metagross desceu o braço sobre ela com fortíssimo Meteor Hammer, eu só tinha visto aquilo no livro da minha mãe e era um ataque poderoso, mesmo que se usado pouca força. O soco acertou o dorso da Flyfy e afundou no chão, fazendo a estrutura de metal ranger.

Ela deu um grito de dor excruciante, tão alto que até mesmo Haila e Grimsley se viraram para olhar. O Metagross levantou o braço metalizado para um novo ataque. Se a Flygon recebesse outro desse, certamente morreria. Eu não podia deixa-la morrer ali, não com Kean sendo um total inútil em trazê-la de volta.

— Abóbora – lancei o Pokémon sem realmente pensar.

Meu pequeno Pokémon laranja parecia tão cansado quanto Leaf, mas ele tinha sofrido menos com os efeitos do congelamento, mesmo que as queimaduras da batalha contra o Pokémon em forma de sino ainda fossem visíveis nas costas.

Eu não tinha a menor chance de derrubar o Metagross com um Pokémon tão pequeno, mesmo se ele estivesse em perfeitas condições. Tudo o que eu precisava era uma distração para tirar Flyfy do campo de batalha.

— Sand Atack – ordenei e vi Abóbora se concentrar para efetuar o ataque. Ele precisaria ser rápido, antes que Metagross terminasse o seu.

Demorou um pouco, mas foi no tempo perfeito. O vagão se encheu de terra e areia que entravam pelo vidro quebrado da claraboia. Não era tão intenso como o que tinha usado no Gear Station em Anvile, mas foi o suficiente para me encobrir.

Corri por entre os bancos na direção da Flygon, ela estava enfiada no chão, presa no metal retorcido, e não fazia ideia de como iria tirá-la de lá, fiz força, mas ao menor movimento ela gemia e se debatia.

Eu tinha usado brilhantemente o Sand Atack para ocultar minha presença, mas tinha me esquecido que a cortina de areia encobria a visão de todos no campo de batalha e que isso, no final, poderia virar um problema.

— Aerial Ace – ouvi o Team Plasma mais jovem gritar. E segundos depois uma rajada forte de vento varrer minha cortina de areia. Tinha sido tão forte, que Haila e a garota de óculos tinham se protegido entre as poltronas e Leaf tinha usado seus chicotes para não ser arrastada.

A luta entre Leafeon e Corphish prosseguia, mas ela estava muito cansada e ele não tinha muito poder de ataque, era quase como ver dois Caterpie batalhando. Do outro lado, Macargo e Krookodile se engalfinhavam, deixando um rastro de destruição e metal derretido por onde passavam e aumentando a temperatura dentro do vagão.

Só então percebi que ainda estava no meio do corredor, a centímetros do Metagross que estava pronto para me atacar. Pelo canto dos olhos pude observar Kean, que parecia não saber o que fazer. De repente, Abóbora correu pelos espaços por baixos das poltronas e acertou uma das patas com uma cabeçada.

Não foi um ataque efetivo, apenas serviu para distrair o Pokémon de metal, que ficou irritado e tentou pisotear meu pequeno parceiro. Abóbora conseguiu se esquivar para o lado, se escondendo embaixo de uma poltrona O gigante de metal se irritou ainda mais e arrancou a poltrona com um soco, mandando os pedaços para todos os lados. Abóbora se levantou e correu para baixo da próxima poltrona e assim sucessivamente, me ganhando tempo.

Eu não conseguiria tirar Flyfy do chão e mesmo gritando para Kean me ajudar, ele permanecia imóvel, encarando a Pokémon derrotada. Do outro lado, a Beedril tentava mudar a vantagem da luta entre a Leaf e Corphish. Leaf cansada como estava não daria conta dos dois e Haila não podia contar com o resto do seu time, não depois de tudo.

De repente, o velho, que tinha permanecido escondido na última fileira de poltronas do vagão correu para cima do Pokémon inseto balançando a bengala como um bastão. A Beedril desviou sem muita dificuldade e avançou na direção do homem, cravando um dos ferrões em suas costas.

O velho deu um gemido, que foi abafado pelo sangue que saia da boca e caiu entre o corredor e a fileira de poltrona.

Vi Haila gesticular algo para a garota de óculos e então dar um novo comando a Leaf. Pétalas coloridas se formaram em volta dela e giravam velozmente. Achei que ela iria mirar no Corphish, mas focou na Beedril.

O ataque não suficiente para machucar o Pokémon, apenas criar uma força de ar forte o suficiente para arrastá-la pelo vagão. Eu achei que o intuito da loira fosse apenas tirar o Pokémon da sua linha de combate, mas ela criou um fluxo de ar perfeito, usando o ataque de folhas, mais o ar que entrava pela claraboia, para arrastar a Beedril até onde o Macargo e o Krookodile lutavam. O calor que emanava do Macargo era tão alto que foi o suficiente, mesmo sem contato direto, para queimar as asas da Beedril, que caiu entre as poltronas.

Infelizmente, a manobra de Haila deixou a guarda de Leaf aberta, o Corphish aproveitou a oportunidade e desferiu um novo Crambhammer, que derrubou a Pokémon folhosa. Haila mordeu os lábios e a chamou de volta para a Pokéball, tentando decidir o que fazer em seguida.

Enquanto isso, eu tentava tirar Flyfy do piso enquanto Abóbora corria de um lado para o outro. Ele estava visivelmente cansado e não iria aguentar muito mais tempo fazendo aquilo. Eu precisava revidar, mas não tinha nada que pudesse fazer. Abóbora era pequeno e fraco e eu não sabia de nenhum ataque além do Sand.

Então me lembrei do dia que conheci Kean. Ele tinha descartado Abóbora porque ele não tinha herdado as habilidades da Flyfy, mas apenas as do pai. Eu não sabia se Haila tinha o treinado para isso ou se era algo que Abóbora saberia inerente, mas era a última cartada que eu tinha.

— Abóbora, Earth Power – e eu só poderia rezar para que ele soubesse o que fazer. Abóbora me encarou com estranhamento, mas os olhinhos pretos ganharam um brilho diferente e se voltaram para o Metagross que já estava sobre ele.

Abóbora deu um pulo para o lado e correu para baixo da última fileira de poltronas, deitando no chão. De repente, senti o piso estremecer e um buraco se abriu bem abaixo do Metagross, e uma coluna de pedra surgiu, golpeando-o por baixo. Não foi algo tão grandioso como eu esperava, mas serviu para desequilibra-lo, fazendo o rolar para o lado.

Lado talvez não fosse muito específico. Naquele espaço quase inexistente, ele rolou para a única direção que não havia poltronas, exatamente onde Krookodile e Macago lutavam. O movimento do trem, serviu para dar mais impulso e o corpo do Metagross terminou com as pernas viradas para cima, prensando seu corpo contra o Krookodile e Macargo.

O calor do Macargo estava criando bolhas na couraça do Pokémon noturno e fazendo o metal do corpo do Metagross liquefazer. Junto com isso, a parede do vagão também derretia. Vi Grimsley puxar a Pokeball para retornar seu Pokémon, mas antes que pudesse fazê-lo, a fuselagem do vagão cedeu e com um movimento do trem, os três Pokémons foram arremessados para fora.

— Não – Grimsley deu um passo em direção ao buraco derretido, mas o Team Plasma aproveitou a distração para golpea-lo e derrubá-lo no chão. – Deixe-me, meu Pokémon...

— Agora ele é livre, como a nossa querida Team Plasma prega – o Team Plasma gracejou, antes de puxar Grimsley pelo longo cachecol amarelo e colocá-lo de joelhos.

Eu ainda estava ajoelhado ao lado de Flyfy que parecia cada vez mais fraca, Abóbora tinha voltado ao meu lado e não parecia entender que aquela era sua mãe. Kean estava a poucos metros, mas não tinha reação alguma. A garota de óculos se agarrava a blusa da Haila, que parecia incerta do que fazer a seguir.

— Vocês aí, isso não é problema de vocês. Se vocês se comportarem, vão terminar todos vivos – eu não acreditava em nada disso, mas eu não sabia o que fazer.

O outro Team Plasma, o mais jovem, avançou pelo vagão, me puxando para perto de onde Grimsley estava. Abóbora tentou morder sua canela, mas tomou um chute que o mandou para o outro lado do vagão, aos pés de Haila.

— Vocês duas, aqui também – e sinalizou o local vago ao meu lado. Haila apertou Abóbora em um abraço e fez menção a ignorar a ordem. Mas o Team Plasma me puxou pelo cabelo – Vai arriscar, loirinha? – E a contragosto ela e a garota de óculos se uniram ao meu lado. – Você também, grandão – e Kean foi o único de nós que não protestou.

E ali estávamos nós, enfileirados, com o Team Plasma mais jovem nos cerceando, enquanto Grimsley estava de joelhos diante do mais velho.

— Era só para eu ter entrado e saído, está vendo o trabalho que me deu – o Plasma reclamou antes de dar um soco no Elite Four.

— Está perdendo seu tempo – Grimsley cuspiu sangue. – O velho nunca vai pagar um resgate. Ele não negocia com terroristas.

— Eu conheço bem as políticas nada flexíveis do nosso amado presidente – o Plasma respondeu. Presidente? Como assim?

— E acha que comigo vai ser diferente? Além disso, pegou o filho errado, se queria algo mais efetivo deveria tentar com a Karen, ela sempre foi a preferida – respondeu debochado. Espera aí, Grimsley era filho do Presidente de Unova? Como é que eu não sabia disso? Desviei o olhar para Haila e ela parecia tão surpresa quanto eu. Essa não parecia ser alguma daquelas coisas de senso comum que todos sabiam, menos eu.

— Eu não estou interessado em suas brigas de família, Grimsley – o Plasma revirou os olhos. –Mas mesmo que você e o seu velho não se deem, acredito que você conseguir transmitir exatamente a nossa mensagem.

— Que seria? – Grimsley questionou com descaso. Apesar da posição submissa, ele não parecia nenhum pouco amedrontado.

O Team Plasma buscou algo nas roupas e liberou um novo Pokémon. Um Scizor apareceu reluzente em sua couraça avermelhada.

— Que ele não precisa negociar com terroristas, nós não estamos mais em fase de negociação – e abriu um sorriso arreganhando os dentes.

Os olhos de Grimsley se arregalaram, mesmo o sorriso irônico não se desfazendo dos lábios e o Scizor baixou uma de suas lâminas em um corte seco e rápido. Eu virei o rosto, mas percebi que Haila encarava toda a cena. Pude ouvir um som que não sabia identificar e quando tive coragem de olhar novamente, o corpo magro, vestido de preto estava caído no chão do vagão, o cachecol amarelo tinha se tingido de vermelho e não havia mais os cabelos escuros para adornar o corpo.

O Plasma mais velho segurava a cabeça decapitada pelos cabelos, o pescoço ainda gotejava sangue e os olhos estavam apenas, parcialmente fechados. Instintivamente segurei na mão da Haila, enquanto via que a garota de óculos se continha para não vomitar.

— Mande a Beny trazer a caixa, o alvo foi abatido – transmitiu pelo rádio.

O alvo? Então tudo aquilo, todo aquele ataque era apenas para encontrarem Grimsley e mandarem uma mensagem para o presidente? A Team Plasma não poderia ser tão insana a esse ponto. Não a equipe que pregava paz e harmonia com os Pokémon.

Não demorou muito uma mulher trajando o uniforme da Team Plasma surgisse pelo vagão trazendo uma valise. O líder guardou a cabeça dentro da caixa e fez sinal para a mulher que voltou pelo caminho que veio.

— Por que você usou o seu Scizor? – o jovem Team Plasma perguntou atônito.

— Depois que o líder fracassado nos desarmou, não tive muita escolha. E ele já está acostumado com isso – disse placidamente, enquanto retornava o Pokémon para a Pokéball. Ele tinha acabado de perder dois Pokemon que tinham caído pelo buraco e usado outro para matar um homem a sangue frio e não parecia minimamente incomodado com nada disso.

— O que vamos fazer agora? – O mais jovem perguntou.

— Precisamos retomar o controle do trem – o líder comentou se virando e seguindo o caminho da mulher.

— E quanto a eles? – O mais jovem sinalizou, nos mostrando.

— Pode matar – ele sumiu pela porta derretida.

— Mas eu não tenho armas... – mas ele não terminou a frase, Haila aproveitou o vacilo deu uma cotovelada no baço do garoto. Ele se inclinou gemendo, mas conseguiu agarra-la pelo pulso, Haila tentava soltar o braço, mas como segurava Abóbora com a outra mão, não conseguia fazer força suficiente.

Dei um empurrão com o resto da força que eu tinha, e ambos fomos ao chão. Ele se preparou para me dar um soco, mas um som alto, como se fosse um rugido se fez ouvir. Era tão alto que senti meus ouvidos doerem e segundos depois, senti uma onda de ar me atingir, os vidros quebraram, o metal vibrou e fomos jogados pela extensão do vagão.

Eu podia ver os vagões da frente em chamas, e uma fumaceira escura e densa invadia nosso espaço. O metal rangeu, e de repente, havia faíscas para todo o canto e do nada, o vagão virou.

Eu não sabia dizer o que estava acontecendo, senti o impacto contra o solo e podia ver os trilhos passando embaixo de nós pelas janelas estraçalhadas. Os maleiros se abriram, derrubando objetos aleatoriamente. O metal do vagão rangia e se retorcia e de repente, onde havia o buraco que Macargo tinha aberto, se alargou, causando esforço no resto do metal que cedeu, separando o vagão em duas partes.

Quando as duas partes se soltaram, criaram uma espécie de vácuo, que sugou Kean para fora, como se fosse um boneco de pano. Me agarrei no que conseguia para não ter o mesmo destino e o membro da Team Plasma fazia o mesmo. Haila tinha ficado no outro pedaço do vagão, se agarrava auma das poltronas, enquanto segurava Abóbora firmemente. A garota de óculos fazia o mesmo, mas parecia ter dificuldade em permanecer segura.

Senti o vagão girar, fazendo o mundo ficar de cabeça para baixo. Minhas mãos doíam e eu não tinha mais força para me segurar. Senti as mãos escorregarem e cair em meio as poltronas, com um baque e minha visão sumir.

Notas finais
N/T: Agradeço Julio por me recomendar o filme Train to Busan (genericamente chamado de Invasão Zumbi em português) e as horas de Uncharted 2: Among Thieves que me inspiraram para escrever esse capítulo. Ademais, o capítulo ficou curto porque eu decidi dividir o capítulo original em 3 partes, ou seja, semana que vem tem mais. Comentem, beijokinhas e até!