Rota Zero
66 Sombra de Opelucid
Notas iniciais
December
SOMBRAS DE OPELUCID
— Está tudo bem com ele? – Perguntei me esgueirando atrás do garoto maior, tentado espiar o que acontecia no centro da roda. Mas ninguém me respondeu.
O chão parecia duro aos meus pés e o tempo demasiado escuro, mesmo que estivesse em horário de aula. Quando finalmente consegui ter alguma visão, havia uma garota sentada no chão agarrada a um pequeno Minun.
Parecia com a Rose, mas não dava para ter certeza, não do ângulo que eu estava. Só podia ver o longo cabelo preso em duas maria-chiquinhas quase tocarem o chão. E os ombros balançarem lentamente, ela estava chorando. Ela parecia tão pequena e frágil, mas eu também o era, todos ali no círculo que se formava em torno dela o eram.
Dei mais um passado para o lado, tentando enxergar melhor e vi que o pequeno Pokémon estava ensopado em um mar de sangue, o amarelo tradicional mal podia ser divisado. Havia um ferimento mais grave na altura do pescoço, como um arranhão ou uma mordida.
— Ele está...
— Morto – respondeu o garoto grande parado ao meu lado. Ele parecia indiferente aquilo, todos pareciam.
— Quem...
— Hugh – completou antes que eu questionasse. – Hugh e seu Zoroark – finalizou sombriamente.
— Mas Hugh não tem um Zoroark – rebati, porque realmente não tinha. Nenhum de nós tinha idade legal para sequer ter um Pokémon, e mesmo que tivéssemos dificilmente o garoto teria algo tão raro.
— Claro que tem – respondeu o garoto com um sorriso sarcástico. – Todos têm – e se virou para mim com um olhar feroz, levando a mão ao bolso. – Só os perdedores que não.
E puxou a esfera branca e vermelha. Do facho avermelhado pude reconhecer as formas delgadas de um Zoroark. Senti minhas pernas tremerem, mas não conseguia correr.
— Você está me ouvindo? – A mulher parecia mesmo irritada de ter que repetir aquilo pela, bem eu não fazia ideia, mas ela parecia ter gastado um bom tempo tentando atrair minha atenção.
— Sim, claro – respondi. O sol do meio-dia iluminava fracamente o toldo da barraca onde eu me encontrava. Parecia um dia insonso e sem graça, mesmo com o sol alto no céu azul e limpo.
— Então, como eu disse – retomou a mulher. Ela usava um uniforme que eu não saberia dizer do que era, mas ali no assentamento dos sobreviventes, ela era a responsável por cadastrar o pessoal. – Os nomes que você procura não estão na lista.
— Tem certeza? Eu vi novas pessoas chegando ao assentamento.
— Tenho. Já fizemos uma triagem pelos novatos e não há nenhum Desmond e Liana...
— Lila – corrigi, mas ela não pareceu se importar. – Talvez eles estejam em outro assentamento.
— É possível – ela disse desanimada.
— Você poderia conferir se...
— Garoto! Nós não temos contato com os outros assentamentos. Temos algumas parcas informações por rádio, mas a comunicação está bastante precária com a queda das torres. – E colocou as mãos na cintura, como uma mãe enfurecida. – Agora, se puder dar licença – e espiou por cima do meu ombro. Me virei, e vi que havia uma fila razoável atrás de mim. – Você não é o único buscando por pessoas.
Dei um muxoxo e sai da fila. Realmente Lila e Desmond não estavam ali. A cada minuto novas pessoas chegam sujas, cansadas e feridas, mas naquela multidão de pessoas assustadas e inseguras eu não conseguia divisar nenhum rosto conhecido. Eu tinha tentado ligar para Lila, mas o sinal não estava funcionando e pouco tempo depois, a bateria do meu Xtransceiver tinha arriado, me deixando totalmente na mão.
Além disso, o que tinha sido aquele sonho. Ninguém sonha assim acordado, mas também não era uma lembrança. Rose nunca tivera um Minum, ou tivera? Eu me lembrava vagamente de um episódio onde ela e Hugh tinham encontrado um Pokémon selvagem ferido na floresta próxima a Aspertia. Ela tinha levado o monstrinho para casa e os pais dela tinham ficado loucos porque nunca a quiseram envolvida com Pokémon. Eu não me lembrava se era um Minum, mesmo porque eu nunca tivera realmente amizade com Hugh ou a menina, mas eu tinha certeza que o garoto do cabelo escuro jamais tivera um Zoroark. Lembrança ou não, aquela cena cruzando minha mente não fazia sentido algum. Eu precisava manter o foco. Tinha dito a Haila que encontraria Des e Lila e precisava fazê-lo.
Mas se eles estavam em outro assentamento, eu precisaria ir até cada um deles verificar. Não era de bom tom que se ficasse circulando por ai, mas eu não era o único desesperado por notícias e muitas pessoas já tinham deixado nosso acampamento para encontrar seus parentes e amigos. Pelo que eu ouvira de conversas enquanto esperava Haila acordar, havia dois assentamentos a leste de Opelucid e seria necessário atravessar a parte baixa da cidade para chegar até eles.
Não me animava nada pensar em voltar para o lugar, eu estava sujo e cansado. Sangue seco de Draiden ainda estampava minha camisa e havia rasgos nas calças mas eu tinha dito a Haila que cuidaria de tudo.
=8=
Chiclete, Bacon, Marshmallow e Abóbora estavam fora das Pokéball, descansando e tentando restaurar suas energias. O pequeno Trapinch mordia a cauda longa e escura do Absol, mas apesar da sua cara de poucos amigos, o Pokémon branco parecia não se importar. Chiclete mantinha um olhar alerta sobre mim, mesmo que eu estivesse distante e todos estivessem seguros nas tendas do acampamento. Bacon rolava para fora do coberto, tentando aproveitar os raios mornos do sol. Parecia uma cena bastante comum e até feliz perto dos últimos acontecimentos.
Eu tinha voltado da tenda da Haila e ela ainda estava dormindo. Tinha falado um bocado sobre Lila, Desmond, a Team Plasma e Jaden, mas no final tinha sido vencida pelo cansaço. Eu rumava na direção de meus companheiros quando comecei a ouvir vozes exaltadas pelo acampamento.
Logo, aquilo se tornou uma gritaria e pessoas desesperadas começaram a correr por todos os lados. Pessoas tropeçando umas nas outras, caindo e sendo pisoteadas. Tendas que desmontavam de repente e explosões. Só poderia ser a Team Plasma.
Corri na direção dos meus parceiros, tirando as Pokéball do bolso. Com pessoas correndo e passando por mim, por vezes, eles sumiam do meu campo de visão, mas Chiclete parecia alerta e pronto para o ataque. Quando finalmente passei pelo mar de pessoas, após ter sido empurrado várias vezes, a tenda onde eles estavam tinha caído.
O toldo branco se misturava a poeira e havia sangue colorindo parte do tecido. Chiclete estava caído, com um rasgo enorme na garganta e Bacon tinha sido dividido em dois. Marsh tentava proteger Abóbora de uma ameaça que eu não via, mas quando sentiu minha presença desviou a atenção e esse foi seu erro.
Um vulto roxo e avermelhado surgiu em meio ao tecido do toldo com garras afiadas e desferiu um golpe certeiro, tingindo o pelo branco de vermelho.
— Zoroark – meus lábios sibilaram lentamente. Se ele estava ali, Deidran também estava. Senti meus joelhos tremerem. Ele avançava rapidamente para Abóbora e eu precisava fazer alguma coisa. Quando finalmente meu corpo obedeceu ao comando de avançar e proteger o filhote, uma luz ofuscante invadiu minha visão e um barulho ensurdecedor fez meus ouvidos doerem.
— Ei, moleque – o homem gritou atrás do volante – saia do meio da estrada.
Lentamente as coisas entraram em foco, o farol do carro e a buzina. Eu estava parado no meio da estrada que levava de volta a Opelucid. As outras pessoas no carro comentavam e apontavam enquanto outros carros manobravam por nós e passavam zunindo pela estrada em direção ao acampamento.
— Desculpe – pedi sem graça e rumei para o acostamento, arrastando Abóbora comigo.
O homem atrás do volante resmungou algo que não entendi e saiu a toda seguindo a direção contraria a que eu seguia.
Eu estava devaneando de novo. Eu tinha deixado o acampamento fazia pouco mais de meia hora e rumava em direção a Opelucid, tudo estava perfeitamente bem e seguro lá, dentro do que as condições permitiam. Eu tinha saído do acampamento sem problemas. Com o caos de pessoas chegando a todo minuto ninguém estaria realmente preocupado em pajear um adolescente. A caminhada foi mais curta do que imaginava. Pelo caminho, vários caminhões e carros cruzavam cheios de pessoas feridas e exaustas indo na direção do acampamento.
Havia pessoas como eu, fazendo o caminho oposto, mas ninguém parecia se incomodar. Exceto claro, o cara que quase me atropelou. Abóbora andava ao meu lado, saltitando nas patinhas curtas. Não era a melhor escolta, mas Chiclete, Bacon e Marsh ainda estavam exaustos da batalha e descansavam, seguros, dentro das respectivas Pokéball, e realmente eu não esperava encontrar nenhum problema, por isso o pequeno alaranjado de companhia me bastava.
Finalmente as árvores frondosas deram espaço para uma vegetação mais rasteira e ao longe, era possível ver os prédios altos e cinzentos de Opelucid, e eles pareciam majestosos e inabaláveis, mas quanto mais perto eu me aproximava, mais toda aquela pompa parecia destruída e finalmente pude ver os efeitos das ações da Team Plasma.
A placa delimitando o limite da cidade estava em pé, limpa e solitária, como se tivesse sido removida diante do caos e retornada logo em seguida. Mas quanto mais eu avançava, mais parecia ter sido jogado para outra realidade. O concreto permanecia forte e imponente, mas não havia as luzes, o brilho, tudo estava coberto por uma grossa camada de lama. A força da água tinha empilhado carros, destruído cabines telefônicas, arrancado árvores. Ainda era possível ver lama picando e escorrendo de letreiros e placas, grandes fachadas de vidro destruídas, móveis e outros objetos arrastados para o meio da rua e misturados a lama. Meus pés afundaram quase até o joelho e precisei pegar Abóbora no colo antes que ele sumisse no meio do lodo.
Havia chamuscados de incêndios que não perduraram porque a represa tinha vindo abaixo., mas não havia marcas de tiros como era costumas. O que me fez crer que grande parte da ação da Team Plasma tinha ficado restrito apenas a barragem, mas por quê?
Era um ambiente estranho, um misto de silêncio tranquilizante e desolação, quase como se beleza e tragédia andassem de mãos dadas. Mal tinha entrado nos limites da cidade quando me deparei com um enorme cordão de isolamento.
Do outro lado da faixa zebrada, havia carros de polícia, ambulâncias, carros do corpo de bombeiros, além de grandes máquinas escavadeiras. Tinha pessoas com todos os tipos de uniformes, sujas e cansadas, revirando lama e oferecendo atendimento a feridos, resgatando Pokémon perdidos e tentando estabelecer um pouco de dignidade naquela situação.
Havia muitas pessoas apinhadas no cordão do isolamento, e uma jovem policial de cabelo escuro tentava, sem muito sucesso, controlar o alvoroço que se formava.
— Me desculpe, mas você não pode passar, é uma área de risco – ouvi-a dizer para um homem parado pouco a minha frente, ele tinha tentando se enfiar por baixo da fita zebrada. –Esta é uma área de risco.
— Mas eu preciso chegar ao outro acampamento, minha família deve estar lá – rebateu o homem.
— Desculpe, mas você precisa esperar que as informações cheguem...
— Por favor – o cara pediu, mas apesar de tudo o tom não pareceu muito amigável.
— Desculpe, não posso. Por favor, volte se afaste da faixa.
O cara deu um muxoxo furioso e se afastou da tira zebrada, exclamando todos os tipos de impropérios contra a policial. Aparentemente aquele era o fim da linha, não apenas para ele, mas para mim também. Se o acampamento onde Lila e Des estavam ficava do outro lado da faixa e eu não poderia passar como eu cumpriria minha promessa com Haila?
Ao norte do cordão de isolamento podia ver dezenas de sacos pretos que se enfileiravam, grossos, fechados com zíper e etiquetados, só podia imaginar se o corpo de Draiden estava entre eles.
Eu tentava ao máximo não pensar no líder de ginásio, tentava não pensar em nada. Eu mal conhecia o homem, mas ele havia morrido para nos salvar, salvar a cidade. Ele havia morrido temendo que a filha tivesse o mesmo destino e por mais que tivesse dito palavras de conforto naquele momento crítico, eu realmente não sabia o destino da Iris.
Enquanto tentava varrer tais pensamentos para longe da minha mente, percebi que homem que fora impedido no cordão conversava com outro sujeito. O homem era alto, com uma barba espessa e trajava uma camisa xadrez. Eu não podia ouvi-los bem, mas o tal homem de xadrez sabia outro caminho para chegar até os acampamentos do outro lado de Opelucid. Era um caminho perigoso passando pela Rota 10. Eu não fazia ideia de onde isso era. O caminho deveria ser mesmo perigoso, pois o cara de xadrez se oferecia como guia desde que o homem pagasse uma módica quantia.
Era como um atravessador, e não pude deixar de pensar como algumas pessoas se aproveitam de grandes tragédias para conseguir uns trocados. Achei que o homem não aceitaria, mas deveria estar mesmo muito preocupado com a família, pois concordou e pagou uma quantia que eu não chamaria nada de módica. Então conversaram rapidamente, provavelmente acertando algum detalhe e sumiram, seguindo caminhos separados.
E aquele era o fim da minha promessa de “eu vou cuidar de tudo”. Eu não conseguiria atravessar o cordão e não tinha dinheiro para pagar o atravessador. Com que cara voltaria ao acampamento e diria para Haila que não fazia ideia do que tinha acontecido com Des e Lila?
Dei meia volta e peguei o caminho de saída para Opelucid. Não era o que eu queria, mas era muita presunção esperar muito de mim, ainda mais naquela situação. Quando cheguei a placa de limite da cidade, avistei o homem e o cara de camisa xadrez. Eles estavam em uma pequena trilha que tinha sido tomada por mato e que parecia circundar Opelucid.
Pelo pouco que conhecia da cidade, seria uma volta enorme, talvez passando bem perto de onde era a barragem, para então descer pelo outro lado. Os dois seguiam ligeiros pelo mato alto e em poucos minutos tinham sumido da minha visão.
Eu tinha o resto das minhas economias, talvez o sujeito aceitasse me levar por aquele valor. Se Haila estivesse ali provavelmente riria na minha cara, ela nunca pagaria um centavo para um atravessador. Estufaria o peito e diria que nós dois poderíamos muito bem fazer o caminho sozinhos. Ouvir a mentalmente a voz dela me espinafrando foi como uma luz. Eu não precisava necessariamente fazer o caminho sozinho, se eu seguisse o atravessador a uma distância segura, eu chegaria ao acampamento sem precisar pagar.
Retornei Abóbora a Pokéball e em embrenhei no mato. A verdade é que queria ele me acompanhando, mas eu precisaria avançar um bom pedaço rapidamente já que os dois homens já tinham se enfiado no mato e precisava de discrição e silêncio.
Não demorou muito até conseguir visualizá-los subindo uma pequena encosta, pela distância não eram mais do que dois pontos a metros de onde eu estava e eu precisaria acelerar bem se não quisesse perde-los.
Andei o mais rápido que minhas pernas conseguiam sem revolver muito do mato, mas quando cheguei a tal encosta os perdi totalmente. Onde deveria seguir o caminho, havia uma enorme cratera que tinha sido aberta pela força da água que descera da barragem. Havia concreto e ferro retorcido, além de árvores arrancadas e com as raízes a mostra.
Olhei para os dois lados e não consegui visualizar por qual caminho eles tinham seguido, de um lado a cratera, do outro um lamaçal e mais a frente uma escarpa pedregosa. Eles poderiam ter escalado por ali, mas não teriam feito tão rápido assim para que os perdesse de vista.
Aparentemente minha ideia brilhante não era assim tão brilhante. Sem saber para que lado seguir, seria estupidez me arriscar, o jeito era retornar pelo caminho que havia vindo. Só então percebi que as árvores eram grandes e eu mal podia divisar o céu, o caminho era cheio de árvores iguais e não havia mato amassado no chão marcando os locais que eu havia pisado.
Eu tinha os seguido por cerca de vinte minutos, se eu retomasse o caminho sempre para o sul, acabaria na estrada e foi o que fiz. Mas depois de uns dez minutos andando parecia que tinha me embrenhado ainda mais na floresta. Ótimo, eu tinha me perdido. Ainda bem que meu sonho de criança nunca foi ser um espião porque eu era péssimo em seguir pessoas e decorar caminhos.
Talvez eu pudesse contar com a ajuda de Bacon, como Haila e eu havíamos feito no deserto. Apesar dele estar se recuperando, era minha melhor aposta. Mas antes que pudesse pegar sua Pokéball percebi algo na minha visão periférica. Tinha alguém me observando.
Poderia ser qualquer coisa, um Pokémon selvagem, os homens que eu estava seguindo, outras pessoas. Poderia ser mesmo alguém da Team Plasma. Depois de tudo o que acontecera nossa cabeça deveria estar a prêmio, e a minha chamava atenção de longe. E se ele quisesse vingança por termos interferido? Eu não estava em condições de lutar.
Andei alguns passos aleatoriamente, mas ainda sentia que a pessoa me seguindo. Acelerei o passo e ela o fez junto comigo. Então o desespero tomou conta e comecei a correr. Não sabia do que corria, mas me parecia o certo a fazer.
Se fosse os dois homens, eles provavelmente pediriam algum tipo de satisfação, se fosse um Pokémon selvagem, poderia estar furioso e se fosse um Team Plasma, bem, correr era o óbvio. Corri sem rumo, espiando por cima do ombro, mas sem conseguir ver ninguém. O mato farfalhava violentamente aos meus pés e minha respiração começava a falhar.
Quando dei por mim, havia retornado a encosta que tinha perdido os dois homens de vista, entre a escarpa e a cratera. Eu não tinha mais caminho, eu teria que lutar com aquilo que me caçava. Enfiei a mão no bolso em busca de uma Pokéball e me virei, morrendo de medo de ver o uniforme preto, mas não havia ninguém. O vento balançava as árvores lentamente e o mato parecia amassado apenas pelos meus passos.
Eu estava pirando. Minha cabeça parecia estar se divertindo pregando peças em mim enquanto eu surtava e me assustava até com a minha sombra. Inspirei tentando inalar o máximo de ar que meus pulmões conseguiam. Eu precisava de força e foco para voltar a estrada.
Dei um passo a frente e ouvi o mato farfalhar, me virei, apenas para dar de cara com o Zoroark, grande e imponente parado diante de mim. Como ele tinha surgido tão depressa? Segundos atrás estava completamente só no meio da floresta. Senti meus joelhos tremerem e dei um passo atrás tentando me afastar, mas senti o chão ceder com o meu peso. Entre a escarpa e a cratera havia o lamaçal e eu afundei diretamente.
Ridículo, fraco e indefeso, como poderia ter dito a Haila que tomaria conta de tudo? Esperei as garras compridas me puxarem para fora da lama, mas nada aconteceu. Lentamente me levantei e observei que não havia nada ali, a encosta estava vazia e a lama a minha frente estava intocada, comprovando que nunca houvera Pokémon nenhum.
Era a terceira vez no dia que um Zoroark invadia meus pensamentos e de forma tão nítida que eu tinha certeza ser real. Não havia boa hora para ser paranoico, mas aquela era ainda pior.
Eu precisava chegar ao segundo acampamento e ter notícias de Lila e Desmond, mas além de perdido e sujo, eu estava tendo dificuldades de sair do lamaçal. Era quase como areia movediça e quanto mais eu me mexia, mais preso ficava. Demorei um bom tempo até conseguir me arrastar para fora e chegar à encosta.
Eu estava sujo, cansado e exausto, as copas das árvores eram densas, mas eu podia ver os raios de sol se esvaindo. O vento soprava lentamente e as folhas mais antigas se soltavam dos galhos e caiam rodopiando sobre a lama escura. Se eu demorasse muito mais, escureceria e eu ficaria preso ali. Me ajeitei o melhor que consegui e tentei me orientar e retomar o caminho.
Meu tênis estava cheio de lama e as partes que estavam na minha calça e blusa começavam a secar e endurecer. Andei um bocado, desviando de árvores e tentando me orientar, mas quanto mais andava, mais perdido eu ficava. Até que finalmente cheguei ao que parecia uma pequena clareira. Dali podia ver algumas casas da parte mais afastada de Opelucid.
Eram casas simples que quase sumiam em meio a lama que se acumulava nas ruas. Janelas quebradas, portas arrancadas, postes entortados. Havia uma pequena movimentação ali, pessoas com um jaleco azul por cima das roupas. Eles afundavam as pernas na lama e remexiam nos escombros.
Ali não parecia ter um cordão de isolamento e tanta segurança policial. Talvez eu pudesse passar por ali e dar a volta para chegar até o acampamento do outro lado. Desci uma pequena colina e cheguei até o local, tentando me esgueirar pelas casas e passar despercebido. Achei que seria mais fácil, mas o número de pessoas ali era alto e eu não queria que ninguém me dedurasse para a policial na faixa de contenção.
No meio do pessoal, havia um garoto de cabelo avermelhado vestindo um desses jalecos azuis. Ele conversava com uma garota próxima dele, mas não podia distinguir bem. Apesar da sujeira, parecia muito com Desmond, muito mesmo. Nossos olhos se encontraram e ele sorriu, vindo à minha direção, sapateando na lama.
Não podia ser o Desmond, ele não estaria ali com aquele sorriso resplandecente como se nada estivesse acontecendo.
— Você está atrasado – ouvi uma voz atrás de mim e me deparei com Haila. Curvei as sobrancelhas sem entender. Ela deveria estar no acampamento, descansando e se recuperando do tiro.
— Como foi seu dia? – Perguntou ao rapaz, ignorando minha presença.
— Bem e como Cilan está? – Desmond emendou.
— Cilan? – Haila assumiu olhar sonhador como se tentasse se recordar de algo. – Sim, claro, Cilan está ótimo – respondeu com um gracejo.
— Você pode mentir para aquele idiota, mas sei que você estava atrás da Lenora. – Ele enfiou as mãos no bolso. Idiota? Espera, eu era o idiota.
— Haila – meus olhos seguiram os dela, eu estava bem desconfiado. Eu sabia que ela estava no acampamento, mas aquilo parecia tão certo e real. – Escuta...
— Você acha que ela precisa de você? – A voz de Desmond me cobriu. – Um fracote chorão que tem medo da própria sombra? – Desmond não era hostil daquela forma, abri a boca para argumentar, mas as palavras não vieram. Haila acenava positivamente, como se concordasse com cada palavra. – Eu espero sinceramente que a próxima vez que encontrarmos Zoroark, ele rasgue o seu pescoço...
— Zoroark? Eu não vou cair nessa de novo – me afastei. Eu já tinha tido visões com Zoroark por vezes suficientes para saber que nada disso era real. Mas mesmo que eu soubesse disso, sentia meus joelhos tremerem.
— Do que você está falando? – Desmond curvou a cabeça para o lado como se não me entendesse. Sei, o cara que estava desejando que um Pokémon viesse dar cabo da minha pessoa.
— Você não é real – apontei acusadoramente. – Eu sei.
— Deedee.
— Você e seu Zoroark de mentira estúpido. – Por que não acontecia nada para me trazer de volta a realidade? Nenhum dos meus sonhos tinha sido tão longo.
— Deedee, eu... – e ele fechou a distância entre nós, vindo à minha direção.
— Você pode até querer que o Zoroark rasgue a minha garganta, mas eu não vou deixar... – eu sabia que era coisa da minha cabeça, mas parecia tão real que instintivamente levei a mão a Pokéball. E se não fosse coisa da minha cabeça? Eu não ia esperar mostrar suas garrinhas como Deidran fizera.
Mas antes que eu pudesse tirar a Pokéball do bolso Desmond já estava em cima de mim e tudo ficou escuro.
— Por que diabos você bateu nele? – Pude ouvir a voz fininha de Lila ecoando. Abri os olhos lentamente e vi o rosto redondo da garota sobre mim. Eu estava deitado em algo duro e gelado, que sacolejava lentamente. Eu podia ver o céu escurecendo e estrelas surgindo no firmamento.
– Ele estava surtando – era a voz do Desmond.
— Precisava ser tão forte?
— Eu não achei que ele fosse capotar com um soco. – Respondeu simplesmente. – Qual é, ele estava pirando falando coisas sem sentido sobre Zoroark e até tentou atiçar seus Pokémon em mim. – Ele estava exagerando, eu só tinha pegado uma das Pokéball e nem libertado eu tinha.
—Vai ver foi por causa da insolação, ou trauma, a gente não faz a menor ideia do aconteceu com ele. Ele estava perambulando todo sujo... – Lila presumiu pensativa.
Eu tinha devaneado de novo. Desmond nunca desejaria que um Zoroark me matasse, eu esperava que não. Mas não podia negar que mesmo agora me incomodava o fato de Haila ter confiado nele para buscar Lenora e não em mim. Ela tinha se explicado e eu entendia seu ponto, mas significava que ela me achava um fracote chorão que tem medo da própria sombra. Eu nunca tinha feito nada que realmente me mostrasse forte ou heroico, mas Desmond também não me parecia nada disso, mesmo tendo ajudado a capturar o Serperior.
Certo, foco, foco. Ficar pensando que Desmond me achava um perdedor e que talvez Haila estivesse muito melhor com ele não ajudaria a cumprir minha promessa para com ela. Se ela decidisse que ele era muito melhor para acompanhá-la atrás de Lenora só me restaria aceitar, eu tinha que cumprir minha promessa de qualquer forma.
Espera, mas se eu estava ali, ouvindo Lila e Desmond discutirem sobre a minha sanidade, eles eram reais, certo? Quer dizer, nenhuma das minhas alucinações, visões, sonhos ou seja lá que nome isso tivesse tinha durado tanto tempo. Significava que eu tinha cumprido a minha promessa.
— Ou talvez a tinta de cabelo esteja afetando... – Desmond completou em tom bem humorado.
— Sabe, eu posso ouvir vocês – interrompi e os dois se voltaram para mim.
— Deedee – Lila disse risonha, me encarando com aqueles olhos brilhantes. – Você está bem? Não se machucou? Tem sangue na sua camisa. Eu fiquei tão preocupada. Ficamos – disse abrangendo Des em um gesto amplo.
— Eu estou bem – dentro da medida do possível, mas estava. – Onde estamos? – Disse me sentando. Só então percebi que estava na traseira de um caminhão que sacolejava lentamente pela estrada. Havia várias pessoas estranhas ali, sujas, cansadas, machucadas, provavelmente resgatadas dos escombros.
— Indo para o acampamento – Des se ajeitou ao meu lado.
— Leste?
— Oeste – corrigiu. Era o acampamento onde eu tinha deixado Haila.
— Então por que estamos indo para o Oeste? – Eu tinha procurado seus nomes na lista e eles não estavam lá.
— Nós ajudamos a evacuar a cidade quando as sirenes tocaram. E acabamos indo para o acampamento do Leste, a maioria dos sobreviventes estão lá. – Informou Des. – Procuramos por vocês, mas nem sinal. Então decidimos trabalhar como voluntários, pois sem Xtransceivers seria o jeito mais fácil de saber o que aconteceu com as pessoas da cidade. E ajudar também, é claro, considerando que estávamos fisicamente bem.
Suspirei aliviado por saber que eles tinham escapado sãos e salvos, um dos meus maiores medos era chegar ao outro acampamento e descobrir que não havia sinal deles, ou pior, que o nome figurava na lista do pessoal embalado no saco preto.
—- Algum sinal do Draiden ou da Iris? – Perguntei ao me lembrar deles.
Desmond e Lila se entreolharam como se não soubessem do que eu estava falando.
— Nada – a menina concluiu. – Mas eles devem estar bem, afinal são líderes.
— E quanto a Haila? – Percebi uma nota de preocupação na voz.
— Ela está bem, ela só... – acho que dizer que ela tinha tomado um tiro não iria tranquiliza-los. – Ela está descansando no acampamento Oeste.
— E como você sabe? – Haila me encarou curiosa. – É alguma vidência...
— Eu estive com ela – expliquei antes que a menina tivesse mais ideias estranhas. – E prometi que iria encontrar vocês.
— E você nos encontrou – Lila guinchou exageradamente se jogando nos meus braços.
— Imaginei que o outro acampamento tivesse alguma notícia de vocês, já que no Oeste não havia nada – completei.
— Mas você nunca chegaria ao acampamento Leste – Des me encarou. – Atravessar por dentro de Opelucid é proibido. Risco de novos deslizes de terra.
— Eu não sabia disso – e não sabia mesmo.
A viagem prosseguiu com o caminhão sacolejando e pessoas cochichando e chorando. Aquilo me deixava terrivelmente deprimido. A Team Plasma tinha um ideal, ou dizia ter. Mas quantas pessoas não tinham morrido com a queda da represa? Quantos Pokémon não tinham? Os fins justificam os meios, as pessoas costumam dizer. Sacrifícios são necessários para um bem maior, mas uma causa realmente era válida se construída com sangue?
— Então, o que aconteceu lá em cima? – Des me tirou do meu devaneio.
Abri a boca, mas não consegui dizer nada. Havia muita coisa para contar e muita coisa que eu não gostaria de dar voz. Tínhamos sido infantis e inconsequentes em achar que poderíamos ter feito alguma diferença. A represa estava no chão, Draiden estava morto, Jaden e Dreidan haviam fugido e ninguém sabia nada sobre Iris. Haila tinha se machucado e eu não tinha feito a menor diferença nessa equação.
— Nós perdemos – disse por fim – mas isso, vocês já sabem – e minha voz saiu mais sombria do que eu pretendia.
=8=
Se houvesse uma nova represa em Opelucid, Lila poderia tê-la enchida facilmente com lágrimas de tanto que chorou ao encontrar Haila e ver que ela tinha tomado um tiro. Não eram só lágrimas de tristeza, na verdade, havia muito alívio ali e a morena parecia feliz de ver o quarteto reunido novamente.
Desmond talvez não fosse tão emotivo como Lila, mas os olhos ficaram marejados e ele seguiu um longo discurso sobre Haila cuidar melhor da própria saúde. Ela revirava os olhos pelos comportamentos exagerados, mas eu sabia que ela estava feliz e igualmente aliviada de vê-los ali.
Eu estava feliz também, muito por ter encontrado Lila e Desmond seguros e em melhores condições do que Haila e eu, mas isso não significava que eu não estava triste com o resto. Uma cidade havia caído e mesmo que eu tentasse interferir, não tinha mudado o destino de ninguém: Jaden ainda era um Team Plasma, o cara legal que havia me ajudado em Nimbasa era um dos líderes e não havia sinal nenhum de Rose por ali.
Toda a ideologia que havia me corroído por semanas parecia ter sido soterrada pela mesma lama que agora cobria Opelucid. Eles não queriam salvar os Pokémon, não realmente. Mas o que queriam então? Dominação? Por que precisavam dos lendários? Por que precisavam fazer coisas como aquela?
A sensação de Zoroark atrás de mim me invadiu novamente. Eu não iria ter outro surto ali, dentro da tenda onde Haila se recuperava. Me virei, saindo pela abertura sem dizer nada a ninguém.
Já tinha escurecido totalmente lá fora, e a noite estava muito bonita e agradável, e assim seria se eu não soubesse que a cidade mais próxima não existia mais. O acampamento estava bastante quieto, mesmo sendo cedo. As buscas tinham sido paralisadas pela falta de luminosidade e as pessoas se recolhiam dentro das tendas.
Eu tentava de todas as formas não pensar no que havia acontecido na barragem, mas quanto mais eu reprimia isso, mais visões de Zoroark eu tinha. Eu não podia me entregar e chorar, por mais eu desejasse, mas eu aquilo só provava que eu não estava pronto para guerra que estava por vir. Haila continuaria buscando por Lenora, assim como a Team Plasma pelos lendários e no meio de tudo isso, muitas pessoas se machucariam, muitos Pokémon estariam morrendo e matando pelo ideal de seus mestres e eu não estava pronto para nada daquilo.
— Eu deveria ir para casa – suspirei para a noite que nunca me responderia.
— Aspertia, certo? — Desmond estava parado atrás de mim, mãos nos bolsos.
— O que...
— Você tem agido mais estranho que de costume – disse simplesmente. – Haila também notou.
Claro que ela notaria, mesmo que eu tivesse ficado o dia todo fora, ela me conhecia bem o suficiente para saber quando eu estava fazendo Decemberices.
— Ela nos contou o que aconteceu lá – ele retomou. Fiquei em silêncio esperando que ele continuasse, mas ele também mergulhou em silêncio, provavelmente esperando que eu disse algo.
— Ela estava certa no final – disse quebrando o longo silêncio que havia se formado. – De confiar em você para buscar Lenora. De querer que você fosse com ela na represa, e não eu. – Sentia minhas mãos tremendo, meio raiva, meio medo.
— Você acha mesmo isso? – Arqueou uma sobrancelha.
— Se você estivesse na represa, Haila não teria tomado um tiro e talvez Draiden ainda estivesse vivo.
— Ah, o Zoroark, Haila falou sobre isso. – Disse como se algo fizesse sentido para ele. – Mas você não está me dando muito crédito? – Curvei as sobrancelhas. – Eu não estava lá, não dá para saber se as coisas seriam tão diferentes.
— Você ajudou Haila contra o Serperior...
— E vocês, juntos, estragaram os planos da Team Plasma ao tentarem capturar o Keldeo. – Me cortou. – Eu não estava lá, eu nem saberia disso se vocês não tivessem me contado.
— Isso foi apenas sorte – rebati sem pensar.
— Sorte também faz parte de quem somos e pode se dizer que vocês tem muita.
— Mas...
— Se você quer voltar para Aspertia, eu não vou me opor, nem Haila ou Lila, é sua escolha afinal. Mas você está voltando por que quer ou por que está fugindo? – Des usava um tom bem sério que eu não me lembrava de tê-lo visto usar antes.
— Minha mãe está em Aspertia, Cheren não está mais lá... – e eu tinha usado isso mesmo de argumento? Argh, como eu era patético.
— Eu não conheço sua mãe, mas ela é uma Charleston certo? Sei que ganhou muitos Contest, acho que ela pode se virar sozinha – cruzou os braços diante do peito. Desgraçado, ele estava certo.
— Eu não estou pronto para isso – disse derrotado. Esperava que ele fosse rir de mim, mas não aconteceu. Esperou que nossos olhares se encontrassem para prosseguir.
— Eu estaria realmente assustado se você dissesse estar pronto – sorriu daquela forma acolhedora. – Ninguém está. Nem eu ou Haila, nem mesmo os lideres de ginásio. Mas essa guerra já tomou proporções enormes. Não há mais onde se esconder. Mesmo que você não esteja no meio do massacre, a ideologia, o medo e o horror vão te perseguir onde você estiver... Estou errado?
Não estava. Mesmo que das outras vezes Aspertia tivesse passado invisível em meio a guerra, agora cidades estavam caído, terror estava sendo apregoado por todos os lados. Seria viver em uma cidade minúscula esperando o dia em que a Team Plasma derrubasse a placa da cidade e exigisse nossos Pokémon.
— Mas eu estou estranho, você mesmo disse...
— Você viu coisas lá em cima que eu mal posso imaginar. Isso acabaria se refletindo em você, mas quanto mais você tentar fingir que não se importa pior vai ser. Você pode chorar se quiser...
— Chorar não vai resolver nada – e minha voz saiu mais alta do que pretendia.
— Talvez não, mas vai fazer você se sentir melhor e isso já é muito.
— E quanto ao Zoroark? – Arrisquei.
— Do Dreidan? – Ele pareceu confuso.
— Sim e não. Eu achei que tivesse um me seguindo o dia todo – admiti.
— Por isso você disse aquelas coisas estranhas quando nos encontramos?
— Provavelmente – disse sem graça. Não era nada agradável contar seus delírios para os outros.
— Bem, deve ser uma forma de seu cérebro lidar com um estresse pós-traumático – disse coçando o queixo como se soubesse muito sobre o assunto.
— Eu vou ficar assim para sempre?
— Não tenho como saber – deu de ombros, e toda a aura de “sei tudo do assunto” se dissipou. – Mas você deveria enfrentar seu medo.
— Como uma batalha Pokémon? – Mesmo que imaginariamente, qual chance meus Pokémon teriam?
— Não sei dizer, você terá que descobrir sozinho.
Ótimo, disse um monte de palavras bonitas para tirar o corpo fora no final. Não tinha muita certeza das intenções dele realmente, se era ajudar não tinha surtido tanto efeito assim.
— Se você quer voltar para Aspertia, fique a vontade – só então me liguei que ele já tinha virado as costas e voltava para a tenda. – Mas você já está em casa – e sumiu entre as barracas levantadas.
Senti os músculos de o meu rosto tencionarem e institivamente sorri. Talvez ele tivesse ajudado afinal.
=8=
— Sinceramente preferia que você fosse meu filho, Cheren – a velha tagarela disse com um sorrisinho afetado. O líder meneou a cabeça concordando. – Pena que não tivesse sorte – e a vi olhar com desagrado para mim.
Não precisava ser nenhum gênio para saber que eu era uma vergonha para minha mãe. Péssimo coordenador, nunca honraria o nome da família ou traria algum sucesso. Cheren por outro lado, era o filho perfeito e Adizia o amava muito mais do que a mim.
— Se ele morresse ninguém daria falta, mãe – Cheren ajeitou a gravata enquanto resmungava.
— Tem razão, querido – e um sorriso largo rasgou as feições da mulher. – Vamos cuidar disso então. – E lançou uma Pokéball.
Do facho vermelho saiu um enorme Zoroark, maior até do que aquele que lutara contra Draiden. Eu sabia que minha mãe jamais teria um Zoroark, ela gostava de Pokémon fofos e pequenos, voadores preferencialmente.
Ele deu um rugido ameaçador e avançou em minha direção. Senti as pernas vacilarem e as mãos tremerem. Eu tinha que fugir, ele iria me rasgar em dois com aquelas garras enormes. Eu não tinha a menor chance.
Então uma Pokéball caiu do bolso da blusa e rolou pelo chão. Chiclete se libertou e parou em posição de batalha. Eu não poderia deixa-lo fazer isso, ele iria virar picadinho, assim como eu. Mas minhas outras Pokéball se ativaram e Bacon e Marshmallow surgiram ladeando o lutador azulado.
Mas mesmos os três não dariam conta de um Pokémon tao bem treinado. Zoroark avançava e eu me desesperava com o final do meu trio, foi quando Abóbora se libertou e correu na direção do Zoroark, mordendo a cauda escura que balançava ao lado do corpo. O bicho encarou a criatura alaranjada e fechou o cenho, mas antes que fizesse algo, se desfez, como se fosse feito de fumaça.
Cheren e minha mãe não estavam mais ali. Apenas eu e meus parceiros em um lugar que não me era familiar e eu não percebera até então, mas também não me importava.
— Como isso é possível? – Abóbora não conseguiria derrotar um Pokémon com uma mordida na cauda, por mais fraco que fosse. – Bem, Des disse que talvez uma batalha Pokémon...
— O que eu disse? – O garoto se inclinou tentando ouvir melhor enquanto estávamos tomando café da manhã.
Estávamos sentados no chão, Haila ladeada por Lila e eu. Desmond sentado do outro lado. Ainda não havia amanhecido totalmente, mas as atividades no acampamento começavam cedo. Pessoas chegando, partindo, voluntários.
— Nada – disse enquanto enfiava um pedaço de pão na boca, eu não queria responder, ainda mais diante das meninas.
— Você parece melhor essa manhã – Lila observou. – Você estava horrível ontem. – Achei que era sobre Haila, mas era me encarava. Só sorri, eu definitivamente não queria falar das minhas alucinações com Zoroark.
Eu esperava, pelo último sonho/visão que tivera que eles não fossem mais se repetir, mas não dava para ter certeza. Desmond estava certo, era uma guerra, pessoas teriam traumas e sequelas, mas a vida seguia e eu teria que aprender a lidar com meus anseios.
— Como você está? – Perguntei a Haila, tentando desviar do comentário de Lila.
— Melhor e enjoada de ficar só descansando – respondeu com uma careta. – E você?
— Eu estou em casa.
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