Rota Zero
7 Regra Básica de Treinamento Pokémon
Notas iniciais
December
REGRA BÁSICA DE TREINAMENTO POKÉMON
Eu queria poder dizer que minha primeira impressão de Flocessy Town era que o lugar era uma cidade bonita e interiorana, mas minhas melhores recordações eram as paredes brancas e assépticas do Centro Pokémon.
Não fazia ideia de horas tinha chegado à cidade, mas estava bastante escuro e não havia movimento nenhum nas ruas. Quando entrei no Centro Pokémon, pude ver que o PokéMarket já estava fechado (só nas cidades maiores a loja funcionava vinte e quatro horas) e apenas as luzes das máquinas automáticas iluminavam a fachada, no fundo do Centro, atrás do balcão havia um jovem enfermeira. Ela folheava uma revista e parecia terrivelmente entediada. Seus olhos se desviaram do papel colorido até mim, e pela expressão no rosto da jovem enfermeira, eu deveria estar horrível.
Ela saiu do balcão e veio até meu encontro.
– Você está bem?
– Bacon! Eu acho que ele morreu – minha voz saiu alta e dramática. Eu não sabia em que estado ele se encontrava, mas não deveria ser nada bom.
Ela curvou as sobrancelhas e pediu minha pokéball. Então, me indicou um dos grandes sofás na sala de espera e rumou para a pequena salinha ao lado da recepção. Não demorou muito e voltou trazendo minha pokéball.
– Está tudo bem com o seu Pokémon. Foram só algumas escoriações leves e nada que um bom descanso não resolva – analisou o meu estado e coçou o queixo. – Já não posso dizer o mesmo de você. Exatamente o que aconteceu?
– Ah, eu cai em um buraco e torci o tornozelo – a verdade é que não queria dizer que tinha sido derrotado por um Patrat e fugido de outro.
– Eu posso dar uma olhada no seu tornozelo, se quiser. Humanos não são minha especialidade, mas você só conseguirá ver um médico amanhã – e antes que eu pudesse dizer algo, saiu e sumiu pela porta.
Voltou alguns minutos depois carregando um kit de primeiros socorros. Se abaixou e apoiou meu pé machucado sobre os joelhos, desajeitadamente tirou meu sapato e meia e enrolou a barra da calça até o joelho. O pé estava roxo e muito inchado, doía só dela encostar os dedos, mas eu fiz o melhor que pude para não parecer um bebê chorão.
– E seus outros Pokémon, eles estão bem? – Perguntou enquanto passava um creme esverdeado sobre o inchaço. Eu não tinha outros Pokémon, mas não queria ter que contar a história toda e ser zombado pela plantonista, então apenas concordei com a cabeça. – Que bom – sorriu, enquanto enrolava ataduras no meu pé – isso vai diminuir um pouco a dor e te ajudar a caminhar, mas será melhor você procurar o doutor Eliot, para ver se você não quebrou nada. – Realmente, ela não tinha habilidade nenhuma com humanos, enrolou tantas ataduras no meu pé, que seria impossível eu calçar meu sapato. –Infelizmente, não temos um quarto vago, nem há hospedarias na cidade, mas você pode dormir aqui está noite – e apontou para o sofá onde eu já estava acomodado – não é muito confortável, mas deve servir.
A jovem enfermeira voltou ao balcão e eu tentei me acomodar da melhor maneira que podia no sofá. Embora estivesse exausto, não conseguia dormir. Ainda estava preocupado com Bacon. Não mais com o seu bem-estar, mas com o tal vínculo. Era provável que ele me odiasse depois de colocá-lo em batalha sem nem ao menos saber o que estava fazendo.
Já estava amanhecendo quando finalmente o sono chegou e a enfermeira plantonista deixou seu posto. Uma nova enfermeira assumiu o lugar atrás do balcão, era um pouco mais velha e a roupa estava mais bem engomada, mas o cabelo era preso exatamente da mesma maneira. Decidi que era hora de me retirar e ir atrás do médico que a outra moça citara. Pedi informações para a enfermeira que gentilmente me desenhou um mapa para chegar até a casa do doutor Eliot. Agradeci e sai do Centro Pokémon, mais pulando que andando.
A cidade não era grande nem muito agitada. Àquela hora da manhã era possível encontrar pessoas indo para o trabalho e algumas poucas crianças mais ativas brincando na rua. Passei em frente a um café e meu estômago roncou. Eu não comera nada desde o almoço do dia anterior e já estava ficando verde de fome. Achei que meu pé e o médico poderiam esperar, e entrei.
O café era minúsculo, tinha apenas três mesas, que estavam todas ocupadas e um longo balcão. Me acomodei em uma banqueta alta, da melhor maneira que pude e pedi um chocolate quente e torradas. A comida ficou pronta logo, mas nem de longe lembrava o café da manhã que minha mãe preparava.
Enquanto comia, tirei o mapa do bolso. Analisei os rabiscos feitos à caneta, tentando descobrir onde estava e para onde deveria ir. Vi que a garota sentada ao meu lado no balcão fez um olhar comprido, tentando espiar o que estava vendo e instintivamente puxei o papel.
– Se está procurando a casa do doutor Eliot, você precisa ir para leste. Mas, ele não está lá hoje – comentou como se não falasse para ninguém, encarando as próprias torradas. Encarei-a só para ver que se tratava de uma pirralha que não deveria ter altura suficiente para chegar ao meu ombro. Era uma garotinha de cabelos castanhos presos em marias-chiquinhas e seus pés balançavam na cadeira, muito longe do chão.
– Onde ele está?
– Oh, você está falando comigo? – Garota fingida – o doutor foi para Floccesy Ranch, cuidar do dono de lá, parece que ele está com um resfriado terrível — exagerou na voz fininha e infantil.
– Será que ele vai demorar? – Mordisquei a torrada.
– Quem sabe. Afinal, o que aconteceu com o seu pé? – Disse ao fitar meu pé. O sapato estava colocado, mas não amarrado. E o volume, devido ao excesso de bandagem, não dava para ser coberto pela calça e chamava a atenção a distância. Pelo menos, não estava mais doendo.
– Eu tropecei em um buraco.
Ela apenas balançou a cabeça e voltou-se para seu próprio café. Depois de alguns segundos, me encarou novamente. – Você é um treinador, certo?
– Coordenador – corrigi. Tecnicamente, eu não era nada, mas ela não precisava saber disso.
– Coordenadores não são muito comuns por aqui – bebeu um gole de leite – quantos Contest você já ganhou? – Havia muita curiosidade estampada em seu rosto. Pelo jeito, coordenadores não eram realmente comuns em Floccesy Town.
– Não muitos – enrolei.
– E se nós travássemos uma batalha Pokémon? – Sugeriu de repente.
– Aqui? – Indaguei confuso.
– Claro que não – ela revirou os olhos – tem uma área no parque da cidade. Podemos lutar lá. – Ela parecia bastante empolgada com a ideia, mas eu não poderia dizer o mesmo. Se eu não vencia nem um Pokémon selvagem, como venceria um treinado – o que me diz?
– Eu não acho que seja uma boa ideia – argumentei – meu Tepig esteve em combate ontem e não está completamente recuperado...
– Você tem um Tepig? – Os olhos dela brilhavam – são poucos os treinadores que tem um Tepig. Agora, eu realmente quero batalhar com você. Eu prometo pegar leve – e juntou as mãozinhas na frente do corpo em sinal de promessa.
Eu sabia que iria me arrepender amargamente daquilo, mas acabei concordando. Paguei o café e acompanhei a menina, que tinha se apresentado como Cassie até o parque da cidade. Ela tinha dez anos e treinava no centro acadêmico montado por Alder.
– Como aluna do Alder, eu sou muito boa. Você deve imaginar – ela esperou alguma reação minha, que não veio. Então bufou – Alder, o antigo campeão da Elite Four – explicou, mas eu não fazia ideia do que ela estava falando e isso estava estampado na minha cara. – Qual é, até os coordenadores devem conhecer os membros da Elite Four. Eles estão no nível mais alto de treinamento Pokémon – eu apenas sorri. Não fazia ideia se os coordenadores sabiam dessa informação ou não. Eu não sabia.
– Ok, chega de papo e vamos começar – e com um floreio arremessou a pokéball no meio do campo libertando um Panpour.
– Ok, Bacon, vamos lá – o porquinho saiu do objeto e me encarou por um segundo. Parecia feliz e recuperado, mas a expressão alegre durou pouco e sumiu por completo ao fitar o macaquinho azul.
– Você sabe que não é muito inteligente colocar um Pokémon de fogo contra um de água. Você deve ser muito bom – engoli em seco, não sabia que Panpour era de água. Na verdade, eu sabia muito pouco sobre batalhas Pokémon e todo resto, mas não precisava ser nenhum gênio para saber que eu estava ferrado. – Prisma, use Scratch.
O Pokémon veio velozmente na direção de Bacon com as garras a mostra, para sorte do porquinho, ele desviou do golpe rolando de lado e fazendo com que Panpour enfiasse a cara na grama.
– Prisma, use Scratch novamente – ordenou a menina. Desta vez, meu Tepig não teve tanta sorte e recebeu o golpe em cheio. Soltou um pequeno gemido de dor, mas conseguiu se recompor. Eu estava surpreso com a determinação que mostrava e achei que aquilo era um sinal.
– Muito bem, Bacon. Use Tackle – comandei. A insônia da noite anterior não tinha sido totalmente desperdiçada. Eu a usara para estudar um pouco sobre os ataques do parceiro. Tepig atingiu Panpour com uma poderosa cabeçada lançando o longe. Não pude deixar de sorrir, aquele era meu primeiro ataque bem sucedido.
Cassie pareceu irritada com o meu sucesso e ordenou que seu Pokémon atacasse novamente. Apesar de ter acertado o golpe, não atingira nenhum ponto vital de Bacon e apesar da dor, ele pareceu inteiro. Respirei fundo e gritei o próximo golpe. Eu estava ansioso para ver o efeito do Ember.
– Você é idiota, golpes de fogo não afetam meu Prisma – se vangloriou. E Cassie estaca certa, o Panpour tinha resistência ao fogo, mas os pedaços de grama que estavam presos na pelagem se incineraram, fazendo com que o macaco ficasse preso dentro de uma bola de fogo e ficasse fora de combate.
Cassie bufou frustrada quando chamou o Pokémon de volta. Eu comemorei minha primeira vitória e sorri para Bacon, que estava bastante cansado, mas ainda de pé. A sensação era ótima e eu me perguntava se era aquilo que Cheren queria dizer com vínculo de batalha.
A menina puxou outra pokéball da mochila e convocou um Pidove. Encarei o pássaro que voava alguns metros do chão.
– Você tem outro Pokémon?
– Claro, não achou que o Panpour fosse o único, não é? Que treinador em sã consciência coloca toda dependência do seu time em um único Pokémon – zombou. Eu devo ter empalidecido até ficar branco que nem papel. Bacon tinha vencido, mas provavelmente não aguentaria um segundo round e eu não tinha nenhum outro Pokémon. – Vamos começar – anunciou a menina, e com um Gust, minha curta vitória foi varrida para longe do campo de batalha.
Ali estava eu, novamente, no Centro Pokémon. Desta vez, com Cassie ao meu lado, ainda impressionada que Bacon fosse meu único Pokémon. Ela já tinha me dado vários sermões de como eu tinha sido irresponsável de entrar em batalha sem ter uma equipe e era deprimente ver como uma garotinha de dez anos era muito mais consciente do que eu.
Bacon estava recuperado, eu já estava faminto novamente e o médico, pelo que a enfermeira do Centro Pokémon tinha me contado, após ligar para a casa do velho, só voltaria por volta das três, o que me deixava com muito tempo livre.
Cassie me convidou para almoçar, como uma espécie de desculpas por ter dizimado meu pobre Pokémon. Acabamos na mesma cafeteria onde nos conhecemos e que era o único local da cidade que fazia esse tipo de serviço. O almoço, pelo menos, era mais saboroso e bem servido que o café e no final, a companhia de Cassie até era bastante agradável.
– Você precisa de outros Pokémon. Depender de um só é muito problemático, você joga a responsabilidade toda sobre o Tepig. Isso não é saudável para o desenvolvimento dele – disse, enfiando uma colherada de purê na boca.
– Eu sei, mas eu não levo muito jeito para essa coisa de capturar Pokémon.
– Ninguém captura um Pokémon selvagem logo de cara. É preciso ter paciência para escolher o Pokémon certo, além disso, você precisa deixá-lo cansado para que ele não tente fugir quando você atirar a pokéball. Pidoves, Purrlions e Patrats são boas escolhas para você começar. Eles não são muito fortes e são mais dóceis.
Revirei os olhos, exatamente onde os Patrats eram dóceis? Talvez eu começasse pelos outros dois.
– Você não deveria ter ido à escola? – Me referi ao centro que ela citara anteriormente.
– Minhas aulas são só no período da tarde – informou.
– Então por que você estava no café tão cedo? – Com certeza, eu não acordaria àquela hora se não tivesse realmente um motivo para tal.
– Eu geralmente fico o dia todo no centro, porque não há nada para fazer em casa. Minha mãe reclama que os Pokémon fazem muita sujeira e não me deixa treiná-los no quintal. Então, eu uso os espaços cedidos pela escola.
Eu não sabia nada sobre o centro acadêmico, mas de repente aquilo me parecera bem útil para aprender mais sobre Pokémon. Cassie era muito melhor do que eu, e ela só tinha dez anos. Infelizmente, o centro era voltado apenas em treinamento, de forma que o ensino não seria direcionado para realizar meu sonho, digo, o sonho da minha mãe.
Quando o horário de almoço terminou, Cassie se despediu e rumou para a escola. Ela me passou seu telefone, me disse para deixar de ser idiota e me deu mais alguns conselhos de como capturar Pokémon selvagens, além de explicar onde ficava a casa do médico.
Eu deveria ter anotado seus conselhos, porque fiquei tão preocupado em não errar a casa do doutor, que esqueci todo o resto. Quando cheguei lá, uma simpática senhora me acomodou na sala de espera e me pediu que aguardasse. Olhei no relógio e vi que ainda eram duas horas. Teria algum tempo até o médico chegar. Peguei uma revista sobre a mesinha de centro e comecei a folheá-la. Não demorou muito para que as páginas coloridas ficassem fora de foco e eu adormecesse ali mesmo.
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