Rota Zero
25 Quando Os Caminhos Se Separam
Notas iniciais
Haila
QUANDO OS CAMINHOS SE SEPARAM
Aquela garota tinha me tirado do sério, então a melhor coisa a fazer foi ir até a unidade móvel ver como Chiclete estava. Eu não tinha percebido até estar naquela plateia, vendo Deedee batalhar, o quanto ele tinha evoluído. Claro, pular na frente de um ataque daqueles foi completamente idiota, mas se ele não o fizesse não seria o garoto retardado que eu conheci apartando a briga entre a Patrat furiosa e Leaf.
Vi a ambulância parada mais a frente e me sentei na calçada, em frente ainda ao local onde o evento acabara de acontecer. Mexi no meu bolso e encontrei o Pokédex de Jaden. Ele gostaria de estar ali, de conhecer Dee.
A personalidade dos dois era muito parecida de certa forma, Jaden era como Deedee. Super preocupado e bondoso. Mesmo quando eu me enroscava em brigas na escola e ele tinha que ir apartar, sempre resolvia tudo na conversa.
Olhei de volta para a ambulância e vi David indo até lá. Ele estava conversando com mais um garoto de cabelos pretos, não deveria ter mais que a idade do colega. Tive o impulso de correr até lá, mas me contive. Esperei que eles fossem embora e fui até lá.
Um enfermeiro baixinho saiu assim que eu me aproximei, limpou as mãos na calça e depois tirou o Xtransceiver do bolso. – Ei – chamei o fazendo erguer o olhar – como o Riolu que eu deixei aqui esta?
Ele olhou de volta para dentro e depois voltou a olhar para mim com os olhos brilhando, parecia ter se esquecido por um momento de que Pokémon eu estava falando – ele só deslocou o ombro, mas está tudo bem. Só precisa de algum tempo de sono e estará novo em folha.
Balancei a cabeça e puxei a manga da minha blusa para cima. Parecia ter algo errado no meio disso tudo. Não sei dizer se havia sido o fato de December ter perdido o Contest. Eu estava muito confiante que ele venceria. Ou se ainda era falta de casa.
=8=
No fim do dia voltamos para o nosso lar, doce lar, cubículo no Centro Pokémon. Deedee foi para o beliche de cima e eu fiquei sentada na cama aproveitando para ler o livro da folha. A noite já havia caído e eu estava com uma estranha exaustão. Creio mais mental do que física.
December parecia estar igual a mim. Depois de uma hora de leitura decide que já era tempo ir ver a noite de Nimbasa, no entanto, assim que chamei Deedee pela primeira vez ele não respondeu, deduzi o obvio. Subi dois degraus da escada grudada na cama e o encontrei dormindo de lado com o livro da mãe dele caído ainda aberto embaixo de seu braço.
Mexi na minha bolsa e peguei algum dinheiro e as Pokéball de Leaf e Simi. Não queria carregar bolsa. Desci as escadas e minha barriga roncou. Dei uma olhada de rabo de olho em direção ao refeitório, mas assim como o salão principal, parecia lotado.
Fiz uma careta e decidi procurar algum restaurante mais tranquilo na cidade. Mesmo com o festival tendo chegado ao fim a cidade ainda estava cheia. Segui por uma das ruas principais e passei perto da roda-gigante fora dos padrões. O grande boneco de Pikachu estava lá.
Em uma esquina vi uma loja de tortas. Havia algumas pessoas sentadas conversando e comendo, então decidi que seria aquilo mesmo. Dei uma volta pelo balcão e uma olhada nos sabores que existiam, escolhi um e me sentei com um pedaço em uma mesa perto da saída.
Fiquei com o Contest de Deedee na cabeça. Clarice tinha me tirado do sério profundamente, toda aquela conversa de vencer a qualquer custo, fazendo o Pokémon chegar ao limite. Olha só como estava à cara daquela pobre Audino. A associação deveria fazer algo em relação aquilo, mas infelizmente havia muita burocracia.
Falando em associação, me perguntava que decisão haviam tomado em relação aquele Zoroark afinal de contas? Aquela noite havia sido assustadora, mas minha primeira grande vitória com Simi. Tirei a Pokéball dele do bolso e sorri. Eu tinha minha primeira insígnia, talvez um dia eu pudesse ser uma Mestra Pokémon.
Quando estava saindo da lanchonete, comprando o pedaço de Deedee levei um susto. Kara estava entrando de mãos dadas com outro garoto. Me virei depressa e olhei a lista de sabores com o coração batendo a mil. Aquela vadia estava traindo Tom?
Olhei para trás mais uma vez e ela estava se sentando com o garoto. Foi uma mistura muito engraçada de sentimentos. O primeiro deles foi susto. Eu xingava Kara sempre que ela virava as costas, no entanto ela ser uma vadia de verdade era bem diferente. Em seguida um tipo de humor sarcástico por Tom estar sendo traído, mas logo em seguida senti raiva por Tom estar sendo traído.
Me virei bruscamente e sorri. Admito, um sorriso carregado de maldade que faria Deedee sair correndo. Aproximei-me da mesa e cruzei os braços antes de cumprimentá-la – Oi Kara, que coincidência.
Ela me olhou confusa a principio e depois sorriu – Oi Haila, acredita que estava falando de você agora?
– É mesmo? – Perguntei com um tom indiferente. – Não vai me apresentar seu namorado?
Kara franziu o cenho e beijou a bochecha do garoto. Eu abri a boca, pasma com a situação. A vagabunda tinha a coragem de me desafiar. – Esse é Desmond – o garoto sorriu e estendeu a mão.
O encarei por alguns segundos, mas não o cumprimentei de volta – Há quando tempo essa palhaçada está acontecendo? – Perguntei dando uma risada cheia de raiva.
Kara se levantou esbarrando na mesa a sua frente, fazendo barulho e todos nos encararem. – Tom mandou que você fizesse isso, garota? – Ela perguntou quase gritando. Aparentemente eu tinha conseguido tirá-la do sério.
– Nem precisava né, eu sou amiga dele – respondi orgulhosa. Finalmente eu poderia lavar a cara daquela garota.
Kara empurrou o garoto e saiu detrás da mesa, ficando bem na minha frente. A vagabunda era mais alta do que eu o que não me intimidou, pelo menos não muito. – Olha aqui, queridinha – ela começou a dizer, seus olhos estavam em brasa – da próxima vez que você falar comigo, ou com alguém que e goste dessa forma eu vou arrancar esse sorriso irônico no tapa.
Estufei o peito e coloquei a mão na cintura, ignorando todo o burburinho que havia se formado na lanchonete – não é irônico, é... – e como sempre, em todas as malditas discussões – é... – eu me embolei – outra coisa.
Ela riu na minha cara e balançou a cabeça negativamente. – Não vou perder meu tempo com você – então cometeu o maior erro até então, deu as costas pra mim. Ninguém das às costas pra mim. Tirei a tampa do pote da torta do Deedee e cutuquei o ombro dela.
Ela se virou fazendo cara de nojo e eu fiz questão de garantir que ela continuasse assim. Acertei torta no meio da cara dela e quase tive de pular, mas consegui fazer com que um pouco parasse em seu cabelo.
Ela deu um passo para trás e gritou, esbarrando na mesa, derrubando-a como consequência. As pessoas em volta se dividiram em dois grupos. O primeiro de chocados sem reação, como Kara e outro que não conseguiu conter as gargalhadas.
Desmond se levantou da cadeira e colocou a mão no ombro dela – você esta bem? – Perguntou, e assim que ela respondeu que não ele caiu na gargalhada.
Um homem saltou detrás do balcão e me agarrou pelo braço, me puxando para fora do estabelecimento. – Espera – pedi pensando em Deedee, eu tinha que levar um pedaço pra ele, no entanto o homem começou a gritar por cima.
– Nunca mais volte aqui...
Inclinei meu corpo para o lado e vi Kara furiosa empurrando o namoradinho, que ainda ria, para longe dela. Cocei minha nuca quando percebi o que tinha feito e quando ela me viu do lado de fora a encarando, ela começou a caminhar na minha direção como uma locomotiva fora dos trilhos.
Eu não era a Haila que acerta tortas na cara das pessoas, por isso não fiquei com peso na consciência quando sai correndo pelas ruas de Nimaba City da garota furiosa que estava atrás de mim.
Quando abri a porta do quarto no Centro Pokémon, ainda ofegante, Deedee saltou do beliche de cima. Estava com os olhos arregalados e Bacon colocou seu rosto suíno para fora do beliche. – Onde esteve?
– Fui comer alguma coisa – respondi me sentando na cama e caindo na risada quando a cena me voltou á mente.
– Por que não trouxe nada pra mim?
– Sabe, tem uma historia engraçada sobre isso...
=8=
Depois que contei toda historia a December e ele começou a me encher a paciência dizendo que agora o caminho estava livre pra mim, e com isso, fomos dormir. No dia seguinte o tirei da cama cedo como vingança. O obriguei a pegar o livro de Contest da sua mãe e o levei até o parque onde havia a roda gigante.
Passamos boa parte da manha treinando movimentos juntos. Começamos com uma sessão de alongamento e depois uma pequena corrida junto de nossos Pokémon. Até mesmo Sunkern saltitou atrás de nós. E em seguida fiz com que Deedee pegasse o Pokédex e testasse todos os ataques que seus Pokémon podiam aprender para que ele os decorasse.
Peach relutou bastante, não participou da corrida e ficou sentada emburrada, com os pequenos bracinhos cruzados enquanto Bacon, Chiclete e Couve-flor mostravam sua arte. Ela era uma gracinha, apesar de muito geniosa. Eu queria que meu pai também tivesse me dado um daqueles quando era menor.
Passamos assim boa parte da manha, até que nossos Pokémon começaram a mostrar nítidos sinais de exaustão. Eu queria todos afiados, mas com certeza não faria o mesmo que Clarice para obter bons resultados.
Voltamos para o Centro Pokémon, comemos alguma coisa e Deedee sugeriu que déssemos uma volta pela cidade. Deixamos nossos Pokémon no Centro para que pudessem comer e recuperar suas energias enquanto isso. Eu apenas Leaf e ele Couve-flor e Peach.
Passamos em frente ao estádio onde havia acontecido o torneio de Bufallant e eu convenci Deedee de que deveríamos dar uma olhada. Compramos refrigerante em uma barraquinha que estava do outro lado da rua e entramos.
Depois de subirmos alguns lances de escada sentamos lado a lado na arquibancada vazia. O campo abaixo de nós estava vazio, com os grandes de aros de cada lado.
Deedee tomou um gole barulhento pelo canudinho e eu dei uma cotovelada nele para ensinar-lhe modos. Ele fez uma cara surpresa primeiro e depois devolveu o golpe. – Pra onde vamos agora? – Perguntei me ajeitando no banco avermelhado.
Ele me olhou um pouco e deu de ombros – não sei.
– Sabe onde será seu próximo Contest? – Perguntei esperando uma resposta negativa.
E foi exatamente o que obtive. – Não... – ele olhou um pouco mais para o gramado abaixo de nós e me encarou – quais eram seus planos antes? Sabe, antes de me conhecer.
– Bom... – cocei a testa mesmo sem ter um motivo pra isso e dei de ombros também – acho que você acabou se tornando ele. Eu só queria distancia de casa. Ia seguir os planos do meu irmão e me tornar uma treinadora, mas agora, não sei sé é isso que quero.
– E o que você quer? – Ele me perguntou, levantando a perna, apoiando o pé no banco.
– Eu sempre tive alguém pra me dizer o que fazer, pra onde deveria ir, qual seria meu futuro – comentei desanimada. Esses pensamentos remetiam a minha família e acho que a de Deedee também porque ele me retribuiu o mesmo tipo de expressão. – vou engolir aquele maldito livro da folha e vou saber tudo o que se tem pra saber sobre Pokémon planta. É isso o que eu quero agora.
Deedee sorriu de uma forma diferente, ou eu me senti diferente em relação ao sorriso dele. É como se ele tivesse dito sem palavras que estava comigo e isso me acalmou. Sorri de volta e dei um soco no ombro dele, ele franziu o cenho e retribuiu, porém com o dobro de força, me fazendo quase cair do banco. Fiquei furiosa e acertei outro golpe nele e assim começou nossa briga inútil.
=8=
Quando a tarde estava terminando voltamos para o Centro Pokémon. Depois do clima estranho que rolou no estádio estávamos novamente animados. Sob os olhares repreensores de uma enfermeira subimos correndo as escadas para os dormitórios em uma disputa de vida ou morte.
Deedee por ser mais alto e inacreditavelmente mais atlético que eu, ganhou, chegando dois degraus na minha frente. Quando cheguei ao topo ofegante ele estava rindo muito e eu não tentei conter a mim mesma. Estávamos suados e cansados, mas aparentemente Dee tinha merecido a caixa de Audinos de alcaçuz que havíamos apostado.
Nos arrastamos para o quarto e nos sentamos lado a lado na parte superior do beliche. Ergui meu braço e quase pude tocar o teto. – Acho que devíamos fazer mais isso – comentei ainda sorrindo.
– Apostar corridas? – Ele perguntou de uma forma engraçada.
Balancei a cabeça negativamente e me espreguicei – sair sem motivo para nos divertir.
– Só fomos ao estádio – ele retrucou.
– Sim, mas... – Não conseguir terminar minha frase. Um barulho ensurdecedor invadiu o quarto. Pude jurar que senti a cama sob nós tremer. – O que foi... – E novamente o som, porém desta vez seguido de gritos que pareciam ecoar de dentro do próprio Centro.
Pulamos quase juntos da cama, de olhos arregalados e com o coração a mil. Alguma coisa bateu na porta com força e em seguida alguém gritou no corredor – fogo!
Deedee tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram. Em um salto agarrei minha bolsa que estava no chão ao lado da mochila de Deedee e a prendi sobre o braço, jogando em seguida a mochila de Deedee no próprio.
Ele correu para porta e quando a abriu outra explosão aconteceu, e desta vez eu tive certeza, o prédio tremera.
Acompanhamos a pequena massa de pessoas que surgiu de repente saindo de seus quartos e fomos em direção ao saguão. Deedee agarrou minha mão no meio da confusão enquanto alcançávamos as escadas no fim do corredor.
Foi então que senti o cheiro de fumaça. O brilho alaranjado estava lá também. Assim que botamos o primeiro pé nas escadas percebemos que a saída do Centro Pokémon estava em chamas, porém havia um buraco na parede mais a esquerda por onde as pessoas desesperadas passavam.
Uma nuvem preta começou a tomar posse do ar, começando a colorir o teto de cinza escura. Chegamos à parte de baixo em um instante, sendo guiados instintivamente para a saída pelo resto das pessoas.
Quando chegamos onde havia pedaços de tijolos e concreto no chão Deedee parou de repente. Trombei nele sem querer, quase o derrubando sobre o entulho. Em meio aos gritos apavorados ele disse com uma expressão de terror – nossos Pokémon.
Olhei para trás e vi o balcão onde mais cedo os havíamos deixado, não tinha ninguém ali. Antes que eu pudesse formular qualquer pensamento Deedee saiu correndo, trombando nas pessoas no meio do caminho.
Sai em disparada atrás dele, o alcançando quando, sem parecer pensar, ele saltava sobre o guichê. Fiz o mesmo com um pouco mais de dificuldade, caindo sobre um amontado de caixas de Pokébloco.
Fui parar no chão no mesmo momento, quase batendo a cabeça no processo. A mão de Deedee surgiu um momento depois, a agarrei e senti a dor no ombro, mas eu não tinha tempo para pensar naquilo agora.
O cheiro de fumaça estava ficando cada vez mais intenso e o fogo se alastrava tomando mais e mais a entrada do Centro Pokémon. Meu coração estava na boca. Abrimos uma porta e nos deparamos com mais um pequeno corredor e escadas.
Fomos em direção a elas o mais rápido possível e acabamos trombando com a mesmo mulher que havia feito nosso check-in ao chegarmos em Nimbasa. O rosto dela estava sujo de algo preto e seus olhos estavam semicerrados. Porém o que chamou mais atenção foram suas mãos que seguravam a camisa dobrada onde dezenas de Pokéball estavam. Elas estavam cortadas e cheias de sangue.
– Me ajudem, por favor – ela pediu com uma voz mais aguda do que o comum – temos que tira-los daqui – e então a mesma caiu de joelhos. Tentei segurá-la, mas ela era pesada demais. – Tem mais algumas lá embaixo, por favor... – continuou enquanto fazíamos força para levantá-la.
Ela passou o braço pesado por cima do ombro de Deedee, que me olhou desorientado como reflexo. – Eu tenho que ir atrás deles – foi tudo o que conseguir pensar em dizer antes de sair correndo escada abaixo.
Chegando ao último degrau me encontrei em um novo corredor. No meu lado esquerdo, pude ver através de um vidro, um enfermeiro de cabelos verdes recolhendo Pokémon assustados de volta para as suas Pokéballs. Quando último Mareep desapareceu em um raio vermelho ele saiu correndo da sala, dando de cara comigo – o que está fazendo aqui? – Vociferou protetor.
– A moça da recepção... Meus Pokémon – disse desorientada. A fumaça chegara ali também.
Ele estava com o cenho franzido, parecia não conseguir pensar em outra saída e então gritou – no final do corredor, na porta a direita, ainda tem alguns Pokémon lá. – Afirmei com a cabeça e sai correndo na direção oposta a dele.
Quando abri a porta havia um pequeno grupo de Pokémon lá. Peach estava na frente dele, com olhos assustados. Atrás dela estavam Couve-flor e Leaf que correu em minha direção assim que me viu. Mais atrás estavam um Palpitoad e um Darumaka.
– Precisamos sair daqui – pedi a eles, pegando Sunkern no colo. Eu não sabia onde estavam as Pokeball e muito menos tinha tempo para descobrir qual era de qual, então sai sendo seguida pela fileira de Pokémon.
Assim que passei pela sala onde o enfermeiro estava o prédio voltou a tremer. Talvez tenha sido o susto ou talvez a fumaça, eu não estava bem. Minhas pernas fraquejaram e eu fui ao chão com o Pokémon no colo. Cai de lado para evitar que ele se machucasse, no entanto cai novamente sobre o mesmo ombro doido, o que me fez arfar alto.
Leaf surgiu em cima de mim e começou a me lamber. Parecia apavorada e queria me apoiar como já fizera antes. Sunkern fez um som doce e me encarou com os olhos brilhantes, até mesmo Peach agarrou minha camisa e puxou, como se me dissesse “Temos que ir”.
Me levantei com um pouco de dificuldade e encontrei o olhar de todos os Pokémon em mim. A fumaça agora começava a atrapalhar a visão. – Vamos – chamei mais uma vez e a fumaça na minha garganta me fez ter vontade de tossir.
Subimos as escadas juntos e nos deparamos com a porta em chamas. Luzes laranja cobriam praticamente toda a saída. Pensei em voltar, mas a lembrança do andar inferior só me fez ter a certeza de que aquela era a única saída possível.
– Leaf – chamei e a Pokémon me olhou nervosamente. – Use Magical Leaf.
Leaf me encarou e acho que pela primeira vez duvidou de mim. Deu alguns passos para frente e começou a fazer o movimento com a cabeça. A rajada de folhas recoberta pela luz foi em direção à porta, deslocando junto uma massa de ar que aos poucos começou a dissipar as chamas.
O Pequeno Palpitoad correu para o lado de Leaf e usou seu ataque Water Gun, mandando juntamente um pequeno volume de agua nas beiradas da porta. Assim que as chamas ali se extinguiram corremos até lá, mas para o nosso azar o saguão parecia à boca de um vulcão.
Fiquei totalmente apavorada, havia fogo para todo o lado. O pequeno jato de Palpitoad mal conseguia apagar as chamas da porta e a massa de ar do ataque de Leaf era apenas uma saída temporária. Então tive uma luz.
Pedi a Palpitoad e Leaf que usassem seus ataques juntos. A junção do vento e da água causou algo parecido com chuva dentro do saguão em chamas do Centro Pokémon. Demorou algum tempo, que foi extremamente angustiante. Eu estava temendo que a estrutura do prédio não resistisse.
Pude jurar que ouvi o barulho de tiros e até mesmo a voz de Deedee, ou talvez fosse só o desejo de vê-lo. Quis correr, mas o caminho ainda não havia sido aberto. Os Pokémon se esforçaram ao máximo e quando finalmente conseguimos cair fora daquele inferno, caímos em outro.
Nimbasa City estava sob ataque. Pessoas corriam e gritavam para todos os lados. Havia mais dois ou três incêndios erguendo nuvens gigantescas de fumaça no horizonte e para piorar, inacreditavelmente, havia um gigantesco navio veleiro ancorado no ar, ao lado da Roda-gigante. Aquilo só podia significar uma coisa: o Team Plasma havia voltado.
Leaf e Peach sem Pokéball, e Couve-flor no meu colo. Ainda havia aqueles dois Pokémon estranhos e o Centro Pokémon em chamas atrás de mim. Carros e pessoas desesperadas nas calçadas e o som de sirenes ao fundo. Eu simplesmente travei.
Leaf fez seu barulho estranho e me olhou com uma expressão assustada, os Pokémon atrás de mim pareciam bem piores do que ela. Então, só consegui pensar em um lugar para ir. Talvez o único ainda seguro na cidade. O ginásio de Elesa.
– Preciso que fiquem todos juntos, vamos até o ginásio. Deedee e o seus treinadores devem ter ido para lá. – Os Pokémon confirmaram da forma como podiam e sai correndo.
Assim que viramos a primeira esquina nos deparamos com os soldados armados, vestidos com uniformes pretos. Atrás deles um grande Seviper acompanhava o movimento das pessoas correndo pelas ruas. Fiz uma parada brusca e os Pokémon trombaram nas minhas pernas.
Um dos soldados disse algo alto que eu não pude entender e depois, sem misericórdia, acertou um tiro nas costas de uma mulher que corria com seu Emolga no colo. Ela acertou o chão com força e o homem voltou a atirar. Dei alguns passos para trás e me escondi na lateral de um prédio.
Mais dois disparos e o sangue começou a escorrer pela calçada. O pequeno Emolga parecia em pânico, agarrando-se a treinadora. Fazia um barulho agudo que parecia um lamento, tentando puxar a mulher pelo ombro, em seguida empurrando. Parecia implorar pela vida dela.
Tive vontade de chorar, senti as lágrimas queimarem atrás dos meus olhos. Couve-flor parecia em pânico, agora se remexia sem parar. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo.
Esse mesmo soldado, de cabelos longos e negros caminhou devagar até o corpo da mulher. A essa altura as pessoas já estavam longe e a rua, pelo menos ali, parecia deserta. Eu tinha que ir embora, mas não consegui, eu queria ver, tinha que ver.
O soldado se abaixou perto do corpo da mulher e uma corrente elétrica correu pelo do pequeno do Emolga, que estufou o peito tentando parecer intimidador. O homem estendeu a mão e começou a dizer alguma coisa, depois disso mexeu no bolso da mulher e tirou de lá uma Pokeball. Em seguida se levantou, a jogou no chão e pisou em cima, transformando-a em pedaços.
O Emolga parecia desnorteado, sua cara peluda estava cheia de terror, então o soldado apontou a arma para ele. Meu coração batia tão forte no peito que quase chegava a doer. Eu queria correr até lá e impedir, eu queria poder socar a cara daquele desgraçado até que não sobrasse mais nada dele, mas minhas pernas não se moveram.
Tentei gritar, mas a voz não saiu e então as lágrimas desceram. O soldado atirou no chão próximo ao Emolga, que sem saída, resolveu finalmente fugir. Deu alguns passinhos atrapalhados antes de sair voado e desaparecer na rua.
O soldado colocou a mão na cintura, parecia satisfeito com o trabalho. Logo os outros dois surgiram atrás dele e começaram a andar em minha direção. Finalmente o pânico me fez agir, agarrei o primeiro Pokémon que vi pela frente e comecei a correr.
Couve-flor e o Darumaka estavam no meu colo enquanto os outros corriam atrás de mim. Dei a volta no quarteirão e me deparei com um Jeep. Dentro dele havia soldados, com armas em punho. Me joguei na primeira varanda que vi, coincidentemente da mesma loja de tortas onde havia encontrada Kara.
Me deitei no chão e os Pokémon se encolheram junto a mim. Senti algumas pontadas no ombro, a dor ainda estava ali. As mesas estavam no chão e detrás do balcão pude ouvir um choramingo. Tive vontade de correr até lá, mas o automóvel passou em frente naquele momento.
Ainda podia ouvir gritos e sirenes, mas a cada minuto mais fracos. Me levantei devagar e olhei para a rua. Um grupo de pessoas desatinou a correr saindo de um prédio e eu fui atrás.
Assim que cheguei ao meio da rua ouvi o barulho dos disparos e dois deles caíram. Eu estava apavorada. Corri aos tropeços subindo uma pequena ladeira e sinceramente não sei como, avistei o boneco do Pikachu, furado no chão.
A Roda-gigante estava ali e o barco também. Olhei para cima desnorteada quando dois Pokémon gigantescos saltaram da embarcação voadora. Eu não os reconheci, mas tanto fazia aquela altura.
Comecei a correr e me joguei em um arbusto do parque. Os Pokémon também estavam choramingando, Couve-flor, Darumaka e Palpitoad. Leaf estava em guarda e Peach, mesmo parecendo assustada, ainda sim carregava seu porte orgulhoso.
Ouvi o barulho de uma explosão e enfiei minha cara entre as folhas. Zebistrika de Elesa estava batalhando. Chamas e raios estavam acendendo a noite recém caída, enquanto os Pokémon que pareciam estátuas de pedra tentavam acertar golpes no Pokémon.
A embarcação em dado momento balançou e com ajuda da luz da roda-gigante pude ver que havia uma ave, talvez um Braviary usando um ataque fortíssimo de ventania nela.
Ouvi o barulho de tiros novamente e a ave despencou do céu. Antes que tocasse o chão ela desapareceu em um raio vermelho. Lá estava ela, ao lado de seus Pokémon também batalhando: Skyla.
Três carros surgiram da entrada atrás de mim, vindos com pelo menos quatro soldados em cada um. Dois deles frearam quase em cima de Skyla e soldados armados fizeram-na erguer as mãos e se render. O outro tentou atropelar Elesa, mas ela montou no Pokémon e começou a galopar freneticamente.
Só percebi que ela tinha tirado uma Pokéball do bolso quando os raios vermelhos libertaram um Eelektross. Um Pokémon enguia elétrica enorme que saltou sobre o Jeep, liberando uma descarga elétrica gigantesca, que fez os soldados gritarem em agonia e dor.
E um Electivire que surgiu erguendo os braços. Ela gritou um comando que não pude entender e o mesmo saiu em disparada, jogando seu corpo envolto de eletricidade no Jeep que por sua vez acabou virando.
Olhei para o outro lado e Skyla não estava tendo tanta sorte. Os soldados a tinham cercado e a mantinham na mira. Alguns deles saíram correndo, indo em direção a Elesa com armas em punho. Aquilo parecia longe de acabar. Então tomei um longo folego e tirei minha Pokéball do bolso.
O raio vermelho libertou Simisage que parecia alerta. Coloquei Couve-flor no chão e a mão na cabeça de Peach – preciso que cuide deles entendeu? – A Pokémon pareceu ficar mais assustada ainda, mas fez um movimento com a cabeça mostrando que tinha entendido. – Leaf, Simi – os chamei antes de sair correndo em direção aos dois Jeeps estacionados.
Eu pude sentir meus batimentos cardíacos, pude ouvir minha respiração e o medo se alastrando por cada célula do meu corpo. Nunca tinha me imaginado no meio de algo assim e sinceramente, havia bom um motivo.
Chegamos à traseira da segunda caminhonete e nos abaixamos. Eu já podia ouvir a voz dos soldados. Um deles ordenou que Skyla se ajoelhasse. A visão da mulher morrendo na minha mente voltou e junto o terror tomou conta. Tive vontade de voltar, de sair correndo. De me enfiar no mato, mas eu queria ajudar.
As lágrimas vieram novamente, mas não hesitei. Me levantei e pelas janelas desse Jeep tive a visão de Skyla ajoelhada com as mãos na cabeça, mais a frente. – Certo – comecei a cochichar limpando o rosto que estava molhado – Simi, preciso que você os distraia. Use o Seed Bomb e depois corra. Chegue o mais perto que puder antes disso e acerte os soldados que conseguir – ele afirmou com a cabeça e fechou o punho. – Leaf, quero que você entre debaixo do segundo Jeep e quando chegar o bem próximo use Razor Leaf. Acerte o máximo que puder até o Simi aparecer. Depois use os chicotes e arraste Skyla com você.
Passei a mão na cabeça dos dois e ouvi uma explosão, os Pokémon de pedra estavam usando ataques na roda-gigante enquanto Elesa parecia ocupada cuidando dos Pokémon dos soldados. Dois Aggron enormes com caldas dançantes.
– Vamos – pedi e Leaf se enfiou debaixo do primeiro automóvel. Simi e eu nos esgueiramos até chegamos ao lado do segundo. Então, ele foi por um lado e eu pelo o outro.
Engatinhei até chegar próximo a roda da frente, onde os soldados não poderiam me ver. Me abaixei e encontrei Leaf pronta para iniciar e mais a frente as patas de Simi, com passos lentos e silenciosos se aproximando também.
Leaf me olhou uma última vez e começou o ataque. Folhas cortantes surgiram de repente acertando as pernas dos soldados que começaram a pular ou correr tentando desviar. Então Simi começou a lançar suas sementes.
A primeira acertou a rosto de um dos soldados que foi ao chão no mesmo instante com o impacto da explosão, o segundo arremesso foi parar no chão próximo a um soldado mulher e depois disso eu não sabia mais dizer.
O primeiro tiro foi disparado quando os chicotes agarraram a cintura de Skyla. A treinadora não parecia assustada, alcançou uma Pokeball no bolso enquanto era puxada pelo chão e uma imponente Mandibuzz surgiu. – Dark Pulse – ela comandou e o Pokémon deu um salto, abriu as asas em um movimento brusco e uma onda de energia escura acertou todos em volta, estourando os vidros do carro acima de mim.
Sai correndo quando os soldados foram ao chão, Leaf já estava saindo pela traseira da caminhonete com Skyla. – Solte-a – pedi com urgência. A Pokémon me obedeceu no estalo e juntas saímos em disparada. Simi apareceu poucos segundos depois, quando estávamos passando pelo segundo automóvel.
Eu sorri, tão aliviada que não podia falar. Então acabei tropeçando em algo e cai de barriga no chão. Tentei levar os braços à frente e senti-os queimar quando o contato com o concreto aconteceu.
Um dos cabos da roda-gigante se soltou e a mesma rugiu. O metal parecia estar cedendo. Me encolhi de dor e Simi e Leaf vieram tentar me acolher, me fazendo carinho como podiam.
Ergui o olhar e vi Skyla correndo em direção a Elesa que havia de alguma forma arrumado uma arma e agora atirava. Mais um cabo se soltou e a roda-gigante ganhou inclinação. Ela iria cair.
Ouvi vozes e quando me virei, vi que alguns treinadores subiam a rua. Me esforcei para me levantar e fui ajudada por Simi. Dei o primeiro passo, mas uma dor lacerante tomou conta de mim.
Olhei para frente, de volta em direção à batalha e vi, para o meu terror, Peach erguendo Couve-flor como podia como os pequenos bracinhos, com os outros Pokémon se esgueirando pelos arbustos. – Tenho que ir busca-los – gritei apavorada. Eu estava com muita dor, tentei me levantar mais uma vez e desta vez foi mais fácil. Comecei a andar o mais depressa que pude na direção deles. Tive medo de gritar, então continuei em silencio. Simi e Leaf junto de mim.
Então os enormes Pokémon de pedra se afastaram. Seus braços e pernas se encheram de chamas e eles começaram a voar. Uniram os braços ainda no alto e atiraram. Uma bola de fogo acertou os pilares da roda-gigante que começou desta vez a despencar.
Acelerei meus passos o máximo que pude, ignorando a dor como podia. Leaf tomou a dianteira junto de Simi e com seus Chicotes agarram os Pokémon. Simi pegou Peach que tinha Couve-flor em seus braços e Leaf, Darumaka e Palpitoad. A Roda-gigante estava caindo sobre nós.
Me virei, fazendo caminho inverso, tentando fugir da gigantesca armação de metal. O ranger dos pilares se comprimindo encheram nossos ouvidos e a sombra cobriu nossas cabeças.
No rufar da emoção olhei para trás, o tempo até mesmo pareceu mais devagar. A roda-gigante parecia maior sobre nós a cada segundo. Simi tinha Peach, e nos braços da Pokémon cinzenta Couve-flor balançava.
No calor do momento, de alguma forma Couve-flor escorregou e saiu rolando. Simi não percebeu até que eu gritei. Ele olhou para trás e depois para mim. Esticou os chicotes e me entregou Peach e depois voltou. Eu sabia que não havia tempo, mas uma das cabines vinha na minha direção, não tinha como pará-la.
Continuei correndo, meus braços e pernas queimavam, e Leaf já estava na minha frente. Então Simi alcançou Couve-flor, o agarrou com seus chicotes e o lançou. Depois disso não se passou meio segundo, a roda-gigante acertou o chão erguendo uma intensa nuvem de poeira, que entrou na minha garganta quando tentei gritar.
Peach ficou imóvel no meu colo e Couve-flor rolara, parando nas minhas pernas. Travei alguns segundos esperando que Simisage saltasse sobre a cabine a poucos metros de mim, mas ele não o fez.
Larguei Peach no chão e sai correndo. Havia um muro de metal contorcido na minha frente, a visão estava ruim então acabei batendo em um pedaço ferro no chão. Meu corpo queimava, meu ombro doía, mas eu só queria saber de Simi. – Simi – gritei de todo o pulmão – Simi – chamei de novo. Agarrei o pedaço de metal na minha frente e comecei a escalar, tentando romper a barreira recém-criada.
Infelizmente ele se soltou e eu cai de costas no chão com a barra de ferro nas mãos. A dor me impediu de levantar da primeira vez e sinceramente não tive força mental para a segunda. Eu estava suja do meu próprio sangue, mas a angustia e o medo dentro de mim eram maiores, então não pude segurar. Novamente voltei a chorar.
Mas desta vez não lágrimas contidas. Chorei aos berros como se o mundo estivesse acabando. Chorei de todo o coração. Meu pequeno símio... Parecia haver uma mão apertando meu peito. Comprimindo meus pulmões, mas eu não queria respirar, eu queria o Simi. – Simi – gritei de novo, começando a soluçar em seguida.
Rolei para o lado e soquei o chão. Soquei mais uma vez e de novo. – Simi.
Vi Leaf e os outros Pokémon vindo até mim. Pararam na minha frente e esperaram, respeitando a minha dor. Peach se largou no chão e Leaf veio até mim, se deitando ao meu lado. – Simi – o que eu fiz?
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