Rota Zero
90 O Último Dia de Castelia - parte 5
Notas iniciais
December
— Kara, você tem certeza disso? – Cheren espiou a garota ao seu lado. Nós estávamos sujos e cansados, mas não tínhamos feito nem metade da nossa missão.
Tínhamos derrubado uma antena afinal, mas, aparentemente, cada uma tinha seu próprio receptor, pois o raio de ação do Cobalion tinha se desligado apenas no quadrante onde estava nossa antena. O resto de Unova ainda parecia acometida pelo efeito do controle mental, mesmo que em escala menor.
— Tom vai ficar bem – respondeu encarando o caminho que deveríamos percorrer.
— Ele é seu irmão, você deveria ficar com ele.
— Você mesmo ouviu, não? Foi só uma perna quebrada – e os ombros dilacerados, mas achei melhor ficar quieto. Logo após o meu resgate, Kara tinha ligado para o irmão, sem muita esperança, mas Tom atendera o Xtransceiver. Pelo que eu entendera, ele usou a arma que possuía contra o Aerodactyl, que acabou por soltá-lo. E na queda, para muita sorte dele, tinha caído sobre um jardim no terraço de um prédio próximo. Fora as escoriações, o resultado fora uma perna quebrada. – Além disso, não acho que você vá muito longe com sua força tarefa – e me lançou um olhar provocativo.
— Ei! – Reclamei, mas sem muita força de vontade.
Kara tinha razão, ela era uma força preciosa dentro do grupo. Ela atiraria se fosse preciso, colocaria seus Pokémon no campo de batalha com força total e era uma boa estrategista, mesmo que suas estratégias só visassem permanecer viva.
— E qual é o plano? – A menina espiou a rua que terminava em uma fonte dourada, com estátuas de Pokémon. Atrás da fonte, havia um grande portão de grade, mas que parecia bem reforçado e depois de um vasto jardim, havia uma casa com colunas que lembrava uma construção romana. A mansão presidencial. Era um prédio bem impressionante e que deveria ser muito bonito de se admirar em um dia tranquilo.
— Eles devem saber que estamos vindo – o líder falou com certo descaso.
— E como saberiam?
— Roxie não iria deixar isso passar – e por isso, Cheren queria dizer a promessa de nos matar. Ela não tinha nos matado no topo do prédio, mas não perderia a chance fazê-lo na primeira ocasião que pudesse. Ela era uma mulher de palavra, para o bem ou para o mal. – Kara, você tem um Bouffalant, não? – E a garota concordou com um aceno. – Perfeito.
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Sabe aqueles filmes de ação que começam com explosões, morte e destruição e depois toda a trama é contada para te embasar de como os personagens chegaram naquela situação? Era exatamente assim que eu me sentia, e mesmo que eu tivesse vivenciado tudo até chegar naquele momento, as coisas não faziam um sentido muito lógico na minha mente.
Em um segundo nós estávamos do lado de fora da mansão. Cheren tinha colocado seu melhor sorriso no rosto e tocado o interfone da mansão presidencial, como um vendedor de porta em porta faz com pessoas comuns. E no segundo seguinte nós estávamos no meio da sala principal. Havia fumaça e cacos de vidros espalhados por todo o cômodo.
Um grande lustre de cristal tinha se espatifado no meio da sala e os gelos das paredes começava a derreter aos poucos. Tinha tantas partes doloridas do meu corpo, que a mordida da Peach tinha se tornado irrelevante. Kara estava ao meu lado, toda descabelada, mas com um olhar tão sagaz que parecia que ela arrancaria a cabeça da primeira pessoa que cruzasse o pórtico a dentadas.
Cheren estava sentado do outro lado da sala, o cabelo cheio de flocos de gelo. Ele tinha a mesma expressão de quando enfiara o martelo na cabeça do Plasma. E eu presumia que o rapaz que ele “interrogava” preferia ter desmaiado como todo o resto. Ele estava torturando o cara com uma mistura de Rain Dance com Ice Beam, e o cara estava mais congelado do que o dia que eu caíra no lago. Quando Cheren tinha virado um psicopata?
Tudo era muito confuso na minha mente. Quando finalmente, nos atenderam no portão, foi um membro qualquer da Team Plasma, que mal tivera tempo de reação. Cheren tinha lançado o seu Bouffalant com o de Kara em um ataque em conjunto. Eles simplesmente tinham levado o portão de grade no peito, o Plasma e tudo o estivesse no caminho.
Seguimos os Pokémon correndo o máximo que nossas pernas podiam, eu podia ouvir tiros vindo de todos os lados, mas eu apenas seguia em frente. Quando chegamos diante da casa, os Pokémon não pararam. Levaram as colunas no peito e destruíram as grandes portas de carvalho na entrada.
Tinha um contingente de soldados no esperando e assim que entramos, o ambiente foi coberto por uma tempestade de gelo. Minha visão ofuscou e senti Kara segurar minha mão para que não nos separássemos. De repente, um Castform surgiu no meio da tempestade.
E fosse porque Cheren tinha dois Pokémon em campo, porque ele estava de saco cheio de tudo aquilo ou porque, ele e Kara lutavam perfeitamente bem juntos, a batalha que deveria ser uma das mais difíceis da nossa vida, não durou cinco minutos.
Eu ainda estava relutando se deveria colocar Chiclete no campo de batalha, quando o último Plasma caiu desacordado e Cheren cercou um outro que tentava fugir, o que ele interrogava, de forma nada humanizada.
Os pelos do Bouffalant de Kara estavam ligeiramente congelados e um dos chifres quebrados, mas ele se exibia imponente. Ela também tinha colocado seu Conkeldurr em batalha e ele não tinha se saído tão bem, mas considerando que ela estava com ele fazia poucos dias, eles tinham feito um ótimo trabalho.
— Bem, não tem nenhum lendário por aqui – Cheren parou ao nosso lado. Seu Castform flutuando ao lado. Ele tinha retornado seu Bouffalant a Pokéball, o Pokémon estava completamente exausto.
— Tem certeza? – Kara perguntou desconfiada.
— Acho que ele não mentiria – dei uma espiada no sujeito que Cheren interrogara e a pele estava azulada quase roxa.
— E o que mais sabemos? – A menina prosseguiu.
— O presidente ainda está vivo. Está sendo mantido no salão principal – mas nenhum de nós sabia onde isso ficava. – A maior parte do contingente da Team Plasma está na fortaleza voadora.
— Então já enfrentamos a parte mais difícil? – Kara espiou a sala.
— Eu não diria isso, mas...
— Não deveria dizer mesmo – uma voz delicada cortou o discurso do líder.
Aida apareceu no pórtico. Ela parecia cansada e usava vestes comuns em vez do uniforme de general.
— Essa vadia não era a que estava no barco? – Kara questionou com desdém.
— Fome, eu presumo – Cheren cuspiu as palavras.
— O que aconteceu com Lila e as crianças? – Perguntei sem me controlar. Se Fome tinha mesmo sido resgatada, então algo tinha acontecido ao Arthur e os demais.
— Lila? Oh, a garota idiota dos Psyduck? – Fome zombou. – Ela tem muita coragem e nenhum cérebro.
— Eles estão... vivos? – E senti meu sangue gelar nas veias.
— Não sei e não me importo – Aida deu de ombros. – Exceto aquele garoto, Guerra nunca nos deixaria encostar em um fio de cabelo dele. – Então Jaden estava com o irmão? Se Haila soubesse disso, iria virar Unova de ponta cabeça para encontrá-los.
Levei a mão ao bolso em busca de uma Pokéball, mas Kara foi mais rápida e lançou seu Electabuzz em campo enquanto Conkeldurr e Buffalant abriam espaço para o companheiro.
— Eu lido com isso – a garota deu um passo à frente.
— Kara...
— Então você acha que consegue me derrubar, menina? – Fome provocou.
— Onde vai estar meu orgulho se eu não conseguir derrubar a mais fraca da Team Plasma?
— Fraca? – e a cara da mulher se contorceu em uma carranca.
— Você precisou ser resgatada enquanto a Peste conseguiu se virar sozinha, magistralmente – Kara deu um sorriso de canto.
Cheren deu um passo para trás e me puxou com ele, nos tirando do campo de batalha. Ele tinha percebido muito mais rápido do que eu o plano da garota. Kara era boa, mas ela nunca iria derrubar uma Comandante. Ao menos, não uma Comandante em seu estado perfeito. Mas Kara e Aida eram muito parecidas, principalmente em relação ao ego e se havia um jeito de Kara ganhar, era desestabilizando a mulher emocionalmente.
— Não me compare com aquela fedelha. – Um ponto para Kara.
— Por que não? Só porque você já está na terceira idade e não tem metade da inventividade dela?
— Eu vou fazer você levar essas palavras para o túmulo – Fome gritou e atirou a Pokéball. Um Alakazam apareceu do facho vermelho.
— Discharge – Kara comandou. O Pokémon amarelo ergueu os braços e soltou um barulho como um grito de guerra, fagulhas amarelas começaram a girar em torno dele com velocidade, até formarem um facho e voarem em direção ao Alakazam. Apesar da força do ataque, ele foi barrado e absorvido por um escudo invisível.
— Merda – Cheren resmungou ao meu lado, antes de me puxar pelo moletom e nos jogar no chão. Por que ele estava tão preocupado com um Protect?
De repente, o escudo ficou amarelo e um facho saiu de dentro dele, exatamente como de Discharge e atingiu o Electabuzz. A explosão acertou o Pokémon com tamanha força, que faíscas eletrostáticas voaram, atingindo as paredes e o restante das vidraças.
O Electabuzz caiu de joelhos, toda a pele chamuscada pelo ataque elétrico. Kara rangeu os dentes enquanto Fome sorria vitoriosa.
— Ué, eu não era fraca? – Aida provocou esnobe. – Alakazam, finalize.
O Alakazam moveu os braços como se fosse dar um golpe de caratê. As colheres se dobraram e um raio saiu como uma sombra em uma posição de ataque para cima do Electabuzz.
— Thief – Kara gritou. Electabuzz mal conseguia se pôr em pé, mas preparou o ataque. Eu sequer consegui ver o choque do ataque, já que a luz do ataque do Alakazam era ofuscante. Demorou até meus olhos se recuperarem.
Electabuzz estava caído no chão, um corte no meio do peito, como se tivesse sido atacado por uma espada. Ele estava visivelmente fora de combate. Do outro lado, Alakazam permanecia em pé, mas suas colheres tinham sido destruídas e não demorou para que ele oscilasse sobre o próprio peso e caísse de cara no chão, desacordado.
Fome bufou irritada e chamou o Pokémon de volta. Uma nova Pokéball apareceu no ar, Nidoqueen, a velha conhecida.
Kara trouxe o Electabuzz de volta e Salamance apareceu no espaço reduzido da sala, quase roçando a cabeça no teto. Era o Salamance que pertencera ao Thiers e que Kara tinha pegado, assim como fizera com o Conkeldurr sem dono. Eu não conseguia esquecer que aquele mesmo Salamance tinha derrotado Chiclete e Marsh e que aquele mesmo Salamance tinha massacrado o Ursaring do Cheren, mas ao mesmo tempo, eu sabia que não era culpa do Pokémon e que ele só seguia as ordens do seu treinador.
— Nidoqueen, Venoshock.
— Salamance, Dragon Breathe – e sério, não fazia meia hora que Kara estava de posse do Pokémon, ele não iria obedecer tão facilmente. Mas para minha surpresa, a baforada arroxeada se formou e se chocou com Venoshock e aquilo explodiu em uma nuvem roxa e tóxica. Kara cobriu o rosto com as mãos enquanto gritava um comando incompreensível. Salamance balançou as asas e dissipou a fumaça, empurrando a massa de gás venenoso para as janelas estraçalhadas.
— Isso é o melhor que você tem? – Kara debochou, apenas para ver Fome se irritar ainda mais.
— Sua fedelha. Earth Power – Aida comandou.
Eu conhecia o ataque, e seria algo que Salamance não conseguiria escapar. Mas eu sequer tive tempo de avisar, antes que as palavras se formassem, o ataque surgiu do chão e atingiu o dragão de baixo para cima, praticamente o esmagando contra o teto. A pintura rebuscada do teto abobadado caiu, junto com o Pokémon. Salamance estava bastante ferido, mas tentava se pôr em pé, sem muito sucesso.
— E só isso que você tem? – Fome provocou, usando as mesmas palavras de Kara. – Vamos logo com isso. Depois que te massacrar, eu vou ter prazer em destroçar esses dois.
— Esse jogo não tem regras, certo? – Kara gritou irritada, enquanto sacava uma nova Pokéball sem nem ao menos chamar o Salamance de volta. No final, o truque de Kara tinha se voltado contra ela, e ela estava perdendo o controle da situação.
O Graveler surgiu no espaço da sala e Fome deu um sorriso de deboche como se aquilo não representasse perigo algum.
— Se você acha que está garantida só porque o Graveler não pode ser atingido por ataques venenosos, sabia que eu tenho muito mais habilidade do que isso.
— Não é com isso que eu estou contando. Salamance, Rock Slide.
O que diabos Kara estava fazendo? Era visível que Salamance não conseguia permanecer em combate. Salamance bateu as pernas no chão, com as unhas afiadas e arrancou lascas do piso em tamanhos e formatos disformes. Então elas flutuaram no ar, como se mantidas por poderes psíquicos. As asas arquearam para trás e ele estava pronto para desferir o ataque.
— Graveler, agora! – E antes mesmo de terminar o comando, Kara se jogou no chão, puxando Cheren e eu consigo.
Graveler assumiu um tom brilhante, como um Self-Destruction e explodiu, perfeitamente sincronizado com o começo do Rock Slide. Kara nunca estivera com o Salamance antes, como ela poderia saber seus ataques e conseguir sincronizar seus Pokémon com tamanha maestria?
A explosão lançou o Rock Slide radialmente, e as lascas do piso voaram por todo o ambiente como se fossem fragmentos de uma granada. Conkeldurr e Bouffalant se fecharam em uma muralha, servindo de proteção para nós.
O barulho da explosão seguido das pedras quebrando vidros e se chocando com as paredes era ensurdecedor. Então, tudo ficou quieto. Terrivelmente quieto. Salamance e Graveler estavam caídos no centro da sala, desacordados. E se eles estavam no epicentro da explosão e suportaram a maior carga, eram os únicos protegidos dos estilhaços.
Conkeldurr fora atingido por dois ou três fragmentos, mas não parecia ser nada grave, apesar das escoriações. Os pelos do Bouffalant, que antes estavam congelados, agora estavam levemente chamuscados e ele parecia bem abatido. Do outro lado da sala, a Nidoqueen estava caída, havia sangue ao seu redor, mas o peito ainda se movia lentamente. Fome estava caída diante do pórtico. Parte da entrada tinha sido destruída pelo ataque.
Um dos fragmentos tinha entrado na altura do peito, um pouco abaixo do coração e ela espumava sangue pela boca. Mas ainda estava viva e consciente. Ela tentou mover o braço, segurando uma Pokéball, mas a força nos dedos falhou e a bolinha caiu no chão, rolando para longe. Ela moveu os lábios para resmungar algo, mas afogou no próprio sangue e tossia convulsivamente.
— Self-Destruction? – Arrisquei incerto encarando o Graveler ferido, mas ainda vivo.
— Explosion – Kara respondeu com um sorrisinho. – Eu só precisava de um impulso para mandar as pedras de forma aleatória – parecia um plano bastante engenhoso.
— Você estava mirando na Fome o tempo todo – Cheren analisou. O fragmento ficando no peito da mulher parecia muito certeiro para ser obra do acaso.
— Ela não iria parar mesmo se eu derrotasse todos os seus Pokémon – a voz da garota foi esmorecendo. – Mas só o Rock Slide não teria força suficiente para passar pela Nidoqueen... – a frase saiu enrolada e Kara desabou no piso.
— Kara! – Me abaixei ao lado dela.
Ela não parecia visualmente ferida, mas ao puxar sua blusa, ela tinha desenho ramificado nas costas. Eu me lembrava vagamente de um seriado explicando que o tal desenho de “árvore” se formava quando uma pessoa tomava uma descarga elétrica alta, porém não letal. Se Kara estava com aquilo, ela deveria ter sido atingida quando o Electabuzz foi atacado pelo Alakazam. Ela tinha resistido todo esse tempo?
— Eu estou bem, só preciso de um descanso.
— Mas você...
— Eu vou ficar bem, melhor do que você – apontou para o meu braço que variava entre sangrar horrores e apenas respingar.
— Mas Kara...
— Obrigado – Cheren agradeceu, me interrompendo.
— Eu não fiz isso por vocês – a voz da Kara saia cada vez mais mole. – Eu só quero que essa merda acabe para eu poder voltar para casa.
— Eu sei – Cheren sorriu, um dos raros sorrisos sinceros que ele dava.
— Vão logo buscar o presidente – ela se ajeitou no chão como se fosse tirar um cochilo. Eu não queria deixá-la ali, tão à mercê, mas não teria como leva-la conosco, tão cansada e abatida como ela estava. Além disso, Kara tinha derrubado uma Comandante sozinha, ela era uma treinadora muito melhor do que eu e conseguiria se virar sozinha. – Me avisem quando a fracassada morrer. Vai ser legal ter uma Nidoqueen no meu time.
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A mansão estava vazia, o que era estranho para um local que deveria estar tomando de soldados. Cheren avançava rapidamente e eu apertava o passo para acompanhá-lo. Tínhamos recolhido os Pokémon de Kara, mas Conkeldurr fez questão de ficar ao lado dela, protegendo-a.
Fome ainda estava viva quando abandonamos a sala, mas não parecia durar muito. E eu tentava não pensar que tinha deixado literalmente uma mulher para morrer. De certa forma, ela merecia. Mas ainda assim, aquilo não combinava comigo.
Continuamos andando, mas não estávamos chegando a lugar nenhum. Havia muitos corredores e eles eram muito parecidos entre si. E o excelente senso de orientação do Cheren não parecia ter muita utilidade naquele labirinto.
— Talvez nós devêssemos no separar – comentei quando chegamos a uma bifurcação no corredor. Ele me encarou sem entender – dá para cobrir mais terreno.
— Você sabe que essa ideia é horrível.
— Você acha que eu não consigo me defender sozinho? – Eu sabia que tinha dado vários motivos para o líder ter o pé atrás comigo.
— Deedee, a questão não é essa.
— Então?
— Você sabe que ainda somos alvos.
— Mas Fome já está fora da jogada – protestei.
— Você sabe que Roxie ainda está por aí. Além de outros soldados...
— Cheren, você veio aqui para resgatar o presidente e não ser minha babá – e usei toda a coragem que tinha para dizer aquilo. Ele cerrou o cenho.
Ele encarou o corredor bifurcado demoradamente. Certamente um de nós encontraria o presidente, e eu torcia para que fosse ele, mas separados, nós cobríamos o dobro do terreno, poderíamos resolver aquilo logo e voltar para ajudar Kara e Tom.
— Eu... – ele começou, parou, pensou e começou de novo. – É verdade que sua mãe me pediu para ficar de olho em você desde o começo. Mas eu não faço isso só por ela, eu me preocupo com você, de verdade.
— Eu sei – respondi confiante. Eu sabia que Cheren se preocupava comigo, assim como eu também tinha passado a me preocupar com ele. Talvez fosse influência da minha mãe, mas eu passara a vê-lo com muito mais respeito e admiração.
— Você vai ficar bem sozinho?
— Sim.
— Se algo acontecer com você... – Ele começou, e havia melancolia no seu tom de voz.
— Cheren, eu vou ficar bem – esbocei um sorriso. – Eu ainda estou te devendo uma batalha – ele curvou as sobrancelhas sem entender. – Você sabe, a batalha para te provar que eu tinha me tornado um bom coordenador. – Sério que ele não lembrava mais disso?
— Nós prometemos isso? – Ele balançou a cabeça incerto.
— Sim, no dia que sai em jornada – ele demorou um pouco, mas a realização atingiu o seu rosto.
— Acho que você não precisa me provar mais nada – ele sorriu de volta.
— Se você diz... – e eu não tinha treinado nada para essa tal batalha, não ter que fazê-la seria um problema a menos.
— Ficamos pela promessa do filme, então? – Ele questionou. Ele deveria muito querer ver um filme para falar disso toda hora.
— Claro – sorri, ele retribuiu e me encarou com tamanha intensidade que parecia conseguir ler todos os meus pensamentos.
— Se cuida.
— Você também – pedi antes de nos separamos.
Tomei o corredor da direita, as janelas davam para os fundos da construção e havia um jardim dos fundos bastante impressionante. O local estava total vazio. As tapeçarias estavam intactas nas paredes e no chão, como se nenhum Plasma tivesse passado por ali. No meu caminho, havia uma porta branca de duas folhas. Era de alguma madeira nobre e trabalhada e havia detalhes dourados nas maçanetas e dobradiças.
Não havia nenhum som vindo de lá e eu decidi seguir o caminho do corredor. Mas antes que pudesse seguir meu plano, senti uma força contra o peito, como uma rajada de vento. Aquilo me lançou contra a porta, que cedeu com impacto e me mandou para dentro da sala.
Senti meu corpo bater no chão e ser arrastado pelo chão de linóleo. Eu estava atordoado e sentia tanta pressão no peito que mal conseguia respirar. Parte do meu moletom estava destroçado como se tivesse sido cortado por miniespadas.
Só então percebi que estava cercado por estantes de livros que quase tocavam o teto e estavam dispostas umas ao lado das outras. Parecia uma biblioteca luxuosa, as estantes eram de madeira trabalhada e o teto era alto, curvado e adornado com diversos arabescos. Entre um corredor e outro havia pequenas estatuetas douradas de Pokémon das mais variadas regiões, que ficavam sobre pedestais de mármore.
— Eu disse que eu mataria vocês antes de chegarem até o lendário – Roxie apareceu no espaldar da porta. Ela parecia cansada e surrada, e mantinha aquela expressão sóbria no rosto. O Crobat voava placidamente ao lado dela.
— Roxie – me levantei com dificuldade.
— Essa é a sua chance – ela me encarou friamente. Chance? – De me mostrar que eu estou lutando para o lado errado.
As mesmas palavras frias que ela tinha me dito diante do lago em Anville. Minha mão foi instintivamente para o bolso. Roxie fez um sinal e o Crobat abriu as asas, um novo Air Cutter. Só tive tempo de me jogar atrás da estante mais próxima, antes da rajada de vento varrer o corredor, atingindo uma estante ao fundo, os livros voaram com impacto, desfolhando e caindo para todo o lado.
Eu nem sabia para onde estava indo, apenas me movi para ficar fora da linha de ataque de Roxie. Me escondi atrás da primeira estante que encontrei. Meu primeiro impulso foi ligar para o Cheren, mas eu tinha dito a minutos atrás que sabia me cuidar sozinho.
A questão é que não tinha como eu bater a Roxie. Eu não era tão bom, nem tão habilidoso e ela conhecia meus Pokémon tão bem quanto eu. Eu não tinha o elemento surpresa e a sagacidade da Kara. E no final, ainda era Roxie e eu não queria feri-la, nem aos seus Pokémon. Mas minha fraqueza poderia ser minha força. Eu sabia que Roxie era melhor do que, mas conhecia seus Pokémon relativamente bem, e seu jeito de combate. Eu não estava totalmente no escuro.
Eu podia ouvir os passos da Roxie ecoando pelo piso e meu coração retumbava nos meus ouvidos. De repente, os passos pararam e eu tive um péssimo pressentimento sobre isso. Eu mal tive tempo de me jogar para o lado, antes da estante voar atingindo a estante do lado. Livros voaram para todo lado, as estatuetas rolaram dos pedestais e as folhas se soltaram enquanto ela aparecia no local onde antes havia a estante, com o Crobat voando imponente ao seu lado.
Eu não poderia ficar fugindo o resto da vida, precisava fazer alguma coisa. Enfiei a mão no bolso e puxei duas Pokéball, duvidoso de qual usar. Lancei uma delas e Chiclete apareceu entre nós em posição de batalha, ele ainda não estava totalmente recuperado do pulmão perfurado e respirava ruidosamente.
— Certo – ela disse pausadamente, como se avaliasse a situação. Ela sabia que Chiclete estava ferido, ela estava lá. E mesmo que não estivesse, ela era experiente o suficiente para saber quando um Pokémon estava em condições ruins. – Vamos acabar logo com isso – e fez um sinal para o Crobat.
O bicho abriu as asas, majestoso, mas antes de qualquer coisa, Marsh pulou sobre ele, derrubando-o no chão. Os olhos de Roxie se arregalaram e se voltaram para mim ao perceber que eu liberara o Absol em algum momento e o fizera sorrateiramente se esgueirar por entre as prateleiras.
— Chiclete – e nem precisei dar o comando completo para o Pokémon avançar e atingir Roxie com um soco, que a mandou contra uma estante que rangeu. Ela se recompôs rápido. O lábio estava sangrando e ela me encarava um tanto espantada.
— Jogar sujo não é do seu feitio.
— Você mesmo disse que em uma guerra não tem bom ou mal, certo ou errado – respondi.
— Eu fiz uma ótima escolha em te deixar vivo em Anvile, você amadureceu bem – ela limpou o sangue dos lábios. Não respondi. – Crobat, Cross Posion.
Crobat fechou as asas diante do corpo e as abriu em um impulso, Marsh saltou ágil e escalou uma estante, antes do ataque o atingi-lo. Enquanto eu prestava atenção no embate entre meu Absol e o Crobat, Roxie colocou seu Amoonguss em campo.
Chiclete se colocou na defensiva enquanto o cogumelo parecia concentrar energia, mas a hora em que o ataque deveria vir, nada aconteceu. Amoonguss continuou olhando fixamente para meu Lucario. Até que o piso de linóleo rachou e raízes surgiram, envolvendo os braços e pernas do Chiclete e o prendendo no chão. Grass Knot, eu já tinha ouvido Haila falar dele, mas não o imaginava dessa maneira.
No fundo da biblioteca, Crobat lançava diversos Air Cutter, mas Marsh desviava deles com agilidade. Várias estantes tinham sido destruídas e papel picado voava por todo o lado, forrando o chão. Marsh estava indo bem, mas eu não sabia mais quanto tempo ele conseguiria fugir com tamanha destreza, sem se cansar. Por outro lado, Amoonguss tinha apertado as raízes em torno de Chiclete tão apertadas que não importava o quanto ele se debatesse, ele não conseguiria sair.
De repente, um dos ataques de Crobat atingiu Marsh, que caiu do alto de uma das estantes, deixando um rastro de sangue pelo caminho. Eu não conseguia precisar o ferimento, mas pela quantidade de sangue não deveria ser pouco.
— Roxie, por favor – choraminguei. Ela me encarou indiferente. – Nós éramos amigos, não faça isso.
— Eu só estou seguindo ordens – ela respondeu lacônica.
— E você não pode desobedecê-las? – Clamei.
— Eu posso, eu só não quero – e aquela frieza em suas palavras me deixava atordoado.
— Eu não entendo. Por que você está fazendo isso?
— Eu disse que você não entenderia...
— Se é alguma chantagem, se fizeram sua família de refém, eu entendo que... – e eu ainda me agarrava desesperadamente naquela possibilidade.
— Não é nada disso.
— Então me diga, eu preciso entender.
— Eu te disse antes, guerras são mais do que certo ou errado. No final, só vai sobrar vencedores e perdedores. Eu não quero estar do lado que perde – não poderia ser tão simples, não a Roxie. Ela tinha honra, moral, ela não se venderia por um motivo tão pífio.
— Eu não diria que vocês estão ganhando – me arrisquei, aquilo soou como provocação, mas as palavras tremiam nos meus lábios.
— Você está? – E o aperto do Grass Knot se intensificou de tal forma que Chiclete apagou. Crobat continuava tentando seus ataques contra Marsh, mas este tinha se encolhido sob uma pilha de livros caídos.
— Desde quando? – Mudei o discurso. Quando ela tinha nos traído e eu não tinha percebido?
— Deedee, pare de me enrolar, ganhar tempo não vai te ajudar – ela cruzou os braços diante do corpo.
— Apenas responda.
— Três anos atrás – O quê? Meus olhos arregalaram. Três anos atrás Roxie era uma líder de ginásio iniciante que não tinha se envolvido muito com os ataques da Team Plasma. Ao menos, era o que eu sabia da história.
— Você disse que não se aliava ao lado perdedor – as palavras saíram mais rápidas do que eu poderia controlar a boca.
— E não me aliei – ela rebateu simplesmente.
— Mas a Team Plasma foi derrotada três anos atrás.
— Engano seu, nós não estávamos derrotados – e ela parecia uma professora explicando didaticamente para uma criança – Qual foi a palavra que você mais ouviu nesses últimos meses? – E eu tinha ouvido muitas para saber qual escolher – Remanejar, era isso que estávamos fazendo – Ah, a preferida da Skyla.
Então a Team Plasma tinha passado todo esse tempo remanejando? Considerando que eles tinham o controle quase total de Unova, eles tinham planejado aqueles ataques muito bem. Bem mais eficiente do que das outras vezes.
— Então é isso? Tudo o que vivemos foi uma mentira – e senti lágrimas se formando atrás dos meus olhos. Eu não podia acreditar que todo esse tempo Roxie era uma Team Plasma. Que a garota que eu acreditava era só uma fachada.
— Claro que não. Eu te disse antes, eu nunca menti para você. Eu não menti antes, nem menti agora – e algo faiscou em seus olhos.
— Sobre me matar antes de encontramos os lendários? – Minha boca mal balbuciara tais palavras.
— Exatamente.
— Eu sinto muito, mas isso é uma mentira – ela arqueou as sobrancelhas sem entender. Eu tinha prometido ao Cheren, a Haila e a mim mesmo. Eu não poderia morrer ali. Eu não iria morrer ali.
Marsh saiu da pilha de livros com um salto perfeito, abocanhou o Crobat com um Bite e derrubou no chão. Quando Marsh foi atingido, Roxie simplesmente passou a ignorá-lo, como um alvo abatido e eu percebi que ele se encolhera sob os livros para usá-los como escudo, esperando a abertura perfeita. Agora os dois Pokémon rolavam pelo chão, deixando uma trilha de sangue que eu sabia não vir só do meu Pokémon.
Lancei outra Pokéball e Abóbora apareceu entre os corredores, meu Vibrava que de uma asa só. Roxie o encarou antes de voltar o olhar para mim e buscar uma Pokeball nas vestes.
— Sandstorm – gritei e os olhos de Abóbora brilharam antes de mover a única asa e uma rajada de vento entrar pelas janelas e porta da biblioteca, arrastando partículas de terra e areia, além das páginas dos livros.
Eu não gastara meu tempo em Nimbasa após o ataque no trem apenas lamentando a situação do meus Pokémon. Naqueles poucos dias, eu tinha uma escolha a fazer. Continuar com Abóbora no meu time, e aprendermos juntos como superar a falta da asa ou deixá-lo apenas como companheiro de jornada, sem exigir muito dele. Mas eu sabia o que meu Pokémon escolheria. E mesmo que ele nunca pudesse usar um Fly ou um Steel Wing, ele ainda poderia usar ataques que mantinham suas patas no chão.
Eu não conseguia divisar, em meio a tempestade de areia, Roxie ou os Pokémon, mas aquela era a minha chance de libertar Chiclete. As vinhas que o prendiam estavam mais frouxas e consegui o soltar rapidamente, mas antes de retorná-lo a Pokeball, o Sandstorm se desfez. Amoonguss tinha paralisado Abóbora com um Stun Spore.
— Você é muito previsível – Roxie estava quase em cima de mim. Ela puxou a capa de lado e pude ver uma pistola presa na sua cintura. – Eu sabia que você baixaria sua guarda para salvar o Chiclete. – Apertei Chiclete nos meus braços, Abóbora tentava se mover, sem sucesso. Enquanto isso, Crobat e Marsh ainda se engalfinhavam em algum canto da biblioteca. – Eu sinto muito, Deedee – disse enquanto puxava a arma. E pela primeira vez pude ver tristeza em seus olhos.
Antes que eu pudesse reagir, uma sombra branca cruzou o espaço e derrubou Roxie no chão, a arma voou da mão, se misturando a bagunça de folhas desfeitas no chão. Marsh estava sobre ela e a mordia com tamanha ferocidade que sequer parecia meu Pokémon. Era como se ele soubesse que eu vacilaria, então ele estava fazendo as escolhas difíceis por mim.
Roxie tentava tirá-lo de si sem sucesso. Amoonguss se precipitou em direção a treinadora, tentando ajudá-la. Aquela era a única chance que eu tinha de vencer Roxie. A Pokeball voou e Bacon apareceu no meio da confusão de livros. Ele parecia um pouco desorientado, mas seguiu obediente meu comando. E eu sabia que não era um treinador firme, mas talvez pelas últimas experiências que tínhamos vivido, meus Pokémon pareciam saber o que fazer sem que eu precisasse me alongar muito.
— Bacon, Incinerate!
E se Haila estivesse ali, ela diria que aquela estava entre as ideias mais estúpidas que eu já tivera na vida. Juntamente com atear fogo em um bar ou incendiar uma floresta. Atear fogo a uma biblioteca era como jogar gasolina em um incêndio, mas eu não estava pensando direito.
Amoonguss sumiu em meio as chamas infernais, enquanto os livros se incendiavam rapidamente. Chamei Abóbora e Chiclete de volta. Algumas estantes e livros já tinham virado tochas e agora eu tinha uma outra preocupação além de derrotar Roxie, sair dali antes que virasse churrasco.
Marsh deu um ganido e vi que a garota conseguira o chutar para longe. Roxie estava com uma mordida na bochecha, profunda e só não era possível ver os dentes do Absol perfeitamente marcados ali porque uma camada de sangue cobria o ferimento. Ela levou a mão a Pokéball, mas pareceu titubear.
Se eu bem me lembrava, a carta na manga de Roxie sempre fora Desdemona e se ela lançasse a Koffing no campo de batalha eu não teria chance alguma. Ela parecia avaliar a situação e sabia que jogar a Pokémon gasosa em meio a um incêndio seria suicido.
A líder desistiu da ideia se virou, em busca da arma caída. Eu não tinha tempo para pensar, batalhar ou argumentar, o fogo avançava rápido e o local estava terrivelmente quente e cheio de fumaça. Me abaixei e peguei uma das estatuetas no chão. Não demorou até ela encontrar a arma e se virar, sentada sob uma pilha de papel amassado, apontando na minha direção. Eu estava sobre ela, numa distância que eu não conseguiria desviar.
Ouvi o som do disparo e minha cabeça doeu como se tambores tocassem dentro do meu cérebro. Mas o tiro não tinha me atingido. Aquela distância era impossível da Roxie errar. A arma ainda estava nas mãos, a bala cravada no teto cheio de arabescos. Ela tinha errado de propósito. Nossos olhos se encontraram por um segundo, antes de eu descer o braço e atingi-la com a estatueta na lateral da cabeça.
A arma pendeu na mão e ela caiu no chão, desacordada. O fogo tinha se alastrado e Marsh tentava me puxar pela roupa, tentando me tirar dali. Me levantei e puxei Roxie pelas pernas Amoonguss tinha sumido no fogo e eu não conseguia achar o Crobat em lugar nenhum. Com esforço e a ajuda de Bacon, arrastei o corpo da Roxie para fora da biblioteca, pelo corredor até uma distância onde achei que seria suficientemente seguro.
A mordida no rosto tinha parado de sangrar e o cabelo branco estava cheio de fuligem. Eu não sabia se salvá-la era realmente uma boa ideia, mas eu não poderia deixá-la queimar. Não podia antes, e não podia agora, depois dela ter vacilado e errado o tiro.
Bacon me encarava com aquele olhar caído e eu sabia que ele se sentia culpado por ter perdido o controle e me atacado mais cedo. Passei a mão sobre sua pelagem e tentei dar o melhor sorriso que conseguia. Não era culpa dele afinal. Retornei-o a Pokéball e junto com o Marsh e encarei o caminho que precisava seguir. Eu sentia que estava indo para uma armadilha, mas não tinha mais volta.
As labaredas dançavam pela porta da biblioteca, lambendo o batente de madeira e a fumaça começava a se alastrar pelo corredor. Haila me chamava de incendiário, o apelido fazia bastante sentido.
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