Rota Zero
91 O Último Dia de Castelia - parte 6
Notas iniciais
December
Andei um tempo a esmo pelos corredores, eu podia ver o dia bonito e ensolarado lá fora através das grandes janelas que ladeavam os corredores. Nenhum alarme de incêndio tinha tocado e eu não sabia qual era as condições nas imediações da biblioteca, nem sabia como Roxie estava.
Dobrei um novo corredor e quase cai ao tropeçar no corpo de soldado desacordado. Seja lá o que tivesse acontecido com ele, tinha sido de surpresa, não havia nenhuma evidência de reação. Andei mais um pouco e encontrei outro soldado abatido e outro um pouco mais a frente.
Eu não tinha certeza se aquilo era obra do Cheren, mas seguir a trilha de pessoas desacordadas parecia ser o melhor a fazer, até finalmente cheguei em um corredor onde conseguia ouvir alguns sons na proximidade.
Cheguei a um novo corredor e mais soldados abatidos, desta vez acompanhados de seus Pokémon. Aparentemente, a pessoa tinha perdido seu elemento surpresa, mas continuava avançando. Analisando com mais atenção, aquilo não parecia coisa do Cheren. Se a guerra tinha me ensinado uma coisa sobre ele era que o líder poderia ser sádico e brutal. Ele provavelmente teria usado seu Castform para congelar aquelas pessoas, mas o abate ali era muito mais sutil.
Atravessei o corredor e ele dava para um salão enorme, as portas estavam escancaradas e eu podia ouvir vozes vindas dali. Havia mais alguns Plasmas abatidos ali, mais fortemente armados, acompanhados de Pokemons mais fortes. Havia marcas de queimaduras nos Pokémon e alguns chamuscados nas roupas dos soldados, mas nada letal. Com certeza, não era o Cheren, até onde eu sabia, ele não tinha nenhum Pokémon de fogo ou com esse tipo de habilidade.
Na parede lateral ao salão, parte da parede tinha sido destruída e os escombros se amontoavam ali, formando uma espécie de passagem. Se eu fosse uma pessoa inteligente e prevenida, eu teria me esgueirado por ali, e espiado o que estava acontecendo, antes de enfiar a cara imprudentemente no salão principal, pela porta principal.
Eu me aproximei devagar, tentando espiar pela porta, parecia ser o salão presidencial, mas eu precisaria chegar mais perto para ter certeza. Eu conseguia visualizar algumas formas, mas fosse porque eu estava cansado ou pela distância, tudo parecia pouco mais que um borrão.
Me aproximei mais, mas mal tive tempo de visualizar o local e senti algo contra a nuca, como se fosse uma coronhada. Desabei no chão e antes de conseguir me levantar, alguém pisou sobre as minhas costas e apontou uma arma na minha direção.
Havia uma Plasma que deveria ter a idade da Rose apontando a arma na minha direção, eu queria dizer que a expressão dela era ameaçadora, mas ela só aparecia terrivelmente enfadonha.
— Quem é esse? – Ouvi alguém perguntar e outro soldado entrou no meu campo de visão.
— Sei lá – a garota deu de ombros.
— Não é aquele moleque que o Thiers... – mas as palavras modorrentas do garoto foram morrendo, como se ele não tivesse real interesse em se envolver nisso. Momentaneamente, me lembrei do Thiers e a antena e uma parte minha se sentiu péssimo por não lamentar verdadeiramente a morte do sujeito.
— O que vamos fazer com ele? – a garota questionou.
— Nada, vamos deixar ele aqui até o chefe mandar.
— O Chefe, você diz o Dreidan ou... – e ela lançou um olhar para o outro lado do salão e deu um muxoxo.
Desviando minha atenção da dupla, divisei o ambiente e pude me ver em um salão amplo e familiar. Era o mesmo salão onde o presidente fazia os pronunciamentos que eu via pela televisão. Havia um pequeno palanque no outro extremo do local, na parede do fundo a bandeira do país estava destruída e rasgada. Havia outros mastros de bandeiras ladeando a bandeira nacional, mas eles estavam caídos e vazios.
Ali, sobre o palanque, eu podia ver o presidente sentado no chão, as mãos amarradas atrás do corpo e uma mordaça na boca. Eu nunca tinha prestado muita atenção ao homem antes, mas os traços do seu rosto eram marcantes e lembravam muito os do Grimsley. Ao lado dele havia outras pessoas, na mesma situação, pareciam ser assessores ou outros políticos, eu não tinha muita certeza. Havia apenas um Plasma vigiando o grupo e ele trazia uma expressão bastante tediosa no rosto, como se quisesse estar em qualquer lugar que não fosse ali.
Em frente ao palanque, havia o salão propriamente dito. Onde geralmente jornalistas ficavam durantes os pronunciamentos. As cadeiras ali existentes estavam amontoadas nas paredes laterais, desordenadamente. No centro do salão havia dois homens e dois Pokémon.
De um lado, de frente comigo, estava um homem que eu só tinha visto através da televisão, as roupas pomposas da Team Plasma não combinavam com o rosto enrugado e olhar transtornado. Mesmo eu, que sempre fora muito alienado para os antigos ataques da Team Plasma, sabia que aquele era o Ghetsis.
Ele tinha uma voz alta, mas a idade deveria estar pesando porque a respiração forçada e ruidosa cortava seu discurso. Ele era ladeado por um Pokémon dragão que eu não conhecia. As escamas eram azuladas e ele tinha três cabeças, será que era o lendário? Eu tinha ouvido várias histórias sobre o líder da Team Plasma ainda ter posse de um dos lendários, então era bem possível que fosse aquele.
Do outro lado estava Alder, de costas para mim, e eu podia divisar o cabelo avermelhado todo bagunçado e a roupa parecia mais esfarrapada do que de costume. Admito que fiquei mais surpreso de vê-lo ali do que o próprio Ghetsis. Alder não andava muito colaborativo com a situação de modo geral e ninguém tivera nenhum sinal dele desde que as antenas foram ativadas. Alder era ladeado por um Pokémon grande e desconhecido, parecia um casulo voador gigante com longas asas avermelhadas.
Estranhamente, eles não estavam batalhando, apenas trocando provocações e isso parecia não fazer o menor sentido na situação que nos encontrávamos. Eles estavam tão concentrados um no outro que sequer tinha percebido a pequena movimentação que eu tinha causado ali.
— E você acha mesmo que pode me derrotar? Você? – a voz rouca de Ghetsis provocou e ele riu debochado, mas seu riso foi interrompido por uma tosse seca que se prendeu a garganta.
— Eu derrubei seus homens, fazer o mesmo com você não vai ser um desafio – Alder respondeu confiante. Ah, então ele que tinha deixado a trilha de Plasmas desacordados. Ele tinha a escola e tinha sido o Champion por muitos anos, não era de se surpreender que ele se saísse melhor em batalha do que todos nós.
— Esses moleques – e cuspiu as palavras, encarando a dupla de Plasmas. Os olhos desviaram para mim por um segundo, mas não havia nada neles, era como se ele não soubesse quem eu era ou não me reconhecesse como uma ameaça. – Deidran é muito mole no treinamento de novos soldados. Eu vou dar um jeito nisso quando depois de acabar com você – e bateu a bengala de metal estilizado no chão, enfatizando as palavras.
Eu não sabia bem o que estava acontecendo, mas nenhum deles fazia nenhum movimento de ataque, mesmo com seus parceiros fora das Pokéball. Se aquele Pokémon fosse um lendário, por que Ghetsis estava se segurando?
— Essa é sua última chance, velhote – Alder falou novamente. – Se você se render agora, você pode passar seus últimos dias em uma confortável prisão domiciliar.
— Haha! E por que eu vou me render quando são vocês que estão sendo dizimados? – A risada asmática marcou suas palavras. – Além disso, eu me render, para você, o Champion de caridade.
— Escute aqui, Ghetsis, eu sempre tive meu valor – e Alder pareceu irritado com a provocação.
— Claro, claro, você ainda é a mesma criança iludida, mesmo com esse monte de pelo branco na barba – Ghetsis parecia estar se divertindo em provocar o homem. Eu não sabia nada sobre o Alder, fora o que a Cassie tinha me contado. Que história era aquela de Champion de caridade? – Se você fosse um Champion tão bom aquela filha do Dreydan não teria tomado seu lugar tão facilmente.
— Eu facilitei para ela – Alder pareceu se enrolar. Eles estavam falando da Iris e pelo jeito, Ghetsis parecia considerá-la uma Champion melhor do que o homem diante de si.
— Claro, claro, se você diz. Só me admira que depois dela ter caído, nenhum dos membros da Elite Four aceitou sua liderança, mesmo você tendo sido o Champion por tantos anos. Ah, é mesmo, eles nunca te aceitaram como líder deles.
— Isso é calúnia!
— É mesmo? Onde eles estão agora que não estão aqui te ajudando numa batalha tão decisiva? – E bateu a bengala no chão.
Eu temia pelo pior, tinha certeza que Alder iria explodir e fazer alguma besteira. Atacar sem pensar e perder a única que chance que tivesse de vencer. Eu já o tinha visto discutir com Cheren e outros líderes e ele não era o tipo que gostava de sair por baixo.
— Acho que você pode dizer o mesmo – a voz do antigo Champion saiu firme e segura. – Onde estão seus homens? O grande Ghetsis está aqui, ladeado por meia dúzia de moleques que mal saíram das fraldas, cuidando de um homem tão covarde que não fugiria mesmo se desse a chave de saída para ele – o presidente protestou gemendo sob a mordaça – enquanto toda a ação está lá fora e todos os cidadãos estão vendo Dreidan como líder.
O peso do pé da Plasma nas minhas costas pareceu diminuir e percebi que tanto a dupla quanto o Plasma sobre o palanque ficaram tensos com as palavras do ex-Champion. Desde que a guerra havia começado, eu ouvira muitos Plasmas falarem sobre as ações de Dreidan com respeito e admiração, mas não me lembrava de ninguém enaltecendo o Ghetsis.
Eu sabia que o velho tinha sido líder da Team Plasma por anos, mas agora, ele parecia muito mais uma alegoria enquanto Dreidan puxava as cordas por trás da cortina. Ao menos, era a impressão que eu tivera nesses meses.
— Eu sou o líder! – o velho gritou com a voz asmática.
— E por que ele ficou com posse de todos os lendários enquanto você só tem isso – e apontou com desprezo para o Pokémon de três cabeças. Então aquele não era o lendário?
— Eu tenho um lendário!!! Eu tenho – e bateu a bengala no chão. Era impressão minha, ou ter sido questionado da liderança tinha deixado Ghetsis abalado?
— Vejamos qual você tem – Alder provocou e a voz dele parecia muito divertida para aquela situação toda – Acho que não é aquele que o seu filho libertou, nem aquele que decidiu seguir com o Hilbert – Ghetsis cerrou os dentes – ou talvez aquele que surgiu alguns anos depois? Ah, não, você estava preso e um moleque que o capturou.
— Eu tenho um lendário, aliás, eu tenho todos – e abriu os braços como se fosse uma divindade – eu tenho o Cobalion, o Terrakion, o Virizion e o Keldeo, são todos meus! – Do que ele estava falando? A Team Plasma tinha dois lendários, mas Virizion estava com a Haila e o Keldeo, eu preferia não lembrar daquele dia em Twist Mountain. Eu percebi que não era o único confuso, pois os soldados se entreolhavam sem entender. – E eu vou dominar Unova e logo, o mundo, mas você não vai ver minha ascensão, porque vai estar morto – e riu novamente. Aquela risada estranha e asmática.
Então era esse o plano da Team Plasma, dominar o mundo? Parecia muito simplista e infantil perto de tudo o que eu tinha visto e ouvido, fosse mentira ou não. Mas talvez, aqueles não fossem os planos da Team Plasma, como equipe, apenas os planos pessoais de Ghetsis.
— Eu tenho pena de você, velho, está delirando!
— Delirando está você que acha que pode me vencer – e bateu a bengala no chão. – Agora chega desse papo. Vamos, Hydreigon!
— Se prepare, Volcanora – Alder deu um passo à frente e seu Pokémon o acompanhou. Um círculo de fogo, como se fosse um escudo, rodeou o Pokémon e mesmo que ele fosse só um casulo voador, ele parecia muito mais ameaçador agora.
Eu não sabia o que Ghetsis tinha falado sobre o Alder, sobre os outros líderes não o respeitarem e ele ter virado Champion sem merecer, eram verdade. Eu sequer conhecia as habilidades de combate do homem. Tudo o que eu sabia eram por histórias e pelo fangirlismo da Cassie, e aquelas coisas não eram, exatamente, as melhores fontes de informações.
O Hydreigon deu um passo à frente, as três cabeças produzindo urros diferentes e ameaçadores. Eu não sabia se Alder conseguiria dar conta daquilo, mas eu não sabia o que fazer. Meus Pokémon estavam cansados e eu não queria ter que entrar em outra batalha extrema.
O Hydreigon girou o corpo, atacando com um Dragon Tail, o Volcanora deu um giro e aumentou as chamas do escudo. O Pokémon dragão deu um urro e pude ver a ponta da cauda chamuscada. O Pokémon do Alder parecia bem poderoso, ele mal fizera um movimento e tinha causado um grande dano.
Ghetsis resmungou qualquer coisa ininteligível e atacou novamente. Desta vez, o Volcanora precisou desviar do ataque, movendo o corpo com as grandes asas e o que parecia ser um Dragon Breathe, atingiu o piso, deixando uma grande marca de queimado no piso de linóleo.
Alder ordenou um ataque e o Volcanora abriu as asas e pequenas ondas pareceram sair das vibrações das asas. As cabeças do Hydreigon começaram a gritar aleatoriamente se batendo umas nas outras, como se estivessem sendo torturadas por uma rajada de som. As cabeças batendo umas contra as outas estavam causando um grande dano no Pokémon. Alder aproveitou a brecha e ordenou um Heat Wave.
Não parecia um golpe tão difícil de desviar, mas as cabeças do Hydreigon estavam desorientadas e ele mal percebeu o ataque vindo em sua direção. O Pokémon urrou quando a onda de calor excessivo o atingiu e parte das escamas reluziram como um pedaço de metal enfiado nas brasas. As asas se abriram em desespero e o Pokémon desabou sobre o próprio peso.
Ghetsis bateu a bengala no chão, revoltado, enquanto encarava o Pokémon caído. Eu achei que a luta fosse terminar ali, e provavelmente, Alder também contava com isso. Era visível que seu Volcanora estava exausto e ele flutuava com dificuldade, batendo as asas molemente ao lado do corpo. Ghetsis bateu a bengala no chão novamente e com toda a força e firmeza que conseguiu empregar na voz, ele ordenou que o Hydreigon se levantasse.
O Pokémon ficou um tempo deitado, até finalmente começar a se mexer e com certa dificuldade se colocou em pé. Eu podia ver várias marcas de chamuscados pelo corpo, além de escoriações que as cabeças tinham se auto infligido.
— Hydreigon, faça o que você sabe fazer de melhor – o velho deu um sorriso de canto.
Eu esperava um golpe fantástico, mas não foi isso que presenciei. O Pokémon avançou na direção do Volcanora, que voltou o escudo de fogo em torno de si. As cabeças urraram e cada boca se abriu ameaçadoramente. Só então percebi que cada cabeça planejava um ataque diferente. A do centro parecia formar um novo Dragon Breathe, a da direita parecia vir com um Bite, mas a da esquerda, eu não sabia qual ataque viria dela.
Alder deu um passo para trás e deu uma ordem. O escudo em torno do Volcanora ficou mais intenso e as chamas dançaram mais altas, apesar disso, era possível ver que o Pokémon estava cansado e não aguentaria um ataque intenso.
Eu esperava muito que Alder tivesse uma carta na manga, pois eu não conseguiria ajudá-lo na atual situação. As três cabeças do Hydreigon avançaram sobre o Volcanora e ele sumiu em meio a um mar de explosões arroxeadas.
Quando finalmente o centro da batalha se tornou visível, o Hydreigon tinha marcas de queimaduras na cabeça central, que pareciam bastante severas. A cabeça que tinha usado o Bite, tinha perdido alguns dentes e a outra cabeça estava caída ao lado das outras, desacordada. Era uma coisa bastante pavorosa de se ver.
Volcanora estava no chão, havia um círculo de fogo perfeitamente desenhado no chão, provavelmente seu último desespero em se defender. Uma das asas tinha sido atingida pelo seu próprio ataque e estava severamente queimada.
— Desista, Alder – a voz asmática do Ghetsis se fez ouvir. – Se renda e eu posso te dar uma morte rápida e quase indolor.
— E por que eu desistiria? – Apesar de tentar se manter forte, a voz do Alder não parecia tão firme.
— Seu Volcanora mal consegue voar e se ele está em campo, duvido que você tenha outro Pokémon para batalhar – o sorriso enviesado do líder da Team Plasma aumentou, contorcendo as rugas do rosto. – O seu jeito de lutar é muito previsível. Meu Hydreigon ainda está em pé – embora isso não significasse muito, dado a condição que o Pokémon se encontrava – e eu tenho outros – e puxou a capa discretamente para o lado, exibindo o cinto que ainda tinha Pokéball presos nele.
— Eu vou fazer você se arrepender disso tudo – Alder gritou e todo o controle que ele tinha mantido diante das provocações de Ghetsis tinha se esvaído. – Vamos, Volcanora.
O Pokémon tentou se levantar, mas era visível que ele não conseguiria voar naquelas condições e isso provavelmente condenaria parte dos seus ataques, assim como acontecia com meu Vibrava.
— Hydreigon, pode finalizar – Ghetsis deu uma risada asmática e o pesado Pokémon avançou. Volcanora tentou produzir um novo escudo de chamas, mas as chamas eram tão fracas que eu mal podia vê-las, era visível que ele não aguentaria o ataque. Ele sequer conseguiria voar para fugir, Alder estava sendo mais inconsequente do que eu ao deixar o Pokémon no campo de batalha. Mas vendo como ele espumava enquanto encarava o líder da Team Plasma, ele não estava pensando direito.
De repente, algo passou voando pela porta ao meu lado e foi como um míssil em direção ao salão e acertou o Hydreigon na base da cabeça principal, onde havia uma extensa queimadura. O soco fez a base do pescoço congelar instantaneamente, as cabeças urraram em sincronia antes do Pokémon desabar no chão, desmaiado.
— O que é isso? – A voz asmática de Ghetsis gritou sem entender. Alder estava imóvel encarando o Hydreigon abatido e um Lopunny longilíneo estava no centro do salão. O líder levou a mão enrugada ao cinto, mas antes de alcançar uma nova Pokéball, o Pokémon deu um salto gracioso, como se estivesse em um Contest e o atingiu com um chute no peito. O ar desapareceu dos pulmões e a bengala caiu no chão com um baque metálico.
Não demorou muito para que Ghetsis se juntasse a bengala, mão no peito, respirando com uma dificuldade absurda, os olhos abertos começavam a marejar e por um segundo, me deu pena do sujeito.
Assim como o Lopunny surgiu do nada, os Plasmas de guarda na porta desabaram sobre o próprio peso e caíram desacordados ao meu lado. Espiei dos lados, apenas para ver Cheren sob o arco da porta, acompanhado do seu Castform, só então percebi uma fina camada de gelo que envolvia a dupla de soldados apagados. O Pokémon parecia bem cansado e Cheren estava extremamente surrado.
— Você está bem? – Ele perguntou enquanto oferecia a mão para que eu levantasse, mas seus olhos não estavam em mim, ele mirava Alder no centro do salão e eu podia ver raiva faiscar nos olhos escuros.
— Sim – respondi sem jeito. Eu queria falar sobre a Roxie e o incêndio que eu provocara, mas ele parecia muito preocupado com outras coisas para me dar ouvidos.
— Vá resgatar o presidente – ele ordenou. Abri a boca para protestar sobre o Plasma que fazia a guarda, mas só então reparei que ele tinha jogado a arma no chão e estava de joelhos sobre o palanque, com as mãos acima da cabeça. Se ele tinha alguma determinação, ela se esvaiu ao ver Ghetsis e os companheiros serem derrotados tão facilmente.
Atravessei o salão rapidamente, Alder tinha os olhos em mim e uma expressão desgostosa no rosto. O Volcanora ainda estava no chão, arfando com dificuldade. Subi no palanque e comecei a desamarrar o presidente. As cordas estavam mais apertadas do que eu imaginava e demorei muito mais tempo do que esperava desatando os nós.
Achei que o Plasma tentaria alguma gracinha, devido a minha proximidade, mas ele permanecia imóvel, encarando o líder do outro lado do salão.
— Já não era sem tempo – foram as primeiras palavras que o presidente proferiu, depois de conseguir libertá-lo. Ele me encarava com certo desagrado enquanto analisava as marcas profundas que as cordas tinham deixado em seus pulsos. – Por que demoraram tanto para abater esse velhote? – E encarou Ghetsis com desprezo.
— Desculpe, tentamos vir o mais rápido que pudemos – me desculpei enquanto desamarrava uma assessora.
— Isso não foi o suficiente. Eu, o presidente de Unova, jamais deveria ter sido sujeitado a esse tipo de situação – falou pomposo, o mesmo jeito que Grimsley falava.
Eu não tinha o que responder aquilo. Como ele poderia se sentir humilhado ou fosse o que fosse, quando tudo indicava que ele tinha feito um acordo e praticamente entregado Unova nas mãos da Team Plasma.
— E os outros? – ele perguntou.
— Que outros?
— A força tarefa que veio me resgatar – ele falou enfático.
— Bem... somos só nós – disse sem jeito. Ele me encarou depois voltou o olhar para o salão, onde Cheren e Alder estavam.
— E a polícia e meus seguranças? – o homem bradou. E eu não sabia nada sobre nenhum deles. Ele deu um estalo com a língua em desagrado e se levantou.
— Eu sinto muito pelo Grimsley – me lembrei e ele me encarou como se não soubesse do que eu estava falando. – Eu estava presente no dia... – e minhas palavras esmoreceram, tinha sido uma situação horrível e mesmo que eu tivesse visto várias pessoas morrendo com o decorrer da guerra, a morte do Elite Four tinha sido bastante impactante. – Ele foi muito corajoso, mesmo nos momentos finais – tentei atenuar.
— Coragem você diz, é melhor ser um covarde vivo do que ter um final corajoso, ninguém vai lembrar dele como herói – e aquelas palavras soaram desnecessariamente frias. Ele estava falando do próprio filho e por mais que Grimsley sempre fora egoísta e irritante, ele tinha lutado até o final. – E vamos logo com isso, eu não tenho o dia todo.
— Seria muito mais rápido se você me ajudasse – resmunguei, mas ele já não estava mais prestando atenção em mim e estava ocupado demais intimidando o Plasma que tinha se rendido.
Terminei de desamarrar a assessora e comecei a libertar o próximo. A mulher me agradeceu com um sorriso, depois de se recompor e me ajudou com os outros reféns.
— Ele não é tão ruim quanto parece – ela disse baixo o suficiente para que só eu pudesse ouvir – só não sabe lidar com situações de estresse. E sobre o Grimsley – ele prosseguiu antes de espiar o presidente – tenho certeza que a mãe e a irmã darão o valor ao seu sacrifício. – Eu me lembrava vagamente da Skyla comentando sobre a irmã do Grimsley e eles pareciam ser mais próximos do que o restante da família.
Estava quase terminando de desamarrar o refém quando a voz do Alder atraiu minha atenção. Ele estava no centro do salão com o dedo praticamente enfiado na cara do Cheren, que mantinha os braços cruzados diante do corpo
— Que palhaçada foi essa? – o Champion inquiriu – essa era a minha batalha, você não tinha o direito de interromper.
— Interromper? Você sabe muito bem que estamos aqui para resgatar o presidente e seus assessores, não para ficarmos resolvendo rixas pessoais.
— Abater o Ghetsis é importante!
— Então por que você não abateu logo? – Cheren questionou irritado.
— Essa é uma luta importante e difícil, não pode ser vencida sem uma boa tática.
— E que tática você estava usando? Olhe o seu Pokémon – e Cheren apontou para o Volcanora exausto.
— Eu percorri um longo caminho para chegar até aqui sozinho – Alder bradou. – Eu não precisei de ajuda de crianças para vencer minhas batalhas – e eu vi Alder me encarar por um momento, antes de voltar o olhar para Cheren.
— Não precisou de ajuda mesmo? – o líder mais jovem apenas espiou Ghetsis, que permanecia caído no chão, semiconsciente.
— Eu estava ganhando – Alder bradou.
— De quem? Com certeza não do Ghetsis – Cheren cuspiu as palavras.
— Meu Volcanora poderia vencer aquele Hydreigon facilmente.
— Alder, seu Pokémon está exausto. Você deveria evitar batalhas e não ficar enrolando – Era visível que Alder não tinha gostado nada daquelas palavras, mas não conseguiu pensar em nada para retrucar.
Enquanto Cheren e Alder discutiam, terminei de libertar os reféns. O presidente já tinha se apossado da arma do Plasma que tinha se rendido e apagado ele com uma coronhada no rosto. Descemos do palanque e nos juntamos aos líderes.
— O que vamos fazer com ele? – O presidente questionou, apontando a arma para Ghetsis.
— Alder e eu vamos cuidar disso – Cheren disse o mais pomposo que pode, mas era visível o cansaço em suas palavras. – O senhor e a sua equipe deveriam se preocupar em sair logo do prédio, há um incêndio na ala leste.
— Eu não vou deixar este homem impune, nem aquele maldito Dreidan. Eles me humilharam...
— Senhor, eu entendo os seus sentimentos, mas sua segurança é o mais importante no momento – o rapaz sorriu polidamente.
— Ele tem razão, senhor presidente – a assessora simpática amenizou. – Todo os esforços terão sido inúteis se o senhor ficar preso aqui no incêndio – os outros assessores confirmaram as palavras da mulher, e o presidente pareceu convencido.
— Certo, só tenha certeza de que esse homem terá as punições que merece – e se virou, em direção a porta, seguido pelos assessores.
— Deedee, vá com eles e faça a escolta – Cheren me pediu.
— Mas...
— Não sabemos se ainda há algum soldado pelos corredores, você é o único em condições de batalhar, se necessário – isso não era totalmente verdade, mas Cheren não sabia da minha batalha contra a Roxie e pelo jeito, eu não conseguiria contar sobre isso tão cedo. – Leve meu Lopunny, ele vai te ajudar – O Pokémon agitou as longas orelhas.
— O que vai acontecer com o Ghetsis? – Espiei o velho caído, ele tentava se arrastar e alcançar a bengala.
— Eu não vou sair daqui até resolver meus problemas com o Ghetsis – Alder resmungou furiosos.
— Alder, não tem mais nada para ser resolvido nessas circunstâncias – Cheren revirou os olhos. – Apenas vá, nos encontramos lá fora – e ele deu o melhor sorriso que conseguiu e que não era muita coisa.
O grupo presidencial já tinha saído do salão e avançava pelos corredores. Corri até alcançá-los, acompanhado do Pokémon do Cheren. O presidente ia resmungando sobre as humilhações que tinha passado e seus assessores cochichavam cada vez que esbarrávamos em algum soldado caído pelos corredores. Dobramos um corredor, e dali dava para ver as janelas da ala leste, e o local estava cheio de fumaça e algumas labaredas eram visíveis. Meu primeiro pensamento foi na Roxie, se ela não acordasse a tempo, seria asfixiada pela fumaça e consumida pelas chamas. Por mais que ela estivesse do lado da Team Plasma agora, eu não queria que ela morresse.
— Ei, rapaz, onde você está indo? – A assessora me segurou pelo braço, vendo que eu estava tomando outro caminho quando chegamos a uma bifurcação. – Esse caminho vai para ala leste, está cheio de fumaça lá.
— Sim, mas eu... – eu não podia deixar Roxie para trás. Eu tinha que ir até lá e ter certeza de que ela estava bem. – Minha amiga, ela... – gaguejei sem saber exatamente o que dizer. Eu tinha prometido ao Cheren escoltar o presidente até a saída, eu não podia deixá-los, mas também não poderia deixar Roxie e muito menos poderia induzir o grupo a ir pela ala leste.
Eu estava me digladiando com meus pensamentos, quando de repente, algo fez as paredes vibrarem e o chão dançar sob nossos pés. Parecia um terremoto, mas veio seguido de um som alto, aquilo parecia uma explosão.
Uma cortina de fumaça veio do mesmo corredor por onde tínhamos vindo e as janelas se estilhaçaram com o impacto. Todos se jogaram no chão, esperando os tremores diminuírem, mas quando finalmente as paredes pararam de vibrar, as vigas do teto começaram a ceder.
— Corram – ouvi alguém gritar e o grupo começou a correr desordenadamente em meio a fumaça e os escombros que começavam a desmoronar.
O corredor por onde tínhamos vindo tinha sido totalmente soterrado por pedaços de concreto e vigas. Cheren e Alder ainda estavam lá. Algo tinha acontecido com eles, e eu não tinha uma boa sensação sobre isso. Uma segunda explosão aconteceu, mais forte e intensa. Senti como se o chão sumisse sob meus pés e tudo ficou escuro.
=8=
Eu sentia a garganta cheia de areia e eu mal conseguia respirar. Meu corpo estava todo dolorido, como se eu tivesse sido atingido por uma manada de Tauros descontrolados. Eu conseguia ouvir vozes, mas elas pareciam fantasmagóricas e distantes. Tentei me mexer, mas percebi que não conseguia, fosse por não ter forças ou porque algo prendia meu corpo.
Abri os olhos lentamente e demorei a me orientar, tudo estava escuro, apenas alguns fachos de sol eram visíveis e uma grossa camada de pó dançava em torno deles, minha visão estava manchada e turva. As vozes, agora pareciam mais altas, mesmo que ainda fantasmagóricas.
De repente, senti um tremor e comecei a ficar em pânico, aqueles tremores novamente? O tremor foi mais fraco desta vez e quando finalmente acabou, a escuridão se foi com ela. Através da minha visão embaçada, eu podia ver uma silhueta grande e musculosa, que segurava um pedaço de concreto como se fosse papel. Ao lado da figura, havia duas figuras menores, mais humanas e uma delas falava sem parar com uma voz irritante e estridente.
A tal figura falante veio em minha direção, ela ainda falava e falava e aos poucos, seu rosto parecia entrar em foco e sua voz se tornar mais familiar para mim, Kara.
— Você está bem? – Foi a primeira coisa que consegui entender nitidamente. Tentei responder, mas minha garganta estava seca e comecei a tossir descontroladamente. A outra figura se aproximou e sacou uma Pokéball, de dentro saiu um Squirtle bem pequeno. A mulher, que agora eu conseguia ver ser a assistente do prefeito, se ajoelhou ao meu lado e fez uma concha com as mãos, o Pokémon então derramou água ali e Kara me puxou, fazendo-me sentar e beber um pouco, limpando o pó da garganta.
— Você está bem? – a mulher perguntou gentilmente. Eu apenas acenei com a cabeça.
Olhei em volta e a mansão presidencial tinha desaparecido por completo e a única coisa que sobrara intacta fora a fonte delicada que guardava a entrada. O incêndio tinha desaparecido junto com o resto da casa, mas eu podia ver, mais a frente, um ponto, onde uma fumaça branca e densa subia espiralando por entre os pedaços de concreto.
— O que aconteceu? – Perguntei tentando me situar. Mas as duas se entreolharam e não disseram nada. – E quanto ao Cheren? Os outros?
— Só encontramos você – Kara disse lacônica.
— Precisamos encontrá-los – eu tentei me pôr em pé, mas minhas pernas pareciam não me obedecer. A mordida da Peach voltara a sangrar, torrencialmente, assim como o corte no meu supercilio, manchando minha visão de vermelho e grudando na areia do meu rosto, formando uma massa pegajosa.
— Você precisa descansar, ainda está muito fraco – a assessora disse.
— Eu quero ajudar vocês – disse, mesmo consciente que eu não teria forças para isso.
— Você vai ajudar muito mais se ficar quieto e não no meu caminho – Kara respondeu com seu áspero de sempre.
Eu podia ver que Kara tinha todos os seus Pokémon fora da Pokéball, e que eles reviraram os entulhos cuidadosamente, a procura de sobreviventes. Até mesmo a Nidoqueen fazia parte da equipe de resgate, e embora todos parecem muito cansados, estavam fazendo o seu melhor.
— O que aconteceu com a Fome? – Espiei a Pokémon roxa que tinha sido tão problemática nas batalhas que eu enfrentara.
— Não sei, só me importei em salvar o que era relevante – Kara deu de ombros. – Aquela mulher não tinha mais utilidade alguma para nós... – E mesmo que eu quisesse argumentar que Fome era uma pessoa e por pior que fosse deveria ter uma segunda chance, eu não tinha forças para isso.
— Kara, encontramos alguém – a assessora gritou, alguns metros a frente, acenando ao lado do Graveler.
A garota se levantou, mas institivamente a segurei pelo braço. Eu queria ajudar, ser útil, mas eu não me encontrava em condições para isso. No final, eu só iria atrapalhar se tentasse algo.
— Leve o Bacon – enfiei a mão no bolso e peguei sua Pokéball – ele é um bom farejador. – Eu sabia que ele estava cansado da batalha contra a Roxie, mas eu queria ser útil e sabia que podia confiar nele.
— Certo – ela envolveu a bola na mão. – E você, descanse.
Pude ver Kara se afastar e ordenar alguns comandos para o Graveler. O Pokémon removeu o entulho cuidadosamente e alguns minutos depois, a assessora pulou no buraco, junto do pequeno Squirtle. Eu podia ouvir sua voz dançar pelo ar, mesmo que não conseguisse entender as palavras.
Analisando os escombros, tudo aquilo parecia aquelas cenas de filmes, depois que uma bomba explode, arrasando tudo e pensando agora nos sons que ouvira e na destruição que isso resultou, poderia muito bem ser uma bomba. Era estrago demais para um Explosion ou Self-Destruction.
Com esforço, me levantei e caminhei um pouco sobre o terreno. A assessora prestava os primeiros socorros em um rapaz, eu me lembrava vagamente do seu rosto enquanto desamarrava os assessores do presidente. Ele parecia mais assustado do que ferido. Mais adiante, Kara tinha liberado Bacon e juntos dos Pokémon, ainda remexia nos escombros.
Andei aleatoriamente, tentando refazer o caminho para o salão presidencial, talvez eu pudesse encontrar com o Cheren ou o Alder, ou ao menos ter uma ideia do que havia acontecido. Eu só percebi que tinha me afastado o suficiente quando o som das vozes sumiu e eu mal conseguia divisar o Conkeldurr entrecortado pelo sol.
Avancei mais um pouco e quase tropecei no entulho, Roxie estava ali, poucos metros a minha frente. Ela estava bem surrada e a respiração era ruidosa, a mão sobre a barriga. Boa parte da roupa dela estava manchada de sangue escuro. Sua atenção estava toda voltada para algo aos seus pés. Instintivamente levei a mão a Pokéball, mas antes que eu pudesse escolher, a voz dela invadiu o ar, fraca e gorgolejada.
— Eu não vou lutar com você, Deedee – e mesmo que ela ainda mantivesse sua atenção no chão, ela sabia que eu estava ali e o que eu planejava. – Essa luta acabou.
— Então você admite que a Team Plasma foi derrotada? – Minha voz saiu fraca.
— Não seja tão ingênuo – não havia emoção no seu rosto – mas acabou para o Ghetsis.
Curvei as sobrancelhas e ela chutou o que havia aos seus pés. Rolando no terreno irregular, a cabeça de Ghetsis parou quase aos meus pés. Mal dava para identifica-lo, o cabelo estava todo queimado e parte da pele do rosto tinha derretido. Dei um passo para trás, instintivamente, tropecei e cai sobre os escombros.
— O que aconteceu?
— Se você gostar de quebra-cabeças pode ir juntando as outras partes – e olhou em volta.
— Ele, ele... – eu não conseguia formular um pensamento coerente.
— Deve ter sido uma bomba, mas Ghetsis não faria esse tipo de sacrifício – ela balançou a cabeça. – Explosões são muito mais a cara do Dreidan – eu não estava entendendo nada. – Pelo resultado, parece uma bomba de plasma. Isso explica por que Dreidan deu uma nova bengala para o Ghetsis, não era só um presente, era uma contenção, ele sabia que o velho se tornaria um problema... Agora, como isso foi ativado? – E claramente Roxie falava consigo mesma.
Se tinha mesmo sido uma bomba e Ghetsis tinha terminado daquela forma, o que tinha acontecido com Cheren e Alder que estavam no mesmo lugar? Senti meu estômago embrulhar e um calafrio correr pelo meu corpo.
— Eu imaginei que isso aconteceria – ela finalizou sem muita cerimonia, desafivelou o broche da Team Plasma que carregava e o deixou cair em meio aos escombros. Então começou a se afastar.
— Onde você vai?
— Embora, ou você tem outros planos?
— Você não pode simplesmente ir embora, você...
— Você vai me prender e me manter aqui até que a polícia chegue? – Ela me cortou. As palavras não eram agressivas, apenas soavam cansadas.
— Você deveria se entregar, seria o correto – eu respondi e aquilo soou tão infantil.
— Como eu te disse antes, as coisas não são só certo e errado, achei que você teria aprendido depois de tudo... – e Roxie tinha razão. Eu tinha deliberadamente deixado Fome para morrer, eu tinha atirado em pessoas e não me sentia nenhum pouco arrependido pela morte do Thiers, eles eram pessoas e eu deveria preservar a vida deles, mas por outro lado, sem eles pelo caminho, nós tínhamos conseguido avançar com mais facilidade. – Você lutou muito bem hoje, você me venceu – ela me tirou dos meus pensamentos conflitantes.
— Você hesitou...
— Um empate então.
— E o que você vai fazer agora? – Questionei sinceramente.
— Acho que não somos mais amigos, Deedee, eu não te devo satisfações – e havia um meio sorriso em seu rosto, seus dentes e lábios estavam manchados de sangue.
Roxie me deu as costas e começou a se afastar. Havia um vergalhão de construção atravessando as costas, na mesma altura onde ela matinha a mão na barriga. Havia sangue esguichando dali como um chafariz e gotejando no chão. Os passos dela eram incertos e ela parecia fazer um esforço enorme para dar cada um deles. E eu sabia que ela estava morrendo e que não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.
Vê-la partir me deu uma sensação estranha no estomago. Ela quase tinha me matado, pelo menos duas vezes, e tinha traído toda a confiança que eu tinha depositado nela, mas ela também tinha me ensinado muitas coisas nos meses que passamos juntos e eu não conseguia odiá-la por completo. Mesmo que eu nunca soubesse suas reais motivações, mesmo que nunca mais nos víssemos, ainda era a Roxie, e eu sempre a amaria de alguma forma.
Eu fiquei sentado ali até finalmente a silhueta da Roxie sumir do meu campo de visão. Tentei me levantar, mas minhas pernas pareciam feitas de chumbo.
— O que você está fazendo aqui? Eu não disse para você descansar? – Kara apareceu do meu lado com uma expressão que misturava preocupação e desinteresse.
— Eu... – dei um suspiro exagerado, mas não respondi.
A menina me encarou por um tempo, então se sentou ao meu lado, esticando as pernas preguiçosamente, ela parecia exausta.
— O que é isso? – Ela espiou para o objeto disforme no chão, diante de nós.
— O Ghetsis.
— O que sobrou dele, você quis dizer – ela fez uma careta. – Encontramos o presidente.
— Mesmo? Como ele está?
— Hm... se você juntar com isso – e ela cutucou a cabeça do Ghetsis com a ponta do sapato. – Dá quase para formar uma pessoa inteira.
— Como é? – Meus olhos se arregalaram.
— Ele foi decapitado por uma viga do teto – ela disse sem pesar algum. Era um destino irônico, Grimsley tinha morrido da mesma forma. – Uma pena que o Lopunny não teve sorte, seria mais um para a minha coleção.
— O Pokémon está morto? – E Kara confirmou com um aceno. – Ele era do Cheren – respondi sombriamente.
— Oh.
— Encontraram mais alguém? Cheren, Alder?
— Alder está aqui? – Ela perguntou incrédula. – Não, ninguém.
Ficamos sentados um ao lado do outro, encarando a cidade que se estendia por nós. De repente, ouvimos uma explosão ao longe e uma das antenas, a que ficava mais próximo a boate do Burgh, começou a pegar fogo. Dava para ver uma fumaça preta e densa e labaredas alaranjadas lamberem a estrutura.
— Acha que é a loira aguada? – Kara perguntou encarando a antena que queimava no horizonte.
— É possível – e a missão deles não era aquela, mas não significava que eles não poderiam ter feito. Poderia ser o grupo da Bianca, até onde sabíamos, eles eram os mais próximos daquela localidade, mas fosse lá quem fosse, certamente estava do nosso lado.
— Quem diria que no final, nós estaríamos ganhando...
— E quem disse que isso é vencer?
— E por que não seria?
— O presidente está morto e todas as baixas que tivemos...
— Não seja dramático. Ghetsis está morto, assim como Fome e boa parte do contingente da Team Plasma foi abatido, nós estamos vivos e eu tenho uma Nidoqueen – ela sorriu satisfeita. Kara tinha uma visão muito prática das coisas.
— Mas o presidente...
— Ele provavelmente seria destituído do cargo por ter deixado esse circo acontecer. Pelo menos agora alguém pode inventar uma história qualquer para que ele morra com alguma glória – de certa forma, ela tinha razão. No final, ele poderia ficar marcado para a história com uma atitude muito mais honrosa do que ter se omitido e se acovardado.
— Kara! – A assessora apareceu, correndo pelos escombros. – Encontramos mais um.
A menina se levantou e espanou as roupas, deu uma fitada na cabeça do Ghetsis antes de começar a andar.
— Você não vem? – Ela me encarou. – Se você quer ser útil, me ajude com os sobreviventes. Nós temos que dar um jeito até alguma ajuda chegar.
— Ser altruísta não combina com você – deixei escapar e meio que me arrependi daquelas palavras, finalmente Kara estava fazendo algo bom e parecia que eu a estava repreendendo.
— Eu disse que quando tudo isso acabasse, nós seriamos pessoas diferentes – ela estendeu o braço me puxando do chão e começou a andar.
Encarei a cidade diante de nós, a antena destruída, o fogo, as sirenes. Dali eu só poderia imaginar onde Haila estaria, rezar para que ela estivesse bem e que eles conseguissem resolver sua parte da missão.
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