Rota Zero
80 Nomes com P
Notas iniciais
Cassandra
NOMES COM P
Eu corri o mais rápido que minhas pernas podiam e ainda ouvia os gritos da minha mãe ecoando nos meus ouvidos, me implorando para não sair porta a fora. Mas eu não podia ficar sentada em casa, esperando as coisas se resolverem sozinhas.
Dei a volta por um conjunto de casas e cheguei na rua ao lado, dali eu podia visualizar a fachada do centro acadêmico. Acelerei ainda mais e peguei um pequeno atalho, em menos de um minuto eu estava diante a escola. Apesar de saber que a Team Plasma estava invadindo nossa cidade, eu não tinha visto nenhum no caminho de casa até a escola.
A fachada estava toda destruída, a placa com o nome do centro acadêmico fora arrancada e todas as janelas do prédio principal estavam destruídas, com cacos de vidros espalhados por todo chão. Havia furos nas paredes, que eu não sabia o que era, e o local parecia deserto. Libertei Pallaluna, e a minha Pidove tinha evoluído recentemente para uma formosa Tranquill. Fiz um sinal e ela alçou voo sobre o prédio principal, não demorou muito para ela voltar grasnando e me indicando um caminho.
Eu podia ouvir o tumulto que tomava o resto da cidade naquele início de anoitecer, mas eu não podia fazer muita coisa. Mas tinha certeza que os professores do Centro Acadêmico saberiam quais decisões tomarem.
Dei a volta na estufa, que estava completamente destruída, era quase como se um trator tivesse passado por ali. Eu parei ao me deparar com aquilo, me perguntava se os Pokémon de planta que viviam ali tinha sido resgatados ou fugido, mas eu não tinha tempo a perder, Pallaluna continuava voando a minha frente.
Corri atrás dela e passei por trás do ginásio coberto, que estava silencioso e apagado, então cheguei ao alambrado que dava para a quadra descoberta, os holofotes estavam acesos e havia quinze pessoas ajoelhadas no centro da quadra e um grupo de homens de uniforme pretos, segurando armas, os circundando.
Eu podia identificar alguns professores ali, inclusive Kalinka, professora especialista em Pokémon Noturno, a dona da minha cafeteria preferida e algumas outras pessoas que eu conhecia de vista. Pela distância, eu não conseguia ouvir o que eles falavam, mas a única mulher entre os Plasma, que parecia ser a líder, esbravejava e gesticulava exageradamente.
Ela fez um sinal e os soldados revistaram as pessoas ali, arrancando suas Pokéball. No processo um homem se recusou a entregar e o Plasma que o revistava virou o fuzil nos braços e deu uma coronhada em seu rosto, quebrando o nariz, o homem se encolheu, levando a cabeça ao chão. Kalinka, se levantou, ralhando com o Plasma, Pokéball em mãos, mas mal teve tempo de libertar seu parceiro, o soldado mirou o fuzil na direção dela e a alvejou. As pessoas no círculo gritaram e cobriram as cabeças com os braços, debilmente. O corpo dela convulsionou antes de cair com um baque seco no chão e a Pokéball rolar da mão sem vida.
Dei um passo para trás e senti um grito de horror se formar na garganta, mas não ganhar som. De repente, Pallaluna sobrevoou a quadra, atingindo o Plasma com uma torrente de bicadas furiosas.
Embora eu não tivesse muitas aulas com a professora Kalinka, ela era uma das minhas preferidas. Não só porque era uma mulher inteligente, mas também porque ela sempre tinha uma palavra de incentivo ou conforto para quando eu me sentia para baixo. Nas aulas daquela manhã, quando rumores de que a escola poderia ser fechada caso as ações da Team Plasma prosseguissem percorreram a sala, a docente acalmou a turma e disse que tudo não passava de um mal-entendido. Nós éramos alunos do Alder, um dos maiores heróis de Unova e símbolo de resistência contra a Team Plasma, nós não éramos pessoas comuns que se intimidariam com tão pouco, nós tínhamos garra e fé, e a escola permaneceria ativa independente do que acontecesse.
E Pallaluna sabia o quanto a professora significava para mim, e lá estava ela, defendendo meus interesses, sem eu sequer ter pedido. Ela continuou a rajada de ataques, ferindo o braço do soldado e se afastou em um voo quando ele tentou atingi-la com o cano do fuzil.
Ela deu um giro no céu e mergulhou em direção ao solo, mas na metade do caminho abriu as asas, lançando uma coluna de vento sobre os Plasma e derrubando a maioria no chão. Alguns reféns aproveitaram a confusão e começaram a correr, mas outros queriam recuperar suas Pokéball e pularam sobre os Plasma, tentando recuperá-las.
Em segundos aquilo tinha virado uma bagunça, Pallaluna fazia manobras no céu, desviando dos disparos aleatórios e lançando novas rajadas de vento. Ela fez um novo voo e desceu graciosamente sobre o Team Plasma que atirou na professora Kalinka e seria o golpe perfeito, se o maldito não tivesse pulado para o lado. Pallaluna, ergueu as asas, pronta para alçar um novo voo, mas um Scyther enorme apareceu atrás dela e desferiu um golpe certeiro.
Era para ser só um golpe, que deveria machucá-la, mas não foi isso que eu presenciei. Ela caiu no chão dividida perfeitamente ao meio. Cada asa de um lado, um amontado de tripas e sangue interligava as duas partes. A lâmina do Scyther reluzia brilhante, mais polida do que uma espada. Aquilo não era possível, não poderia ser. Não a minha Pallaluna, não!
Senti meus pés se moverem, me lançando na direção da quadra, mas eu mal tinha dado dois passados quando senti um par de mãos me puxar para atrás do alambrado em uma área segura. Mal tive tempo de processar o que estava acontecendo quando ouvi novos tiros, intensos e ininterruptos. Eles retumbavam no ambiente aberto e quando finalmente os disparos silenciaram, não havia mais nada para ser ouvido.
Só então percebi que era Nissya quem me segurava, ladeada por duas garotas do seu grupinho intragável. O rosto dela estava arranhado e as outras garotas traziam algumas escoriações leves, mas todas pareciam bem.
— Se você fosse até lá, seria metralhada junto com eles – Nissya me repreendeu.
— E o que você tem a ver com isso? – Empurrei a garota. A visão da Pallaluna sendo atacada se repetia na minha mente infinitamente.
— Nada, e por isso devo deixar você se matar? – Ela deu de ombros.
— Eu não ia... – mas as palavras não se formavam e eu sentia meu corpo todo tremer, primeiro a professora Kalinka e agora Pallaluna.
— O que vamos fazer agora, Nissya? – Uma das garotas perguntou.
— Nada, vamos voltar para casa. Deixe os adultos resolverem.
— Nós temos que ajudar, não podemos ficar paradas – esbravejei, eu não sabia o que fazer, mas não poderíamos deixar aquelas pessoas como reféns.
— Ajudar quem? – E Nissya me puxou para fora do alambrado, apenas o suficiente para que eu visse a cena da quadra.
Todas as pessoas estavam caídas no chão, envoltas em poças de sangue. Um ou outro Pokémon também dividia o mesmo destino. Não havia vozes de lamento ou movimento algum, exceto o sangue escorrendo das suas carnes.
Um ou outro soldado cutucava os corpos com a ponta do fuzil apenas para se certificar que estavam todos mortos. A líder passava rádio com alguém e depois de um tempo, fez sinal para eles se retirarem. O grupo entrou em formação, e saiu pelo portão norte, oposto ao que eu tinha usado para chegar a escola.
— É melhor irmos também – ouvi uma das garotas comentar, a voz era nervosa.
— Não vai ser fácil voltar para casa – a outra garota retorquiu igualmente chorosa. Mas eu não estava mais ouvindo, deixei meus pés me guiarem para o centro da quadra, pisoteando no sangue fresco como se fosse só uma poça de água.
Eu sentia muita dor, raiva, triste e ódio e ao mesmo tempo, parecia não sentir mais nada. Depois de andar um pouco, achei uma das partes de Pallaluna e me abaixei, acariciando as penas ensanguentadas.
Pallaluna tinha sido minha segunda Pokémon, depois de Prima e eu gostava muito dela. Ela era organizada, silenciosa e leal. Ela parecia me entender perfeitamente e ser uma amiga melhor do que qualquer humano que eu já conhecera.
— Cassie, precisamos ir – Nissya estava em pé ao meu lado, ela tinha aquele olhar arrogante de sempre.
— Por que veio até a escola afinal? – rosnei.
— Não te interessa – rebateu indiferente. As amigas dela, ainda no alambrado pareciam se esforçarem para controlarem a ânsia de vômito e o pavor, mas Nissya estava ali em pé, no meio do sangue como se fosse muito superior aquilo tudo.
— Escuta aqui sua metidinha, se você não tivesse aparecido, eu poderia ter salvo essas pessoas – gritei.
— Como salvou seu Pokémon?
Senti o ódio correr nas veias e pulei sobre ela, derrubando-a no chão, as mãos ensanguentadas envolveram o pescoço magro e o cabelo preto e volumoso foi tingido de carmesim.
— Sua vaca, nunca mais fale da Pallaluna de novo, ou eu... – mas senti que minhas mãos não a apertavam com a força devida e a menina sumia do meu campo de visão e lentamente, tudo pareceu girar, o ar pareceu faltar dos pulmões e meu corpo pareceu pesar uma tonelada e sem ter nenhum controle sobre meus músculos, meu corpo desabou no chão, ao lado de Nissya e seu olhar curioso sobre mim foi a última coisa que eu vi.
=8=
Eu acordei cedo naquela manhã, tão cedo como qualquer outro dia. Eu sentia minha cabeça latejar um pouco e parecia que não tinha dormido nada, mas eu não me lembrava muito bem do que tinha acontecido no dia anterior. As tropas da Team Plasma tinham chegado até a cidade, mas eu não me lembrava do que acontecera depois.
Me levantei, me vesti e arrumei o cabelo, havia apenas duas Pokéball em cima da mesinha, mas imaginei que minha mãe poderia estar com Pallaluna. A mulher não era exatamente fã dos monstrinhos, mas ela gostava de Pallaluna porque ela piava alegre, quase como um cântico enquanto minha mãe fazia o café da manhã. Como era de se esperar, minha mãe estava na cozinha, a televisão em cima da geladeira estava ligada no noticiário matinal, as notícias eram um tanto enfadonhas, falando sobre o tempo ou qualquer outra frivolidade. Aparentemente, eles não tinham dito nada sobre o ataque da Team Plasma.
Havia um prato com uma panqueca apetitosa diante de mim, mas eu não sentia a mínima vontade de comer, não sentia nada na verdade. Em qualquer outro dia, eu estranharia nossa casa tão silenciosa pela manhã, sem Prisma e Pikarina correndo por ali destruindo as coisas, mas agora, aquele silêncio fúnebre parecia combinar perfeitamente com o clima, mesmo que eu não soubesse por que.
Aos poucos, minhas memórias do dia anterior foram ficando mais claras em minha mente. A sala de aula na escola do Alder parecia um pouco mais vazia do que de costume e eu ouvira que os pais do Peter tinham se mudado de Unova por conta dos acontecimentos de Opelucid. Ele não era o único, vários alunos da minha turma e de outras, tinham se mudado para outras regiões depois que a cidade tinha sido lavada do mapa.
Quando sai da escola, por volta da hora do almoço, percebi uma movimentação de Rangers na cidade, era um grupo bastante pequeno, mas apesar da presença deles me deixarem um pouco ansiosa, deveria ser só uma vistoria de rotina.
Então, quando finalmente o sol se pôs, tudo pareceu virar de cabeça para baixo. De repente, havia tropas de uniformes pretos marchando nas ruas. Eu não sabia se os Rangers que eu vira mais cedo ainda estavam na cidade e não sabia se eles conseguiriam conter a invasão, mas sabia que os professores do centro acadêmico conseguiram. Cada professor tinha sido selecionado pessoalmente pelo Alder, o que significava que eram excelentes treinadores.
Eles eram nossa salvação, eu sabia, e precisava ajuda-los, honrar o nome de Alder e todo o aprendizado que recebera deles. Peguei meus parceiros e corri em direção a escola, apesar dos protestos da minha mãe. E eu tinha chegado a escola e... eu não conseguia me lembrar do que aconteceu em seguida.
— Como se sente? – Minha mãe me tirou do meu devaneio, colocando um copo de leite quente sobre a bancada.
— Bem – respondi sem entender, ela nunca questionava aquele tipo de coisa. Ela me encarou desconfiada, como se eu estivesse mentindo. Mas voltou sua atenção para a panela que ainda estava no fogo.
Tomei o leite e fiquei brincando com a panqueca, sem come-la. Na televisão, falava algo sobre a bolsa de valores, que me era bem desinteressante. Olhei no relógio de parede e vi que já estava quase no meu horário de aula. Desci da banqueta, peguei minha mochila caída na saída da cozinha.
— Tchau, mãe, eu já vou para aula– avisei. – Você pode me devolver a Pallaluna? – Ela não estava no seu poleiro costumeiro na cozinha, mas poderia estar no jardim.
Minha mãe me encarou com uma expressão chorosa e limpou as mãos no avental, demoradamente, como se aquilo desse coragem a ela.
— Querida, você não tem aula...
— Que besteira, mãe, claro que eu tenho – ajeitei a mochila nos ombros.
— Cassie, a escola está fechada.
— Do que você está falando? – E se era uma brincadeira, era bem sem graça. – A professora Kalinka disse que a escola não seria fechada – e antes que percebesse, meus olhos se encheram de água, mas eu não sabia por que.
— Querida – e minha mãe se aproximou, colocando a mão sobre o meu ombro. – Você não se lembra do que aconteceu ontem?
— A Team Plasma invadiu a cidade – ela concordou com um aceno – E eu fui até a escola – outro aceno. – E os professores e o Alder rechaçaram os vilões – arrisquei incerta, porque eu não me lembrava – minha mãe não me respondeu, apenas mordeu os lábios.
Eu não lembrava o que acontecera quando cheguei a escola, eu sabia que Alder não estava na cidade, ele quase não ficava em Flocessy desde os ataques a Nimbasa. Mas mesmo que ele não estivesse na cidade, provavelmente algum dos professores o tinham informado quando a cidade foi invadida. Certamente, assim que ele chegou, junto com seus professores, conteve a invasão, não era?
— Alder não veio? – Arrisquei.
— Não – minha mãe respondeu lacônica.
— E só os professores não conseguiram derrotar a Team Plasma – pela cara de velório da minha mãe, só poderia ser algo assim.
— Infelizmente, não.
— Mas aposto que o Alder está vindo nos salvar – disse firme. – Só precisamos aguentar mais um pouco. Tenho certeza que ele virá, e com os líderes com ele.
— Cassie, querida – e minha mãe se abaixou, até ficar na altura do meu rosto – O ataque não aconteceu só na nossa cidade – ela aumentou o aperto no meu ombro. – Nacrene, Lacunosa...
Os olhos da minha mãe se encheram de lágrimas e aquilo me deixou angustiada. Ela citava cidades que não tinham ginásios e que tinham caído como castelos de cartas. De certa forma, Flocessy não tinha ginásio, mas tínhamos o Alder e eu considerava que aquilo fosse um trunfo.
— Eu vou até a escola – disse confiante – mesmo se estiver fechada, os professores devem estar lá, podemos nos reunir e...
— Cassie, não sobrou ninguém.
— Como assim? – Arqueei uma sobrancelha.
— A Team Plasma – agora as lágrimas escorriam pelo rosto dela e mesmo que minha mãe fosse uma mulher muito sentimental, eu nunca tinha visto ela chorar daquela maneira – eles ordenaram que qualquer um que se opusesse a invasão deveria ser...
— Eliminado? – Completei a palavra que ela se recusava a dizer e ela apenas confirmou.
— Mas deve ter alguém – apertei a alça da mochila e um flash de memória me invadiu, eu podia ver vários professores na quadra descoberta no centro acadêmico. – Eu vou encontrar alguém para nos ajudar – disse firme – nem que eu mesma tenha que ligar para o Alder – e eu não tinha o telefone do homem, mas eu poderia arranjar, de alguma maneira.
— Cassie, você não deveria se esforçar tanto por Flocessy.
— Mas é a nossa casa.
— Eu liguei para o seu pai mais cedo e nós decidimos nos mudar para Jotho.
— O quê? – Franzi o cenho.
— Sim, por mim, já teríamos partido antes disso tudo, mas seu pai... – e ela bufou.
— E a minha escola? – Esbravejei.
— Tem escolas em Johto também.
— Não como a minha – esbravejei.
— Nós nem sabemos se sua escola irá reabrir – ela protestou.
— Eu tenho certeza que sim, Alder vai! – bati o pé.
— Não seja infantil, Cassie, você já é uma mocinha.
— Eu sou infantil? Não sou eu quem está fugindo com o rabo entre as pernas – e minha mãe fechou a cara diante da minha agressividade.
— Cassandra.
— Eu vou procurar alguém para nos ajudar – dei um passo para trás, tirando a mão dela do meu ombro.
— A senhorita não vai sair sem a minha autorização de novo – minha mãe me puxou pelo braço, mas puxei-o de volta, me livrando do seu aperto.
— Você não entende, nós temos que proteger a cidade – protestei.
— Isso não é coisa que uma menininha deveria fazer – e segundos atrás ela estava dizendo que eu era uma mocinha. E por mais que entendesse seu ponto, estávamos sendo atacados, não dava para se isentar por ser muito novo ou muito velho, todos estávamos no mesmo barco.
— Mãe, apenas me deixe ajudar – pedi. – Eu vou pegar a Pallaluna e...
— Pallaluna morreu – a mulher me cortou, e aquilo foi rápido e direto, sem nenhum dos floreios que minha mãe gostava tanto de fazer.
— O quê?
— Nissya disse que a Team Plasma a abateu – o tom foi mais suave desta vez.
— Nissya? – Como a vadia entrava na história?
— Foi ela e umas amigas que te trouxeram para casa em segurança. Você estava desmaiada e coberta de sangue, você não faz ideia de como eu me preocupei com você... – mas eu não ouvia mais o que ela dizia, de repente, tudo pareceu voltar a minha mente, a morte de Pallaluna pelo Scyther, Nissya e suas amigas, a morte de Kalinka, sangue por todo o lado. Minha mãe ainda estava discursando, mas eu só virei as costas e sai pela porta, batendo com força. Assim que meus pés tocaram o piso da varanda, sai em disparada, correndo tão rápido quanto nunca corri na vida, se minha mãe me chamou ou me seguiu, eu não fazia ideia, só diminui quando dobrei uma rua e esbarrei em alguém.
Eu sequer percebi em quem foi, apenas ouvi o barulho de coisas caindo e continuei correndo, meus pés doíam, eu não tinha mais fôlego e meus olhos estavam cheios de água, mas as lágrimas não escorriam, mesmo se eu quisesse. Só parei quando cheguei diante do centro acadêmico.
A fachada estava toda destruída, todas as janelas do prédio principal estavam destruídas, com cacos de vidros espalhados por todo chão. Havia furos nas paredes, que agora eu sabia muito bem o que eram e havia uma fumaça preta que espiralava da parte de trás do prédio. Tudo estava vazio, apagado e abandonado e não lembrava em nada a escola cheia de alunos e Pokémon que eu via toda a manhã. O lugar que me ensinou a ser uma treinadora de verdade, e que sem tais conhecimentos, eu nunca teria capturado Pallaluna.
— Cassie? – Me virei, na defensiva, mas era só Sophia. Ela estava segurando uma sacola de compras e o cabelo estava meio bagunçado.
— O que faz aqui? – Virei o rosto para o lado, secando as lágrimas que se formavam.
— Você passou por mim que nem um Rapidash no centro agora pouco – ela informou com aquela voz baixa e tímida. – Você não parecia muito bem.
— Eu estou ótima – a encarei com ódio – não poderia estar melhor depois de ver nossa escola destruída e a Team Plasma ter dominado a cidade – ela se encolheu.
— Bem, sobre isso, eu lamento pela escola – a voz dela mal dava para ser ouvida.
— Você lamenta?
— Sim, eu gostava daqui – mas eu não tinha muita certeza disso, desde que Sophia fora chutada do grupinho de Nissya, ela parecia um fantasma vagando pelos corredores. – Mas quanto a Team Plasma, tudo me parece igual.
— Igual? – ela só poderia estar zoando.
— As lojas abriram normalmente, as pessoas ainda vão ao trabalho, parece normal – Sophia respondeu timidamente.
— E por que essas coisas estão funcionando está tudo bem?
— Está melhor do que o que aconteceu em Opelucid.
— Você só pode estar brincando, né? Bandidos dominaram a nossa cidade.
— Eu sei, mas não é de todo ruim.
— Fale isso para as famílias dos nossos professores que foram fuzilados por eles ontem.
— Como você sabe disso? Ah, é, esqueci que você sabe tudo.
— Eu prefiro saber tudo do que ser uma ignorante que nem você!
— Ei, vocês duas, não deveriam estar aqui! – Um homem trajando o uniforme preto da Team Plasma parou ao nosso lado na entrada da escola – Circulando, crianças, essa área é restrita.
— Desculpe – Sophia pediu encarando os próprios sapatos.
Eu não sabia se aquele homem estava presente no massacre da noite anterior, mas ele era um Plasma, e eu não poderia apenas abaixar a cabeça para isso. Eu não era estúpida e sabia que tentar abater um soldado não seria fácil, mas ele estava sozinho e todas as histórias diziam que Hilbert tinha capturado um lendário com apenas dois anos de idade a mais do que eu. Eu tinha uma chance, eu deveria tentar.
— Prisma – lancei a Pokéball no ar e meu Panpour surgiu do facho avermelhado em posição de batalha.
— Você não vai querer seguir esse caminho, menininha – o Plasma falou, pegando a arma no coldre, mas antes que ele pudesse apontar eu ordenei um ataque.
— Scald – e talvez ele me julgasse como uma menina ingênua e tola, porque não desviou do ataque, tomando o disparo de água fervente diretamente no rosto, ele soltou a arma e começou a gritar, tentando cobrir o rosto. – Vamos, Prisma, use...
Mas o comando não saiu, Sophia me puxou pelo braço tentando me arrastar dali, ela já tinha abandonado a sacola de compras no chão e parecia prestes a chorar. O Plasma se debatia cobrindo o rosto queimado e Prisma me encarava esperando um novo comando. O soldado levou a mão ao cinto, e um Galvantula apareceu, mandando faíscas para todo lado. Eu estava em desvantagem quanto aquilo e não seria inteligente permanecer em combate.
Apressadamente peguei a pistola caída e retornei Prisma na Pokéball, antes de sair em disparada, atrás de Sophia. Eu não queria desistir, eu queria fazer justiça, vingar a morte de Kalinka e Pallaluna, mostrar que o lado bom sempre vence, mas eu sabia que ficar ali era suicídio, eu não tinha como bater aquele Galvantula.
Corremos sem rumo até chegar na parte nobre da cidade. Ali tudo corria perfeitamente bem, como se não houvesse invasão alguma.
— Por que você o atacou? – Sophia resmungou usando um tom de voz que era anormalmente alto para ela.
— Não é óbvio? – Cuspi.
— Claro que não, você nos colocou em perigo, me colocou em perigo – e era esse o ponto, ter colocado a cabeça dela a prêmio.
— Você pode ir até lá e se desculpar – apontei para o caminho que tínhamos percorrido.
— Ele não iria acreditar depois do que você fez – protestou no tom de voz tímido que sempre tinha.
Eu não tinha um plano, nem ideia do que fazer, eu sentia o sangue fervendo nas veias cada vez que me lembrava da Pallaluna. Eu odiava a Team Plasma por tê-la matado e me odiava por não ter feito nada. Ela sozinha, decidira ajudar os reféns, eu deveria ter sido tão corajosa quanto.
Estávamos quase em uma esquina quando ouvi um Plasma que fazia a guarda receber uma mensagem de rádio, através do som chiado, alguém relatava que fora atacado por duas garotas por volta dos doze anos, só poderia ser a gente.
Dei meia volta, puxando Sophia comigo, precisávamos achar um lugar para nos esconder, mas não havia nada ali além de mansões com muros altos e sofisticados sistemas de vigia. Andamos mais meio quarteirão até que passamos por uma casa onde o muro não era tão alto e o sistema de segurança estava quebrado. Eu não gostava da ideia de invadir a casa de alguém, mas precisávamos sair da rua antes que os soldados nos encontrassem.
Se o que Sophia dissera fosse verdade, que a vida seguia normalmente, os moradores estariam no trabalho e não presenciariam a invasão, que eu esperava ser bastante breve. Fiz sinal para Sophia, mas ela se recusou, mas ao menor sinal de movimento na rua, ela escalou o muro mais rápido do que meu Panpour faria.
Pulamos em um quintal de grama fofa, cheio de canteiros floridos. Era um local bem cuidado e bonito, parecia muito agradável de se morar ali, mas antes mesmo que nos ajeitar, um som de motor soou em meus ouvidos e tudo o que pude ver diante do rosto era uma hélice dentada girando rápido em minha direção.
— Quem são vocês? Falem agora – uma mulher empunhava um cortador de grama a gasolina na nossa direção. Ela parecia mais velha que a minha mãe, mas muito mais bonita.
— Nós não... – comecei sem saber o que dizer, os gritos dela chamariam atenção se houvesse algum soldado passando na rua.
— Falem, ou eu vou dar cabo de vocês! – A lâmina estava mais perto do meu rosto agora.
— Mãe, o que está acontecendo? – Uma voz gritou por cima do som do cortador.
— Esses malditos estão mandando espiões – e ela avançou a lâmina ainda mais.
— Mãe, tudo bem, não são espiões – e agora que a voz estava mais próxima, consegui focar a filha no meu campo de visão.
— Como você sabe?
— São só a estupida sabichona e a retardada inútil – Nissya apontou para mim e depois para Sophia, que bufou diante da ofensa.
— São suas amigas? – E a mãe abaixou o cortador de grama, mas sem desliga-lo
— São da minha turma na escola, mas não insinue que eu ando com esse tipo de gente – Nissya provocou.
=8=
A casa de Nissya era enorme, só a sala deveria ser do tamanho da minha casa toda. Depois do mal-entendido esclarecido, a mãe dela nos convidou para entrar. E enquanto nós bebíamos suco, ela entornava uma garrafa de uísque, direto do gargalo.
— Então a senhora também odeia a Team Plasma? – Perguntei depois de mais um gole do suco.
— Ódio é uma palavra muito pequena perto dos meus sentimentos – e deu mais uma golada. – Nissya, vá pegar suas coisas.
A garota sumiu pela porta e ouvi seus passos na escada. Sophia estava em completo silêncio ao meu lado. Eu corria os olhos pelo ambiente, observando a mobília cara, os enfeites, uma fotografia sobre a lareira, onde posava a mulher, Nissya, um garoto mais velho do que ela e um homem, que só poderia ser pai das crianças.
— Se a senhora os odeia tanto, poderíamos juntar forças, achar outras pessoas na cidade e expulsarmos a Team Plasma – disse esperançosa.
— Não quero por água fria nos seus planos, criança, mas não vai funcionar – e girou a garrafa na mão, com um floreio.
— Por que não?
— Você não vai achar gente suficiente para montar essa sua força tarefa.
— Eu achei você.
— Todos os dissidentes estão mortos ou fugiram.
— E você pretende fugir então? – E eu não podia aceitar que a única pessoa que parecia concordar comigo sobre a Team Plasma simplesmente iria fugir.
— Remanejar seria mais apropriado.
— Remanejar?
— Somos uma cidade bem acomodada, ninguém vai mexer a bunda do lugar enquanto achar que Alder ou alguma outra celebridade vai salvar o nosso rabo.
— Mas Alder vai – disse firme.
— E você quer esperar para ver? – E eu era obrigada a concordar. Flocessy era um local tranquilo aonde nada acontecia e do pouco que acontecia, sempre sobrava para Alder resolver. Eu entendia que ele era um herói da nossa cidade, a coisa mais relevante que tínhamos além de Pledge Grove, e que até mesmo eu ficava esperando o ex-champion salvar o dia, mas não queria dizer que não podíamos fazer nada para facilitar essa situação.
— E o que pretende com remanejar?
— Você deve ter notado que estamos sem sinal de Xtansceiver – e não tinha percebido até ela me dizer, mas desde as últimas mensagens que eu recebera do Deedee, meu Xtransceiver não servia para muito mais coisa. – Eu pretendo ir até o limite da cidade e mandar mensagem para o meu contato ranger, enquanto eles tentam derrubar a Team Plasma de fora para dentro eu faço isso de dentro para fora, fingindo ser uma só mais uma boa cidadã conformada – disse afetada, como se fosse uma excelente atriz.
Nessa mesma hora, Nissya apareceu na sala, puxando uma pequena mala de rodinhas. Era uma mala pequena e discreta, que não combinava nada com sua personalidade arrogante e chamativa.
— E por que Nissya está com uma mala? – Perguntei encarando a menina.
— Ninguém é um bom soldado se tem pontos fracos visíveis que podem ser facilmente explorados – e eu nunca imaginei que ouviria uma mãe falar daquela maneira. – Eu vou aproveitar e deixa-la em um local seguro. E vocês deveriam ir com ela, será muito mais seguro lá.
— Mãe – Nissya reclamou como se não gostasse da ideia.
— Eu quero ficar e lutar ao lado da senhora, de dentro para fora, como você disse – disse em pondo de pé.
— Você tem muita coragem, criança – a mulher sorriu antes de tomar mais um gole da garrafa.
A mãe de Nissya esvaziou a garrafa em uma longa golada antes de colocar as coisas importantes dentro do carro compacto e enfiar a filha no banco do passageiro. Ela ofereceu novamente que nos escondêssemos com Nissya, mas eu queria ficar e lutar, e tudo o que Sophia queria era voltar para casa, de modo que ela nos ofereceu uma carona.
Mas antes de podemos nos acomodar no carro, a campainha tocou. Nissya e a mãe se entreolharam desconfiadas, mas a mulher foi atender através do interfone e a vi empalidecer assim que colocou os olhos na imagem exibida pela câmera externa.
— Nissya, pegue as meninas e saia pelos fundos – ela ordenou.
— Mas mãe... – a garota começou, mas a foi interrompida.
— Não esqueça do eu te ensinei – e a menina engoliu em seco e apenas concordou com um aceno.
— Vamos – Nissya sinalizou para Sophia e eu. Eu não estava entendendo nada, mas pela reação da adulta, só poderia ser a Team Plasma a porta.
— Espera, se é a Team Plasma nós temos que... – protestei.
— Agora – a voz da mulher retumbou me cortando e só consegui me sentir pequena e inútil, como toda criança deveria ser em períodos de guerra.
— Nissya, uma Pokéball – a morena tirou uma Pokéball do cinto e lançou para a mãe, que apesar da quantidade de álcool ingerida, pegou a bolinha com maestria. – Eu nunca fui uma boa treinadora, por isso não tenho os meus – disse casualmente, então deu um sorriso conformado antes de nos virarmos e corrermos para os fundos da casa. Entre um canteiro e outro, havia uma pequena passagem que dava para o terreno vazio ao lado e passamos pela abertura.
Eu pude ouvir a porta da frente abrir ruidosamente e uma gritaria absurda, então o som de um Pokéball se abrindo e mais gritos. Nissya praticamente me empurrou pela passagem e saiu ao meu lado segundos depois, andando apressada e tomando um caminho pelas ruas sofisticadas do bairro, ela não olhava para trás, só seguia em frente.
— Nissya, sua mãe... – comecei.
— Quieta.
— Nissya.
— Quieta.
— Mas Nissya, sua mãe não pode...
— Cala boca, você não sabe nada, sua metida – ela rosnou me encarando.
As ruas estavam um tanto movimentadas e eu podia ver soldados aqui e ali conversando e passando rádio uns para os outros. Um pequeno contingente passou por nós, provavelmente indo em direção a casa de Nissya. Espiei por cima do ombro, mas não dava para saber o que estava acontecendo na casa.
Nissya andava muito rápido, mas sem correr e nós a seguíamos sem dizer nada. Ela virou à esquerda, indo em direção ao bosque e se emprenhou em meio as árvores. Ela mantinha a mão no cinto, e espiava todos os lados. Finalmente, depois de passar por uma grande árvore, surgiu uma trilhazinha de terra batida, que mal passava uma pessoa.
— Se vocês forem por aqui – e apontou um caminho diferente da trilha – vão contornar o centro, acho que dá para chegar em casa sem chamar muita atenção.
— Aonde você vai? – Encarei o caminho sem imaginar onde poderia dar. Aparentemente rumava para o norte.
— Me manter em um local seguro, como minha mãe mandou.
— Então você vai fugir? – E eu não podia acreditar que ela estava fugindo, a mãe dela era uma guerreira e ela era apenas uma menina metida e irritante.
— Você pode ser uma sabichona metida a besta, mas não finja que sabe coisas sobre mim – Nissya me deu um empurrão, me derrubando no chão.
— Sua mãe ficou para trás, lutando e... – eu rebati enquanto me levantava.
— Ei, vocês! – E um Plasma surgiu em meio as árvores.
— Droga – Nissya resmungou antes de correr pela trilha. Puxei Sophia e disparei atrás dela. Eu sentia que a garota de óculos não queria nos acompanhar, mas eu não poderia deixa-la para trás.
Nissya corria muito rápido, as pernas delas mal pareciam tocar o chão a cada passo, então ela saiu do trilho se embrenhando no mato alto e fiz o mesmo. Mas o mato era tão alto e o vento farfalhava o suficiente que em segundos a perdi de vista. Me joguei no chão, junto com Sophia e ficamos espiando o caminho, o Plasma passou por ali, encarando dos dois lados do matagal, mas seguiu em frente.
— Eu só quero ir para casa – Sophia choramingou ao meu lado e dei uma cotovelada para ela se calar.
Quando julguei que o Plasma estava longe o suficiente, me levantei, tirando os carrapichos do cabelo e roupas, olhei em volta, mas não havia nenhum sinal de Nissya.
— Vamos voltar – Sophia me puxava pela manga da blusa.
Olhando agora, eu podia ver que a trilha dobrava para o leste, indo em direção a Pledge Grove. Eu não sabia se o caminho realmente levava até lá, mas deveria passar bem próximo. Por que Nissya estava indo para lá? Era um local sagrado e lendário e Alder tinha ido investigar no dia do terremoto, mas não havia nada de interessante ali, ou havia?
— Eu vou atrás da Nissya – puxei o braço e embora eu não gostasse da morena, ela parecia ser o resto de esperança que a mãe tinha para libertar Flocessy e eu acreditava na mãe dela.
— É perigoso – Sophia choramingou. – Eu quero voltar.
— Nada disso, você vai comigo – e eu não podia deixar que um Plasma encontrasse com ela e ela contasse o que ouviu da mulher. – Você não está preocupada com a Nissya? – Tentei apelar.
— Mas nem somos mais amigas.
— Então tudo bem o que acontecer com ela? – Eu não gostava da Nissya, embora meio que tivesse me habituado a tê-la me provocando diariamente. Mas independente dos meus sentimentos por ela, eu não poderia deixar alguém em perigo só porque não era minha amiga.
— Eu só não quero me envolver com nada perigoso – Sophia repetiu.
— Mas você já está envolvida – e era verdade, por mais que ela não quisesse admitir.
— Isso é culpa sua – bufou.
=8=
Andamos pelo matagal, voltar a trilha era muito perigoso. Por vezes, parávamos para ouvir se havia algum Team Plasma próximo, mas só os nossos pés e o vento farfalhavam o mato alto, não encontramos Nissya em canto algum. O sol ia ficando cada vez mais forte, conforme o horário do almoço se aproximava.
— Meus pais deveriam ter ficado em Hoen – Sophia choramingou. – Era muito mais seguro lá.
— Vocês poderiam ter fugido, assim como a família do Peter – provoquei ao me lembrar que Sophia tinha se metido em problemas em Nacrene por causa de sua paixonite por Peter.
— Você fala como se fugir fosse errado.
— Você fala como se virar as costas para um problema coletivo fosse certo – revirei os olhos.
— Somos só crianças, essa guerra não é nossa – protestou.
— A guerra não isenta ninguém, se podemos ser vítimas, temos que ter forças para lutar também – falei orgulhosa. Eu sabia que era criança e não tinha tanto conhecimento e força de combate como um adulto, mas eu queria ter a chance de lutar e ajudar.
— Como pode ser tão corajosa?
— Como pode não ser? Você é uma das alunas na escola do Alder, somos treinados para seguirmos seus passos – e era verdade.
— Acho que isso não é para mim, eu só quero ter uma vida tranquila e um namora... – mas cobri a boca dela com a mão e nos abaixamos em meio ao mato.
O mato farfalhava violentamente diante de nós e uma das minhas mãos foram para a Pokéball no cinto, mas de repente um Meowth surgiu farejando o caminho, acompanhado por Nissya.
— O que estão fazendo aqui? – Curvou as sobrancelhas, agressiva.
— Te procurando... – respondi obviamente.
— Eu não preciso ter você como babá – rebateu azeda.
— Eu não sabia que você tinha um Meowth – Sophia comentou vendo o Pokémon que mantinha os olhos atentos no caminho. Nissya a encarou com um ar enfadonho, mas acabou respondendo.
— É do meu irmão.
— E por que você está com o Pokémon dele? – Arqueei uma sobrancelha.
— Isso não é da sua conta, nem nada disso, voltem para casa – ela balançou os braços nos espantando como se fossemos um bando de Spearow atacando uma plantação.
— Nissya, se você está indo contra a Team Plasma, eu vou te ajudar, quer você queria ou não – a encarei e o olhar entediado foi substituído por um sombrio que a deixava idêntica a mãe.
— Não coloque um alvo nas suas costas.
— Mas você está colocando na sua.
— Eu nasci com ele.
— Como assim? – Ela pareceu ponderar entre me dizer ou me dar uma resposta evasiva e atravessada, mas finalmente se rendeu.
— Meu avô foi o juiz que deu a sentença ao Ghetsis no passado e o meu pai um dos policiais responsáveis por sua prisão, mas ambos foram mortos por uma facção dentro da Team Plasma, mais brutal e perigosa, e como vocês sabem o Ghetsis fugiu no final – explicou.
— Eu sinto muito – eu não sabia de nenhuma dessas histórias. Embora conhecesse Nissya desde o primeiro dia de aula, eu não sabia nada sobre ela realmente.
— Por isso, minha mãe os odeia tanto e está disposta a qualquer coisa para frustrar seus planos.
— Nós vamos ajudar vocês – eu disse animada.
— Cassie, você é inteligente demais para agir com tamanha ingenuidade – ela me repreendeu.
— Exatamente esse é o ponto, eu sou mais inteligente do que você, eu posso ajudar nos planos – disse me gabando. E eu queria muito ajudar no que fosse possível.
— Que seja, mas não me culpe se você se machucar no final – ela zombou.
— E então? – Eu questionei tentando saber o que ela sabia.
— Tudo que eu sei é que as saídas da cidade estão fechadas, mas conseguimos acessar a rota vinte atravessando a floresta de Pledge Grove, as pessoas que vão cuidar de mim vão estar me esperando do outro lado.
— E o contato da sua mãe?
— É meu irmão, ele é um Ranger – isso explicava porque havia um alvo nas costas dela, todos os membros da família pareciam trabalhar duro para manter a Team Plasma longe do poder.
— Certo, vamos te levar até seu ponto seguro e fazer contato com o seu irmão – expliquei. Se o que a mãe tinha dito era válido, quando deixássemos Nissya na orla da floresta, conseguiria algum sinal do Xtransceiver.
— E depois?
— Eu vou voltar para cidade, encontrar sua mãe e ajuda-la – falei animada – E se... – fiz uma pausa escolhendo as palavras – ela não puder fazer, eu vou fazer por ela.
— Isso é muito perigoso – Sophia choramingou.
— Eu sei – respondi ignorando seus lamentos vazios.
— Então vamos, Pledge Grove fica para lá – Nissya indicou e todos seguimos o caminho que o Meowth abria em meio ao matagal.
Andamos o que pareceu mais de um quilometro e finalmente, Pledge Grove estava visível. Havia grandes estruturas treliçadas na entrada do local com holofotes enormes que estavam apagados. A pedra sagrada não existia mais e havia um enorme buraco que parecia que escavadeiras tinham trabalhado a noite toda. Havia fragmentos de pedras destruídas e as árvores no em torno tinham sido arrancadas. O lago que ficava ao lado da pedra cerimonial estava cheio de terra e a água era turva e grossa. O que eles estavam fazendo?
Apesar da destruição aparente, apenas dois Plasmas jovens e terrivelmente entediados faziam guarda. Eles seguravam os rifles com desinteresse e pareciam estar cozinhando no sol que ia atingindo o centro do céu. Nos arrastamos o mais silenciosamente que podíamos no matagal e nos aproximamos lentamente.
— Até quando vamos ficar aqui? – um deles bufou se abanando com a mão.
— Até alguém vir nos substituir – o outro respondeu desanimado.
— E isso vai ser quando? – Mas o outro só deu de ombros, sem saber a resposta para aquilo. –Morte ainda está furioso? – De quem eles estavam falando?
— Você acha que não? Ele foi mandando para essa cidadezinha furreca e por nada.
— Então Peste está com o lendário? – O rapaz que se abanava perguntou. Peste, Morte, Lendário?
— Sim, pelas informações que recebemos pelo rádio da equipe ômega.
— Então por que temos que ficar aqui?
— Ordens.
— Mas essa cidade nem tem nada... – bufou.
— Isso é verdade, nem aquela escola idiota serviu como desafio – e senti meu sangue ferver ao mencionarem isso.
— O centro acadêmico do Alder? – O rapaz que se abanava limpou o suor da testa e voltou a se abanar.
— Ouvi dizer que os professores se renderam como um bando de maricas e imploraram pela vida – o outro respondeu com um gracejo. Apertei minhas unhas nas mãos, tentando controlar a raiva. Eles não tinham se rendido, aquilo era mentira. Eles tinham resistido até o final.
— Mesmo? – Questionou desconfiado.
— Foi o que a Bellamy disse.
— Aquela mulher está cada vez mais terrível – o garoto que abanava comentou. Só havia uma mulher no exército na noite anterior, ela só poderia ser a tal Bellamy, a mulher que ordenou o massacre. – E nenhum sinal do Alder? – O rapaz prosseguiu.
— Aquele covarde?
— Bom, ele é um ex-champion, tem seu valor... – Disse receoso como se não tivesse certeza da afirmação depois de ouvir o outro o chamar de covarde.
— Morte arrancaria sua pele dos ossos se te ouvisse falar uma coisa dessas. Alder é só um fantoche, Ghtesis sempre diz que é uma vergonha a Liga Pokémon ter dado o título de Champion para alguém não merecedor – como assim não merecedor? Alder tinha salvado Unova duas vezes, ele dividia seus conhecimentos com qualquer treinador e tinha fundado a escola para propagar seu estilo de vida e pensamento, ele tinha sido o melhor Champion da região, aquelas acusações eram mentira.
— Como assim?
— Alder nunca venceu a elite, assumiu só por serviços prestados a liga.
— Que tipo de serviço?
— Quem sabe... – deu de ombro como se não se importasse. – Mas ele não é uma ameaça de qualquer forma, Iris era o único problema e já foi abatida.
Mentira, mentira, um monte de mentiras infundadas. Alder era um Champion, era merecedor sim, os Elite Four o seguiam, ele tinha vencido a Team Plasma nas outras duas ocasiões e impedido que coisas ruins acontecessem com nossa cidade.
A raiva me consumia, não bastava eles terem dizimado os professores, ainda zombavam deles e de Alder, eu precisava me controlar, mas havia algo no peito que me mandava lutar. Senti Sophia me puxar pelo braço, minha mão envolvia uma das minhas Pokéball. Mas o barulho do mato atraiu a atenção dos Plasmas. Só tive tempo de vê-los sacar as armas, mas um enorme Kangaskhan apareceu diante de nós como uma muralha.
— Giga Impact – Nissya gritou, mas a Pokémon a encarou confusa, como se não reconhecesse o comando, mas quando o primeiro tiro atingiu a couraça, ela deu um urro e correu na direção dos Plasma. – Vamos – ela levantou correndo pelo matagal em direção a floresta.
— Como você manda seu Pokémon realizar um ataque que não conhece? – Gritei seguindo a garota de perto.
— É do meu irmão – ela respondeu quase sem fôlego.
Estávamos quase fora do matagal quando um Magmar surgiu diante de nós, ele era tão quente que o mato carbonizava ao encostar nele. Saquei a Pokéball e liberei Prisma, que lançou um jato de água no bicho, mas ele não pareceu muito abalado. Prisma deu uma nova rajada de água, mas Magmar avançou em nossa direção e pulamos para o lado. Prisma deu um salto, e tentou um novo jato de água sem sucesso.
— Precisamos fazer alguma coisa – Nissya gritou se encolhendo no mato.
— Preciso de algum Pokémon de terra ou pedra – me lembrei dos Pokémon com vantagem sobre fogo.
— Eu só tenho a Florisa – Sophia gritou, Florisa era um Pansear, talvez valesse combater fogo com fogo.
— Me empreste.
— Contra um Magmar? – Ela pareceu horrorizada.
— Vamos logo, Sophia. – Relutante, ela me entregou Florisa e libertei a pequena Pansear no campo de batalha. Ela pareceu assustada ao ver Magmar e Prisma batalharem diante dela. – Certo, quais golpes ela sabe? – Perguntei, o certo seria Sophia comandar o próprio Pokémon, mas ela não parecia em condições de fazê-lo.
— Só os básicos, eu comecei a ensinar Flame Burst, mas ela ainda não domina totalmente.
— Vai ter que servir, Florisa – e a Pokémon pareceu confusa em me ver comandar, mas diante do aceno de Sophia, prosseguiu. – Flame Burst.
A Pokémon parecia não entender um comando de fogo em um Pokémon de fogo, mas obedeceu. As chamas saíram baixas e relutantes, uma vela queimaria mais.
— Vamos, Florisa – com o incentivo, as chamas aumentaram e atingiram Magmar, mas ele não pareceu incomodado. Prisma saltou e o atacou pelo outro lado, com um novo jato de água, mas eles não estavam tendo sucesso. Eu precisava de mais fogo para cobrir o do Magmar e obrigar suas chamas a se extinguirem por falta de oxigênio.
Olhei para lado e vi que a Kangaskhan tinha derrubado o Plasma no chão e o pisoteava como se ele fosse uma folha de papel, apesar da confusão da batalha, podia ouvir o sujeito gritar e assim como os sons de tiros na noite anterior e a morte de Pallaluna, aquilo nunca mais sairia da minha cabeça.
O Plasma do Magmar vinha em nossa direção, acompanhado de um Marowak, mas antes que pudesse invocar Pikarina, Nissya pulou no caminho liberando um Munna e o convocando o Meowth.
— Ei, isso não é justo – protestou o Plasma ao vê-la com dois Pokémon em combate.
— Quem liga? – Nissya foi para cima, Munna lançou um poderoso Psyshock que deixou o Marowak atordoado. O Meowth aproveitou a chance, pulando sobre ele e enchendo-o de unhadas.
Se Nissya estava se virando bem sozinha, não podia dizer o mesmo do meu lado. Magmar mandava fogo aleatoriamente e Prisma e Florisa se esforçavam ao máximo para desviar. Se eu não fizesse nada, não teríamos chance.
— Florisa, mire no mato – apontei e mesmo que ela não fizesse ideia do que eu estava falando, lançou as rajadas de Flame Burst no matagal, em um círculo perfeito em torno do Magmar, não demorou que o fogo fosse ficando mais alto e intenso e o círculo se fechasse em torno do Pokémon. A temperatura era alta ali e havia uma fumaceira, mas eu tinha esperança que o excesso de fogo queimasse o oxigênio dentro do círculo e apagasse as chamas da pele do Magmar.
Nissya tinha derrotado o Plasma que estava caído descordado ao lado do Marowak, aparentemente ela tinha feito um misto de Rest do Meowth com Dream Eater do Munna para dar cabo da dupla. Aquilo era uma vitória, só precisávamos derrubar o Magmar e poderíamos continuar nosso caminho.
Só que tudo deu errado. Kangaskhan pareceu entediada de pisotear no humano que não resistia mais e partiu destrambelhada para onde Magmar, Panser e Panpour lutavam. Ela arrancou um pedaço do mato ardente e atirou ao lado, acertando Prisma.
Apesar de ser um Pokémon de água, a temperatura das chamas no mato misturado ao calor emitido por Magmar fizeram meu Pokémon ser envolvido em uma bola de fogo. Eu podia ouvir seus gritos agoniados enquanto ele corria de um lado para o outro e as chamas aumentavam.
A Kangaskhan sequer se incomodou com a cena, deu um soco no Magmar com tanta força que o tirou da barreira de chamas e o fez voar, atingindo uma das treliças que seguravam os holofotes. O calor do corpo do Magmar fez as bases das treliças derreterem e a estrutura começou a inclinar, eu vi Sophia se encolher e Nissya correr gritando e sinalizando. Só tive tempo de pular para o lado antes da estrutura bater ruidosamente no chão, o terreno vibrou como se fosse um pequeno terremoto e uma grossa nuvem de mato e poeira dançou no ar.
Meus olhos demoraram a se acostumar com a situação, eu podia ver o Magmar caído sobre o resto da treliça, a temperatura do seu corpo derretia o metal e fazia o líquido escorrer e fundir a própria pele. Do outro lado, Florisa estava encolhida a centímetros dos destroços da estrutura que caíra. Entretanto, o Kangaskhan não tivera a mesma sorte e estava soterrado pelo metal retorcido. Mais ao longe, eu podia ver uma bola de fogo que se extinguia aos poucos, e no meio dela um corpo queimado e retorcido. Eu sabia que era Prisma.
Eu não sabia se ele estava morto, mas precisava ajuda-lo, eu não iria perder outro parceiro, mas quando tentei levantar, vi que meu corpo não respondia, tentei de novo, sem sucesso e só agora percebia que parte da estrutura estava caída sobre mim. Havia um vergalhão enfiado na minha coxa e da ferida jorrava sangue como um esquiço, havia pedaços menores sobre minhas pernas e cintura e não conseguia me mexer.
Eu fitava o vergalhão que atravessava minha coxa, mas não conseguia sentir dor alguma, nem nas pernas esmagadas, nem no quadril machucado, eu não sentia absolutamente nada da cintura para baixo, como nada existisse abaixo do meu umbigo. E aquilo começou a me deixar em pânico, o que havia de errado com as minhas pernas? Comecei a me debater e percebi que a coxa rolava no vergalhão, aumentando o ferimento e o sangue perdido.
— Cassie, calma! – Nissya apareceu no meu campo de visão.
— Eu não sinto as minhas pernas – choraminguei, e se tinha alguém que para quem eu não queria demonstrar fraqueza era Nissya, mas eu estava assustada demais para pensar nisso.
— Não se preocupe, nós vamos te tirar daí – ela não parecia nenhum um pouco calma e tranquila. – Sophia, eu preciso da sua ajuda.
Sophia estava a poucos metros, os óculos tinham sumido do rosto e ela tremia como um bambu balançado pelo vento. Ela esticou o braço e retornou Florisa para a Pokéball.
— Eu sinto muito, eu não posso mais fazer isso – e saiu tão baixo que mal consegui ouvi-la. Ela virou as costas e saiu correndo pela trilha, fazendo o caminho de volta para Flocessy. Nissya a chamou meia dúzia de vezes, sem sucesso.
— Não precisamos dela – a morena bufou. – Eu vou resolver sozinha –disse determinada.
Ela passou as mãos pelo um pedaço de ferro retorcido e tentou levantá-lo, mas não importava quanta força ela colocasse, aquilo sequer se mexia.
— Precisamos de um Pokémon para isso – eu sugeri.
— Kangaskhan... – ela encarou o monstro soterrado. – Você tem algum?
— Não, e você?
— Minha mãe ficou com o Golen – disse pesarosa – eu tenho só o Munna e um Whismur, além do Meowth. – Então se virou e tentou puxar a barra de ferro, mas nada aconteceu. – Talvez possamos... – mas a frase morreu.
Olhei para cima e vi que havia o Plasma vinha na nossa direção, era o mesmo que Nissya tinha derrubado com o Dream Eater, mas aparentemente, o ataque dela não era poderoso o suficiente para ser duradouro. Ele parecia abatido, mas melhor do que eu, obviamente. Nissya desviou os olhos para mim e viu a pistola do Plasma que eu tinha roubado na cidade presa na minha cintura, por baixo da blusa. Ela puxou a arma e apontou na direção do homem, as mãos dela tremiam horrorosamente.
— Fique longe da gente – ela gritou.
— Vamos nos manter calmos, garota – ele abriu os braços de forma amigável.
— Fique longe – ela repetiu mais firme.
— Você não teria coragem de atirar – o Plasma provocou. – Você nem sabe como usar, mas para sua surpresa, ela destravou a arma e engatilhou.
— Fique longe! – E quando ele deu o próximo passo, ela atirou. Foi um tiro perfeito de baixo para cima, na base do queixo. Os estilhaços saíram pelo topo da cabeça e ele caiu inerte a poucos metros de mim. Nissya jogou a arma no chão e ela tremia muito mais agora.
— Belo tiro – foi tudo o que consegui dizer. Parecia aquelas cenas de filmes e por mais que a morte de alguém fosse algo horrível, mesmo que fosse um Team Plasma, tinha sido mesmo um tiro bonito.
— Meu pai me levava para praticar, às vezes – explicou sem graça – agora chega de papo, eu vou achar um jeito de... – e olhou em volta como se procurasse algo para ajudá-la a me tirar dali.
— Nissya, você deveria ir – disse encarando a garota.
— O quê?
— Logo outros Plasmas devem chegar, não é bom você estar aqui – e depois de toda aquela confusão, eles deveriam chegar logo.
— Eu não vou te deixar sozinha!
— Eu vou ficar bem, eles não vão me atacar nessas condições – e eu não queria pensar na minha condição. Mas com certeza, eu não seria considerado uma ameaça.
— Mas...
— Você precisa encontrar seu contato, certo?
— E você?
— Eu vou ficar bem – então estiquei o braço até a cintura e peguei a única Pokéball no meu cinto – Leve a Pikarina, o seu time está desfalcado – estendi minha Pachirisu para ela.
— Eu não posso aceitar seu Pokémon.
— Pegue logo e peça desculpas a sua mãe por mim – balancei a mão até ela aceitar.
— Por quê?
— Eu não vou conseguir ajuda-la na batalha contra a Team Plasma – senti as palavras se embolarem na garganta.
— Você fala como se fosse morrer – e eu esperava ver indiferença em seu rosto, mas ela estava prestes a chorar.
— Eu não vou morrer, mas acho que esses ferimentos vão me tirar de campo por um tempo – sorri tentando parecer confiante.
Nissya me encarou por um tempo como se avaliasse o que deveria fazer.
— Certo, eu vou conseguir a ajuda que a cidade precisa. E Cassie, fique boa logo, você é a última pessoa para quem quero dever um favor.
— Cuide bem da Pikarina, eu vou ficar furiosa se ela não estiver bem quando você me devolver. E ligue para o Alder, por favor, eu sei que ele vai nos salvar – pedi, e a despeito de tudo o que tinha ouvido dos Plasma, eu ainda acreditava no Alder.
— Vai sim – ela sorriu e partiu, relutante.
Eu ouvi o mato farfalhar enquanto ela se afastava. Encarei o sol e ele estava bem alto no céu, e agora que eu estava completamente sozinha, me permiti chorar. Eu chorava por Prisma e por mim mesma, eu estava com medo, muito medo.
Eu não queria ficar sozinha ali, ao lado do corpo carbonizado do Prisma, mas eu não podia impedir Nissya de seguir seu caminho. Eu não sabia o que iria acontecer comigo, eu estava perdendo muito sangue e me sentia cada vez mais fraca e cansada. Eu não sentia minhas pernas, e de acordo com os filmes, eu nunca mais iria andar por conta disso. E me deixava apavorada a ideia de passar o resto da vida em uma cadeira de rodas. Eu não queria ser uma inútil que não poderia correr por aí atrás dos seus parceiros Pokémon.
O sol foi ficando mais forte e meus olhos se fecharam lentamente, tentando evitar a claridade. Eu gostaria que o Xtransceiver estivesse funcionando, eu poderia pedir ajuda, poderia ligar para minha mãe e me desculpar do meu comportamento pela manhã, eu poderia ligar para o Deedee e contar da minha aventura, perguntar sobre Peach.
De repente me lembrei da primeira vez que vi Alder, na cerimônia de início do ano letivo na escola. Ele usava roupas bastante casuais para um diretor, mas seu discurso era poderoso. Ele dizia coisas sobre respeito e amizade, sobre espirito forte e coragem, que existia um herói dentro de cada um de nós e que só precisávamos do estimulo certo para despertá-lo.
Eu gostava daquelas palavras, elas tinham me guiado por todo aquele tempo. Me dado coragem para abrir mão de Peach porque este era o desejo dela e de confiar em Deedee, mesmo que ele não tivesse nenhuma confiança em si mesmo. Me dado coragem para aceitar Pikarina no meu time, e para ajudar Nissya, apesar das nossas diferenças. Coragem para lutar ao lado dos meus Pokémon mesmo quando estava desfavorável para nós e seriam aquelas palavras que me dariam coragem para seguir em frente, em memória de Prisma e Pallaluna.
Eu iria vencer, eu sabia disso, mesmo se eu ficasse com sequelas e ficasse em uma cadeira de rodas, mesmo que tivesse que começar minha carreira Pokémon do zero, mesmo que tivesse que ajudar Alder a reabrir a escola, eu iria conseguir, porque eu tinha coragem e fé. Não importava como eu estava agora, amanhã seria um novo dia, e tudo ficaria bem. Eu rezaria todos os dias pelas almas de Prisma e Pallaluna, e eles me dariam força para continuar meu caminho.
Me senti sonolenta, com o sol queimando minhas bochechas e o vento balançando a grama ao meu redor. Eu tinha certeza que Alder salvaria Flocessy e me salvaria também, eu sentia isso. E sentia que tinha feito meu melhor naquela manhã, então não iria fazer mal cochilar um pouquinho, faria?
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