Rota Zero

21 Escolhas Feitas Por Ninguém


Notas iniciais
Tia Chibieska onde você estava? Sim, eu atrasei o capítulo por uma semana porque fiz uma confusão dos diabos. Confundi meu capítulo com o do Júlio, achei que tinha postado, só que não. Ai atrasou e só me liguei quando ele me perguntou "e o seu capítulo?" Bom, vou tentar me coordenar melhor, principalmente porque não sei quando a net do Júlio volta e não sei se semana que vem ele já posta os deles, ou serei eu novamente. Rezem para que eu não bagunce tudo de novo. Beijos especiais para os nossos reviewers (essa palavra existe?) e os nossos leitores fãs de Pokémon ghost. (sim, vocês mesmos que leem e não mandam nenhum olá). Chega de papo e vamos ao capítulo, que é mais transitório do que qualquer outra coisa. Boa leitura!

December

ESCOLHAS FEITAS POR NINGUÉM

Haila não tinha morrido, tinha? Balancei-a levemente pelos ombros, mas ela nem se mexeu, o que não era bom sinal. Ela tinha acabado de dizer algo estranho sobre amar os pais, parecia aquelas confissões que as pessoas fazem antes de morrer nos filmes e encarando como ela parecia inerte, isso começou a me deixar apavorado.

A senhora Tris apareceu no quarto, usando um robe com motivos marinhos, ela parecia muito mais bonita agora, desleixada dentro de casa do que quando a encontramos no barco. Trazia uma bandeja na mão com um copo de água e vários frascos diferentes. Sorria levemente, mas o sorriso sumiu ao ver a expressão que eu trazia no rosto.

– O que aconteceu?

– A Haila morreu – e comecei a chorar e fungar. Trapinch ao meu lado começou a morder o cadarço do meu tênis em tentativa de consolo.

A mulher abandonou a bandeja sobre o criado-mudo e colocou a mão sobre a testa de Haila, depois no pescoço e pulsos, checando seus sinais vitais. Com um muxoxo, me encarou.

– Ela está bem, um pouco febril, mas bem. Além disso, trouxe alguns medicamentos – e apontou para os frascos na bandeja – isso deve estabilizá-la. Não é tão bom quanto um hospital em Nimbasa, mas vai ajudar.

Nimbasa City ficava a meio dia de viagem do vilarejo. Não era longe, mas Haila não estava em condições de viajar. Cheguei a cogitar ir até lá e comprar medicamentos melhores, mas não me alegrava nada deixá-la sozinha. O casal de pescadores parecia gente boa, mas eu andava com um pé atrás depois do encontro com Kean, afinal, ele também tinha sido um cara legal nos oferecendo comida e abrigo.

Haila dormiu e acordou várias vezes naquela noite, dizia coisas desconexas e eu só pude reconhecer alguns nomes, como os dos irmãos. Ela parecia muito agitada, como se dominada por sonhos ruins, então decidi libertar Leaf. A Pokémon fez seu barulho de sempre e me encarou, estranhando que fosse eu a tirá-la da Pokéball, então encarou a dona e fez outro barulho, um que eu nunca ouvira e os olhos pareceram perder o brilho por um segundo. O bicho de planta subiu na cama e lambeu o rosto da parceira, depois se aninhou no espaço da cama. Instintivamente, Haila a envolveu nos braços como um urso de pelúcia e os sonhos ruins abrandaram, e finalmente, durante o alvorecer, ela pareceu mergulhar em um sono tranquilo e reconfortante.

Por outro lado, eu estava um caco quando levantei. Os olhos inchados, a cabeça doendo, mas não conseguia dormir preocupado com a Haila. Tomei o café da manhã junto da família e me ofereci para ajudar o senhor Arthur no trato dos Basculin. Fiquei internamente feliz quando ele recusou minha oferta, feita apenas por educação, o velho disse que seria melhor que eu permanecesse no vilarejo, cuidando da loira e ajudando a senhora Tris no que fosse necessário, já que ela também não iria para alto-mar.

Apesar do que o senhor Arthur disse, eu não fui de muita ajuda. Depois de acidentalmente tropeçar em Trapinch e derrubar a bandeja onde estava o café da manhã que deveria levar para Haila, a senhora Tris me pediu para comprar maçãs na venda no final da rua. A verdade é que ela me queria fora de casa, já que fora isso, eu tinha quebrado dois copos enquanto ajudava a lavar a louça e pisado no rabo de um dos seus Sandile, mas ela era educada demais para dizer que eu era um desastre ambulante.

Comprei as maçãs e decidi dar uma volta pelo lugar. O vilarejo era simples e pequeno, as casas todas muito parecidas e uma fina camada de areia cobria tudo. A conversa com Haila ecoava em minha mente. Eu ainda não entendia muito bem o que ela queria dizer, se era verdade ou algum tipo de metáfora. Pensando direito, ela sempre comentava sobre Jaden ou Corin, às vezes, falava de Nuvema, mas nunca falava sobre os pais. Eu não sabia quem eles eram nem o que faziam, então julguei que fossem do tipo normal e apagados como meu velho.

Mas se ela tinha fugido, eles não deveriam ser do tipo legal. Lembrei-me da Rose, uma garota um pouco mais nova que eu, também de Aspertia, os pais dela não era muito a favor de Pokémon e ela precisou que um dos assistentes da professora Juniper intervisse para que pudesse sair em viagem. Mas, considerando que Jaden era um grande treinador e Haila já tinha parceiros evoluídos, acho que a família dela não era contra. Talvez fosse algo relacionado ao Tom, um amor proibido e impossível, tipo Romeu e Julieta, mas se assim fosse, ela deveria estar com ele e não comigo, certo?

De repente, uma voz áspera e ranzinza varreu tudo isso de lado. Estava parado diante de uma casa, seria como qualquer outra do vilarejo, se não tivesse um lindo jardim na frente. Eu não fazia ideia de como as flores cresciam tão bonitas em um lugar tão árido, mas se eu tinha achado o jardim bonito, Trapinch tinha achado muito mais. Ele estava devorando um grupo de pequenas flores azuis, parecidas com margaridas e uma velha, provavelmente a dona do jardim, não estava gostando nada disso.

– Ei moleque, tire esse seu bicho fedorento de perto das minhas flores – resmungou se aproximando e sacudindo o braço magro.

– Me desculpe – pedi sem jeito e peguei Trapinch no colo, que ainda mastigava uma das flores – ele é muito novo ainda... – argumentei com um sorriso.

– Não quero saber de nada disso, veja – e apontou para os galhos comidos – ele arruinou as minhas flores. Mantenha essa monstruosidade longe das minhas flores! – Bradou.

– Desculpe – pedi sem sorrir, não tinha gostado nada dela chamar Trapinch de monstruosidade – não precisa ficar tão brava, foram só algumas flores...

– Só algumas? Saiba que essas flores valem mais do que você e esse seu projeto de Pokémon juntos. Agora fora daqui – me empurrou para o meio da rua – antes que eu resolva isso do meu jeito – e puxou uma pokéball do bolso.

Eu não estava a fim de batalhar, então peguei Trapinch e voltei para casa da senhora Tris. A mulher estranhou minha demora e riu quando contei sobre o ocorrido. Segundo ela, a velhota cultivava as flores mais raras de Unova, que tinham um alto valor de mercado, mas se negava a vender ou dar uma sequer. Coisa de velho, concluiu antes de me informar que Haila estava acordada e parecia melhor.

Quando entrei no quarto, ela ainda estava na cama e encarava Leaf com um olhar triste e perdido, como se estivesse morrendo e precisasse se despedir da Pokémon, exatamente como no filme Lendas da... ok, eu tinha que parar de ver tantos filmes. Haila sorriu quando me viu e Leaf fez um barulho engraçado. Puxei a cadeira e me sentei ao lado da cama.

– Como está?

– Melhor, eu acho – a voz saiu rouca e estranha. – Sobre o que eu disse ontem – encarou o teto – por isso eu estava com pressa de deixar Castelia, havia cartazes de desaparecida com o meu rosto espalhados pela cidade. – Então era disso que Kean tinha falado. – Eu tive uma pequena discrepância de ideias com meus pais. Eles são criadores de Eevee, esse era o meu destino. Ficar eternamente em Nuvema cuidando deles – a despeito do que eu imaginara, não havia raiva, apenas melancolia. – Jaden foi o primeiro a se voltar contra nossos pais, mas ele foi corajoso e saiu de cara limpa. Já eu, não fui tão forte assim.

– Então você fugiu por que não concordava com o que seus pais planejaram para o seu futuro?

– Você pode colocar a questão assim se quiser – me encarou com aqueles olhos grandes e azuis – mas não fique pensando que eu sou alguma delinquente ou algo do gênero, só fiz isso porque não haveria jeito de convencê-los.

– Eu invejo você – fitei o chão – queria ter tido toda essa coragem – senti o olhar confuso sobre mim e minhas mãos agarraram a beirada da bermuda – toda minha vida foi planejada pela minha mãe, mas por mais que eu reclamasse, eu nunca verdadeiramente me opus. Eu sou um fraco. – Haila parecia surpresa com minha reação, mas eu estava sendo sincero. Tudo o que eu fizera era se deixar ser arrastado pelos caprichos de Adizia, nunca tive voz para nada, vontade para nada, escolha de nada. Eu poderia culpar qualquer um, mas a culpa era apenas minha, que nunca tinha feito o menor esforço para seguir o que desejava. Embora, eu não me lembrasse de ter desejado nada com tal afinco, ainda assim inveja Haila.

Haila não disse nada e eu também não, ficamos naquela situação no que me pareceu durar a eternidade e quando finalmente senti que deveria dizer algo para quebrar o clima estranho meu Xtransceiver emitiu um sinal. Encarei o dispositivo e vi que tinha um ponto de sinal na antena, era a primeira vez que isso acontecia desde que saímos de Castelia.

Em poucos segundo o dispositivo começou a apitar desesperadamente, informando todas as ligações perdidas que eu tinha recebido enquanto estávamos no deserto. Havia uma de Cassie, várias de um número desconhecido que imaginei ser Tom e uma infinidade da minha mãe, o que era estranho, já que ela não ligara nenhuma vez enquanto estava em Castelia.

– Seu amigo é bem insistente – mostrei a tela do dispositivo para Haila. Ela assumiu uma expressão indecifrável.

– Ele deve imaginar que eu ainda estava em Castelia – disse dando de ombros.

– Por quê? Você não o avisou de que nós iriamos...? – Não, ela não tinha avisado.

– Mas você é muito mais popular do que eu – debochou, fazendo menção as ligações da minha mãe. E do nada, o Xtransceiver começou a tocar. Virei a tela para mim e pude ver a palavra ‘mãe’ piscando. Eu não queria atender, mas acabei fazendo.

– December Christmas Hanks! – Ela estava furiosa – Por que não atendeu antes?

– Aconteceram umas coisas e meu Xtransceiver ficou sem sinal.

– Sei – ela não parecia ter acreditado nem um pouco – Espero que isso não seja uma desculpa por envergonhar nossa família – Inclinei a cabeça, sem entender – Você apareceu no jornal, seu moleque – e chacoalhou o periódico diante do dispositivo.

– O que eu fiz?

– December Hanks, filho da famosa coordenadora Adizia Charleston, é suspeito de um atentado contra o dono de uma lanchonete em Castelia City. Quer que eu continue? – E lançou aquele maldito olhar irônico que eu detestava.

– Quê? Mas eu não fiz nada disso...

– Mas você é a nova celebridade da coluna de fofocas, como o filho rebelde de uma personalidade. Não sei o que você andou fazendo, mas sujou nosso nome. – E minha mãe levava muito a sério esse lance do nome.

– Mas eu dei meu depoimento para a polícia, eles disseram que estava tudo bem.

– Então, você esteve envolvido nessa história?

– De certa forma... – podia ver Haila se contendo para não rir da minha desgraça, ao menos não escandalosamente o suficiente. Só que ela não conseguiu e o riso, que saiu parecendo um chamado do inferno por causa da garganta inflamada, chamou a atenção da minha mãe.

– Quem é está ai com você?

– Haila, é minha amiga – virei o dispositivo de forma que enquadrasse os dois. Haila pareceu um pouco constrangida de estar diante da grande Adizia Charleston, mas isso não durou nem um segundo porque minha mãe arruinou tudo.

– É por causa dessazinha que você não me liga mais? Arranjou uma namoradinha e se esqueceu da família? É ela que anda te colocando em problemas? – Se Haila estivesse cem por cento acho teria respondido algo atravessado, mas se restringiu a fechar a cara.

– Mãe, não começa. Nós somos amigos, ela até me ajudou em Contest... – e me arrependi imediatamente de ter dito tal palavra. Os olhos da mulher se iluminaram.

– Você andou participando de um Contest? Meu bebê está crescendo tão depressa – Minha mãe assumiu um ar sonhador e Haila começou a rir de novo. – Então essa mocinha anda te incentivando, é? – Como a opinião dela mudava rápido.

– Eu sou a orientadora dele, é... isso, algo parecido com isso – Haila explicou sem muita certeza.

– Fico tão feliz que alguém tenha levado meu filho para o caminho correto. Ele é tão duro com as coisas que eu falo, mas se você o está ajudando isso é ótimo – Haila me olhou de canto, confusa com a brusca mudança de comportamento da mulher. – E como você foi no Contest? Ganhou? Você não usou aquele seu Tepig, não é? – Revirei os olhos, eu não queria falar sobre isso, nem sobre ter pegado um Riolu, nem sobre nada, na verdade. Ela estava ficando muito empolgada e isso me desanimava completamente.

– Mãe, preciso desligar agora – e antes que ela pudesse dizer algo, desliguei. Haila me encarava.

– Sua mãe é meio... estranha, não? – Sim, ela era.

=8=

O resto do dia correu sem nenhuma novidade, Haila queria partir, mas Tris disse que ela não estava totalmente recuperada e nos pediu mais um dia. Às vezes, seu olhar ficava inexplicavelmente triste, mas ela fingia estar bem. Não sabia se era pela doença, pela fuga ou por qualquer outro motivo, mas aquilo estava me deixando angustiado. Eu queria animá-la, mas não sabia como. Era péssimo com palavras, se tentasse dizer algo confortador, Haila usaria a força que tinha recuperado só para me matar.

Enquanto encarava Haila do outro lado da sala, Trapinch pulou no meu colo e começou a mastigar meu moletom. Por que ele tinha que tentar comer tudo o que via? Então me lembrei das flores da velhota. Não sabia muito sobre a Haila, mas talvez ela ficasse feliz em vê-las. A maioria das garotas gostava de flores no final das contas. Entretanto, eu não poderia levá-la lá fora, o que restava trazer as flores para ela. Obviamente a velha não me daria as flores de bom grado, de forma que eu teria que pegar algumas, sem permissão. Mas se tudo saísse como planejado, ela nem perceberia que faltava algumas no dia seguinte.

Pedi licença a Tris e disse que daria uma saidinha, ela me encarou estranho, mas não disse nada. Haila já tinha apagado no sofá, com Leaf no colo, enquanto via um programa de variedades com o senhor Arthur e nem me viu sair.

O vilarejo estava iluminado pela luz da lua e não demorei a achar a casa da velha. A variedade de flores era enorme, Trapinch pulou do meu colo e correu em direção as flores azuis, devorando-as como se fossem um manjar. Fiquei pensando quais Haila gostaria e o mais discretamente que pude, comecei a colhê-las. O problema é que eu não contava que a velha matinha um cão de guarda no jardim, e antes que eu pudesse juntar um número suficiente, um Stouland apareceu. E meu plano de passar despercebido foi por água abaixo.

O bicho parecia ainda mais furioso do que a velha e avançou na minha direção fazendo uma barulheira dos diabos. Só tive tempo de pegar Trapinch com uma das mãos e desviar. O Pokémon caiu no meio do canteiro e pétalas voaram para todo lado. Ele se levantou e veio na minha direção novamente. Desta vez não daria para fugir. Do jeito que deu, com o Trapinch em uma das mãos e as flores na outra, peguei uma pokéball qualquer e libertei o monstrinho. Para meu azar, ou para o azar do Stouland, era Peach. Ela nem se importou comigo, correu direto para o bicho, os dois colidiram em uma cabeçada violenta e recuaram. Ficaram se encarando sob a luz do luar, então Peach avançou novamente, sem esperar o bicho se recompor plenamente e deu uma mordida no pescoço que o fez ganir tão alto que a velhota surgiu na porta. Só tive tempo de chamá-la de volta e descer a rua aos tropeços, antes que o Stouland se recuperasse e viesse atrás de mim.

Quando finalmente cheguei a casa, todos já estavam dormindo, Haila tinha voltado para o quarto e o lugar estava em completo silêncio. Me sentei no chão da sala, com as flores que recolhera, tentando impedir que Trapinch as comesse. Boa parte delas estava amassada e desfolhada e eu não tinha pegado muitas. Não daria para fazer um arranjo, mas eu poderia fazer outra coisa.

=8=

Haila acordou muito melhor, estava corada e sem febre. Ela encarou Leaf sobre seu colo que trazia um laço adornado com algumas flores preso em um das orelhas, ela curvou a sobrancelha sem entender, mas antes que pudesse questionar o que tinha acontecido, percebeu que ela também trazia um enfeite de flores, uma tiara com flores vermelhas e amarelas, amarradas umas as outras.

– O que é isso? – Questionou tirando o enfeite da cabeça e me encarando. Eu estava encostado no batente da porta do quarto, morrendo de sono, eu tinha gastado a noite toda tentando fazer os enfeites para ela e sua parceira.

– Achei que faria você se sentir melhor – respondi sem jeito. Eu achei que ela ficaria feliz, mas ela parecia chocada.

– Onde arranjou isso? – Ela girava o enfeite.

– Eu que fiz. – Sim, eu tinha boas habilidades manuais com esse tipo de coisa. Parte da minha educação tinha sido voltada para me tornar coordenador, então eu tinha noções de corte, costura, arranjos e enfeites. Coisas da minha mãe. Não tinha ficado verdadeiramente bonito, eu não praticava fazia tempo, mas achei que poderia melhorar o ânimo de Haila que parecia melancólica no dia anterior.

– Você sabe fazer essas coisas? – Ela estava descrente. Enquanto me encarava, pude ver Trapinch trepar na cama e tentar comer as flores do laço de Leaf, que afastava o bicho com a pata. – Por que não disse antes?

– Achei que você riria de um cara que sabe costurar um vestido, mas não sabe andar de bicicleta – eu deveria ser muito ingênuo para ter tecido tal comentário.

– Você não sabe andar de bicicleta? – Haila começou a rir tão escandalosamente que a senhora Tris apareceu na porta do quarto para ver o que estava acontecendo e empalideceu subitamente ao reconhecer de onde eram as flores dos arranjos.

Quando ela finalmente conseguiu se controlar da crise de riso, tomamos café da manhã e fizemos os últimos arranjos para a viagem. Eu queria esperar até ela estar totalmente recuperada, mas Haila alegou que já estava ficando entediada de só descansar.

Teríamos meio dia de viagem até Nimbasa City, o que não me animava nada, mas quando já estávamos de saída, a senhora Tris apareceu com três pokéball e liberou os Rhyhorn contidos nelas. De acordo com a mulher, a viagem seria mais rápida e prazerosa desse jeito e ela nos acompanharia parte do caminho.

A viagem foi bem mais sossegada, apesar do calor do deserto, avançávamos rápido. A senhora Tris estava montada em um grande Rhyhorn e nós a seguíamos, montados em dois menores.

– Afinal, o que vai fazer com esse Trapinch? – Haila manobrou o Pokémon e se aproximou do meu. Ela ainda usava a tiara, e isso me deixava feliz. Embora não tivesse dito nada a respeito, nenhum elogio ou agradecimento, o que feria meu ego.

– Não sei – encarei o bicho aninhado no meu colo. – Talvez eu deva ficar com ele afinal. – Haila revirou os olhos como se a resposta não pudesse ser mais óbvia. – Eu até pensei em um nome para ele.

– É mesmo? Qual?

– Abóbora – falei enfaticamente, mas ela me encarou com uma cara duvidosa. – Durante o Halloween, minha mãe sempre decora a casa. Meu pai tentou ajudá-la no ano passado e confeccionou as abóboras, mas não ficaram tão boas quanto as da minha mãe. A cara ficou parecida com a desse camaradinha – levantei-o nos braços e encarei a carinha miúda e engraçada. Ele fez um barulho engraçado e parecia feliz.

– Eu tenho pena dos seus Pokémon – resmungou encarando o caminho. Eu não entendi exatamente por que ela tinha dito isso e achei melhor não perguntar.

Avançamos mais um pouco em silêncio, apenas o barulho da areia sendo pisoteada pelos grandes Pokémon. Então Haila me chamou novamente.

– Ei! – Quando olhei para ela, o semblante estava sério – obrigada por se preocupar – A voz saiu indiferente, mas aquela era o jeito da Haila e eu sabia que ela estava realmente agradecida.

– Eu sou quem tem que te agradecer – ela curvou as sobrancelhas interrogativamente – por me deixar ser seu amigo. – E eu realmente estava muito feliz de ter Haila comigo. Pela primeira vez, me sentia como as outras crianças de Aspertia, que os pais comentavam orgulhosos sobre suas jornadas. Era estranho porque sempre achei que não me importaria em ter tais aventuras, que seria mais feliz vivendo sempre em Asperita, mas agora, eu tinha certo carinho por tudo que tinha vivido e pelas pessoas que tinha conhecido, ok, talvez não pelo Kean.

As maçãs do rosto de Haila coraram e ela o virou, encarando o horizonte, onde já era possível ver alguns prédios de Nimbasa. Pouco depois do almoço, atravessamos a placa que demarcava os limites de cidade. Tris saltou do seu Rhyhorn e nos desejou sorte em nossa viagem, deu alguns conselhos, entre eles a não ficar roubando coisas por ai e Haila me encarou sem entender. Então se despediu, chamou dois Rhyhorn de volta e montada no terceiro, voltou para casa.

Nimbasa era enorme, talvez não tanto quanto Castelia, mas parecia mais viva, mais colorida, mais interessante. Antes mesmo de chegarmos às ruas principais, o fluxo de pessoas já era intenso, e finalmente decidi colocar Abóbora em uma pokéball, antes que o perdesse na multidão. Ali podíamos ver vários cartazes sobre o Contest colados nos postes, faixas sobre um show de uma banda (que, aliás, era a banda da Roxie), murais sobre uma peça de teatro badalada e outros eventos culturais que eu nem sabia o que eram.

Apesar da minha birra em aceitar ser coordenador, eu estava começando a ficar animado com a ideia de participar do torneio e quem sabe ganhar minha primeira fita. Haila caminhava ao meu lado, a tiara na cabeça e os olhos atentos, presumo a procura de algum cartaz de desaparecida em meio a toda aquela poluição visual que eram as paredes da cidade.

– Ei! – Haila chamou de repente, e eu achei que tivesse achando algum cartaz de procurada, mas quando busquei seu rosto, ela me encarava com os lábios torcidos. – Que história é essa de roubo?

Notas finais
N/T: Engraçado que na maioria das minhas fics sempre tem notas finais explicativas. Como falando da cultura, origem dos nomes e tal. Mas aqui nunca fiz isso. Cometem, reclamem, sambem na nossa cara (nem tanto) sugestões, dicas de melhoras, tudo que possa contribuir para a fic é sempre bem-vindo.