Rota Zero
62 Antes da Hora Seguinte
Notas iniciais
December
ANTES DA HORA SEGUINTE
Já era quase fim de tarde quando finalmente consegui sair da reunião no ginásio de Nimbasa. O ticket que Alanna me dera no bolso e a cabeça cheia de informações que eu não sabia realmente como usar.
Cheren tinha me dito que mais dois ataques tinham ocorrido em um bairro residencial nobre de Nimbasa. Imitadores. Usavam vestes pretas, similares a Team Plasma, pregavam os conceitos de liberdade, mas só o faziam para invadir casas e roubar joias. A policia local andava bem irritada com esse tipo de ação, já que toda vez que o nome da Team Plasma era citada, eles moviam uma força policial expressiva para resolver o caso e no final, se deparavam apenas com um bandido pé de chinelo.
Talvez Grimsley não estivesse errado em suspeitar de imitadores, mas não fazia sentido. Imitadores apenas cometiam pequenos delitos, se eles tiverem roubado o Museu seria compreensível, mas por que levar Lenora?
As ruas não estavam muito movimentadas e aproveitei para libertar Abóbora. Ele pareceu feliz em por suas patinhas no calçamento empoeirado e expressou isso mordendo meus cadarços. Haila estava treinando com o resto do meu time, de forma que apenas Abóbora ficava de fora, por que segundo ela, ele se divertia mordendo as caudas de Leaf e Marsh e acabava atrapalhando o treinamento.
A rua por onde seguia era quente e sem sombras, então virei em uma viela, fugindo do sol forte do meio da tarde, entrando em uma rua menor, menos movimentada e com grandes árvores e sombras compridas que se estendiam contra o sol.
Pelo que eu ouvira da conversa entre Elesa e Shauntal antes de sair do ginásio, N estava preso e cooperando, mas não sabia nada sobre o pai, Lenora ou a Team Plasma. Ou ele era muito inocente ou um bom mentiroso, mas eu não o conhecia para saber qual das opções se encaixava.
Alanna tinha dito que ele tinha um tipo de dom, que o sintonizava com os Pokémon, algo parecido com um Memory, mas mais intenso. Se ele ainda estivesse trabalhando com a Team Plasma, ele poderia usar essa habilidade para pedir que os lendários convencessem os outros Pókemon a lutar pela liberdade. Ao menos, fazia sentido para mim, ter lendários como “garotos propaganda”, afinal, quem mais livres do que eles?
Estava quase chegando ao final da rua quando um Raticate pulou diante de Abóbora, exibindo as grandes presas, com o pelo todo ouriçado. Na verdade, não foi bem um pulo, foi mais um esbarrão porque os dois se embolaram e caíram no chão. Meu Trapinch deu um gritinho assustado e parecia incerto do que fazer, mas antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, um cara, maior do que eu, esbarrou em mim e fomos os dois para o chão.
Ele parecia vir correndo de uma rua adjacente, mais prestando a atenção ao que estava em seu encalço do que no movimento da rua. Só quando estávamos no chão vi que ele trajava o uniforme da Team Plasma.
Senti o medo tomar conta de mim, eu só estava com Abóbora e tinha me deparado com um Team Plasma, qualquer coisa que ele fizesse, eu não teria como reagir.
— Liberte seus Pokémon, em nome da Team Plasma – disse enquanto se levantava apressadamente e apontava uma arma na minha direção. A voz saiu acelerada e tremida e aquilo soou demagogicamente brega. Reparei que as cores do broche preso à roupa estavam erradas. Ótimo, um imitador.
E ele não deveria ter muita experiência, porque a arma na mão balançava mais que as árvores ao vento.
— Você não me ouviu? – Vociferou através da máscara. – Entregue seus Pokémon e o seu dinheiro. – Apesar da arma apontada para mim, ele espiava a todo momento sobre o ombro e com um comando que mais parecia um grunhido mandou seu Raticate se recompor.
— Dinheiro? – Eu não tinha certeza se deveria levantar meus braços como em um assalto comum, eu ainda estava caído na calçada e tentava espiar pelo canto dos olhos o estado de Abóbora.
— Sim, ou acha que o paraíso Pokémon se constrói de graça...
Fazia sentido, mas eu nunca tinha ouvido falar da verdadeira Team Plasma roubar dinheiro, ao menos não dessa forma. Não fazia ideia de como eles conseguiam fundos, mas com certeza, não era roubando treinadores por ai.
— Eu... – Não fazia ideia do que fazer. Eu tinha só um pouco de dinheiro, o resto ficara no hotel e eu só tinha Abóbora, não poderia nem reagir.
— Então você não vai colaborar – ele parecia irritado. – Muito bem, Raticate.
E sem que eu realmente pudesse fazer nada para impedir, o bicho pulou sobre Abóbora e deu uma mordida dolorosa na lateral da cabeça. O pequeno deu um guincho pavoroso e sangue começou a escorrer pela face alaranjada a partir das fendas que os dentes de Raticate, ainda presos na cabeça dele abriram.
— O que você está fazendo, ele é só um bebê – tentei me impor entre os dois Pokémon, mas o sujeito apontou a arma na minha cabeça, enfiando o cano no meio do meu cabelo colorido.
— Eu não me importo, apenas passe o dinheiro.
— Mas você não luta pela liberdade dos Pokémon – minha voz estava alta e desesperada. – Por favor, solte ele – apelei diretamente ao Raticate, mas pude ver que ele não estava incomodado com o que fazia, os guinchos de Abóbora, desesperados, pareciam diverti-los.
Roxie tinha razão ao dizer que Haila e eu ainda tínhamos muito a aprender sobre Pokémon.
=8=
Era nosso oitavo dia em Nimbasa, e achei que Haila fosse pirar. Ela tinha arrumado aquela confusão com Grimsley no dia anterior e algumas horas atrás tinha discutido com Elesa.
Era o segundo dia de reuniões e lá estávamos novamente, Haila e eu, acompanhando Roxie. O mesmo grupo do dia anterior estava lá, exceto por um detalhe, desta vez Clay também estava e não pareceu nada feliz em ver Haila ladeando a líder de Virbank.
A líder local tinha relatado rapidamente informações que conseguira com Skyla, que estava em Iccirus City, e apesar de tudo não era nada realmente animador. Havia alguma movimentação por lá, mas nada que realmente provasse ser a Team Plasma. Após isso, ela fez um apanhado do dia anterior, para situar Clay e resolveu delegar as funções que conseguia.
Cheren estava sentado ao lado de Burgh e exibia uma marca e um inchaço no lábio, cortesia de Haila. Só poderia imaginar que ele ficaria com uma cicatriz, como aconteceu com Clarice.
Vez ou outra, pegava Haila encarando Burgh, mas sempre que ele recebia um olhar muito incisivo da garota, desviava e puxava qualquer assunto com Cheren ou Alanna, que estava acomodada do outro lado.
— Eu estou com os arquivos dos outros poemas que Lenora transcreveu, mas a interpretação deles ainda não está completa. Ela estava fazendo estudos de semiótica, história e geografia para cruzar as informações, entretanto, tudo está pela metade – Elesa pontuou, marcando até onde suas pesquisas com a ex-lider tinham avançado.
— Isso significa que não temos por onde começar – Clay disse presunçoso. – Está reunião é uma perda de tempo.
— Eu fui para Undella apenas com pistas – Roxie respondeu atravessado. – Não acho que isso seja desperdício de tempo. Profecias não são mapas de GPS, não haveria uma localização exata mesmo se Lenora tivesse completado os estudos.
— Então você quer que a gente saia por ai, correndo atrás de ilusões e deixando nossas cidades a mercê, Emolguinha? – A pergunta foi endereçada diretamente a Elesa e a vi crispar o nariz ao ouvir o apelido.
— De que vai adiantar ficar encasulado em sua própria cidade quando a Team Plasma tiver todos os lendários? – Rebateu.
— Nem sabemos se eles vão chegar nesse ponto – ele ergueu a voz.
— Das outras vezes eles conseguiram o lendário que buscavam – Roxie voltou a palavra para si.
— E foram derrotados por um moleque que mal tinha todas as insígnias – havia um misto de contentamento e rancor e eu não soube exatamente o porquê daquilo, eu não sabia quase nada sobre a Team Plasma do passado e muito menos sobre Clay.
— Se Zekron escolheu Hilbert como seu treinador não há nada que possamos fazer. – Cheren disse encarando o líder.
— Então por que você não pede para o seu amigo salvar o dia novamente? – Clay provocou.
— Hilbert não está em Unova nesse momento e mesmo que estivesse, isso é um problema que os líderes de ginásio e a polícia tem que resolver, ele é apenas um civil. – Havia algo de saudosista na voz do líder de Aspertia, como se ele conhecesse bem o tal Hilbert.
— Está dizendo que se ele estivesse aqui não iriamos usar a força de batalha dele? – O velho arqueou as sobrancelhas cabeludas e elas quase sumiram embaixo da aba do chapéu enterrado na cabeça.
— Estou dizendo que temos que nos virar, independente da ajuda dele... – a voz de Cheren foi ficando mais alta e ele parecia querer voar no pescoço de Clay, exatamente como tinha acontecido em sua discussão com Alder. Aparentemente, Marlon estava certo sobre ele não se dar bem com a maioria dos líderes.
— Chega dessa conversa – Elesa cortou. – Cheren está certo, temos que andar com as nossas próprias pernas.
— Eu não pretendo deixar Driftveil para ficar caçando borboletas... Além disso, vocês dão muitos créditos a Team Plasma. Eles não foram um páreo tão duro de derrubar.
— Você está negligenciado a situação – Elesa começou e parecia tão furiosa quanto Cheren. – Não estamos dando créditos desmedidos, da última vez precisamos unir nossas forças para conseguir impedir o avanço da Team Plasma. Desta vez eles voltaram muito mais violentos, não podemos ignorar todo ataque que sofremos e esperar que a salvação caia do céu.
— Eu já disse que não vou atrás de lendário algum, ainda mais com essas incertezas... – disse dando um soco no próprio joelho. Elesa abriu a boca para contra argumentar, mas uma voz a cortou.
— Nós vamos – era Haila. – Deedee e eu podemos ir atrás dos lendários.
— Haila – e vi que a voz da líder assumiu um tom cansado, como se fosse ingressar no mesmo discurso. – Eu já disse que não quero envolver civis na luta contra a Team Plasma.
— Mas não estou falando de Team Plasma – a garota falou com convicção. – Estou falando dos lendários. Se há muitas possibilidades e poucas pessoas vocês não vao conseguir cobrir todas. Nós podemos investigar e se encontrarmos algo suspeito, chamamos vocês...
A ideia não era ruim e tinha bastante sentido, como acontecera com as pistas de Roxie, ela teve que cobrir boa parte do litoral e delegar a mesma função para Burgh e o pai. Qualquer um deles poderia ter encontrado Keldeo, já que a localização não era exata.
Pela primeira vez, vi Elesa ponderar nossa participação. Ela era veemente contra o envolvimento de civis, mas dado o número reduzido de líderes, polícia e rangers, somando o fato que muitos deles não podiam ou não queriam ajudar, parecíamos uma ideia atrativa.
Era verdade que se dependesse de Haila, ela iria atrás de Lenora, mas aparentemente qualquer coisa que ocupasse seus pensamentos além dos treinos diários com os Pokémon parecia suficiente para ela.
— E o que vai fazer se encontrar um lendário, desabar uma caverna na cabeça dele? – Clay provocou e Haila que parecia animada e confiante fechou a cara.
— Aquilo já foi resolvido – se resumiu a responder, mas Clay não pareceu satisfeito.
— Claro, claro, um acidente – havia muita ironia na voz. – Bem, se você usar aquele monstro que você chama de Pokémon para matar todos os lendários a Team Plasma não terá mais objetivos – Um sorriso adornou os lábios enrugados.
— Ao menos vou estar fazendo alguma coisa, do que ficar escondido como uma velha medrosa enquanto a Team Plasma domina Unova e sequestra Lenora – ela cruzou os braços sobre o peito, mas percebi que as palavras ácidas, principalmente referentes ao Serpio haviam atingido o ponto.
— Então a Pidovezinha se acha a salvadora do mundo – riu com escarnio. – Caia na real garota – ele se levantou. – Nem mesmo Skyla achou que você está pronta para algo que não seja voltar para casa com o rabo entre as pernas. Não venha falar com alguém que tem anos de experiência.
Eu estava torcendo para Haila ficar quieta, mostrar superioridade e se manter bem as vistas de Elesa, mas era Haila e ela não levava desaforo para casa.
— Anos de experiência que você usa para o quê? Ficar dando apelidos ridículos para as mulheres e engordar essa pança.
E pronto, o estrago estava feito, em segundos, a discussão acalorada ficou mais quente que o fogo do inferno e Elesa teve que intervir. Haila estava no embalo com as ofensas disparadas a rodo e sobrou até para a líder elétrica que ouviu um “se achar a líder, mas é uma inútil que quer tapar o sol com a peneira sobre o sequestro de Lenora”. Resumindo, Haila foi expulsa novamente e Elesa deixou claro que não queria vê-la pelos próximos dias.
Quando Roxie chegou ao hotel, no final da tarde, estava cansada e nada feliz. Achei que choveria criticas para cima da Haila, mas ela parecia extremamente desgostosa de ter passado a tarde toda na companhia de Clay. Ela mal falou conosco e foi direto para o banho.
Estávamos no mesmo quarto que Roxie estivera hospedada em sua última estádia em Nimbasa, mas ela tinha obrigado a gerência a colocar mais duas camas, para mim e Haila. Ela poderia pegar outro quatro com as três camas, mas deixou claro que queria aquele, e o hotel acatou, coisas de rockstar e suas excentricidades ouvi as camareiras dizendo entre uma limpeza e outra. Roxie não parecia se importar com o deboche. Para ela, ficarmos juntos havia se tornado uma questão de segurança e sobrevivência e mesmo que ela alardeasse não gostar do papel de nossa babá, o fazia instintivamente.
Deerling e Couve-Flor corriam por um minúsculo jardim de inverno, se exercitando. Era um treino leve, apenas para checar suas condições. Leaf deveria estar fazendo o mesmo, mas estava dormindo na cama de Haila, ou tentando, já que Abóbora escalava a beirada da cama só para mordiscar sua cauda folhosa.
Diariamente Haila soltava o trio, ajudando-os em suas reabilitações, mas naquele final de tarde em específico, ela parecia querer soltar seus Pokémon para cima de Clay e não duvidava também para cima de Elesa, por simplesmente tê-la expulsado. Ela transitava entre grandes períodos de silêncio, alterando com resmungos aleatórios, até começar a xingar todo mundo que começava na Elesa, passava por Grimsley, ficavam mais intensos ao falar de Clay e terminava na Team Plasma.
— Você deveria dar uma olhada em Serperior também – Roxie comentou, saindo do chuveiro, apenas enrolada no robe do hotel.
Desde os acontecimentos em Black City, Haila não soltara a cobra esverdeada. Na verdade, eu meio que me acostumara ao bicho não ver muito a luz do dia dado seu comportamento, mas Haila andava reagindo estranho toda vez que o nome do monstrinho era mencionado.
Eu não tinha muita certeza do que havia acontecido da última vez que Haila o libertara, havia muita fumaça, gritos e coisas acontecendo. Eu vira Serpio em ação, mas não tinha muita certeza de como isso tinha se desenrolado.
— Ele está bem – a loira respondeu mecanicamente enquanto retornava Couve-Flor e Deerling para as Pokéball.
— Haila!
As duas trocaram um olhar significativo que eu não entendi, quase como se elas dividissem um segredo que eu desconhecia. Então, Haila atirou a Pokéball no centro do jardim e o bicho apareceu majestoso, com uma grande mancha de sangue seco no dorso.
— Haila, ele está machucado? – Gaguejei.
— Não é dele – respondeu exasperada.
— Ele machucou alguém? – Perguntei me lembrando do cara na caverna em Seaside.
— Não apenas – disse sombriamente.
Eu não sabia o que Serpio tinha feito, mas pela resposta de Haila, ele tinha passado dos limites.
— Eu achei que estava tudo bem em compactuar com essa situação – ela disse enquanto o via se enrolar entre as plantas baixas do jardim de inverno. – Mas sei que isso não é correto. – A voz dela parecia melancólica e triste. Eu não sabia exatamente a que situação ela se referia.
— Não é sua culpa, Haila – Roxie disse enquanto secava os cabelos.
— Claro que é, se ele me obedecesse – se abaixou, abraçando os próprios joelhos. – No final, aquele velho idiota está certo. Serpio é uma ameaça e eu não posso controlá-lo.
— E aquele Fearow que enfrentou não era obediente? – A líder perguntou casualmente.
— Sim, muito – Haila respondeu.
— E se Serpio não estivesse lá, ele obedientemente não teria nos matado? – Haila encarou a líder como se ela tivesse dito algo muito estranho. – Sei que você está considerando o que aconteceu pelo fato de não ter controle de Serpio, mas Pokémon obedientes também podem fazer isso.
— A questão não é essa, eu não ligo se aquele da Team Plasma treinou o Pokémon dele desse jeito, eu...
— Não é uma questão de treinamento, mas de instinto, índole, julgamento, chame como quiser... Se você pedisse para Leaf matar um Pokémon durante uma batalha, ela faria?
Haila desviou o olhar para a parceira esparramada na cama que tentava manter sua cauda a salvo de Abóbora. Provavelmente não, mesmo sendo bem treinada e leal a Haila, dificilmente ela o faria. Tinha se negado a obedecer Haila no ataque a Skyla, menos ainda matar um Pokémon.
— É do instinto do Serpio ser assim – a líder prosseguiu. – Por mais que você o treine e o domestique, essa é a essência dele.
— Um assassino – Haila disse com certo desprezo.
— Um lutador – Roxie corrigiu. – É o instinto dele fazer o que for necessário para manter as coisas seguras... Com treino você pode minimizar esse comportamento violento, mas nunca vai extrair isso dele.
— Então você está dizendo que tenho que me conformar que toda vez que colocar ele em campo, o rastro vai ser uma pilha de cadáveres?
— Claro que não, como eu disse, você pode treiná-lo para minimizar esse comportamento, para que ele naturalmente saiba a hora de parar. Você só precisa orientar o instinto de proteção dele.
— Instinto de proteção? – Ela encarou o Pokémon que refestelava na gramínea.
— Quando ele te atacou a primeira vez, ele estava defendendo território. Durante os ataques da Team Plasma, as duas vezes, ele estava defendendo você, então sim, ele gosta de você, a propriedade que ele precisa cuidar...
— Talvez – a garota cruzou os braços pensativa. – E quanto ao Clay? E a Deerling?
— Não posso dizer sobre o Clay porque você não me deu muitos detalhes sobre isso, mas a Deerling... Ele poderia estar defendendo o acampamento. Vocês estavam no meio do nada, ele pode ter considerado a Pokémon uma ameaça.
— Achei que Deerling era só um lanchinho noturno – e Haila me deu um soco no braço após o comentário.
— Mesmo se você arranjasse outro Serperior hoje, ele seria muito diferente de Serpio, mesmo que tivesse os mesmos golpes. Isso porque suas naturezas seriam diferentes e isso é algo muito importante levar em conta durante um treinamento – Roxie explicou. – Vocês estão em jornada faz muito tempo, deveriam saber disso. – Complementou sisuda.
— E quando ao que aconteceu em Black City?
— Pode soar frio, mas considere um efeito colateral. Estamos em guerra, não dá para ser politicamente correto em situações assim. O membro da Team Plasma sabia dos riscos...
— E o Fearow?
— Pokémon desobedecem quando não sentem segurança na ideologia de seus treinadores, e os seguem cegamente quando confiam. Simples assim. – O que significava que para aquele Fearow pouco importava nosso destino e que ele concordava com os ideais de seu treinador.
Haila encarou Serpio novamente. Ela analisou as manchas de sangue seco e as novas cicatrizes que seu parceiro conquistara. Não sorriu, mas pude perceber que seu semblante estava bem mais suave.
=8=
Eu podia ver os olhinhos de Abóbora marejados enquanto gemia de dor. O Raticate parecia gostar dessa situação de dominação. Roxie estava certa, a natureza de um Pokémon influenciava tanto quanto um bom treinamento.
Precisava fazer algo, enfiar as mãos entre eles era certeza de que, no mínimo eu tomaria uma mordida bem dolorosa e na pior hipótese tomaria um tiro. Mas eu precisava fazer algo.
Antes das minhas mãos deslizarem entre as duas criaturas, ouvi barulho de passos acelerados e o falso Team Plasma espiou sobre o ombro.
— Vamos embora – gritou desesperado para o parceiro. Ele parecia preocupado e nervoso com aquela movimentação e parecia ter se esquecido completamente de mim.
Pelo pavor que ele exprimia talvez fosse um policial em perseguição, mas quando finalmente vi um vulto surgir da rua adjacente, mal tive tempo de identificar. Um raio brilhante surgiu arremessando o Raticate contra uma árvore. O caule balançou e as folhas farfalharam enquanto o falso Team Plasma tirava a arma da minha cabeça e apontava adiante.
Um homem de meia idade vinha descendo a rua e quando finalmente avistou o membro da Team Plasma, reduziu o passo como se fizesse um passeio. Poucos metros à frente, um pequeno Aipom sorria e agitava sua cauda.
— Parado ai, velhote – gritou o sujeito. – Ou vai tomar bala.
— Devolva a minha carteira – pude ouvir o velho pedir. Na verdade, eu diria que foi mais um ordenar, a voz, mesmo distante, saiu alta e cheia de controle e dominação.
Puxei Abóbora no colo e tapei o ferimento da cabeça com a mão, me levantei apressadamente, me arrastando para trás de uma árvore.
O rapaz virou-se para o velho e apontou a arma. O homem continuou se aproximando, sem se importar com o cano trêmulo que apontava para seu peito.
— Seja esperto, velhote. Vale a pena morrer por causa de uma carteira?
— Você é que deveria ter sido esperto e não ter mexido com alguém como eu. – Ele fez um gesto com a mão e o macaco roxo deu um pulo e um sorrisinho animado. Então correu na minha direção, saltou sobre mim e atingiu o bandido com um chute no queixo.
O cara apertou o gatilho da arma, mas só produziu um ruído estranho, então tombou para trás desacordado. O homem se aproximou, espiou o cara caído e chutou a arma de lado.
— Maldito marginais, nem para ser uma arma de verdade – resmungou.
Sério que eu estava sendo assaltado por uma arma de brinquedo? Bom, eu entendia muito pouco e com o medo eu não iria ficar analisando cada detalhe. Não sei o que era pior, ser um assaltante de mentira com uma arma de brinquedo ou ser salvo por homem de meia idade.
O homem então se abaixou e começou a revistar os bolsos do sujeito até finalmente encontrar sua carteira. Abriu, conferiu os documentos e guardou-a no bolso do casaco.
— Muito obrigado por me ajudar, senhor – agradeci ao sair de trás da árvore, com Abóbora no colo.
O homem me encarou demoradamente, como se não tivesse percebido a minha presença até então. Os olhos se fixaram no meu rosto e então deslizaram para meu cabelo chamativo e finalmente pousaram no pequeno Trapinch.
— Algum problema senhor? – Questionei ao perceber que ele me encarava demasiado, sem dizer nada.
— Oh – e deu um sorriso que não entendi – Como está?
— Bem, o senhor chegou exatamente na hora, como um herói – disse em um agradecimento exagerado. Mas se não fosse por ele, eu não saberia como me livrar do Raticate e salvar Abóbora.
— Herói? – Ele repetiu como se achasse graça. – Você precisa tomar cuidado, os dias de hoje já não são tão seguros e você chama muita a atenção – e percebi que ele ainda encarava minha cabeleira rosa. Sorri sem graça.
— De qualquer forma, o senhor foi muito corajoso em enfrentar um membro da Team Plasma sozinho – disse admirado.
— Era só um bandidinho de merda, a verdadeira Team Plasma não tem tempo para esses tipinhos – disse encarando o rapaz caído com desprezo. Ao perceber meu olhar sobre ele emendou. – Você não acha meu jovem, que uma organização criminosa que existe há tanto tempo seria feita de tipinhos como ele.
De certa forma, o homem tinha razão, a Team Plasma existia há quase dez anos, talvez mais. Realmente um grupo com toda essa longevidade não deveria ser feita de marginais que tinham medo de velhotes, mas considerando o que Aipom dele fizera com o Raticate que ainda estava apagado ao lado da árvore, eu também teria medo.
— Devemos ligar para a polícia? – Perguntei enquanto virara o Xtransceiver no braço.
— Não acho que isso seja necessário... – ele me encarava novamente.
— Mas ele tentou roubar o senhor, a polícia precisa prende-lo...
— Com as coisas que andam acontecendo, acho que a polícia tem mais preocupações do que com esse sujeito – o bandido estava tão apagado no chão que parecia morto. – Além disso, acho que dei uma boa lição nele.
— Mas... – eu concordava que polícia andava ocupada, mas seria imprudente deixar esse tipo na rua, mas não tivesse tempo de argumentar, meu Xtransceiver começou a tocar. – Haila? – Atendi ao ver seu nome piscando na telinha.
— Essa reunião não vai acabar nunca? – Esbravejou do outro lado da tela.
— Eu já estou indo, é que aconteceram coisas...
— Que coisas? Elesa te chutou? Ou Clay disse algo idiota de novo? – Bufou.
— Ele não estava lá hoje e... – percebi que o homem discretamente prestava atenção a nossa conversa, como as velhas fuxiqueiras que moravam próximas a minha casa em Aspertia e não podiam ver minha mãe conversando com alguém diferente, geralmente seu editor, que arrumavam coisas para fazer nas calçadas e espiar dentro da nossa coisa. Vai ver era uma coisa natural de gente velha. –Eu já estou chegando – mudei o rumo da conversa, me despedi e desliguei.
— Namorada? – Ele nem fez questão de fingir que não tinha ouvido.
— Amiga – respondi o mais polidamente que consegui tentando não dar prolongamento ao assunto. Não precisava que um desconhecido achasse que Haila e eu namorávamos.
— Bem, parece que você precisa ir andando – disse com um sorriso enrugado.
— E quanto a polícia? – Encarei o assaltante desmaiado.
— Como disse, não é necessário. E bem, apenas eu fui assaltado, então você não precisaria ficar, de qualquer forma.
— Mas...
— Além disso, Você tem mais com o que se preocupar, não? – Os olhos seguiram para Abóbora aninhado no meu colo.
Meu Trapinch estava encolhido no meu colo, a cabeça ainda sangrava e ele gemia vez ou outra, aquela mordida deveria estar doendo um bocado. Eu precisaria leva-lo ao Centro Pokémon, o que era mais um desvio nos meus planos com Haila.
— Sabe, não é muito esperto colocar um Pokemon tão jovem para batalhar.
— Ah, ele só estava me acompanhando. Na verdade, eu não pretendia reagir ao assalto só que... – era estranho, pois o velho parecia absorver cada palavra do que eu dizia como se fosse uma informação muito importante. Mas talvez fosse só o jeito de gente velha.
– Bem, de qualquer forma rapazinho, vá para o Centro, eu cuido do resto – e tentou sorriu daquela forma calorosa, como os adultos fazem com crianças, mas o deixou com uma expressão bastante engraçada.
— Tem certeza? – Meus olhos correram para o assaltante desmaiado e o Raticate inconsciente ao lado da árvore. O Aipom estava parado ao nosso lado, balançando a cauda. Ele parecia pequeno e inexperiente demais para ter derrubado um Raticate daquele tamanho e depois o bandido, mas talvez fosse bem treinado.
— Sim, sem problemas – ele balançou as mãos.
Não me alegrava muito deixar o caso resolvido daquela forma, ele não parecia muito animado em chamar a polícia, mas não me parecia ser uma má pessoa. Talvez, ele fosse tipo um justiceiro mascarado, mesmo estando sem máscara, nos filmes, esse tipo nunca gostava de se encontrar com a polícia, porque mesmo que deter bandidos fosse moralmente aceito, ainda era legalmente errado. Mas mesmo que o velho fosse algum tipo de justiceiro, não acho que ele me responderia se eu perguntasse.
— Aliás, seu nome é? – Perguntou antes que eu começasse a me afastar.
— Deedee – mas vi que ele me encarou estranhamente quando disse o apelido. – December Hanks – e eu estenderia minha mão se não precisasse segurar Abóbora.
— December – ele disse as sílabas pausadamente. – Eu não vou me esquecer. – Considerando o quão estranho meu nome era, dificilmente alguém se esquecia.
— E o senhor é?
— Dreidan – se apresentou cortês e teatralmente, como meu avô faria. O nome me soou familiar, mas deveria ser apenas pela similaridade com o nome do líder de Opelucid. – Tenha cuidado rapaz na volta para casa, as ruas andam muito perigosas. Mantenha-se seguro até nos vermos novamente.
— Acho que nunca mais vamos nos encontrar, senhor. Eu não sou natural de Nimbasa e já estou partindo em viagem.
— É mesmo? – As sobrancelhas se curvaram em curiosidade, realmente ele era uma velha fuxiqueira. – Bem, tenho certeza que nossos caminhos vão se cruzar novamente.
Eu não tinha tanta certeza, mas talvez ele fosse um velho solitário como o falso Ixia e ter um pouco de interação com alguém fosse o ponto alto do seu dia. Mas, eu realmente não me importava de reencontrá-lo no futuro, apesar de parecer excessivamente curioso, parecia uma pessoa boa e correta e com muita habilidade no treinamento de Pokémon, talvez eu pudesse aprender uma coisa ou duas. Só esperava que se o reencontro acontecesse, fosse em uma situação mais agradável.
Me despedi e desci a rua rapidamente. Eu precisava levar Abóbora para o Centro, mas meu encontro com Haila era em uma praça na metade do caminho. Demorei pouco mais de cinco minutos para chegar até lá e a encontrei no centro da praça, acompanhada de Desmond.
Ela trajava preto, como raramente a via usar e ele também vestia cores escuras. Chiclete, Leaf e Couve-Flor estavam fora das Pokéball, mas o resto do time já estava encapsulado.
— Por que demorou tanto... – ela começou vindo ao meu encontro, mas a frase morreu ao ver minha camiseta suja de sangue e o estado de Abóbora. – O que aconteceu?
— Eu fui assaltado – respondi automaticamente e ao ver os olhos dela se arregalarem expliquei. – Na verdade quase, era um Team Plasma, digo, um imitador, mas um senhor me salvou.
— Você está bem? – Desmond se uniu a nós.
— Sim – afirmei com a cabeça. – Abóbora foi atacado pelo Raticate do assaltante e eu preciso leva-lo ao Centro, mas, eu estou bem...
— E o cara que te salvou? – Haila perguntou desconfiada. Ela desconfiava até da própria sombra após os eventos de Black City.
— É um senhor, me parece gente boa. – Ela arqueou a sobrancelha como se aquilo não significasse nada e expliquei a eles toda a história do assalto.
Enquanto narrava sobre o Aipom feroz e o falso membro da Team Plasma, Des começou a vasculhar algo na mochila até achar um pequeno frasco de spray. Aplicou sobre o ferimento de Abóbora que se debateu nos meus braços, mas depois se acalmou.
— É só para aliviar a dor e parar o sangramento –disse guardando o frasco de volta na mochila e pegava uns esparadrapos. – Acho melhor mudarmos nossa rota e irmos ao Centro Pokémon primeiro. – Ele delicadamente cobria o ferimento e me parecia tão habilidoso quanto as enfermeiras do Centro, ele poderia seguir esse tipo de carreira caso a fotografia não desse certo.
Tínhamos encontrado Desmond por acaso no nosso terceiro dia em Nimbasa. A cidade tinha voltado ao seu ritmo e a paranoia de um novo ataque parecia ter diminuído. Haila se ocupava treinando nossos Pokémon em uma praça perto do hotel onde estávamos hospedados.
Ele tinha ido até a cidade tirar algumas fotos, as vezes a beleza está no meio da tragédia disse pensando na abordagem artística, mas Haila disse que seu comentário era bizarro e assustador. Ele estava hospedado em um hotel bem mais simples que o nosso, quase do outro lado da cidade.
Seus planos eram ficar apenas dois dias, mas como seu editor não tinha designado um novo trabalho, ainda mais depois dos ataques, ele acabou se dando férias e passava a maior parte do dia conosco.
De certa forma a presença de Desmond era muito positiva, ele parecia ter um dom para deixar Haila mais quieta e contida e com o tempo, o desejo inflamado de Haila ir atrás de Lenora cegamente foi diminuindo. Não que ela tivesse deixado de se preocupar com a veterana, mas parecia mais ciente de que suas ações não poderiam ser movidas pura e simplesmente pela emoção.
Embora tivéssemos prometido a Roxie não contar nada sobre os lendários, Haila acabou contando do Keldeo e nossos encontros com a Team Plasma. Desmond deu um muxoxo exagerado ao ouvir a narrativa dela e só podia imaginar o pesar que ele sentia por não poder ter fotografado tal Pokémon.
— O Centro é meio fora de mão – Haila disse pensativa enquanto olhava o sol que se punha rapidamente. – Se formos até lá, vai ficar meio tarde...
Eu sabia como ela se sentia, aquele era nosso dia em Nimbasa e finalmente visitaríamos o túmulo do Simi. Entretanto, a reunião se estendeu mais do que deveria e eu acabei atrasando toda nossa programação.
Se fossemos até o Centro antes, ficaria muito tarde e não conseguiríamos ir ao cemitério, mas eu também não queria deixar Abóbora naquele estado.
— Acha que ele pode aguentar mais um pouco? – Perguntei para Des que colocou a mão no queixo pensativo.
— Talvez, mas precisaríamos ser rápidos – disse sem muita certeza.
— Está tudo bem – Haila, interrompeu. – Vamos ao Centro, isso é mais importante.
Por mais que eu ouvisse as palavras da Haila, eu sabia o quanto era importante visitar o túmulo de Simi. Embora fosse nosso combinado, ela demorou dias para criar coragem e finalmente sugerir que fossemos até lá.
— Você pode aguentar, Abóbora? – Perguntei encarando os olhos úmidos e escuros. Ele balançou a cabeça lentamente com o grande curativo que Desmond tinha feito e eu o retornei a Pokéball, onde ele poderia descansar até chegarmos ao Centro.
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O cemitério fica em uma colina não muito íngreme e tinha um ar lacônico por causa do sol de fim de tarde que entrecortava as lápides. Não tinha quase ninguém ali, havia algumas plantas crescendo na relva que floresciam com pequenos botões coloridos.
Eu tinha estado lá só no dia do enterro do Simi e ainda tinha uma má impressão desse tipo de lugar. Haila ia a frente, quieta e solene, ladeada por Leaf e Couve Flor. Des e eu seguíamos atrás, com Chiclete entre nós.
Então ela contornou uma lápide alta e adornada e chegamos ao túmulo do pequeno símio. Para minha surpresa o local estava limpo, com a grama aparada e lápide lavada. Haila também pareceu surpresa com isso e me encarou por cima do ombro. Só havia mais alguém se que se preocupava com o macaco tanto quanto nós. Cilan deveria estar indo regularmente a cidade para manter o túmulo asseado.
Haila juntou as mãos diante do corpo, como se fizesse uma pequena oração, eu não sabia se ela seguia alguma crença ou se era simples força do hábito. Quando finalmente terminou, se abaixou ao lado dos parceiros.
— Eu sei que Simi faz uma grande falta no grupo – a voz dela era rouca, como se controlasse a vontade de chorar. – E sei que quando ele se foi, eu não permiti que vocês tivessem seu tempo para ele. Eu fui egoísta na minha dor e eu sinto muito.
Leaf abaixou a cabeça, até quase tocar as orelhas folhosas no chão e deu um suspiro profundo. Couve Flor ficou encarando a lápide de pedra diante de si. Ele não era mais meu parceiro, mas eu sabia como ele sentia. Simi tinha se sacrificado para salvá-lo, por mais que a pequena semente nunca tivesse realmente deixado transparecer isso, ele era muito grato pelo sacrifício. Se não fosse por Simi, ele não estaria ali, integrando o grupo de Haila e seria provavelmente eu a fazer orações diante do monumento de pedra.
Eu nunca cheguei a pensar em como me sentiria se perdesse um dos meus Pokémon. Tinha pensando em deixá-los por um ideal, mas morte era uma perda muito diferente.
— Você deveria se despedir também – disse a Chiclete que permanecia ao meu lado.
Ele caminhou lentamente na direção de Haila, mas se abaixou na metade do caminho, mexendo em um pequeno gramado. Só então vi que era um arbusto florido e ele tinha pegado uma das pequenas florezinhas coloridas e as depositava diante da lápide.
Haila pareceu surpresa, mas não pode deixar de sorrir tristemente. Mesmo que seus Pokémon sendo muito unidos, o elo que havia se formado entre Chilete e Simi parecia muito mais forte e inquebrável. A ligação entre os dois era a maior representação do laço que também nos unia, e assim como eu tinha orgulho da menina forte que Haila era, e ela se orgulhava do coordenador que eu estava me tornando, eu tinha certeza que Simi se orgulhava do caminho que Chiclete trilhava.
Não sei quanto tempo ficamos ali, mas o sol se escondeu rapidamente no horizonte e quando finalmente foi possível divisar as estrelas no céu, decidimos voltar para o hotel.
Fizemos uma parada no Centro Pokémon e a enfermeira ficou muito impressionada com os primeiros socorros oferecidos por Des. De acordo com a mulher, ele só precisava de descanso e ficaria novinho em poucos dias.
Desmond se despediu de nós depois de alguns quarteirões e retornou ao próprio hotel. Quando chegamos ao quarto, Roxie estava com a cara amarrada e deu um sermão enorme sobre ficarmos até tarde na rua. Parecia minha mãe e sem querer acabei sorrindo ao me lembrar disso, ela ficou duas vezes mais furiosa.
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Roxie tinha saído, algo com Elesa e Cheren que eu não entendi muito bem e ela não fez questão de explicar. Aparentemente, Elesa tinha destacado o líder de Aspertia para assumir os estudos de Lenora. Roxie o queria no fronte, mas de acordo com a garota elétrica, apenas Cheren teria paciência e conhecimento suficiente para seguir as pistas deixadas pela veterana.
Depois do banho e de um jantar sem graça, eu tinha me jogado na cama e encarava o papel de parede desbotado do teto. Haila estava deitada na cama do lado, encarando o teto como eu, aquela seria nossa última noite ali. Por mais que não fosse seguro viajar, ficar em Nimbasa nunca fora nosso objetivo inicial era apenas um ponto de parada. Poderíamos voltar cada um para sua casa, mas isso não parecia exatamente uma opção, principalmente para ela.
No final, mesmo com a enorme possibilidade do Contest ser cancelado, tínhamos optado em rumar para Opelucid City. Mesmo que sentisse que Haila queria muito ajudar e descobrir onde Lenora estava, todos haviam descartado nossa ajuda e Roxie acreditava que talvez, sem um líder de ginásio como troféu no nosso grupo, a atenção se desviasse de nós.
Além disso, Opelucid tinha um ginásio, o que significava que a cidade não estaria de todo desprotegida. Havia rumores de que membros da Team Plasma tinham rumado para a cidade depois dos primeiros ataques a Nimbasa, mas semanas tinham se passado e mesmo no ataque geral, que havia dominado várias cidades, Opelucid tinha saído ilesa.
Era uma cidade grande, mas quase esquecida no meio da floresta, talvez fossem apenas rumores e aquele fosse o lugar mais seguro para se estar. E pelo andar da situação, seria meu último Contest antes de finalmente a Liga colocar um recesso.
— Você está muito quieta – disse espiando Haila na outra cama. Leaf estava enrolada aos seus pés.
— Você também – retrucou ainda encarando o teto.
Em um dia normal, nós estaríamos tagarelando, comendo ou ocupados cada um no estudo de seu livro, era nossa rotina e mesmo após Black City e que agora, a qualquer mínimo barulho nas proximidades fazia ficarmos alertas e levarmos as mãos aos bolsos atrás das Pokéball, nossa rotina nesse sentido não tinha mudado tanto.
— Se você não quiser ir para Opelucid, podemos ir para outro lugar – disse voltando os olhos para o teto.
— Opelucid não é o problema – se virou na cama me encarando – tínhamos concordado, certo?
— Você ainda está brava com o lance do spa? – Mais cedo, durante o jantar, mostrei o ticket que Alanna me dera e disse que gostaria de ir. Haila revirou os olhos e disse que eu tinha mais do que me preocupar do que ficar me banhando em fontes termais e sendo massageado. Ela tinha razão, mas eu não acharia ruim uma massagem.
— Não – mas ela revirou os olhos.
— Me parecia uma boa ideia – sorri sem jeito.
— Claro, o mundo está desabando e vamos ter um dia de férias, faz muito sentido – deu um muxoxo.
— Eu só queria melhorar seu ânimo.
— Meu ânimo vai estar melhor quando encontrarem a Lenora.
— Se a questão é essa, então por que ir para Opelucid, talvez nem tenha o Contest e você não está mais tão interessada nos ginásios...
— Talvez haja alguma informação por lá, você se lembra do que Burgh disse.
Depois de Haila tentar socar Grimsley e ser arrastada por mim da sala de reuniões, Burgh ficou discorrendo sobre dezenas de futilidades na tentativa de acalmá-la. Falou do meu cabelo e também da mudança visual de Haila. Segundo ele, ela estava em um novo patamar de beleza com o cabelo em um corte tão pratico e chique e um bronzeado perfeito. Haila revirou os olhos. Falou de Clarice, das fotos que mandava dos Contest, de como ia o ginásio, a galeria, Louis, tantas coisas que eu nem me lembrava mais.
— Certamente, esses ataques são terríveis e é uma lástima tudo o que tem acontecido – a voz afetada de sempre – é uma pena que polícia está preocupada demais em manter a localização do N em segredo, vocês sabem, para não ter uma tentativa de resgate por parte da Team Plasma e com isso, parte da força policial que poderia estar investigando desaparecimentos, está delegada em outras funções.
Haila engasgou com a água que tomava e encarou o líder.
— Particularmente, se eu pudesse deixar Castelia, iria para a região de Opelucid, é um lugar tão negligenciado pela polícia por ser afastado do grande centro. Claro que existe a força policial local, mas não há exatamente um sistema de cadastro nacional de desaparecidos em Unova, uma pessoa poderia estar em qualquer lugar do país.
— Você está falando da Lenora? – Haila curvou as sobrancelhas lentamente.
— Do que está falando? – Encarou-a como se ela tivesse dito uma grande bobagem. – Eu iria atrás de um lendário, afinal é parte das obrigações de um líder de ginásio, pessoas desaparecidas são responsabilidade da polícia, embora a polícia ande muito ocupada, talvez entes queridos levantando informações do paradeiro de pessoas que gostam, ainda mais numa época como essa, não tem nada de errado. – Eles se encararam e Haila pareceu entender onde o líder queria chegar, mesmo que não estivesse totalmente claro para mim. – Bem, eu preciso voltar para a reunião, seja boazinha Haila e canalize sua energia para algo mais útil do que esfolar o Grimsley.
— Bom, você sabe que não é nenhuma certeza – disse me ajeitando na cama – são só as suspeitas dele.
— É a melhor dica que temos.
— Haila...
— A polícia não tem feito nada, isso é visível.
— Você prometeu a Roxie que não iria atrás da Team Plasma... – elas tinham discutido algumas vezes por causa do sequestro da Lenora.
— E estarei cumprindo minha promessa – se sentou na cama. – Afinal, como o Grimsley disse, são só imitadores – e sorriu daquele jeito levemente diabólico de crianças que encontram brechas nas regras impostas pelos pais.
— Você sabe que podemos não encontrar nada – ressaltei.
— Eu estou pronta para isso, só não estou pronta para ficar aqui, sem fazer nada.
— Você não disse ao Des que íamos embora amanhã? – Perguntei me lembrando. Quando nos despedimos em Lentimas, ele foi tão caloroso, melosos até, e hoje ele parecia tão neutro.
— Eu disse – ela se ajeitou melhor – provavelmente ele vai estar na porta do hotel amanhã, choramingando por não ter visto o Keldeo e nos desejando boa viagem – e sorriu ao lembrar do jeito do rapaz.
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Roxie já sabia da nossa partida, mas parecia chateada em se despedir. Eu tinha estado em sua companhia fazia quase um mês e realmente era difícil dizer adeus. Ela iria para Straiton City, havia suspeitas de lendários nas florestas locais. Eu esperava que Cheren estivesse ali, mas Roxie disse que Elesa o tinha colocado para trabalhar o quanto antes nas pesquisas de Lenora.
— E quanto ao que te pedi em Humilau, Haila, ainda está valendo – disse com uma piscadela. A promessa de se manter longe de confusões provavelmente. – E se precisarem de qualquer coisa, não deixem de me ligar. E Deedee – me chamou antes de deixarmos o saguão do hotel. – Cheren te mandou ligar para sua mãe, parece que ela anda furiosa com o seu sumiço. – Muito obrigado, Adizia.
Assim como Haila tinha presumido, Desmond estava na porta do hotel esperando por nós. Ele trazia uma mochila nas costas e máquina fotográfica pendurada ao pescoço.
— Você está partindo também? – A menina perguntou confusa. Ele não tinha nada sobre ir embora.
— Sim – disse com um sorriso radiante. – Vou com vocês.
— O quê? – Haila pareceu empalidecer.
— Bem, eu não tenho nenhum trabalho novo e seria divertido, não?
Vi os olhos de Haila deslizando para mim tentando achar alguma desculpa, não que ela não gostasse do Desmond, mas estávamos indo para o outro lado de Unova e ela pretendia seguir pistas sobre o paradeiro de Lenora.
— Eu nunca vi um Contest ao vivo, vai ser bem legal – disse sorridente se virando para mim. – Além disso, vai que vocês encontram outro lendário.
— Desmond! – Haila repreendeu.
— Ué, não custa sonhar.
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