Rota Zero
44 A Noite Esquecida
Notas iniciais
December
A NOITE ESQUECIDA
Era final de tarde e o céu tinha assumido um tom alaranjado, as nuvens dançavam lentamente sendo arrastadas pelo vento litorâneo, como um balé de Mareep. O caminho do hotel para o Centro Pokémon não era muito longo, meus pés sapateavam na areia branca que se formava nas ruas e eu não precisava mais me esforçar para atravessar as calçadas sem esbarrar em ninguém.
Desde que o Festival tinha acabado, a cidade tinha reduzido sua população a metade. Fora os moradores locais, apenas os participantes do Contest ainda permaneciam por ali, aproveitando para treinar e ensaiar seus parceiros.
Riolu caminhava alguns passos atrás de mim, como um segurança. De tempos em tempos espiava por cima do ombro, apenas para me certificar de que ele ainda estava me seguindo.
Eu tinha parado de chorar, mas a sensação de tristeza ainda me invadia. Roxie não me forçou a falar, apenas ficou ao meu lado, até que eu me acalmasse e então desatou a falar de Caitlin novamente, como se nada tivesse acontecido. Era o jeito dela e eu realmente não me importava.
Estava quase chegando ao Centro Pokémon quando meu Xtransceiver começou a tocar, por um segundo achei que fosse a Cassie, eu tinha mandado mensagem para ela mais cedo, pedindo que me ligasse quando tivesse algum tempo livre, mas era só minha mãe e eu não estava com um pingo de vontade de falar com a mulher.
Principalmente depois da ligação de dois dias atrás que ela só soubera me dar um sermão enorme sobre eu ser um filho desalmado que não ligava para casa para contar se estava tudo bem e que ela ficava dependendo de terceiros, vulgo Cheren, para saber coisas a meu respeito.
– Diga – atendi de qualquer jeito, não atender seria muito pior.
– Isso é jeito de falar com a sua mãe? – Ela assumiu um ar falsamente indignado.
– Eu estou meio ocupado...
– Você vive inventando desculpas para não falar comigo – me cortou. – Não era você que não queria sair do conforto do lar? – Sorriu daquele jeito detestável, por que eu tinha uma mãe tão difícil?
– O que você quer? – Perguntei encurtando o assunto.
– Saber como você está.
– Bem.
– Você não parece bem – e não foi irônica desta vez. Eu realmente não estava bem e nem fazia questão de parecer. – O que aconteceu? – Ela já tinha me perguntado isso há dois dias e eu havia saído pela tangente.
– Coisas. – Disse evasivamente.
– Coisas, sei. Aquelas que você compartilha com Cheren, mas não pode me dizer? – Perguntou perspicaz, em um tom meio indignado. Eu sabia, pela ligação anterior, que Cheren já estava em Aspertia e que eles haviam se encontrado, mas eu não fazia muita ideia do que ele havia dito para ela. A julgar pela reação ácida que estava tendo, o seu menino de ouro não havia lhe contado nada efetivamente, apenas que eu estava vivo e fisicamente bem. – Eu não sabia que vocês eram tão próximos assim para se tornarem confidentes. – E aquele maldito sorriso presunçoso voltou a estampar seu rosto.
– Nós não... – mas não adiantaria argumentar, não contra Adizia. Seja lá o que Cheren tenha contado a ela, só serviu para deixá-la ainda mais curiosa e irritada. – São assuntos de meninos. – Disse infantilmente. Não eram, mas se minha mãe não sabia a verdade, ela não precisava saber.
– Meninos? Você quer que eu chame seu pai então, ele vai poder te ajudar. – Aquela voz dramática e fingida.
– Não, não precisa. – Meu pai era o tipo de pessoa mais fácil de manipular e se até eu conseguia enrolá-lo, imagina minha mãe, a rainha da manipulação. Qualquer coisa que eu dissesse a ele, ela ficaria sabendo em segundos.
– Então confiar no Cheren é mais importante do que em sua própria família? – Mais drama.
– Foi você quem o mandou ir atrás de mim em Nimbasa, lembra?
– Mas isso não significa que você tenha que por sua família de lado. – E fazia aquela voz fingida e chorosa.
– Mãe, eu... – Não estava com paciência para toda aquela manipulação, nem para um sermão caso contasse a verdade. Eu não sabia como ela reagiria se contasse tudo o que aconteceu, mas certamente ela teria algo para falar. – Foi você quem me colocou para fora de casa, lembra? Me disse para seguir o caminho de coordenador, crescer e trazer orgulho para a nossa família. Então me deixe fazer isso, tá?
Ela pareceu surpresa com as minhas palavras, os olhos se arregalaram e abriu a boca para dizer algo, mas a interrompi.
– Estou tentando fazer o melhor, do meu jeito. Talvez não seja o jeito certo, mas é como eu sei fazer. E eu prometo, eu não vou desgraçar o nome da nossa família. – Eu não tinha como prometer aquilo, mas eu estava cansado demais para qualquer discussão, um discurso “feito” talvez a calasse temporariamente.
– Deedee. – E ela esperou que eu realmente estivesse prestando atenção para continuar. – Eu sei que te pedi muitas coisas e coloquei uma grande responsabilidade nas suas costas. Mas esta ainda é sua casa, certo, não há nada errado se você quiser voltar.
Sem gracinhas, ironias ou cobranças. Minha mãe não era o tipo mais sentimental e maternal, mas sabia ser bem precisa e pontual quando queria. Senti minhas mãos tremerem e os olhos marejarem.
– Eu vou voltar – disse depois de um longo tempo, tentando refrear as lágrimas que se formavam. – Mas não agora.
Minha mãe sorriu do outro lado da telinha e era aquele tipo de sorriso orgulhoso que raramente a via dirigir a mim. Quase sempre era relacionado com algum dos lançamentos de seus livros.
– Bem, você me disse que estava em Undella, certo? – Confirmei com a cabeça. – Você vai participar do Contest então? – E a magia havia se quebrado. A voz saiu alta e animada.
– Mãe...
– Você precisa participar. Já não basta eu ter ficado sabendo do seu desempenho em Nimbasa através da internet. – E o tom falsamente indignado voltou. – E você ainda foi desclassificado.
– Mãe...
– Fiquei orgulhosa da sua atitude em querer salvar seu Pokémon, mas uma desclassificação é uma mancha muito feia na carreira de um coordenador. – Falou num tom levemente repreensivo.
– Mãe...
– Bem, de qualquer forma, se você for usar o Riolu novamente, como é mesmo o nome dele? Ah, sim, Chiclete. Bem, você pode usar as instruções da página 78... E já te falei que estou escrevendo um novo livro?
– Já, mãe, na ligação passada.
– Oh, certo. Bem que você e a sua namorada poderiam vir até aqui para o lançamento, não faria mal sair do seu rumo só uns dias, claro se não atrapalhar nenhum Contest.
– Haila. E ela não é minha namorada. – Eu já tinha explicado na ligação passada que eu e ela tínhamos seguido caminhos diferentes. Não tinha dito que tínhamos brigado nem nada, mas minha mãe sabia que não estávamos mais viajando juntos, só que parecia não se importar minimamente com esse fato.
– Bem, deveria ser, eu gosto dela.
– Você falou com ela só uma vez.
– E já foi o suficiente.
– Mãe, eu realmente preciso desligar. – Resmunguei. Eu estava ficando atrasado para encontrar com a Lila e se deixasse minha mãe tagarelaria até o dia seguinte.
– Certo, certo. Se cuide e lembre-se que você tem pais que se preocupam.
– Tá bom. – E desliguei.
Tive que apertar o passo para chegar ao Centro Pokémon e encontrei com Lila a minha espera. Apenas um dos Psyducks a acompanhava e estranhei, mas antes que pudesse perguntar o que tinha acontecido a Charmande, ou Bulbasaur, eu não sabia qual era qual, vi que a menina matinha um olhar sonhador para a orla da praia.
Ali estava seu outro Psyduck e acompanhado de um enorme Granbull. Eu reconheceria aquela cara de poucos amigos em qualquer lugar, era o Pokémon da Clarice. Se o parceiro dela estava ali, ele deveria estar por perto, mas não havia nenhum sinal dela.
O Psyduck trazia um punhado de matinho nas patas e oferecia cerimoniosamente ao outro, que bufava com força suficiente para fazer as plantinhas balançarem.
– Eles não ficam tão bonitos juntos? – Lila disse que a voz afetada. Não, não ficavam e pelo andar das coisas não iria demorar até o Granbull pular no pescoço do pobre Psyduck. – Repare é uma química perfeita, eles nasceram um para o outro.
– Lila, eu não acho...
– Bulbasaur é tão romântico, não tem como a Grangran resistir.
– Grangran?
– Bem, eu não sei o nome dela, então a apelidei assim. – Disse de forma sonhadora.
– Você sabe que aquele Granbull é da Clarice, certo?
– Sim, é uma pena que a treinadora dela seja aquela menina, mas para o amor não existe esse tipo de fronteiras.
Se existia fronteira eu não fazia ideia, mas certamente Clarice não iria concordar com esse romance e mesmo que concordasse, a Granbull não parecia estar na mesma sintonia de amor.
– Bulba, precisamos ir. – Gritou a garota, cortando o barato do “encontro”. – Eu queria deixa-lo aqui com a Grangran, mas precisarei muito da sua força hoje.
Vi Bulbasaur tentar mais uma vez oferecer as plantinhas, mas com um safanão, a Granbull mandou-o para longe, assim com a graminha que segurava. Achei que Lila faria algo diante da cena, mas ela mantinha o mesmo ar sonhador e apaixonado.
– De qualquer forma, tome. – E enfiou a mão no bolso do moletom e me deu um cartão. Eu sabia o que era, um passe para participar do Contest. – O quê? Eu fiz sua inscrição. – Disse diante do meu olhar perdido.
– Lila, eu disse a você que não tinha pretensões de participar.
– Eu sei, mas é a única forma que posso agradecer toda a ajuda que você está me dando com o Absol. Além disso, duas inscrições tinham desconto. – E abriu um largo e confiante sorriso. – Eu não sabia qual categoria era a sua, então deixei em branco, você pode preencher até um dia antes do Contest. – E apontou para o campo no cartão que ainda estava em branco.
Ótimo, ainda mais essa. Eu não estava com o menor espírito para um Contest, eu sequer tinha ido até Undella para isso, mas seria uma grosseria enorme recusar, ao menos naquele momento. Então só guardei o cartão no bolso, eu o devolveria depois, junto com o dinheiro que ela tinha gastado fazendo minha inscrição.
Bulbasaur se uniu ao grupo, ele e Charmander começaram a trocar informações com aquela conversa barulhenta de Psyducks. Lila fez sinal e tomamos caminho para a Rota 13. Antes de partirmos olhei por cima do ombro e vi Clarice sair do Centro Pokémon, indo ao encontro do parceiro. Não faço ideia do porque ela o havia deixado esperando do lado de fora, mas ela estava com a cara fechada conversando com alguém pelo Xtransceiver.
=8=
Lila estava com o cabelo preso e usava um vestido leve de verão, como a maioria das garotas ali. Assim como eu, ela trazia um colar de flores azuis e pratas feitas de tecido, e seus Psyduck traziam o mesmo enfeite, só que adornando as grandes cabeças amareladas.
– Aquela é a Roxie? – Ela me puxou pelo braço no meio da multidão. Fiquei encarando sem entender aquela menina que dividia o tempo entre falar comigo e saborear um enorme algodão doce. – Você está com ela, não está?
Eu estava acompanhando Roxie no Festival de Tributo a Lua, e como ela era a Roxie, não iria concordar em colocar uma roupa veranil e se misturar com os turistas. Ela estava com um vestido preto e as pesadas bostas que sempre usava. Talvez o que destacasse fosse o colar florido. Era um item quase obrigatório para quem cruzava os grandes arcos que marcavam a entrada do evento e até ela acabou concordando em usá-los.
Só que Roxie era Roxie, não apenas líder de ginásio, mas também uma das mais famosas rockstar de Unova e claro que todos que a reconheciam paravam para pedir um autografo. O que significava que o objetivo dela, de passar imperceptível e fazer a guarda do evento tinha ido por água abaixo.
Enquanto Roxie ficava presa no meio da multidão que a adulava, eu tinha um tempo livre para circular entre as barraquinhas. A maioria das ruas tinha sido fechada e estava ladeada por barraquinhas de guloseimas, prendas ou suvenires. Pessoas circulavam pela rua de areia em meio a bandeirolas prateadas e azuis, a Lua grande e cheia no centro do céu estava lá para ser saudada e homenageada.
Chiclete estava ao meu lado, ainda sisudo e irritado, e Desdemona flutuava ao nosso redor, cumprindo as ordens de Roxie. A pequena Koffing era a premiada com a liberdade nessa noite, talvez por poder flutuar e ser mais fácil de se encontrar em meio a multidão. Como Roxie não poderia passar a noite toda com os olhos em mim, ela havia ordenado a parceira que me acompanhasse por onde quer eu fosse.
Parei em uma barraquinha de suvenires, havia muitas lembrancinhas baratas como chaveiros e camisetas, nada realmente interessante, mas tinha um prendedor de cabelo bem bonito, com flores azuis e prateadas, bolinhas que imitavam pérolas e uma lua crescente adornando o conjunto. Imaginei que ficaria muito bonito no cabelo da Haila e quase o comprei quando me lembrei de que nós provavelmente nunca mais nos veríamos e mesmo que isso acontecesse, ela tinha os cabelos curtos agora. Também me lembrei de que algumas presilhas dela ainda estavam na minha mochila e eu tinha me esquecido de devolvê-las.
Espiei pelo ombro para ver onde Roxie estava e quando dei um passo para ir de encontro a ela, Lila me parou, perguntando sobre a rockstar.
– Ah, sim, é ela. – Disse meio sem jeito.
– Achei que os seguranças dela fosse mais fortinhos. – Disse dando uma longa olhada no meu porte físico.
– Ah, eu não sou segurança dela.
– Namorado então? – E bateu as mãos como se aquilo fosse um acontecimento incrível.
– Não, nós só estamos viajando juntos.
Ela pareceu um pouco decepcionada com a resposta e deu uma longa mordida no algodão doce.
– Ela parece mais bonita na televisão. – Disse por fim.
Dei de ombros, como se não tivesse opinião sobre aquilo. Não que eu não achasse Roxie bonita, mas muito do que ela aparentava era por causa do marketing. Ela não tinha aquela aura de durona indiferente o tempo todo. Na verdade, ela era muito mais infantil e pavio curto do que os fãs poderiam imaginar.
Lila deu mais uma mordida no doce e fez sinal para que os Psyducks a acompanhassem, mas depois de alguns passos se virou e me encarou.
– Eu te conheço, não? – Ela curvou as sobrancelhas grossas como se tentasse se lembrar. Eu nunca a tinha visto até então e achei que ela poderia estar me confundindo com alguém. Vi os olhos escuros correm de mim para Chiclete e novamente para o meu rosto. – Você é o garoto que foi desclassificado no Contest em Nimbasa, não é? – Guinchou sonoramente.
Senti meu rosto corar, como ela poderia saber disso? Ela veio correndo na minha direção, fechando o espaço que tinha se formado e me analisou mais de perto, como para se certificar que realmente era eu.
– Cara, você pulou na frente daquele ataque, foi muito louco. – Ela parecia verdadeiramente impressionada com isso. – Meio estúpido, mas muito corajoso.
– Ahn, obrigado, eu acho.
– Eu sou Lila Davis – e estendeu a mão melada de algodão doce para que eu a cumprimentasse.
– Deedee Hanks – acenei com a mão apenas. Ela não pareceu se importar que eu não a cumprimentei, apenas voltou a mão ao doce.
– Esses são Charmander e Bulbasaur, meus parceiros de Contest. – Disse apontando para a dupla de Psyducks que a seguiam. – E os seus? – Desviou o olhar para o Riolu e a Koffing.
– Contest?
– Sim, eu também sou coordenadora. Eu estava disputando em Nimbasa, mas somos de categorias diferentes.
– Então como me conhece?
– O garoto que invadiu a arena para impedir que o parceiro fosse derrotado – disse teatralmente. – Você é quase uma lenda entre os coordenadores. – Eu era? – Não positivamente, claro. Afinal, ser desclassificado é uma mancha na carreira de qualquer coordenador. – Provavelmente eu ouviria aquilo dezenas de vezes. – Mas eu não me importo, achei que foi muito nobre o que você fez. – Ela então se inclinou quase enfiando o algodão doce na cara do meu Riolu. – E você, deve ser o incrível Pokémon do Contest.
– Esse é o Chiclete.
– Chiclete? Que nome ridículo – ela me encarou de soslaio. A garota tinha dois Psyduck com nome de outros Pokémon e eu é quem escolhia nomes ridículos? – Mas você é muito fofo. – Falou melosamente, passando a mão nos pelos da cabeça do meu Pokémon. Chiclete não pareceu necessariamente feliz, mas não se afastou do carinho.
Ela se levantou, me encarando com um sorriso resplandecente, deu uma mordida final no algodão doce e me estendeu a outra mão.
– Por que não damos uma volta? Você pode me contar mais sobre os seus Contest.
=8=
– Você está me ouvindo? – Lila me tirou do meu devaneio, me cutucando nas costelas.
Fazia algumas horas que tínhamos atravessado a Rota 13, o caminho que gradualmente deixava de ser um terreno arenoso e ganhava altas e frondosas árvores tinha sido tranquilo. Finalmente, quando a lua já estava alta no céu e o dia tinha se pintado de azul e roxo chegamos aos limites da rota, próximo a Giant Chasm.
Ali era quase impossível de perceber que ainda estávamos em zona litorânea, pois a mata era muito mais alta e densa. Nós estávamos escondidos em um pequeno monte que dava acesso a um pequeno e profundo vale, onde vários tipos de Pokémon apareciam vez ou outra, mas até agora, nenhum Absol.
Pelo menos uma hora se passou enquanto estávamos ali e nada do Pokémon que Lila desejava. Minhas pernas já estavam dormentes de ficar na mesma posição, mas sempre que eu me mexia, a menina dizia que eu estava sendo muito barulhento e que isso afastaria o monstrinho que almejava.
– Você poderia pegar um Tangela, apareceram vários. – Apontei para um grupinho de Pokémon planta que passavam animadamente pelo vale.
– Eles não são graciosos – e fez mais um biquinho.
– O que vai fazer se nenhum aparecer?
– Não diga isso, eu preciso muito de um deles. – Falou ansiosamente, remexendo no cabelo.
A dupla de Psyduck brincava em um canteiro de flores próximo, mas estavam mais silenciosos do que de costume. Chiclete estava ao lado deles, mas não participava da brincadeira, seus olhos pareciam concentrados no mesmo cenário que Lila eu visualizávamos. Era estranho vê-lo quieto assim, porque ele sempre estava correndo por ai ao lado de Simi.
Me sentia desconfortável ao pensar no macaquinho. Apesar de meus pensamentos terem transitado todo o dia sobre sua morte e como eu deveria abordar isso com Chiclete, no fim, não conseguira dizer uma palavra sequer sobre o assunto. Aquilo me chateava e entristecia, mas aquele não era o melhor momento para pensar nesse tipo de coisa.
– Você não se inscreveu no Contest com um Absol, não é? – Perguntei duvidoso de tamanha insistência para conseguir o Pokémon.
– Claro que não, eu não faria tal coisa estúpida. Mesmo com o sucesso da nossa captura, eu não teria tanto tempo para treiná-lo. – Disse sabiamente. – Mas se eu não o capturar enquanto estiver por aqui, não terei mais chances de pegar um Absol. Eles não aparecem comumente em outras regiões.
– Certo.
– Mas como eu te disse ontem, não pode ser qualquer Absol, tem que ser um especial.
Eu não entendia muito bem o que ela queria dizer com isso, todos eles me pareciam exatamente iguais, não dava para ver se havia algo de especial em algum deles.
Na noite anterior, havíamos cruzado com meia dúzia desses bichos, mas Lila não quis capturar nenhum deles, pois não eram o Pokémon correto. Quando finalmente decidimos voltar para Undella, ela ouviu um farfalhar na grama e avistou o que ela dizia ser o Absol perfeito.
Desembestou a correr atrás do animal, largou sua dupla de Psyducks para trás e pulou no meio da grama alta. Eu podia ouvir seus gritos se afastando, então disparei atrás dela, acompanhado de Charmander, Bulbasaur e Chiclete.
A grama era muito alta e fofa, e eu mal podia sentir o chão abaixo de mim a cada passo. Os Psyducks quase sumiam na altura da grama e em pouco tempo, eu já não tinha mais fôlego para acompanhá-la.
Por mais que ela houvesse me arrastado nessa empreitada de ajudá-la a capturar um Absol, eu desejava fortemente não ter que entrar em combate. Chiclete provavelmente não lutaria por mim e eu não fazia ideia de como meus outros parceiros se portariam. Assim como Riolu, eles poderiam se negar a combater e eu passaria vergonha diante da garota.
Não que eu realmente me preocupasse com passar vergonha, mas Lila me encheria de perguntas e eu teria que contar o porquê dos meus parceiros se negarem a me seguir. E a pouca admiração que ela possuía pela minha estúpida coragem iria para o ralo, assim como provavelmente a amizade que havíamos formado. Eu a conhecia muito pouco, mas o suficiente para saber que por mais que ela não considerasse a Team Plasma uma ameaça tão terrível, ela não compactuava com suas ideias.
Em algum momento, entre ter dificuldades para respirar e me perder em pensamentos, os Psyducks disparam a frente e os perdi de vista. Chiclete parou assim que me viu fraquejar e ficou me analisando com aqueles olhos escuros, quase como se tivesse pena de mim.
Não demorou muito para Lila reaparecer com a cara emburrada porque havia perdido o rastro do Absol. Charmander e Bulbasaur a ladeavam barulhentos.
– Você está bem? – ela me encarou em meio à noite. Eu estava suando e mal conseguia respirar. Apenas balancei a cabeça positivamente. – Ele fugiu. – Disse fazendo um biquinho. – Mas não tem problemas, amanhã tentaremos novamente.
Amanhã? Mas eu estava cansado demais para protestar. Ela me puxou pelo braço, fazendo-me retornar pelo caminho a qual viemos.
E por causa do fracasso da caçada da noite anterior, nós estávamos ali, imóveis no alto da pequena colina esperando o Absol certo aparecer.
=8=
– Finalmente – Roxie se jogou em uma das cadeiras vagas da nossa mesa. Estávamos próximo ao palco principal, onde uma banda tocava músicas instrumentais. Ela parecia exausta e irritada e não fez a menor cerimônia em beber do meu refrigerante.
Lila tinha me arrastado para todo o canto do festival, me apresentando a pessoas, mostrando barraquinhas, até finalmente conseguir convencê-la a descansar em algum canto. Ela falava muito e só naquelas poucas horas que passara na companhia dela, já tinha me falado dos pais, de como capturara seus Psyduck, do porque se tornara uma coordenadora, de como fora suas experiências nos torneios, que métodos usava para treinar e qual eram seus doces favoritos.
– Quem é essa? – A garota levantou a sobrancelha encarando Lila.
– Essa é Lila, ela é uma coordenadora. – Apresentei.
– É um prazer. – A garota respondeu alegremente. – Esses são Charmander e Bulbasaur. – Apontou para os parceiros.
Roxie desviou os olhos da dupla de Psyducks para Chiclete e depois para mim e deu um sorrisinho cínico.
– E como foi com os fãs? – Lila perguntou sem perceber a expressão de Roxie.
– Ah, bem eu acho. É um pouco exaustivo, mas... – a rockstar falava com um grande sorriso, mas eu podia imaginar o quão chateada ela estava com aquela situação. – Pelo menos não há nenhum sinal da Team Plasma, já é uma grande vantagem.
– A Team Plasma? – Lila balançou a cabeça confusamente.
Ela tinha saído de Nimbasa assim que os Contest haviam terminado, de forma que não estava na cidade quando a Team Plasma atacou.
Roxie deu de ombros e tomou mais um gole do meu refrigerante, um grande o suficiente para acabar com toda a garrafa.
Lila também tomou o último gole do seu, fazendo um barulho ruidoso com o canudo dentro da garrafa. Então se levantou saltitante e disse que iria buscar outro.
– Quem é essa? – Roxie perguntou depois que Lila se afastou o suficiente. – Você troca de namorada bem rápido.
– Ela não é minha namorada, é só uma coordenadora.
– Espero mesmo, se vocês tivessem filhos, os nomes seriam horríveis. – E sorriu atrevida.
A música no palco principal parou e as luzes ali se tornaram mais intensas. A multidão se alvoroçou e depois de um tempo uma garota com uma longa cabeleira loira que quase tocava o chão apareceu. Ela vestia um delicado vestido rosa e tinha o mesmo colar de flores azuis e prateadas penduradas no pescoço.
Quando a multidão se acalmou, ela foi até o microfone e começou a falar. A voz era doce e melodiosa e parecia que as palavras não flutuavam pelo ar, mas se reproduziam dentro das nossas mentes.
Era Caitlin, campeã da Elite Four especializada em Pokémon Psíquicos. Ela falou por alguns minutos, comentando da importância do Festival, dos benefícios que ele trazia a cidade e finalizou chamando Cynthia ao palco.
Cynthia tinha os cabelos ainda mais claros e um porte físico que lembrava o de Elesa, era alta e imponente. A voz era poderosa e fez um discurso impactante sobre a importância do Festival. As palavras não eram muito diferentes das de Caitlin, mas a maneira como elas a dizia parecia dar outra intensidade.
Só que o discurso foi interrompido por um grito da plateia e outro e mais outro. Mas não era nada apavorante ou terrível, era apenas um fã de Roxie que queria que ela fizesse uma pequena apresentação. Seu grito foi seguido por outros, até que no final, era impossível ouvir o que Cynthia falava. Afinal, aquilo era um festival e ninguém estava muito a fim de ouvir longos discursos.
No final, mesmo a contragosto, a mulher chamou Roxie ao palco. A plateia foi à loucura, Roxie deu uma piscadela e se levantou, acenando para a multidão. Acredito que em um dia comum, ela apenas agradeceria e rejeitaria, mas dado sua rixa com Cynthia, ela aceitou e se encaminhou até o palco.
Cynthia a cumprimentou com um sorriso forçado e deu espaço para a rockstar. A garota dos cabelos claros fez um sinal para a banda e logo eles começaram a tocar nas notas que ela havia instruído.
Eu não conhecia a música, mas deveria ser uma bem popular, pois todos estavam cantando e dançando juntos. Desdemona, a Koffing de Roxie, girava no ar, alegre e sorridente. Acabei me levantando também e indo buscar uma nova bebida para mim.
As ruas estavam cheias e eu tinha que ter cuidado para não esbarrar em ninguém, mas mesmo assim acabei trombando com um alguém na multidão.
– Me desculpe. – Pedi.
– Sem problemas. – Eu conhecia aquela voz. – Ah, é você. – Clarice e seu Granbull.
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