Notas iniciais
ATENÇÃO SE VOCÊ JÁ LEU ESTE CAPÍTULO ANTES, VOLTE E LEIA AS NOTAS DO CAPÍTULO ANTERIOR. Se você já leu o capítulo chamado A Noite Esquecida e este ainda não, então está tudo certo e podemos voltar a nossa programação normal. Eu pulei um capítulo e deu todo esse rolo na fic. Assim, ficamos com dois capítulos seguidos do Deedee. Boa leitura!

December

vs MEWTWO

Meu histórico com Clarice não era exatamente dos melhores, ela me odiava, ou pelo menos se não me odiava antes, me odiava agora e isso era suficiente para mim. Mas garotas não eram simples, nunca eram, e não importava o tipo de relacionamento que você tinha com elas, poderia ser o mais simples e inocente possível, mas ainda assim, em algum momento, viraria uma bola de neve.

O que Alanna dissera, sobre amor e ódio andarem juntos poderia soar muito estranho para mim, mas aparentemente era verdade. Inclusive Roxie concordava com a aprendiz de Elesa.

Depois de três encontros com Clarice em Undella e de perceber que eu não fazia ideia do que se passava pela cabeça dela, acabei contando a história, sem muitos detalhes, para a líder de ginásio. E ela foi taxativa em dizer que provavelmente Clarice me amava e odiava em igual intensidade.

Mas tanto amor e ódio não se anulariam? Aparentemente no mundo dos relacionamentos isso não funcionava de forma simples.

– E a sua namorada? – Foi à primeira coisa que me perguntou quando nos esbarramos no Festival de Tributo a Lua, depois de olhar para os lados e se certificar de que Haila não estava mesmo ali. Não respondi, primeiro porque não devia satisfações a ela e depois, mesmo que devesse, eu não tinha mais ideia de onde Haila estava. Já tinha se passado alguns dias desde a última vez que a vira, ela poderia não estar mais em Driftveil. – Então ela te chutou mesmo? – Perguntou provocativa.

De certa forma a resposta era sim, exceto pelo fato de nós não estávamos namorando.

– Ela tinha as coisas dela para fazer, e eu as minhas.

– Sabe, talvez tenha sido melhor assim, ela era muito violenta. – E a cicatriz no lábio estava lá para lembrá-la de quanto o braço de Haila podia ser pesado quando ficava furiosa.

– Tanto faz. – Dei de ombros e dei um passo para passar por ela, mas ela começou a falar.

– É só isso, não vai nem perguntar se eu estou bem? – Disse com a voz estridente.

– E pra que isso? – Ela vinha querendo me esfolar nos últimos dias, para que precisaríamos dessas falsas cordialidades?

– Não acha que é o mínimo que você poderia fazer?

– Você vai me culpar pelo resto da vida por causa da sua Audino, não é?

– Ela era minha. – Levantou a voz.

– Ela estava sofrendo.

– Mas ela era minha. – Institui. Granbull se mexeu ao lado dela, como se fosse me atacar a qualquer instante. Apesar disso, Riolu ao meu lado, não se mexeu.

– E por que você não cuidou dela, então?

– Ela estava pronta para aquela batalha.

– Clarice, nenhum Pokémon está pronto para sofrer daquela forma. – Talvez de todas as ações estúpidas que eu havia tomado desde que começara minha jornada, libertar a Audino era a única que eu nunca me arrependera em nenhum segundo. Não importava se Team Plasma estivesse errada, se toda aquela ideologia fosse mesmo mentira. Naquela hora, naquela situação, liberdade era o mais correto a fazer.

– Me desculpe se não sou perfeita como você. – A frase saiu depois de um longo tempo de silêncio e carregada de rancor.

– Eu não sou... – mas ela me interrompeu.

– O queridinho do Burgh, a quem ele encheu de elogios mesmo com uma apresentação ridícula. O garoto que todo mundo se lembra do Contest de Nimbasa, mesmo você tendo sido desclassificado. Amiguinho da Alanna que ela faz questão de defender com unhas e dentes e agora, o que falta? Ah é, protegido da Roxie, sim, eu vi vocês juntos mais cedo – rosnou jogando toda aquela informação na minha cara. – E não vamos esquecer da sua genética abençoada. Mesmo que você não tenha me contado, eu sei que você é um Charleston. Saiu no jornal quando estivemos envolvidos no incêndio do restaurante.

Ah, o jornal. Eu me lembrava do estardalhaço que minha mãe fizera porque eu aparecera naquela coluna estúpida de fofoca.

– Você está errada sobre mim. – E eu me perguntava como ela podia me ver como uma pessoa tão espetacular daquela forma. – Eu não sou nada disso.

Eu não era nenhum prodígio como coordenador, na verdade, eu era quase uma piada e qualquer outra Charleston da minha linhagem teria vergonha do meu desempenho. Eu tinha ficado famoso no meio, mas pelos motivos errados, eu era para o mundo, graças à coluna de jornal, o filho mimado de uma celebridade esquecida no ostracismo e que fazia rebeldias para aparecer. Era também o coordenador idiota que manchou a carreira por se enfiar na arena. Não importava que muita gente considerasse minha decisão corajosa, um trainer mais experiente teria tirado seu parceiro do campo antes que as coisas chegassem aquele ponto.

– Oh, que gracinha, e ainda é humilde – ironizou. – Qual é, admita que você é o escolhido de Arceus que fica mais bonito.

– Por que tudo isso? – Fazia sentido ela me odiar pelo que fizera a Audino, mas das coisas que ela havia listado, a pobre Pokémon sequer havia sido citada.

– Porque eu odeio o seu tipo. – Respondeu bufando e Granbull a acompanhou no gesto.

– Você me odeia ou odeia a si própria e está descontando em mim? –Saiu sem querer, natural como se eu comentasse sobre a beleza da Lua.

Clarice deu um passo à frente e levantou a mão, eu não teria tempo de reação se ela realmente quisesse, mas ela parou o tapa bem no meio, antes dos seus dedos tocarem meu rosto. Ela me encarava de um jeito incompreensível, as pálpebras tremiam como se tentasse refrear o choro. Então abaixou o braço e saiu marchando e meio a multidão. O Granbull a acompanhou, desaparecendo sua pelagem arroxeada em meio às pessoas que transitavam por ali.

Eu não sabia por que tinha dito tal coisa, as palavras escaparam antes que eu realmente me tornasse consciente de tal pensamento. Mas aparentemente eu não estava tão errado. Ela deveria me odiar sim, mas muito disso era uma projeção do que sentia sobre si mesma. Mas eu não entendia como em meio aquele ódio todo, poderia haver algum sentimento de amor. Mas as palavras de Alanna eram sábias e Roxie as explicaria para mim, no momento oportuno.

=8=

– Ei – Lila quebrou o silêncio que havia descido entre nós. Fazia horas que estávamos no alto da colina esperando pelo Absol, mas nenhum tinha surgido, nem mesmo os que Lila não queria. – Você acha que é possível que Clarice deixe Grangran namorar Bulbasaur?

– Bem... – Eu não fazia ideia, mas não me parecia que a Granbull estivesse de acordo com isso, mesmo que Clarice não se opusesse.

– E nem seria um amor tão impossível, afinal Clarice é uma coordenadora também e nós acabaríamos sempre nos encontrando.

– Mesmo que ela estivesse bem com isso, acha que daria certo? A Granbull não parece muito interessada nisso.

– Claro que está – falou animada.

– Mas ela não dá atenção alguma ao Bulbasaur – constatei espiando o Psyduck que brincava com o irmão no campo florido.

– Mas isso é muito comum, as garotas precisam se fazer de difíceis. – Ergui uma sobrancelha sem entender. – Você sabe isso é um item básico do manual das meninas. – Eu estava entendendo cada vez menos. – É tipo um teste, se o garoto desiste com um simples não logo no começo, ele não vai estar ao seu lado quando as coisas ficarem sérias, então se fazer de difícil é um jeito de separar o joio do trigo.

Para mim, aquilo não fazia sentido algum, sempre achei que ser muito insistente só serviria para chatear a garota.

– Mas e se o Bulba achar que não vai conseguir ganhar o coração dela e desistir? – Afinal, se a Pokémon se fazia de tão difícil, era uma enorme possibilidade disso se tornar realidade.

– Isso não vai acontecer, Bulba sabe dos sentimentos da Grangran. – Sentimentos esses que parecia que apenas Lila via.

A verdade é que eu não fazia ideia de como Pokémon escolhiam parceiros, sempre achei que precisavam ser da mesma espécie, mas desde que começara a ler o livro da minha mãe percebi que não era tão simples assim. A procriação dependia muito mais dos monstrinhos pertencerem ao mesmo Egg Group do que serem exatamente da mesma espécie, mas isso ainda não fazia muito sentido para mim. Nem fazia ideia se eles poderiam se apaixonar, como acontecia aos humanos, mas para Lila, isso não só era perfeitamente cabível como totalmente normal.

– De qualquer forma, você poderia pedir a Clarice para facilitar o caminho para o Bulba. Ela deve acatar seu pedido, afinal é sua namorada. – E deu um sorrisinho.

– Ela não é minha namorada. – Bufei.

– Qual é, com aquele ciúme todo? – E ergueu a sobrancelha.

– Eu sinto muito por aquilo. – Pedi me ajeitando e abraçando os próprios joelhos.

– Não há nada para se desculpar, você não fez nada, sua namorada é que é uma maluca. – E assim a conversa morreu, com Lila voltando sua atenção para o pequeno vale.

Por aquilo, eu queria me referir ao nosso almoço do dia anterior. Depois de conhecer Lila no Festival de Tributo a Lua, nós havíamos combinados de almoçarmos juntos em uma lanchonete que ela dissera ser muito boa.

A refeição corria tranquila, ela explanava sobre seu desejo de capturar um Absol e seu gostaria de ajudá-la na empreitada depois de tudo o que tinha acontecido no dia anterior, foi quando Clarice estacionou ao lado da nossa mesa.

Achei que depois do que havia dito a ela, ela faria questão de me evitar, mas aparentemente minhas palavras tinham causado o efeito oposto. Fez questão de provocar Lila, dizendo que eu trocava de namorada facilmente e ainda tripudiou da menina quando ela gentilmente tentou se apresentar e estabelecer um elo por todos sermos coordenadores Pokémon.

Mesmo que não tenha ficado muito tempo ali, interrompendo nossa refeição, o clima ficou carregado e quando finalmente se afastou, recebi um olhar interrogativo de Lila. Mas antes mesmo que pudesse responder, ela mesma constatou que Clarice era uma namorada ou ex-namorada, e pela raiva e possessão provavelmente a coisa entre nós não havia terminado bem.

De certa forma, considerando a perda de Audino e a briga com Haila, as coisas entre nós não haviam realmente terminado bem, mas não é como se nós fossemos namorados. Na verdade, me chateava ela aparecer toda vez que eu estava na companhia de uma garota diferente para fazer um alarde sobre isso. Não era como se eu fosse o tipo garanhão que ia atrás de qualquer saia que via, mesmo que eu realmente interagisse com muitas garotas diferentes, nunca havia nada demais nesse contato. Eram minhas amigas e para mim, era normal que homens e mulheres pudessem formar laços de amizade, mas Clarice não via dessa forma.

Para ela, qualquer garota ao meu lado era uma provável candidata à namorada e uma ameaça que ela precisava combater. Eu não era ingênuo para saber não saber que ela nutria sentimentos por mim, mas à proporção que ela dava a tudo fazia parecer que tínhamos laços mais profundos do que o que realmente havíamos construído.

Mesmo depois de tudo, eu ainda me importava e me preocupava com ela, e queria que ficássemos bem, mas Clarice não facilitava em nada essa situação e eu não via mais nenhuma forma amigável para poder lidar com ela.

Mais um longo tempo se passou e a noite avançou ainda mais. Um vento frio começou a ser soprado do leste, balançando as copas das árvores e fazendo a grama alta dançar. Eu sentia minhas pálpebras pesarem e Lila parecia tão sonolenta quanto eu.

Foi quando me lembrei de algo que havia acontecido no dia do Festival e que poderia ter martelado na minha cabeça se não houvesse tantas outras coisas para me preocupar.

– Ei, você quer mesmo um Absol porque eles são bonitinhos ou é só uma caçada vingativa por que um Absol roubou seu bolinho? – Ergui a sobrancelha e ela inflou as bochechas confirmando minhas suspeitas. – Você sabe que não tem como encontrar exatamente o mesmo Pokémon.

– É ai que você se engana – balançou o dedo diante do meu rosto, como se soubesse de mais coisas do que eu.

=8=

Caminhei um tempo na multidão com as palavras de Clarice ecoando em meus ouvidos, ela me via como uma pessoa que definitivamente eu não era e isso era absurdo e assustador. Roxie ainda estava no palco, emendando uma música atrás da outra e fazendo a plateia delirar.

De repente, Desdemona começou a girar e fazer barulhos estranhos, era sua forma de me avisar que tinha visto um rosto conhecido na multidão. Ao lado de um grupinho animado, em uma barraquinha de doces, estava Lila, acompanhada de seus parceiros.

– Achei que você iria comprar só um refrigerante – indaguei parando ao seu lado.

– Eu ia, mas encontrei esses doces lindíssimos e precisei comprar. – Ela abriu a sacolinha que segurava e me mostrou o que havia dentro. Vários bolinhos, parecidos com cupcakes com formatos de vários tipos de Pokémon. – São tão bonitos que dá até dó de comer.

Lila pagou ao dono da barraquinha e saiu saltitando a minha frente. Roxie aparentemente ainda iria demorar e eu não estava a fim de circular sozinho por ali e me deparar com Clarice novamente, então segui a garota.

Fomos para uma rua lateral, do outro lado das barraquinhas. Ali não havia enfeites e poucas pessoas transitavam. Lila se largou no meio-fio e esticou as pernas no chão arenoso, então abriu a sacola e pegou um dos seus bolinhos decorados.

– Você quer um? – Me ofereceu quase enfiando o bolinho na minha cara. Sorri e recusei, fiquei vendo-a se deliciar com o doce cheio de glace colorido e sujar as mãos e a cara.

Charmander e Bulbasaur brincavam com Desdemona e Chiclete os acompanhava de perto, sem realmente interagir. Sua expressão parecia mais suave, mas seja lá o que sentisse em relação a mim, não havia mudado. Desde que sua Pokéball fora quebrada, apenas marchara ao meu lado. Dava mais atenção a Roxie e até mesmo a Lila, mas mesmo que preferisse a companhia de qualquer uma delas, ainda permanecia me escoltando. Aquilo podia ser um resquício de preocupação que sentia por mim, mas também poderia ser só receio de me ver se livrar de seus parceiros sem um prévio aviso.

Foi quando percebi que os pelos das suas costas se eriçaram e ele encarou um amontado de latas de lixo que ficavam na entrada de um beco. O local estava escuro, mas não havia nada lá e eu não entendia o porquê da sua reação. Riolu produzia um barulho baixo e grave parecido com um rosnado e lentamente, pé ante pé, avançava na direção do beco.

Os Psyducks e a Koffing pararam de brincar e ficaram encarando a ação de Chiclete, mas assim como eu, eles pareciam não ver coisa alguma. Foi quando de repente, uma lata de lixo tombou e um vulto branco cortou a noite, passando tão rápido por meu Riolu que ele mal teve tempo de reagir.

A figura misteriosa cruzou pela dupla de Psyducks, derrubando-os no chão e aterrissou sobre Lila. A garota mal teve tempo de gritar, quando deu por si, o bicho já tinha saído de cima dela e avançava rapidamente sobre a rua.

– Ei – ela se levantou com um salto. – Esse é meu bolinho. – Gritou apontando para o vulto que se afastava, e saiu em disparada atrás do bicho.

Meu cérebro demorou alguns segundos para processar tudo o que acontecera. Seja lá o que fosse o Pokémon misterioso, ele tinha pulado em Lila apenas para roubar o doce que ela comia, só que a menina parecia furiosa com o furto e saiu em disparada atrás do vulto branco.

Olhei para o quarteto de Pokémon que pareciam tão atordoados quanto eu. Do outro lado da rua, o Pokémon branco sumia em uma viela, seguido de Lila que corria e gritava atrás dele.

– Tsc. – Sai correndo com os Pokémon em meu encalço, eu não acreditava que Lila tinha ido atrás de um Pokémon selvagem só por causa de um estúpido bolinho.

Quando finalmente a alcancei, achei que ela tinha acuado o ser, mas olhando com mais detalhes, na verdade era o Pokémon que a acuava. Apesar de estarem em uma rua aberta, era o animal que avançava sobre ele. O bicho era do tamanho de um cachorro grande e tinha a pelagem toda branca, mas a cara e o rabo eram pretos. Ele ainda trazia o bolinho na boca e a passos lentos ia em direção à garota.

Lila desviou os olhos para nosso grupo recém-chegado e então murmurou algo que não consegui entender. Mas percebi que as palavras não eram para mim, Charmander tomou a frente e abriu o bico e uma forte corrente de água de alta pressão saiu dali, formando um arco perfeito na direção do monstro branco.

Só que o golpe não o atingiu, com um salto perfeito, o Pokémon se moveu, desviando do ataque e pousou centímetros à frente, com o doce ainda preso na boca.

– Charmander, de novo. – Desta vez gritou.

O Pokémon se preparou, mas mal teve tempo, o vulto branco saltou novamente e pousou graciosamente sobre o pato, derrubando-o no chão. O Pokémon usou seu peso para imobilizar o Psyduck e então levantou uma das patas, exibindo unhas afiadas, se preparando para desferir um golpe doloroso.

Bulbasaur saiu em auxílio do amigo, armado de uma poderosa cabeçada, mas tropeçou nas próprias patas curtas e se desequilibrou. O Pokémon branco saltou novamente, abrindo distância suficiente para ver cerimoniosamente, Bulbasaur cair sobre Charmander e eles se embolarem.

Eu não sabia de deveria ficar perplexo ou achar engraçado a cena que se desenrolava, mas Lila não parecia muito contente com os acontecimentos, principalmente porque o monstro selvagem ainda estava de posse do seu bolinho.

O problema era que se os Psyducks estavam fora de combate, eu teria que defende-la, e Riolu não tinha movido um músculo até então. O bicho branco se empertigou e me encarou como se fosse me sublimar. E lentamente se aproximou de onde eu estava. O olhar daquele monstro era penetrante e sombrio e senti como se minhas pernas se negassem a se mover.

Pelo canto dos olhos, percebi Chiclete se movimentar discretamente, mas eu não fazia ideia do que ele iria fazer. Entretanto, fosse lá o que ele tinha em mente, não teve tempo de executar, porque Desdemona apareceu ao meu lado, girando enlouquecidamente e liberando um gás roxo para todo lado.

Em poucos segundos, aquele trecho da rua tinha desaparecido em meio ao gás denso e mal-cheiroso e eu não podia enxergar um palmo diante do nariz. Ouvi um gritinho vindo de Lila, mas não conseguia me orientar e achei melhor não me mexer até que a fumaça se dissipasse.

Demorou alguns minutos até o vento litorâneo arrastar a nuvem roxa para longe. Chiclete estava ao meu lado, parecia meio irritado com a fumaceira, a dupla de Psyducks também parecia meio atordoada com a situação e coçava os olhos. Lila apareceu ao meu lado alguns segundos depois.

– Você ficou louco de usar esse ataque? A gente poderia ter se envenenado, o gás dos Koffing é muito poderoso. – E lançou um olhar a Desdemona que parecia muito orgulhosa do seu feito.

A verdade é que a Pokémon não era minha e havia agido por conta própria, de forma que apenas Roxie realmente poderia dar algum pitaco ali, mas achei melhor ficar calado. Seria muita coisa a ser explicada.

– E aquele desgraçado levou o resto dos meus bolinhos – choramingou e só então percebi que ela não carregava mais a sacola de doces. – Maldito Absol.

Absol? Eu não conhecia o Pokémon, mas já tinha visto o nome sendo citado no livro da minha mãe.

– Eu preciso dele. – Lila disse de repente e a encarei sem entender. – Eu preciso de um Absol no meu time.

– Mas você acabou de chamá-lo de maldito. – Eu não estava entendendo nada.

– Bem, é um pouco, mas você viu aquele porte? Aqueles saltos perfeitos, aquela habilidade. E eles são tão bonitos e fofos. – Disse animadamente. – Imagine o sucesso que ele fará em Contest.

Eu não entendia nada daquilo. O bicho tinha dados saltos perfeitos, mas a aparência pouco amigável, o fato de nos ter confrontando mesmo estando em menor número e o que estava disposto a fazer com o pobre Psyduck, eu diria que ele era muita coisa, mas certamente fofo e perfeito para o Contest não estava entre elas.

– Ele deve ser um Pokémon selvagem – coçou o queixo pensativamente. – Se não me engano, existem muitos Absol vagando na Rota 13. Eu deveria pegar um.

– Lila, não sei se é uma boa ideia, nós estávamos com quatro Pokémon...

– Mas é por isso que você irá comigo – me interrompeu. – Se você estiver lá, certamente vamos conseguir capturá-lo.

– Mas você não acabou de falar que eu quase matei a gente com Desdemona?

– Seus métodos são meio bizarros, mas são muito efetivos nos final das contas. Tenho certeza que você será de grande ajuda. – Falou animada. Eu não seria de ajuda alguma, mas aparentemente, eu era voto vencido.

=8=

– Do que você está falando? Ele é um Absol como qualquer outro. – Respondi diante de sua afirmação.

Mas Lila não me respondeu, sua atenção foi atraída para o grupo de Tangelas que começou a correr desorientado e se embrenhou no meio do arbusto baixo até desaparecer.

Do outro lado, de uma pequena clareira apareceu um Absol. Não me parecia mais tão grande ou assustador como no dia do Festival, talvez porque não fosse o mesmo ou talvez fosse só porque eu havia me acostumado a eles.

Lila levantou em um salto e partiu em disparada, descendo a pequena colina em direção ao vale. A dupla de Psyducks embalou logo atrás dela, meio aos tropeços pelo caminho íngreme. Ela não tinha como saber se aquele Absol era o mesmo do Festival, ou tinha?

Quando cheguei ao final da colina, Lila já estava bem mais a frente e o Absol tinha pulado em meio grama alta e apenas a ponta negra da sua cauda era visível. Pude vê-la comandar a dupla de Psyducks para se separarem e cercarem o monstrinho.

As duas bolotas amarelas se embrenharam no mato, correndo na direção da cauda. O mato farfalhava alto e Lila gritava alguns comandos, mas eu estava muito distante para entende-la.

Quando se aproximou da grama alta, ela parou e tentou, sob a fraca luz da lua que nós permeava, enxergar o que acontecia entre seus Pokémon e Absol.

– Water Pulse – ouvia-a a gritar. A grama farfalhou e anéis de água se formaram, encharcando o mato. – Bulbasaur, agora use Confusion.

Eu não sabia exatamente o que o ataque fazia, mas houve uma enorme confusão na grama. Os Psyducks começaram a fazer uma longa barulheira, como de crianças pequenas que estão se estapeando. Então do nada, Absol pulou para fora do gramado, a pelagem branca enlameada.

– Ahá, eu sabia que era você. – Lila gritou vitoriosa, apontando para o monstro.

Ele fez um barulho engraçado parecido com o rosnar dentro de uma garrafa e depois se virou como se fosse pular sobre ela, mas os Psyduck apareceram, também sujos e com alguns arranhões.

– Muito bem, Bulba e Chardy, Confusion, juntos – ordenou.

Os dois Pokémon levaram as patas a cabeça como se sofressem uma forte dor de cabeça, e os olhos ficaram totalmente brancos, mas nada aconteceu. Lila inclinou a cabeça, confusa com a falta de efeito que seu golpe tinha produzido.

– Ora, tinha me esquecido que a maioria dos golpes psíquicos não fazem efeito em Pokémon Noturno – constatou infantilmente, como se tivesse esquecido um detalhe irrisório. O problema é que sua dupla tinha muito mais ataques psíquicos do que aquáticos, o que significava que eles eram praticamente inúteis naquele combate.

O Absol pareceu não se incomodar com esse detalhe esquecido, saltou na direção dos Psyduck e com suas poderosas garras, derrubou-os no chão deixando marcas profundas na pele amarelada. Ele passou direto pela dupla caída e continuou avançando na direção de Lila.

Ela deu um passo para trás, desconcertada com a facilidade com que ele havia derrubado seus parceiros, mas mesmo assim, ela não parecia assustada, apenas preocupada que precisaria de outra estratégia para capturar o Pokémon que tanto desejava.

Absol saltou majestosamente na direção dela e eu me preparei para gritar, mas não foi necessário, Chiclete o interceptou no ar, com um chute na altura da costela. Os dois caíram na grama e se levantaram rapidamente, encarando um ao outro.

Não demorou para que o Absol avançasse em grande velocidade na direção do Riolu e eles começassem a batalhar. O bicho branco avançava com arranhadas e mordidas, Chiclete desviava, saltando de um lado para outro e respondia com socos e chutes, dos quais Absol também desviava graciosamente.

Lila aproveitou a distração e veio ao meu lado, seus olhos acompanhavam a batalha e ela parecia muito animada com aquilo.

– Eu disse que você seria muito útil.

Absol e Chiclete continuaram naquela valsa por mais um tempo, até que Chiclete errou um passo e o monstro agarrou seu braço com uma mordida poderosa. O bicho azulado tentou puxar o braço, sem sucesso, mas com um tranco conseguiu fazer com que os dois caíssem no chão.

Eu não sabia se deveria dar algum comando, se Chiclete obedeceria se eu disse algo. Mesmo que fosse uma luta como antigamente, eu não sabia praticamente nada sobre Absols, não fazia ideia de que golpes poderiam ser efetivos contra ele.

No chão, Absol conseguiu jogar seu peso sobre Riolu e rendê-lo, com o braço preso entre os dentes, ele levantou a pata e exibiu as longas garras. Seria um golpe certeiro e sem direito a defesa alguma, aquilo tiraria Chiclete de combate.

Senti meus pés me arrastarem pela grama e as mãos de Lila me segurarem pelo braço, impedindo-me de pular no meio do combate. Vi as unhas longas reluzirem a luz da Lua, aquele era o fim do meu Pokémon.

Longas labaredas cruzaram a noite e atingiram Absol. As chamas eram tão controladas que Chiclete, abaixo, saiu totalmente ileso. O Pokémon branco libertou o braço do Riolu e pulou na grama, para refrescar a pelagem chamuscada.

Só então me liguei que era Bacon que havia escapado da Pokéball de algum jeito e se unido a batalha para defender o companheiro.

Chiclete se levantou segurando o braço lacerado, as feridas eram profundas, mas ele parecia estar bem. O Absol encarava Bacon com o dobro de raiva e andava de um lado para o outro, formando um semicírculo e analisando a dupla.

Mesmo com Riolu ferido, achei que o Absol fosse recuar, mas depois de um tempo, ele acelerou as longas patas na grama e partiu para o ataque. Diferente de Chiclete, Bacon não reagiu, me encarou esperando um comando.

– Evasiva – gritei sem realmente pensar. O porquinho pulou para o lado, desviando da investida de Absol. Antes mesmo que meu Pignite pudesse se recompor, o Pokémon noturno fez a volta e avançou novamente.

Chiclete pulou na frente, desferindo um Force Palm desajeitado com o braço bom. Não foi suficiente para derrubar Absol, mas o monstro ficou desorientado. Aquela era minha chance de acabar logo com aquilo.

– Bacon, Flame Charge – disse ainda receoso, mas o suíno acatou o comando e abriu a boca, deixando sair longas e fortes labaredas.

O golpe acertou Absol em cheio que desapareceu no redemoinho de chamas. Ele deu um urro assustador e então começou a correr pela grama, tentando se apagar. Quando finalmente as chamas se apagaram, a pelagem estava toda bagunçada, chamuscada, cheia de lama e grama. Ele encarou os Psyducks que tinham se recuperados, mas ainda estavam sentados na grama, com grandes marcas de garras no rosto.

Então desviou o olhar para Lila e eu e depois para minha dupla de Pokémon, com um silvo baixo, virou as costas e correu pela grama, em fuga.

– Nada disso – Lila falou lançando uma Pokéball azulada no ar.

O dispositivo atingiu o Pokémon e uma luz avermelhada o envolveu. Os segundos pareceram correr devagar enquanto a bolinha vibrava, mas por fim, a esfera parou e a noite foi coberta por um longo silêncio.

– Nós o pegamos – a garota guinchou escandalosamente dando pulinhos de vitória.

Senti um misto de alívio e felicidade me invadir. Lila correu na direção do dispositivo e o pegou. Os Psyduck a acompanharam e apesar do ferimento, pareciam bem e felizes. Fizeram uma algazarra em torno dela como se celebrassem a captura.

Lila voltou ao meu lado, girando a bolinha azulada nos dedos.

– Por que sua Pokéball é diferente? – Questionei curioso.

– É uma Greatball, facilita muito na captura dos Pokémon – disse olhando para a bolinha. – Tome. – Disse enfiando a Pokéball nas minhas mãos. – Ele é seu.

– Do que você está falando? – Encarei- a surpreso. Era ela quem me arrastara para a floresta na tentativa de pegar um Absol.

– Foram seus Pokémon que o derrotaram.

– Mas era você que queria um Absol...

– Sim, achei que seria uma boa aquisição ao meu time, mas eles são um pouco difíceis, né? – Era o que eu vinha tentando dizer desde o começo.

– Mas você não os achava fofos e os queria no seu time para poder concorrer em outras categorias?

– Bem, eu ainda os acho fofo, mas acho que não teria jeito para treiná-lo. Aposto que você fará um trabalho muito melhor. – Aposto que não.

Lila não fazia ideia do embate mental que eu me encontrava. Eu estava tencionando abandonar meus Pokémon e ela queria me dar um novo. Além disso, mesmo que não houvesse toda essa aflição no meu coração, eu não teria o menor jeito para lidar com o demônio branco.

– Lila, eu realmente não posso aceitar – empurrei a Greatball de volta.

– Não seja assim – e empurrou em minhas mãos novamente. – Você batalhou muito duro essa noite, você o merece. Além disso, bem provável que ele sequer me obedeça – e encarou seus parceiros derrotados.

– Lila, eu não sou um bom coordenador.

– Do que está falando? Chiclete consegue batalhar sem comando e seu Pignite é muito forte. – Os olhos brilhavam em animação. Ela parecia me ver como um coordenador muito habilidoso, assim como Clarice, mas eu nunca fizera nada realmente para ser visto de tal forma.

– De qualquer forma, você não o queria? Não era seu Absol especial?

– Bem, ele havia roubado meu bolinho e eu pretendia fazê-lo pagar. Mas agora, depois de tudo, acho que estamos quites. E agora tem uma nova forma de reparação. – Curvei as sobrancelhas sem entender. – Você pode me comprar novos bolinhos. Agora que ele é seu, isso passou a ser sua responsabilidade.

Olhei para a esfera na minha mão, eu realmente não queria um novo Pokémon, mas Lila parecia disposta a me fazer aceitar de qualquer maneira. Bacon parecia feliz em ter me ajudado em uma nova captura, mas Chiclete matinha um olhar velado que eu não sabia o que significava.

– Está ficando tarde, melhor irmos – Lila se virou, fazendo sinal para Charmader e Bulbasaur e começou a abandonar o vale. – Vocês vão precisar de um longo descanso no Centro Pokémon. – Disse se voltando para a dupla de Psyducks. – Espero que não fiquem cicatrizes. – Comentou, provavelmente pensando nos Contest. – Apesar de que seriam belas cicatrizes de guerra. – Afagou as cabeças de ambos.

A relação de Lila com seus parceiros era tão descomplicada e leve que eu a invejava. Ela não estava se digladiando com seus medos, não estava atormentada se fazia seus parceiros felizes, nem como eles se sentiam em relação a suas escolhas. Ela parecia uma criança feliz e os Psyducks pareciam felizes com ela.

Lila já estava bem mais a frente quando se virou e me chamou.

– Você vai ficar ai? Chiclete precisa de tratamento também.

Realmente seu braço não estava muito bem, era possível ver os dentes do Absol desenhados no membro lacerado. Se eu ainda tivesse sua Pokéball poderia colocá-lo no dispositivo e isso ajudaria na sua manutenção, mas infelizmente, ele teria que ir com o braço molemente pendurado ao lado do corpo por todo o caminho.

– Você fez um ótimo trabalho, Bacon. – Peguei a Pokéball e o chamei de volta. Ele havia feito um ótimo trabalho protegendo Chiclete e trabalhando em conjunto para derrotar o Absol. Ele parecia ter consciência do meu orgulho, pois deu um grunhido feliz e satisfeito antes de sumir na luz avermelhada.

– Você também, Chiclete. – O Pokémon me encarou por um momento. Aquelas eram as primeiras palavras que eu realmente dirigia a ele desde que havia se libertado. Ele ajeitou o braço ferido e foi caminhando na direção de Lila, quando se afastou o suficiente me encarou por cima do ombro, quase como se me obrigasse a segui-lo, apesar de tudo, isso me parecia um bom sinal.

Enfiei a Pokéball de Bacon no bolso, junto à do Absol e acelerei o passo, até emparelhar com Lila. Eu não iria ficar com o Pokémon, mas depois eu pensaria no que fazer com ele.

– Ei, como sabia que esse Absol era o mesmo que havia roubado seu bolinho? – Estava curioso desde que ela afirmara saber qual era com certeza. A mim todos pareciam iguais.

– Os olhos. Absols normalmente tem olhos avermelhados, mas este tem grandes olhos violetas. – Realmente o Absol tinha olhos violáceos, mas achei que era normal, sequer tinha reparado que o resto deles não tinha a mesma característica.

– Por que disso?

– Não sei, mas é uma caraterística bem diferente. Mas foi o que o denunciou.

– Tem certeza que não quer ficar com ele? – Imaginei que essa singularidade fizesse alguma diferença para os Contest.

– A caçada foi divertida, mas serviu para me mostrar que eu não estou pronta para um Absol ainda.

– Tem certeza? Você tem uma fita e eu uma desclassificação.

– Bem, acredite, a categoria Beautiful é bem mais simples do que a Cool. – Admitiu. Eu nunca tinha concorrido a nenhuma outra categoria, não fazia ideia das diferenças reais que existiam entre elas. –Acho que vou tentar um Slowbro, eles são tão fofos e graciosos – disse pensativa. – Podemos sair para pescar alguns amanhã.

–Você disse a mesma coisa do Absol.

– Mas é a verdade, não tenho culpa que todos os Pokémon são fofos e graciosos. E que nome vai dar a ele? – E meneou a cabeça indicando a Pokeball no meu bolso.

Eu não tinha pretensões nenhuma de ficar com o Absol e por isso não havia pensando em nome algum para ele. Lila sugeriu que eu o chamasse de Mewtwo, nome que ela daria, caso tivesse ficado com ele. Balancei a cabeça sem responder. Certamente, eu não daria tal nome.

Notas finais
Até semana que vem! Comentem! Beijokinhas e até!