Rota Zero
59 A Canção - parte 2
Notas iniciais
December
A CANÇÃO — parte 2
“Quando a verdade estiver corrompida, será hora das luzes douradas reluzirem em seus cascos...”
Quando mais adentrávamos na caverna, mais escuro e úmido ficava. Aos poucos fomos perdendo o rastro por causa da falta de luz e Haila liberou Leaf, para que ela tentasse encontrar Serpio pelo cheiro.
O som de rochas sendo destruídas e as paredes balançando se tornaram cada vez mais constantes, o que significava que estávamos cada vez mais próximos dos Excadrill.
Leaf cheirou o ar carregado e do nada começou a correr. Mal conseguíamos divisá-la na escuridão e corremos em seu encalço. Com um movimento fluido ela saltou um montinho de pedras, Haila tentou acompanhá-la, mas não levantou a perna o suficiente, tropeçou e caiu.
A Pokémon parou metros a frente, apenas as pontas verdejantes de suas orelhas eram distintas para mim. Me aproximei da loira e usei a pouca luz que o Xtransceiver produzia para iluminar as pedras que Haila tropeçara, só que não eram pedras.
— Ele está morto? – Questionei ao ver o membro da Team Plasma que Serpio atacara caído no escuro. Marcas profundas de dentes no ombro que vertiam muito sangue. Instintivamente, Haila levou a mão ao próprio ombro.
— Acho que não – ela tentou analisar na pouca luz. – Deve ter perdido a graça quando desmaiou e parou de se debater.
— E onde o Serpio está? – Perguntei ao ver que não havia nenhum sinal do Pokémon. Mas Leaf fez um som característico, chamando nossa atenção.
— Por ali – Haila apontou com a cabeça enquanto se colocava de pé.
Em qualquer outra situação não me agradaria deixar uma pessoa gravemente ferida sem ajuda, mas aquele momento não era hora para se preocupar com aquilo.
Corremos atrás de Leaf por vários corredores até finalmente chegar a um patamar que se abria em uma grande área iluminada. No final do patamar, olhando para baixo, cerca de cinco metros abaixo, era possível ver um grande salão, onde alguns membros da Team Plasma iam e vinham. O mestre estava lá, acompanhado de Thiers e Bellamy.
Quatro grandes Excadrill perfuravam um monólito no chão. Era grande e cilíndrico, como uma grande rolha de uma garrafa de champagne. Havia poeira de pedra em suspensão e um grande acúmulo de terra e pedras removidas em um dos cantos da sala. No outro extremo havia uma mesa com vários projetos abertos e alguns equipamentos que não fazia ideia do que era.
— Merda – ouvi Haila resmungar e só então reparei que Serpio serpeava pela parede, descendo lentamente pela encosta de pedra e fixando seu olhar em Excadrill menor, que fazia uma perfuração fora do monólito.
Ela pegou a Pokéball na mão, mas antes que pudesse chamar o parceiro, ele saltou abocanhando o Pokémon peludo e o derrubando no chão. Os membros da Team Plasma pararam um segundo, tentando entender de onde tinha surgido um Serperior. Até que a voz alta de Bellamy se fez ouvir e ela gritou apontando.
— Ali em cima.
Todos olharam para o patamar onde estávamos e os membros que estavam armados começaram a atirar em nós. Puxei Haila pelo braço por um pequeno corredor, tentando desviar dos disparos. Leaf ia correndo a nossa frente, e através das aberturas na parede tentava acertar quem atirava com Razor Leaf, sem muito sucesso.
O corredor descia inclinado o que nos levava a uma galeria do outro lado, mas quando estávamos quase no final, a fina parede a nossa frente explodiu e um Rhydon surgiu. Ele veio sedento para cima, sem realmente preparar um ataque.
— Leaf, Magical Leaf – Haila ordenou e a Pokémon parou em posição, executando um ataque violento com as folhas coloridas.
O ataque acertou o Rhydon no peito, fazendo o cair de costas. Enquanto a Pokémon finalizava o ataque, Haila me puxou pelo braço me arrastando pela passagem que o Pokémon abrira. E lá estávamos nós, no salão principal que havia se tornado uma bagunça.
Havia membros da Team Plasma correndo para todos os lados, enquanto o velho que parecia ser o líder delegava várias funções. Os quatro grandes Excadrill tinham retornado as Pokéball, mas Serpio ainda se digladiava com o menor, rolando pelo chão. Haila tentava chamá-lo de volta, mas o feixe de luz nunca o atingia.
Leaf surgiu no buraco onde tínhamos fugido e preparou o salto, mas quando seus pés deixaram o chão, o braço forte e de couro grosso do Rhydon surgiu pela abertura, puxando-a pela cauda e a arremessando na parede do corredor destruído.
— Leaf! – Ela voltou a atenção para a Pokémon que parecia atordoada após o impacto.
Enquanto isso, um enorme Krokoodile vinha na nossa direção, arreganhando os dentes. Na confusão peguei a primeira Pokeball que achei no bolso.
Bacon saiu da Pokéball com seu bom humor de sempre, até visualizar o campo de batalha onde o tinha sido colocado. Antes que eu pudesse ordenar algo, ele segurou o Krokoodile, que vinha na sua direção como uma locomotiva fumegante e o girou, derrubando no chão.
— Acerte-o com a cauda – ouvi uma voz grossa gritar no meio da confusão.
Enquanto meu Pignite tentava imobilizar o Krokkodile, um golpe da cauda o levou ao chão. Thiers apareceu no salão com o rosto contorcido em um sorriso grotesco. Mas apesar disso, os olhos pareciam cheios de ira.
— Você não se acha muito intrometido, moleque? – Bacon e Krokkodile tinham se engalfinhado no chão e rolavam de um lado pro outro trocando socos. – Eu vou dar uma lição em você. Crunch!
Seu Pokémon abriu a boca e tentou morder a jugular do meu Pignite, mas ele conseguiu fazer um rolamento, sacrificando uma das patas, que recebeu a mordida, e ficar por cima do Pokémon noturno.
— Flame Charge – gritei o primeiro comando que lembrei. O ataque atingiu-o em cheio, devido à proximidade, mas rebateu no chão e mandou as labaredas para cima, encobrindo ambos.
Senti meu coração chegar à garganta, eu não sabia como Bacon reagiria as chamas do próprio ataque, eu sabia que muitos Pokémon eram imunes ao seu próprio tipo, mas não sabia se isso se aplicava ao meu parceiro.
O círculo de fogo ficou cada vez mais alto, então de repente, se desfez e meu Pignite caiu para o lado, com os pelos chamuscados, mas ainda consciente. Krokoodile rolou o corpo, tentando apagar o resto de chamas que havia em si, mas desabou quando tentou ficar em pé.
Thiers não pareceu abalado com o estado do Pokémon, puxou outra Pokéball do bolso e mencionou jogá-la, quando o Excadrill passou voando por nós e o atingiu em cheio, mandando-o para o outro lado do salão.
Espiei acima do ombro e Serpio se enrolava entediado em um canto do piso. Havia uns dois Team Plasma caídos e um outro matinha uma distância segura, incerto se deveria atirar. Só então reparei que o Excadrill estava desacordado e me lembrei de Haila dizendo que o Pokémon se enjoava fácil dos brinquedos.
Fiz menção de correr até Bacon, mas nesse instante a parede por onde tínhamos saído explodiu e Rhydon caiu no chão com um baque surdo. Leaf saltou da abertura sobre o peito do Pokémon desmaiado e encarou a treinadora.
Eu podia ver restos de uma Energy Ball se dissipando, enquanto a Pokémon mal parava em pé. Havia escoriações por todo corpo e uma parte dos pelos tinha sido arrancada.
— Seu fedelho – Bellamy se aproximou batendo os sapatos caros no chão de cascalho. Ela me encarava com ódio – Eu disse ao Thiers que vocês seriam só perda de tempo, Cryogonal – Invocou, atirando uma Pokéball.
A esfera girou no ar antes de libertar o Pokémon de gelo, e mesmo com o calor da batalha o ar repentinamente ficou mais frio. O monstrinho flutuava ao lado da treinadora de forma quase fantasmagórica.
Pelo canto dos olhos podia divisar Thiers empurrar desajeitadamente o corpo de Excadrill para o lado e tentar se levantar. O nariz estava sangrando e um dos braços parecia quebrado, mas ele parecia ainda mais furioso que anteriormente e enfiou a mão boa no bolso, em busca que outra Pokéball.
— Aurora Beam – ouvi Bellamy ordenar, mas Cryogonal não atacou Bacon. O ataque veio direto em mim.
Eu estava numa posição impossível de desviar e mesmo que Bacon estivesse em condições de lutar, ele não se aprontaria a tempo. Senti minha cara ralar no cascalho e um par de mãos apertar meu moletom. Haila estava caída em cima de mim, a cara enfiada no meu peito enquanto gemia de dor.
A distância que ela estava de mim era bem mais próxima, mas ela teve que saltar para nos derrubar no chão e o ataque do Cryogonal não nos atingir, o problema é que ela não era tão rápida. Parte do ataque congelante acertou sua perna, a pele exposta estava azulada e fria.
Só que Haila não era nada rápida e mesmo com o seu esforço era para termos sido atingidos pelo ataque. Leaf havia rebatido parte do golpe com seus chicotes, mas as hastes esverdeadas agora pendiam ao lado do corpo, azuladas e inertes como um vegetal esquecido no congelador.
Bellamy deu um sorriso torto, meio em desagrado pela interferência e ordenou um novo ataque. Eu podia ver Thiers liberar uma Pokéball e um Scrafty surgia das chamas avermelhadas. O bicho vinha na direção de Bacon, com uma expressão medonha. Eu não tinha muitas opções ou atacava o Pokémon ou me defendia de Bellamy. Serpio estava a poucos metros de nós, mas eu não sabia se ele realmente nos ajudaria.
— Flame Charge – gritei apontando para o Cryogonoal. Era uma cartada arriscada, mas eu não teria tempo de invocar outro Pokémon.
Bacon valentemente se pós em pé e respirou uma rajada quente, mandando diretamente para cima do Pokémon de gelo. Cryogonal sumiu nas labaredas, enquanto Bellamy saltava para o lado, impedindo seu casaco de incendiar.
Scrafty estava cada vez mais próximo e Bacon com a guarda totalmente aberta. Levei a mão ao bolso do moletom, eu precisaria da ajuda de Chiclete. Eu tentava me levantar, o ralado do rosto ardendo um bocado. Haila finalmente conseguira chamar Serpio de volta e tentava ficar em pé com a perna parcialmente congelada que não obedecia aos seus comandos. Leaf foi até ela, arrastando os chicotes que não conseguia retrair.
Do nada, Scrafty parou e encarou o chão. Havia uma lâmina de água cobrindo o piso e molhando meu calçado, mas que eu não havia reparado. A água vinha do centro do salão, da tampa em forma de rolha que agora possuía uma enorme rachadura. Alguns membros da Team Plasma corriam tentando salvar os esquemas e equipamentos da água que subia rapidamente. A vazão da água que fugia pela abertura aumentava e rapidamente meus joelhos estavam submersos.
Bellamy ignorava totalmente a situação de seus Pokémon e puxava a roupa para cima tentando não molhar o casaco. Haila estava com Leaf no colo, mas não conseguia andar sem mancar. Bacon parecia incomodado com a água que encharcava seus pelos e Scrafty parecia confuso já que seu treinador não lhe passara nenhuma outra instrução.
De repente, o monólito se estraçalhou, mandando grandes blocos para todos os lados e uma luz forte e intensa surgiu da abertura. Eu podia divisar muito pouco através da luz forte, mas havia um forma similar a um Ponyta, só que muito maior. Aquilo era um lendário? O Pokémon emanava uma energia totalmente diferente, um misto de força, nobreza e paz.
Ouvi o homem que parecia o líder ordenar algo e os membros da Team Plasma que estavam por ali, voltaram seus Pokémon e armas na direção do ser de luz. Até mesmo Thiers me esquece por aqueles minutos e ordenou que Scrafty se preparasse.
Antes que qualquer movimento pudesse ser feito, o ser de luz liberou um intenso jato de água, mais forte do que qualquer um que eu já vira e derrubou os membros da Team Plasma, envolvendo-os na água borbulhante.
Com dificuldade, o líder se pôs em pé e ordenou que seus membros se reagrupassem. Então o ser de luz fez um barulho que ecoou por todo o salão e como um meteoro, saiu voando, destruindo a abóboda do teto.
Pude ver a luz do dia que entrava tranquila e quente pela abertura recém-criada enquanto os membros da Team Plasma corriam todos para fora, atrás da figura mítica. O salão ficou deserto, podiam-se ouvir os passos se distanciando pelo terreno pedregoso.
Haila passou o braço pelo meu ombro e lentamente começamos a rumar para fora, pelo caminho que a Team Plasma tomara. Ela carregava Leaf embaixo do braço e Bacon ia a nossa frente, nos escoltando.
Quando finalmente saímos do salão alagado e subimos uma parte da passagem principal, Haila pisou em falso com a perna congelada e quase nos derrubou.
— Eu só vou atrasar a gente – tirou o braço do meu ombro e se apoiou na parede.
— Haila...
— Eu fui salvar a sua pele e veja só. Você está me devendo duas já.
— Duas? – Curvei as sobrancelhas.
— Você acha mesmo que estava preocupada com aquele membro da Team Plasma? Que Serpio palitasse os dentes com ele, só queria que aquela menina burra libertasse a gente, para podemos fugir.
Então era isso. Fiquei impressionado com a engenhosidade dela e não pude deixar de sorrir. Se não fosse por Haila ainda estaríamos presos na câmara com Rose.
— Vá na frente, já já eu alcanço você.
— Eu não vou deixar você aqui.
— Eu salvei o seu rabo, agora faça algo de útil com isso – revirou os olhos.
— Do que você está falando?
— Team Plasma, lendário, destino de Unova, quer que eu desenhe?
— Você não pode estar falando sério? Eu não tenho como deter a Team Plasma, não sem você...
— Eu sei disso, incendiário. Mas faça o que você faz de melhor, taque fogo em tudo e segure as pontas até a Roxie chegar.
— Roxie?
— Sim, ela deve estar a caminho – disse com firmeza.
— Mas como?
— Eu dei um jeito nisso – e sorriu como se não pudesse me contar seu segredo. – Agora vá.
Eu não queria fazer isso, não queria deixa-la para trás nem ter que enfrentar uma equipe de vilões sozinho. Eu não era do tipo herói. Mas eu precisava aproveitar a oportunidade que ela havia criado.
Tirei Chiclete da Pokéball e pedi que ele cuidasse da garota, já que fora Serpio, seus Pokémon estavam fora de combate. Era uma ajuda a menos no meu time, mas eu não podia deixa-la desamparada.
Corri o mais rápido que minhas pernas podiam, seguindo o caminho de luzes presas no corredor. Bacon corria ao meu lado, parecia cansado, mas bem. Eu ouvi uma barulheira infernal vindo de cima e só podia imaginar que era uma batalha. Eu definitivamente não queria fazer aquilo.
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“E majestosa será a ascensão do senhor da justiça que vaga pelas águas límpidas da temperança.”
Quando cheguei a antecâmara não havia ninguém e meus pés se aceleraram para chegar ao lado de fora. Quando a luz do dia invadiu minha visão, parecia uma zona de guerra. Havia membros da Team Plasma caídos pela areia e o barco em que eu viera estava virado de cabeça para baixo. Alguns Pokémon corriam desordenados deixando suas pegadas marcadas na areia.
Contornei a entrada da caverna e pude ver que a ilha se abria muito mais que minha visão inicial. Havia uma encosta de pedra bruta onde alguns Team Plasma batalhavam. Um Koffing passou girando por mim e cobrindo tudo com gás venenoso.
— Desdemona?
Antes de me certificar pude ouvir a voz forte da Roxie por cima do barulho das ondas, ordenando um novo ataque. Eu não podia ver nada por causa da fumaça roxa, mas pude ouvir o som de Pokémon lutando.
Puxei a gola do moletom para cima e cobri nariz e boca, tentando não me intoxicar com o golpe da Pokémon, chamei Bacon, para que ele ficasse do meu lado e corri as cegas dentro da nuvem de gás, na plataforma de pedra. Senti algo ou alguém colidir contra mim e meu pé escorregar na pedra molhada.
Fui ao chão e meu corpo bateu na pedra, mas com a velocidade e inclinação sai deslizando até sentir a gravidade me puxar e sentir meus pés baterem em uma superfície diferente. Fora da nuvem de Desdemona, percebi que caíra na reentrância de uma pedra e logo abaixo de mim havia uma piscina natural formada por um enorme buraco preenchido com as ondas do mar. A água era escura e não era possível saber a profundidade do buraco.
Na confusão tinha me separado de Bacon e esperava que ele estivesse seguro e bem. Escalei a borda a pedra e cheguei um platô mais alto, dali podia ver Marlon duelar com Bellamy enquanto Roxie corria para um pavimento mais alto onde o líder e Thiers acuavam o Pokémon lendário. Por causa da distância não conseguia enxergá-lo direito, mas ele parecia mesmo um Ponyta, inclusive no tamanho e fiquei surpreso de um lendário ser tão pequeno, a pelagem era azul e bege com uma longa crina avermelhada. Havia pelo menos seis Pokémon o cercando e ele arqueava sobre as patas dianteiras, não sabia se ferido ou apenas cansado.
Havia mais algumas pessoas de pele bronzeada que batalhavam com alguns membros da Team Plasma e presumi que eles deveriam ser de Humilau e amigos de Marlon. No horizonte, flutuando no balanço das ondas, havia barcos com bandeirolas coloridas. Eu não podia achar Bacon de onde estava, mas eu teria que procurar por ele depois.
Da minha posição, se eu cortasse caminho pelo oeste, conseguiria chegar o patamar onde o lendário estava. Talvez eu não fosse de muita ajuda, mas tinha prometido a Haila segurar as pontas até que Roxie pudesse dar um jeito.
Comecei a correr pelo platô quando Rose surgiu, interrompendo meu caminho. Ela estava suja e desalinhada. O cabelo bagunçado e um grande corte no supercilio.
— Eu não posso deixar você passar – a voz saiu ofegante, enquanto me apontava uma Pokéball.
— Rose...
— Você e a sua amiga mancharam meu nome, como vou olhar para o líder depois do erro que cometi? – E parecia que ela iria chorar. – Eu preciso reparar isso.
— Rose! Olhe o que vocês estão fazendo – e apontei para o lendário encurralado do outro lado da ilhota.
— Eu sei o que estamos fazendo. Keldeo irá nos ajudar a fazer todos os humanos entenderem nossa causa. Eu sei que para você parecemos pessoas ruins, mas só queremos o bem dos Pokémon e das pessoas. Um lugar onde todos possam viver sem humilhações e provações desnecessárias, não parece bom?
Claro que parecia, ainda era um discurso muito sedutor, mas quanto mais eu ouvia, mais sentido fazia o que Roxie e Cheren tinham me dito, a Team Plasma se vestia de palavras bonitas para vender um ideal. Rose acreditava naquilo e eu acreditava nela, mas Thiers, Bellamy e mesmo o cara que Serpio atacara não pareciam defender aquele ideal.
— Você ainda não acredita e por isso não posso te deixar passar – voltou ao discurso, arremessando a Pokeball. Esperei pelo enorme Tyranitar, mas surgiu apenas um delicado Swoobat.
O Pokémon pareceu incomodado com a luz em um primeiro momento, mas rapidamente se adaptou.
— Air Cutter – ela só poderia estar brincando. Eu tinha sido atingindo por um golpe daqueles fazia poucos dias.
Puxei a Pokeball do bolso e joguei no campo de batalha, que fosse o que Arceus quisesse. Absol surgiu majestoso, mas igualmente incomodado com a luz e com um pulo gracioso desviou do ataque sem o menor esforço.
— Air Cutter – Rose comandou novamente.
— Ah, Absol, é... hm... Bite – Era o único golpe que o vira usar e eu não sabia exatamente o que mais tinha no seu repertório.
Novamente ele desviou do ataque do Swoobat e com um salto perfeito derrubou o Pokémon voador e cravou os dentes em uma das asas.
O bicho urrava de dor enquanto Absol o girava entre os dentes e o debatia de um lado para o outro. Ok, não era bem aquilo que imaginava com o ataque.
— Certo, Absol pode parar – me senti meio idiota dizendo aquilo. Ele me encarou curioso ainda com a asa do Pokémon na boca e o soltou como se não fizesse diferença.
Rose encarou Swoobat com a asa perfurada e rasgada, abraçou-o antes de retorná-lo a Pokéball.
— Você ficou muito mais determinado – ela comentou, provavelmente se lembrando da minha hesitação em Nimbasa – mas como eu disse, eu não posso deixar você passar.
— Você é muito lerda, Rose – zombou uma voz masculina. Um rapaz um pouco mais velho que eu surgiu no platô. Ele tinha cabelos castanhos e falava de um jeito engraçado. – Eu vou acabar com esse sujeito para você.
— Não precisa Ed, eu vou dar conta disso.
— Como deu durante a vigia? – Zombou. Pelo jeito as fofocas corriam bem rápido dentro da Team Plasma.
Rose corou e fechou a cara. O tal Ed deu um passo à frente e atirou uma Pokéball, libertando um Tropius. O bicho deu um urro colossal, como um grito de guerra, mas Absol nem se abalou, continuou olhando tudo com a mesma falta de interesse. Aparentemente ele só gostava de roubar bolinhos da Lila.
— Eu disse que eu cuido disso – Rose interveio, puxando uma nova Pokéball do bolso, mas outra veio junto, caindo no chão e abrindo. Antes que ela pudesse escolher seu próximo parceiro, Tyranitar saiu ruidosamente da Pokéball que foi ao chão.
Absol deu um passo atrás e arrepiou os pelos das costas. Tropius deu um passo para o lado, e encarou o treinador.
— Rose! – Ed gritou, mas a menina apenas encarou o Pokémon, apavorada.
Alguma coisa tinha acontecido desde Nimbasa porque ela parecia não ter mais controle do Pokémon que dizia ser apenas um aliado. O bicho fez um barulho estranho e com um chicote de cauda atingiu Tropius.
— Rose! – O cara não sabia se gritava com a garota ou acudia o Pokémon. – Thiers não disse para você se livrar dele?
— Sim, mas..
Enquanto ela gaguejava, Tyranitar girava de um lado para o outro balançando a cauda. Tanto Tropius quanto Absol precisavam se esforçar e desviar do ataque aleatório.
— Rose, o que está acontecendo? – Questionei, o Pokémon não lembrava em nada a obediência resoluta que eu tinha acompanhado em Nimbasa.
— Depois que ele foi derrotado pelos Pokémon da Roxie, ele parou de me obedecer – choramingou encarando a cena que se desenrolava. – Eu tentei libertá-lo, mas ele não quis ir embora, só que ele não obedece meus comandos.
Tyranitar tinha se abaixado e escavava o chão com as unhas arrancando blocos de pedra e arremessando contra os Pokémon.
— Magical Leaf – ouvi Ed comandar e uma onda de pétalas multicoloridas envolveu o Pokémon. – Rose, chame –o de volta – gritou com seu sotaque estranho.
Rose ficou vendo seu Pokémon sumir no ataque de folhas e finalmente se esgueirou tentando recuperar a Pokéball caída, mas quando ela finalmente alcançou a bolinha, Tyranitar se livrou do ataque. Bateu as patas no chão e com força bateu os longos braços, provocando um grande tremor na estrutura do platô.
Rose foi ao chão, Ed se agarrou ao Tropius e conseguiu manter o equilíbrio. Meus pés escorregaram na superfície e eu cai na reentrância da pedra. Vi meu Absol tentar resolver o problema com um salto, mas quando seus pés retornaram ao platô, a pedra ainda oscilava, e ele se desequilibrou. Foi um voo direto em direção à piscina natural, mas eu consegui chama-lo de volta antes de bater na água.
Uma parte minha se sentia orgulhosa, mesmo com pouco treino e nenhuma afinidade, tínhamos feito um bom trabalho juntos. Escalei a parede apenas para ver Tyranitar totalmente fora de controle, corria de um lado para o outro jogando pedaços de pedra arrancados com as patas e golpeando com o rabo.
Tropius tentava segurá-lo sem muito sucesso, Ed gritava para Rose, mas ela estava caída, segurando a Pokéball do parceiro e um pedaço de pedra estava caído sobre ela. Ela parecia apenas semiconsciente, o que a tornava um alvo fácil para seu Pokémon descontrolado.
Estiquei meu braço por cima da borda do platô e alcancei o braço de Rose, envolvi seu pulso com a mão e comecei a puxá-la. Se eu conseguisse trazê-la para a reentrância e deixá-la segura, Ed poderia usar seu Tropius para acalmar o Pokémon.
Eu sabia que ela estava com a Team Plasma, mas nós havíamos crescido na mesma cidade. Era a garota que eu ouvira falar com admiração de Jaden e que Cheren queria como sua substituta no ginásio. Era a garota que amava Pokémon e acreditava que estava fazendo tudo aquilo para um bem maior.
Com esforço, fui puxando-a pela plataforma, enquanto Tropius mantinha Tyranitar do outro lado. Então um ruído alto explodiu nos ouvidos de todos, meus olhos se voltaram para onde Thiers e o líder duelavam com o lendário. Roxie tinha chegado até a plataforma e via seus Pokémon tentarem manter a Team Plasma afastada. Havia uma luz forte envolvendo Keldeo e depois do que me pareceu uma onda de choque que derrubou todos os que estavam ali, incluindo humanos e Pokémon, voou em forma de um arco perfeito e sumiu no meio do oceano, há quilômetros de distância.
Meu coração pareceu torcer no peito ao ver Roxie caindo como um fantoche no meio da plataforma, ao lado dos Pokémon, mas eu precisava resolver a situação de Rose antes de ir ajudá-la. Só que ter me distraído com a manobra de Keldeo foi uma das minhas piores escolhas naquele dia. Quando voltei minha atenção ao platô, Tyranitar corria insanamente na direção de Ed, Tropius se meteu no caminho tentando proteger seu parceiro e interceptou com um Body Slam.
O golpe deveria ter derrubado Tyranitar, mas a força só o fez se desequilibrar e cambalear para trás. Eu desesperadamente puxava Rose, mas com um passo para se ajeitar e não cair, Tyranitar pisou em cima da perna da treinadora e eu pude ouvir o osso quebrar. Mesmo semiconsciente, Rose deu um grito pavoroso e senti seu braço ficar mole sob meu aperto.
Com o resto de força que tinha, puxei-a quando ele levantou a pata e seu corpo deslizou ao meu encontro. O peso repentino me fez desequilibrar e nós dois fomos para dentro da piscina natural. Sentia a água invadindo minhas roupas e encharcando meu cabelo. Eu segurava o pulso de Rose o mais firme que conseguia enquanto afundávamos cada vez mais.
Eu olhava para cima, tentando me orientar com o pouco de luz que entrava naquela água escura, mas eu não tinha forças para nadar e arrastar Rose comigo. A dor no meu abdômen, que tinha sido esquecida por causa da adrenalina, voltava intensa junto da água fria e meus olhos lentamente se fecharam.
Quando meus olhos se abriram, o rosto de Marlon estava diante do meu, me encarando de forma curiosa. Então deu um sorriso e chamou alguém que não entendi. Lentamente, ele me ajudou a me sentar e percebi que estávamos dentro de um barco que navegava velozmente na direção do continente.
Eu estava deitado no convés, sobre um colchonete e podia ouvir algumas conversas, mas sem entender o que realmente era dito.
— O que aconteceu? – Perguntei confuso.
— Você quase se afogou – Lila respondeu.
Só então vi que na lateral do convés, Haila estava sentada em uma cadeira, a perna enrolada em um saco de água quente. Leaf estava dentro de uma bacia com água fumegante e seus chicotes pareciam estar se recuperando.
— Agradeça ao Bacon – Marlon comentou – se não fosse ele correndo em torno daquela lagoa, nunca teríamos te encontrado.
Encarei meu Pokémon que estava em um canto sendo alimentado por uma das pessoas bronzeadas que eu vira lutando na ilhota. Ele parecia muito feliz. Chiclete estava ao seu lado e vez ou outra me encarava de soslaio.
— Haila, você está bem? – Perguntei. Ela fez apenas um sinal de o.k com a mão. – Mesmo, a Team Plasma não te atacou?
— Apareceram uns idiotas antes da Lila ir me buscar, mas Chiclete deu um jeito neles. Não que fosse um grande desafio – revirou os olhos – aparentemente qualquer idiota pode se unir a Team Plasma. Mas Chiclete fez um ótimo trabalho – elogiou. – Nós fizemos um ótimo trabalho.
— Nós?
— Eu sou sua orientadora, mereço cinquenta por cento dos créditos.
— Foi muita estupidez seguir um membro da Team Plasma – Roxie apareceu descendo do convés superior, ela estava com uma manta enrolada nos ombros. – Eu já não disse que não tenho tempo para ser babá de vocês – repreendeu.
— Desculpe, é que o Thiers...
— Eu sei, Haila já me disse – disse seca, me cortando. – De qualquer forma, isso não é desculpa para fazer algo que quase custou a sua vida. Dos dois – disse encarando Haila.
— Mas como você nos encontrou? – Perguntei curioso, afinal nós tínhamos sido sequestrados e tudo mais.
— Haila avisou pelo Xtransceiver.
— Como? – Eu realmente não estava entendendo.
— Ela ficou me ligando incessantemente, e tinha um monte de mensagens estranhas no meu correio de voz, a ligação estava horrível e ela estava dizendo alguma coisa sobre Wingulls e bancos de areia... Eu ia ignorar, mas Lila apareceu falando sobre o sujeito da Team Plasma, e eu liguei os pontos.
Então era por isso que Haila ficava se debatendo, não era para se soltar, mas para ativar o Xtransceiver. Mas como ela sabia que Roxie ouviria a caixa postal e principalmente, como entenderia a mensagem? Será que mulheres pensavam de forma tão similar assim?
— E quanto ao lendário? – Eu me lembrava vagamente de uma luz e ele sumindo no oceano.
— Fugiu – Roxie deu de ombros. – O que é o melhor que poderia ter acontecido naquela situação.
— E Rose? – Perguntei me lembrando da luta contra o Tyranitar. Vi todos me encararem confusos como se não soubessem do que eu estava falando. – Rose, a garota da Team Plasma.
— O que tem ela? – Haila perguntou se inclinando na cadeira.
— Ela... nós caímos juntos dentro daquela piscina... – as imagens eram confusas na minha mente.
— Só encontramos você lá, não havia mais ninguém, nem humano ou Pokémon – Marlon me encarou.
Encarei sem realmente entender, o que havia acontecido com ela?
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“Em águas profundas, onde nem mesmo os rugidos das ondas podem chegar
O galope virá sobre espumas e vidros refletindo sua sombra branca na superfície caudalosa
Quando a verdade estiver corrompida, será hora das luzes douradas reluzirem em seus cascos
E majestosa será a ascensão do senhor da justiça que vaga pelas águas límpidas da temperança.”
Os versos do poema de Lenora faziam muito mais sentido para mim agora, depois de tudo o que vira na ilhota entre Undella e Humilau. Seaside Cave era o seu nome, mas só fiquei sabendo depois de dar uma espiadela nos mapas que Roxie carregava e ver a ilhota marcada.
Ela passou o resto do dia no Xtransceiver, falando com Elesa, Cheren e outras pessoas que eu não conhecia. Ela parecia eufórica e Marlon encarava seu andar de um lado para o outro com um largo sorriso no rosto. Achei que quando ela esfregasse na cara dele que estava certa sobre a Team Plasma, ele teria que dar o braço a torcer e assumir a seriedade da situação, mas ele parecia o mesmo do dia anterior.
Haila estava se recuperando, mas ainda mancava um pouco e reclamava que seu pé parecia muito gelado. Já Leaf precisaria de mais cuidados e descanso. Bacon estava quase novo em folha e eu tinha libertado Absol que caminhava ao meu lado na casa dos pais da Lila.
A senhora Davis tinha refeito o curativo no meu abdômen e insistira que passássemos mais uma noite ali. Roxie queria voltar para Nimbasa o mais rápido possível, mas mesmo que ela não tivesse se ferido em Seaside Cave, ela tinha sido derrubada pelo Keldeo e seus parceiros estavam exaustos.
– É um Pokémon muito bonito – a senhora Davis comentou enquanto curava meus ferimentos e jogava meu moletom no cesto de roupa suja. Aquele sangue nunca iria sair de todo. Ela encarava Absol deitado aos meus pés. O Pokémon a espiou pelo canto dos olhos e voltou a dormir. – Ele tem lindos olhos.
— Foi Lila quem o capturou – comentei meio sem graça. – Mas ela disse que não queria ficar com ele.
— Não faz muito o tipo dela – disse me oferecendo uma camisa limpa. – Você já deu um nome?
— Ainda não, eu não tinha muita certeza se deveria ficar com ele.
— Mas você não pode deixa esse floquinho de marshmallow solto por ai, ele precisa do seu amor. – E se levantou cantarolante, parando ao lado de Haila e perguntando da perna.
— Marshmallow, hm? – Encarei o Pokémon, mas ele só deu um preguiçoso bocejo. – Você gosta de doces, acho que não é uma má ideia, que tal? – Ele me encarou com os olhos estreitos e depois voltou a cabeça sob as patas. Encarei aquele silêncio monótono como um sim.
A noite passou rápida, após o jantar. Roxie ficou ao telefone a maior parte do tempo, mas Haila e eu estávamos exaustos.
— O que vamos fazer agora? – A loira perguntou me encarando de seu colchonete.
— Não faço ideia, você vai tentar outro ginásio?
— Talvez, mas preciso seguir o caminho para ser uma especialista na verdade. Contest?
— Lila disse que deve haver um em Opelucid em algumas semanas, provavelmente ela irá participar.
— E você?
— Hm, talvez, mas você viu o que aconteceu em Undella, quase não tinha competidores... Depois do que aconteceu hoje, não sei se realmente vale ir até lá e ver o Contest ser cancelado – encarei o teto.
— Talvez devêssemos ficar com a Roxie, ela vai ficar no encalço da Team Plasma e...
— Eu não acho que ela vá nos querer juntos. Ela não tem tempo para ser babá – e espiamos a sala de jantar onde ela falava ao Xtransceiver e consultava anotações. – Nós tínhamos prometido visitar o Simi – me virei no colchonete encarando Haila.
— Acha que é uma boa hora?
— Se não fizermos agora, quando vamos fazer? Além disso, nenhum de nós tem um plano – eu me perguntava se o espirito de Simi ficaria surpreso ao ver como Leaf estava forte ou como Chiclete havia evoluído.
Haila sorriu enviesado como uma afirmação então se espreguiçou e dormiu quase imediatamente. Eu estava cansado, mas ainda me perguntava o que tinha acontecido com Rose. Será que alguém tinha a resgatado, o tal do Ed talvez, ou eu tinha soltado seu pulso e deixado ela se afogar.
Eu não era do tipo herói. Todas as minhas escolhas tinham nos metido em problemas e no final não conseguira salvar Rose. Talvez Marlon tivesse razão, não havia espaço para heróis numa guerra, mas ver Roxie aparecer no final, salvar Haila e eu e ainda ajudar um lendário ainda me faziam ter esperança que um dia eu poderia ser como ela.
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