Rose à Trois
3 La Folie
Maio virou junho valendo-se de um sol radiante e muito calor, coisa que pouco importava aos alunos do sétimo ano, para os quais os NIEMs se aproximavam de forma alarmante. A maioria deles passou a habitar a biblioteca em todo o seu tempo livre, se tornando criaturas sussurrantes, cheias de olheiras e extremamente reativas a qualquer perturbação, o pior deles sendo Percy Weasley. Weasley virava seus olhos injetados para qualquer pessoa que respirasse alto na biblioteca, murmurava maldições baixinho para as pessoas que pegavam últimos exemplares de livros que ele queria, e havia rumores de que o sangue do último aluno que ousara perguntá-lo quantos NIEMs estava tentando ainda estava sob as suas unhas. Não era à toa que Bervely evitava frequentar o local, se ela tinha a opção.
Mas esse não era o único motivo para ficar enfurnada em seu quarto, devorando livro após livro em companhia do seu gato, dias e noites passando desapercebidas pelo fato de que nenhuma luz do sol alcançava as masmorras sob lago. Precisava terminar Neverland para enviar ao Instituto Flamel, e seu prazo estava quase estourando. Apresentara a versão que julgara final a Snape uma semana atrás, e ele lhe propusera uma série de pequenas mudanças na fórmula, detalhes que aumentariam sua durabilidade e estabilidade, mas que davam um trabalho infernal para serem reguladas, exigindo uma permanência quase perpétua ao lado do caldeirão, para que ela pudesse perceber qualquer alteração inesperada no processo de cozimento.
Como resultado, seu quarto tinha um cheiro permanente de lazuli real, além de estar constantemente enevoado pelo vapor frio que se desprendia do caldeirão na fase quatro e não tinha por onde se dissipar. Naqueles últimos dias antes do prazo de entrega – e apenas uma semana e meia antes dos exames finais, Bervely se dividia entre as revisões e as adaptações da fórmula de um jeito automático, meio sorumbático, como uma morta-viva. Frequentemente não se lembrava da última vez que tinha comido ou tomado banho, e só saia do quarto para fazer suas rondas, em dias alternados. Ela nunca se lembrava exatamente por onde passara durante as rondas, porque estava sempre repassando o último conteúdo em sua cabeça, ou pensando nas cinquenta e cinco coisas que podiam dar errado na poção de acordo com a última mudança realizada.
Eventualmente ela desabava na cama, exausta, dormia algumas horas e então acordava, atarantada, achando que tinha esquecido de apagar o fogo do queimador.
Na véspera da entrega, ela mandou um primeiranista que estava de bobeira no salão comunal achar Tara Holmes e Oliver Wood e lhes avisar que deviam estar em seu quarto imediatamente. Tara apareceu poucos minutos depois, como sempre entrando sem bater. Começou a tossir quando a fumaça entrou em sua garganta.
— Que diabo é isso? – perguntou, abanando as mãos na frente do rosto. – Porque você mandou um pirralho me chamar no meu dormitório? Eu estava hidratando meu cabelo!
— Sente – Bervely disse bruscamente, batendo um copo vazio na frente dela. Ao se aproximar, Tara pode finalmente enxergá-la, o que fez seu par de sobrancelhas vermelhas bem delineadas se levantarem muito.
— Minha nossa, Bervely, o que há com você?
— O quê? Por quê? – preocupada de que tivesse vestido alguma peça de roupa errada (ou esquecido alguma, já tinha acontecido antes, nos últimos dias), ela se olhou no espelho. O reflexo a surpreendeu, porque uma garota pálida, meio cinza e completamente descabelada lhe olhou de volta. Parecia ter acabado de levantar do túmulo, mas ainda não ter tomado o primeiro copo de sangue fresco do dia.
Tentou ajeitar o cabelo, numa tentativa inútil. Era culpa do vapor...e provavelmente dos mais de seis dias sem ver uma escova.
— Vai ficar tudo bem, só preciso terminar isso... – batidas na porta a interromperam – Entre!
Oliver entrou, seu primeiro reflexo ao ver a fumaça sendo o de puxar a varinha e procurar a fonte do fogo.
— Não tem incêndio, Wood. – Tara avisou com pedantismo, apertando os olhos para enxergá-lo. – A não ser o que vai acontecer se a nossa amiga aqui encontrar uma faísca.
O grifinório atravessou o quarto, dando um olhar desconfiado para Tara e outro, com alarme crescente, para Bervely, que fora buscar outro copo.
— O que–
— Sente. – ela mandou, batendo o copo no lugar destinado a ele.
— Melhor não contrariar. – Tara deu de ombros, ao receber o olhar confuso de Wood. Ele obedeceu, ainda reticente, especialmente porque Bervely parecia ligeiramente desequilibrada com aquelas olheiras fundas.
— Rose, você está bem? Não te vejo por aí faz uma semana.
— Ótima. – respondeu distraída, atravessando o quarto até o caldeirão, colocando seu conteúdo numa garrafa de vidro com a ajuda de um funil. Fez tudo isso com movimentos automáticos e precisos, sem derramar uma gota, como se o liquido obedecesse não as leis da física, mas a sua vontade.
— Apesar do ar insano, ela é até bem sexy quando faz essa coisa de poções, não é? – Tara comentou, deixando sua cabeça pender na direção da colega. Bervely usava um short mínimo, preto, que cobria quase nada de suas pernas, e com um pouco de imaginação, deixava entrever o contorno inferior de suas nádegas. A parte de cima era a camisa de madrinha de goles, que de tão usada começava a desbotar. Dava para ver, pelo jeito que o pano caia em torno dos seios, que ela não usava nada por baixo. No frio que estava fazendo – que sempre fazia – no quarto, seus mamilos deviam estar eriçados como as pontas de uma flecha. Isso era o que Tara pensava, e agora, Oliver também.
— Pare de cobiçar minha garota, Holmes. – ele disse por entre os dentes, arrancando uma risada da ruiva.
— Ela assinou algum termo de concessão de propriedade e entregou a você, Capitão Delícia?
Bervely voltou, alheia à conversa dos dois, servindo conteúdo da garrafa nos copos.
— Essa é uma poção que eu criei, preciso que vocês experimentem e me digam o que acham.
Tara analisou o conteúdo com criticismo, sacudindo-o e cheirando-o como se fosse uma nova bebida que podia ou não entrar em seu repertório fixo.
— Hey, hey conheço isso! Não foi o que você bebeu daquela vez, antes de...
— Sim. Mas é uma versão melhorada.
— Então não vai fazer com que eu queira me jogar de cima da torre? – a ruiva buscou confirmação, desconfiada.
— Talvez. Mas eu não te deixarei sair do quarto até o efeito passar, então você não vai se jogar de lugar nenhum.
— Ok. – A ruiva deu de ombros e virou o conteúdo de uma vez. – Hum, até que é bom. Eu acrescentaria um pouco de tequila.
Oliver, no entanto, não tocara a sua dose. Ele olhava atentamente para Bervely, tentando entender porque ela parecia uma eremita das montanhas de Hort.
— Se eu beber isso... O que vai acontecer?
— Você vai ter uma espécie de sonho lúcido, onde irá para um local do seu desejo. Pode ser real ou imaginário. Você controlará suas ações nesse local enquanto o efeito durar.
— E quanto aos efeitos colaterais...
— Apenas beba, ok? – ela retrucou com impaciência. – Preciso saber se funciona, hoje é minha data limite, se eu não enviar isso amanhã de manhã, minha vaga no Instituto Flamel vai pelos ares!
— Instituto Flamel? – ele engasgou, surpreso – Não é aquela escola super famosa de alquimistas?
— Oliver!
— Ok, calma aí, não precisa ficar nervosa.
Ele virou o copo, ao mesmo tempo em que Tara escorregava de sua cadeira com os olhos abertos, mas completamente desfocados. Bervely correu para ampará-la antes que ela caísse e a colocou no chão, as costas apoiadas na cama. Nunca tinha visto de fora os efeitos de Neverland, e para ser sincera a visão não era muito agradável. Era como imaginava que alguém ficaria após ter sua alma sugada, com a exceção de que um sorriso débil surgira no rosto da ruiva a medida que a poção fazia efeito.
Oliver apagou em seguida, arrastado para onde quer que Neverland o levara. Bervely ficou tentada a experimentar também, mas ela não podia; precisava catalogar as reações externas, porque elas também precisavam estar em seu relatório. Snape se recusara a provar a poção diante dela, e também se recusara a deixar que ela mesma fosse a cobaia enquanto ele fazia a catalogação das reações, então só lhe restara a opção de usar Tara e Oliver como sujeitos.
Uma hora mais tarde, Tara despertou do melhor sonho da sua vida. Como o tempo passava muito mais lentamente nos sonhos, para ela tinha durado muito mais tempo.
— Uau, que viagem louca. – se admirou, a visão entrando em foco para o quarto enevoado. Notou que estava sentada no chão, e que a garota estava na mesa lhe observando com uma pena na mão e o mesmo olhar focado no rosto – B., minha cara, isso é o melhor chá de cogumelo que já foi inventado.
— Não leva cogumelo. – ela disse com a voz prática. – E então, como foi? Não precisa me contar o que viu – acrescentou, com pressa – Só como foi. Se estava no controle de suas ações, se sentiu algum desconforto, ou se está sentindo algum agora.
— Eu me sinto ótima. – ela se levantou, uma cópia do sorriso bobo de antes crescendo no rosto – Foi incrível. Quantas doses disso dá para tomar de uma vez sem ficar doidona?
— Boa pergunta. – Bervely fez uma anotação no pergaminho. – Pelos meus cálculos, seis doses antes do seu cérebro virar pudim. Mas podemos fazer o teste se quiser, é bom que dá consistência ao relatório.
Oliver, que fora deitado na mesa por Bervely, começou a acordar, meio atarantado. Ele piscou muitas vezes, parecendo confuso sobre onde estava e quem era, demorando um bocado para focar as duas sonserinas.
— Uau. – foi tudo que disse, deixando em seguida o rosto cair sobre os braços.
— Parece que o cérebro dele virou pudim. – Tara pontuou criticamente. – Mas você sempre pode dizer que já era assim antes.
— É esperada um pouco de confusão mental no primeiro retorno. – Bervely disse categoricamente, fazendo outra nota. Sexy, Tara voltou a pensar, porque a colega ficava mesmo muito interessante quando entrava no modus operandi de pocionista.
— Eu não estou confuso. – disse Oliver, a voz abafada pelo tampo da mesa. – Eu estou... Uau.
— Isso devia ser comercializado. – Tara decidiu, um olhar de admiração para o conteúdo ainda restante na garrafa. – Eu compraria engradados. Será que se misturar com álcool...
— Agradeço a disponibilidade de vocês – Bervely a cortou, eficiente. Ela se levantou da mesa, só que fez isso muito rápido, porque pontos pretos dançaram em frente aos seus olhos. Cambaleou um pouco, se firmando na mesa. – Preciso avisar a Snape que o teste funcionou e que essa é a versão final. Podem ir embora. – acrescentou, quando nenhum dos dois se mexeu.
— Você não parece bem, Rose. – Oliver disse, a observando com maior atenção.
— Estou ótima, só preciso terminar isso. Andem, vão. Vão. Tenho muito o que fazer ainda até amanhecer.
— Me sinto um objeto. – Tara resmungou, levantando–se com dignidade. – E nem é sexual. Lamentável.
Após um olhar longo e preocupado, Oliver andou até a garota e beijou sua testa.
— Me chame se precisar de alguma coisa, está bem? Qualquer coisa.
— Estou bem, Oliver. – ela disse no modo automático.
Os dois saíram. Bervely fechou a porta atrás deles, voltando para a mesa a fim de passar as suas anotações a limpo. Do outro lado da porta, Tara e Oliver trocaram um olhar de mútua preocupação, suas diferenças momentaneamente deixadas de lado pelo fator em comum.
— Ela não está bem. – ele suspirou, olhando para a porta recém fechada como se ela pudesse lhe dar resposta melhor.
— Não mesmo. Ela não rolou os olhos nenhuma vez para meus comentários espirituosos e ligeiramente inapropriados.
— Fique de olho. – ele pediu, como se fosse um pedido natural e plausível.
— Eu vou ficar. – Tara respondeu, porque era.
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