Algo estranho aconteceu no dia seguinte. Assim que Bervely enviou a coruja para o Instituto Flamel, contendo sua amostra e seu relatório, ela começou a sentir uma estranha dor pelo corpo. Na altura do café da manhã, seu estomago embrulhava e por volta das noves horas, ela sentiu como se pesasse duas toneladas, como se houvesse ácido em suas articulações e como se fosse desmontar, tudo ao mesmo tempo.

Decidiu ignorar as aulas da manhã, voltando para o seu quarto e desabando na cama como um peso morto, apagando quase instantaneamente. No entanto, o sono não foi tranquilo; parte dela sabia que estava se remexendo na cama, suada e com tremores, mas não conseguia forças para acordar e descobrir o que estava acontecendo. Só foi abrir os olhos muito tempo depois, quando estava tudo escuro. A vontade de fazer xixi foi a única coisa que a convenceu a deixar a cama, porque caso contrário sua bexiga explodiria.

No minuto em que levantou, ficou bem claro que o que ia explodir era a sua cabeça.

— Jinx, acho que estou morrendo. – disse para o gato, que acompanhou seus passos até o banheiro. Sem acionar a luz (não fazia ideia de onde estava a varinha, de toda maneira), sentou na privada fria e deixou a cabeça pesada cair entre as mãos. O gato miou e se enroscou em seus tornozelos. Ela quis estender a mão para afagá-lo, mas pareceu um grande esforço.

Quando sua bexiga estava vazia, Bervely levantou e se enxugou, mas decidiu que voltar para a cama era muito longe, e ela estava tão cansada... De forma que deitou ali mesmo na banheira, e foi onde Tara lhe encontrou quase duas horas mais tarde, quando foi procurá-la após o jantar a fim de descobrir porque tinha faltado todas as aulas.

— Minha nossa, você está queimando. – ouviu-a dizer, em alguma realidade distante, uma mão macia pousada em sua testa. – Bervely, o que você bebeu? Da última vez que te encontrei assim você estava se dopando com poção do sono sem sonhos, não me diga que voltou a isso!

— Não bebi nada. – se ouviu dizer, a voz engrolada. Sua língua pesava tanto quanto o resto do seu corpo, o peso de um pequeno elefante.

— Ok. Vou chamar madame Pomfrey. Não saia daqui.

Mesmo em seu estado meio comatoso, Bervely reconheceu a piada irônica. Ela não viu, no entanto, Mme. Pomfrey chegar ao quarto, ajudar Tara a colocá-la na cama e lhe diagnosticar. Na verdade, Bervely acordou na manhã seguinte sem se lembrar em absoluto das últimas vinte e quatro horas.

— Merda! Merda. Merda. Merda. Merda. – tentou levantar, ainda meio tonta e enjoada, mas ignorando isso tudo. Tara estava dormindo em sua cama, mas nem lhe ocorreu se perguntar porque, afinal já tinha acontecido outras vezes. Ela sacudiu a ruiva, que abriu seus olhos verdes nublados de sono. – Tara, que horas são? Que horas são?!

— Como eu vou saber...? – ela procurou o relógio, atordoada. – Oito da manhã...

— Ah, não! Eu devia ter enviado a coruja! Tem que chegar lá até meio dia!

— Lá onde?

— No Instituto! – Bervely atravessou o quarto até seu caldeirão, achando o resto de Neverland e tentando despejá-lo numa garrafa de amostra limpa. – Era até hoje, dia primeiro!

— Mas hoje é dia dois...

— O QUE? COMO ASSIM?

— B, calma ai. – A ruiva se levantou, meio trôpega, chegando até ela e tirando a concha e a garrafa da sua mão. – Você enviou a amostra da poção ontem. Eu te vi indo fazer isso antes do café da manhã. Depois você ficou doente e eu te achei a noite na banheira, queimando de febre. Como se sente?

Bervely piscou, as lembranças do que parecia um sonho retornando lentamente. Sim, ela lembrava de ter enviado a poção, e sim, lembrava de se sentir mal, voltar para o quarto e se deitar. O resto era um borrão, mas havia sim a sensação de estar em porcelana fria, a voz de Tara em algum momento perguntando o que estava acontecendo, e até algumas poções amargas sendo despejadas pela sua garganta.

— Madame Pomfrey disse que é uma intoxicação, porque você respirou muita fumaça de algum ingrediente daquela poção louca de cogumelo. Ela inclusive mandou dizer que é uma completa insanidade fazer poções nesse quarto fechado, os vapores não tem pra onde escapar.

— Argh. – gemeu. – Sei disso, mas a outra opção era o laboratório de Snape... eu não podia ficar todo esse tempo lá, ele não me deixa trabalhar mais do que cinco horas seguidas, o insuportável.

— Volte para a cama. – Tara acrescentou num tom autoritário – Você precisa de repousou até liberar tudo do seu sistema.

— Não posso ter repouso! – exclamou, apesar de obedecer e voltar para cama, porque sentia as pernas meio fracas. – Os NIEMs são daqui a uma semana!

— E você precisa estar viva para fazer NIEMs. Pelo menos da última vez que eu chequei, era um pré-requisito obrigatório.

Bervely deitou, seu corpo agradecendo imensamente, o coração disparado como se tivesse corrido duas milhas. Tara voltou também, sentando no colchão ao seu lado.

— Você tem que parar de assustar as pessoas com esses trecos repentinos. Quando cheguei aqui e te vi largada na banheira, pensei que estava morta. Só tenho sete vidas, Bervely, não posso ficar tendo esses ataques cardíacos por sua causa.

Ela conseguiu raciocinar um pouco, agora que estava deitada.

— Porque você dormiu aqui?

— Porque a outra opção era te levar para a enfermaria, já que alguém precisava monitorar sua febre, e eu pensei que você preferiria que fosse eu não Mme. Pomfrey. Quer dizer, eu sou uma curandeira muito mais sexy.

— Isso, e você não perde nenhuma chance de dormir na minha cama, né? – zombou, de olhos fechados. Assim sua cabeça latejava menos. Ficou surpresa quando dedos suaves encostaram em sua testa, primeiro afastando as mechas de cabelo de seu rosto, depois medindo sua temperatura.

— Estável. Vai tomar um banho, enquanto eu vou pegar uns livros no dormitório. Ou você quer ajuda com o banho? – seu tom se tornou malicioso. Bervely abriu os olhos para olhar a garota, com consternação.

— Vá cuidar da sua vida, Tara. Eu já estou bem, posso me virar sozinha.

— Claro que pode. – assentiu, saltando da cama. Pegou um elástico para prender o cabelo, jogou o casaco por cima da camisola (roubada de Bervely) e lhe deu uma piscadela. – Eu volto do mesmo jeito, mas pelo amor de Merlin, vá tomar um banho.

— BD -

Ela voltou. E não importa o que Bervely dissesse, Tara passou a maior parte do dia em seu quarto, saindo apenas para as refeições e voltando com um prato cheio para Bervely, apesar de ela estar com zero apetite. E ela trouxe todos os seus livros, anunciando que passariam a semana de revisão estudando, pois não ia deixar Bervely usar sua febre, dores no corpo e indisposição como desculpa para não arrasar nos NIEMs.

Sim, porque apesar da ilusão de melhora, a febre retornava mais ou menos de três em três horas, ao que ela precisava tomar as poções antitérmicas de Pomfrey, que tinham gosto de ferrugem. A curandeira apareceu no fim daquele dia e lhe disse que descansasse o máximo possível, lhe dispensando de qualquer atividade de monitoria até os exames. Essa foi a parte boa, que quase fez Bervely estourar uma garrafa de Delírio Fumegante (mas nem isso podia, porque não era suposta a misturar álcool com as poções).

Jinx era outro que não largava do seu pé um segundo. Ele ficava deitado na ponta do colchão, literalmente no seu pé, lhe acompanhando quando ela ia ao banheiro. Vigiava atentamente seu banho, ignorando as tentativas de Bervely de enxotá-lo, e estreitando os olhos amarelos quando ela anunciava em alto e bom som que ele era um gato, não uma maldita sombra.

Tara fez um cronograma de estudos, visto que elas pegavam quase as mesmas matérias. A única diferença é que Tara não fazia Astronomia, e Bervely não tinha Estudo dos Trouxas nem Feitiços. Na verdade, ela ficou bem surpresa em saber que Tara fazia Estudo dos Trouxas desde que entrara em Hogwarts.

— É por curiosidade. – justificou a ruiva, meio que dando de ombros, como se não fosse grande coisa. – Tem um bocado de coisa interessante nessa aula. Além do mais, você sabe quantas portas no mundo de trabalho se abrem quando se tem o mínimo de conhecimento sobre trouxas?

— Isso se você quiser trabalhar com trouxas! – retrucou Bervely, com horror. Nem conseguia imaginar um emprego minimamente interessante que requisitasse conhecimento sobre trouxas. – No que você está pensando em trabalhar, afinal de contas?

— Professora. – Tara respondeu baixo, colando o cronograma de estudos na porta com um feitiço adesivo.

— De TROUXAS? – Bervely engasgou. Com ar. Isso era o quanto aquela ideia era absurda.

— Sei lá, B. De crianças. Bruxas, trouxas, nascidas trouxas. Eu meio que gosto de crianças, acho. – completou, dando de ombros.

Bervely ficou olhando para ela, esperando que Tara começasse a rir e anunciasse que estava tirando uma com a sua cara, mas não aconteceu. Na verdade ela parecia mesmo um pouco constrangida, o que era novidade absoluta se tratando da herdeira Romansek.

— O que você pensou que eu queria fazer depois da escola? – perguntou ela, tentando um sorriso e também uma mudança de assunto.

— Não sei... Dançarina profissional em alguma boate para bruxos adultos?

Tara riu, assentindo. – Esse é o meu plano B, na verdade. Se a coisa com as crianças não der certo.

Mais tarde, quando elas estavam envolvidas numa questão complicada de história que envolvia os Cinco Acordos Gerais da Magia e a queda de Nurmengard, alguém bateu na porta. Bervely gritou “entre!" e Oliver enfiou sua cabeça para dentro do quarto, confrontado com a imagem das garotas deitadas na cama, de costas para a porta, debruçadas sobre um livro enorme que ele reconheceu ser História e Contristória Mágica, de Heleanor Hellancot.

Não que ele estivesse focado no livro. Foi difícil não reparar os dois traseiros virados para a sua direção, o de Tara coberto por um short marrom que não deixava muito para a imaginação, o de Bervely numa saia curta de tecido, que parecia estar cobrindo tudo que devia por mero acaso. Quando ela se torceu para olhar para ele, a saia escorregou um pouquinho, e Oliver sentiu um leve desconforto em sua calça, que foi ficando apertada na área da virilha.

— Ah, Oliver. – Ela bateu o olho no que ele trazia, um saco de papel fechado que aparentava comida roubada da cozinha. – Você lembra quem era o diretor de Nuremberg em 1875?

Ele se aproximou da cama, tentando pensar em História da Magia, não em bundas apetitosas viradas em sua direção. Não era uma troca fácil, nem justa.

— Não, não faço ideia. Você está bem? Ouvi Percy comentando — reclamando, na verdade — que você estava doente e tinha sido dispensada das atividades de monitoria essa semana.

— Só uma intoxicação por vapor de lazuli, vou sobreviver.

Ele se inclinou para beijar o topo de sua cabeça, mas para a sua surpresa Bervely inclinou o pescoço e o beijou nos lábios.

— Parece sério. – disse, achando um lugar para sentar ao lado dela na cama. Não deixou de notar o quanto as duas estavam próximas, ombro com ombro quase, e como isso o chateava e excitava em partes iguais. – O que você sentiu?

— Nada demais. – Bervely deu de ombros, passando a folha do livro com descaso.

— Eu a encontrei deitada na banheira queimando de febre. – Tara informou categórica. – Pensei até que ela estava morta.

— Na banheira? – ele perguntou com alarme, ao passo que Bervely girava seus olhos nas órbitas.

— Obrigada Tara, pelo nível dramático de detalhes. E não, Oliver, eu não estava pelada na banheira.

— Estava mais preocupado com a parte do "morta"! – ele retrucou, escandalizando, olhando feio para Tara – Holmes, porque não me avisou nada?

— Eu disse que ia ficar de olho, não te manter informado. Não sou sua elfa doméstica, Wood. Eu cuidei dela, e continuo cuidando. Vou ficar por perto e garantir que tome as poções toda vez que a febre voltar.

— A febre está voltando? Com que frequência?

— Podem parar, vocês dois! – Bervely exclamou, perdendo sua rara paciência – Não preciso de babás, nem de enfermeiros, nem de todo esse drama, que sinceramente me dá urticaria. Se vocês não vão estudar história da magia é melhor dar o fora daqui, porque eu preciso saber quem era o diretor de Nurmengard em 1875 e ninguém está ajudando!

O mais assombroso de tudo foi que, depois de alguns gritos, os três conseguiram achar um ritmo aceitável de revisão da matéria de Binns. O saco de papel que Oliver trouxera era uma grande porção de palitinhos de peixe empanados, o que foi bem vindo para Bervely e Tara, já que ambas pularam o jantar.

Elas continuaram na cama, ao passo que Oliver sentou no tapete ao lado de Bervely. Ele tinha uma ótima memória para datas e fatos, mas era terrível para qualquer coisa que tinha acontecido depois de 1850. A certa altura, ele correu uma mão pelas costas dela, achou uma brecha pela sua blusa e ficou acariciando distraidamente o espaço entre sua coluna e suas costelas. Ela deixou, embora achasse que o gesto tinha o propósito de marcar território, já que ela e Tara estavam tão próximas e tudo. A carícia em sua pele lhe dava arrepios prazerosos, embora não a ponto de distraí-la do estudo (a não ser quando as pontas dos dedos dele se aproximavam da base de seu seio, mas era só de vez em quando, e talvez nem fosse de propósito).

Quando era mais ou menos nove e meia da noite, a febre de Bervely fez uma nova aparição. Ela soube disso porque começou a sentir um frio fora de propósito, seu corpo ficou pesado e dolorido. Aproveitando-se de uma pausa que Tara fez para ir ao banheiro, ela deixou o corpo desabar no colchão, fechando os olhos por um momento.

— Eu odeio te ver desse jeito. – Oliver murmurou, esfregando suas costas.

— É só uma indisposição. Vocês estão fazendo muito alarde para uma coisinha de nada.

— Não é uma coisinha de nada. Já viu como você está pálida? Está exigindo demais de si mesma, Rose, assim pode acabar se machucando de verdade.

Ela suspirou pesadamente. Ainda se sentia desconfortável quando as pessoas ficavam supercuidadosas com ela, mas ela quase podia aturar quando era Oliver ou Tara, porque, bem... eram Oliver e Tara.

— Posso dormir aqui com você hoje? – ele perguntou, ainda esperançoso. Bervely se forçou a abrir os olhos, uma expressão incrédula.

— Sério, você quer dormir com a garota pálida das olheiras e quarenta graus de febre? Que tipo de fetiche novo é esse?

— Não! – ele exclamou, ficando sem graça – Eu quis dizer dormir, mesmo. Te fazer companhia.

— Não se preocupe, Tara já vai ficar.

Soube que fora a coisa errada a dizer quando a mão dele parou de subir e descer em suas costas. Ela abriu os olhos, só para constatar que ele tinha travado o maxilar daquele jeito contrariado tão típico.

— Bem, é claro que ela vai.

— Oliver.

— Ela ficou noite passada, não foi?

— Você está sendo ridículo. – o advertiu, se impacientando.

— Sabe o que é ridículo? Que ela possa ficar o quando quer, mas que eu precise pedir e ainda assim seja desprezado! – ele se levantou, muito chateado, se a expressão em seu rosto dizia alguma coisa.

— Eu não acredito que você está realmente achando ruim o fato de não precisar ficar comigo enquanto eu estou um lixo humano suarento e imprestável.

Ele estava prestes a responder quando Tara saiu do banheiro, logo diagnosticando o clima pesado no quarto. Ela franziu o cenho, mas ao invés de tecer comentários, trouxe para Bervely mais da poção azul com gosto de parafuso.

— Como você sabia que tinha voltado? – perguntou, recebendo a poção e tomando com má vontade.

— Você é obsessiva até com a febre. Três horas exatas desde a última vez. Está sentindo dor em algum lugar?

— Todos os lugares. – resmungou, pousando o vidro vazio no criado mudou e deixando a cabeça tombar no colchão de novo. Tara olhou para Oliver criticamente. – O que você está esperando, capitão? Faça uma massagem nela! Ou será que eu preciso fazer tudo nesse quarto?