Rosa e Sangue - Cartas de Eleonora
6 5ª Carta
Havia uma lanchonete a menos de dez minutos da minha casa, o que era ótimo para a minha barriga roncando. Eu não tinha muita paciência com cozinha e, por isso, comer fora era algo bastante comum pra mim.
O lugar não estava muito cheio e tratei logo de sentar e pedir um grande sanduíche e um suco de uva. Enquanto esperava, meus olhos pousaram na TV, mas havia tanta coisa em minha cabeça que não prestei atenção realmente aos desenhos.
Um casal na mesa da frente chamou minha atenção. Eles juntaram as mãos, sorriram docemente para o outro, e eu fiquei tão distraída reparando o carinho com o qual eles se tratavam que nem percebi quando meu lanche chegou à mesa.
Era bonito. O contato, os beijos, os mínimos detalhes. Nos poucos relacionamentos que tive na vida, nunca estive completamente à vontade com aquele tipo de situação. Eu detestava qualquer afeição em público e ficava extremamente incomodada com intimidade demais.
Talvez eu fosse mesmo um alien— ou pelo menos era o que minha mãe dizia. Não é que eu não gostasse dos meus antigos companheiros, mas não o suficiente para estar com eles de corpo e alma.
Mas apesar da minha desistência em relacionamentos amorosos, eu ainda me sentia um tanto sozinha. Meu coração podia ser frio como todo mundo dizia, mas, no fundo, ele estava tão vazio que às vezes eu achava extremamente injusto não conseguir amar como as outras pessoas.
Tomei um gole do suco, tentando desviar meus pensamentos deprimentes. Eu até me sentia feliz por não ser uma daquelas românticas incorrigíveis e tudo mais, só que era um tanto frustrante me sentir incompleta daquele jeito. E anormal.
Ok, nada legal ter “crise de meia-idade” aos vinte e um anos.
Não demorei muito para terminar o lanche, paguei e saí da lanchonete o mais rápido possível. A primeira gota de chuva caiu sobre minha testa, chamando minha atenção para o céu escuro acima de mim. A tempestade começou quase um segundo depois, e quando percebi, estava correndo completamente molhada.
E na minha corrida para casa alguém apareceu no meio do caminho. Estava bem à minha frente, usava um sobretudo preto e um chapéu. Seus cabelos eram tão negros quanto a roupa e ele possuía olhos caramelados, um tom fluorescente, e pele extremamente branca.
Ele era como Willian.
Havia uma rosa branca em sua mão direita, a qual ele passava delicadamente pela bochecha.
— Eleonora...
— Como sabe meu nome?
Um sorriso, seus caninos pareciam um pouco mais pontudos que o normal.
— Você não pode fugir do seu destino para sempre.
— Do que está falando?
— Se eu fosse você, mocinha, desistiria de procurar o passado e me preocuparia com o futuro...
— Mas o que?...
A chuva atrapalhou minha visão. No momento seguinte ele desapareceu. Eu devo ter ficado mais um tempo fitando o nada, tentando colocar meus pensamentos em ordem e me perguntando se não fora apenas uma ilusão. Do dois um: ou estava realmente ficando louca, ou havia algo a mais na minha história.
As gotas pararam de cair sobre a minha cabeça de repente. Era Willian, mantendo um guarda-chuva sobre mim.
— Não devia ficar parada na chuva desse jeito.
— Oh, eu... Eu estava...
— Não dê tanta atenção a qualquer um.
— Então você também o viu?
A pergunta soou estranha, desesperada. Willian não respondeu, apenas puxou minha mão e começou a andar. Nós seguimos nossos caminhos para casa sem qualquer acordo sobre o guarda-chuva. Willian o mantinha mais para o meu lado, molhando um pouco de seu ombro.
Foi um pouco desconfortável, porque depois do beijo do dia anterior, eu não sabia ao certo como agir com Willian. Além dos mais, ele havia falado algo, certo? Algo sobre... vampiros.
Willian passou pelas enormes portas do meu prédio depois de mim. Ele sacudiu o guarda-chuva para um canto e o colocou aberto no chão. Quando olhou para mim, pareceu um pouco chateado.
— Você pode pegar um resfriado assim.
— Ah, é verdade – Sorri torto. – Da próxima eu não me esqueço do guarda-chuva!
Pela primeira vez desde que o vi pela primeira vez, Willian sorriu. Dentes brancos, os caninos pontudinhos como do homem que eu acabara de encontrar na rua. Além disso, ambos tinham aquela pele da cor de papel e belezas singulares.
Tentei disfarçar a vergonha mirando minha própria blusa e sacudindo-a para tirar o excesso de água. Estava prestes a levantar a cabeça e falar algo quando percebi que Willian havia se aproximado. Ele ergueu o meu queixo e me beijou de leve. Dei dois passos pra trás, separando nossas bocas e sentindo meu corpo cambalear.
– V-Você... – As palavras sumiram, a voz falhou. Puxei um pigarro e continuei: – Você não pode me beijar assim do nada!
– Mas você gostava antigamente. – Fez uma expressão de confuso. Depois de um minuto, sua face se clareou e ele disse: – Ah, você ainda não se lembrou, não é?
– Do que exatamente? – Como ele permaneceu calado, juntei as duas mãos em súplica e continuei: – Diz pra mim, por favor, Willian!
– Nós – sussurrou baixinho.
– Que tipo de relação nós tínhamos?
– Nós estávamos juntos por cerca de um ano.
– Um ano – repeti, refletindo que era tempo demais para uma relação desimportante. Meu peito se aqueceu, havia uma sensação boa e incontrolável ao pensar em Willian ao meu lado. – E... E sobre o meu acidente? O que você sabe sobre ele?
– Você se curou... sozinha.
– Como isso é possível?
– Você não é como os outros. – Cruzou os braços. – Você ficou se recuperando na minha casa. Quando estava curada, eu a levei para o seu quarto. Foi lá que você acordou, não é? Completamente atordoada...
– Sim, mas....
– Você não é como os outros. Eu também não sou.
– O que você é então?
– Você sabe, embora ache uma tolice e prefira não dizer em voz alta. Você sabe, Elie.
– O que você me disse antes...
Vampiro.
– Sim. Lá no fundo você sabe que é verdade. – Suas mãos tocaram a parede, uma de cada lado da minha cabeça. – E sabe o que mais? Você sabe que nós temos uma ligação, e é exatamente por que nós não somos como os outros.
O olhar de Willian e a expressão em seu rosto eram firmes, sérios. Um calafrio percorreu a minha espinha e minhas mãos chegaram ao peito dele, tentando empurrá-lo. Não havia forças, no entanto, e minhas mãos foram hesitando, caindo lentamente. Por mais que eu tentasse afastá-lo, havia algo dentro de mim que me puxava para ele, fosse aquela tal ligação entre nós ou não.
– Não é como se você tivesse se esquecido completamente de mim, não é? – sussurrou em uma de minhas orelhas. – Do meu toque...
Os dedos gelados de Willian tocaram a minha pele por baixo da blusa molhada, subindo até a região das costelas. Ele puxou a minha orelha com a boca, lambeu-a. Meu corpo ficou rígido, por mais que aquele contato fosse extremamente gostoso, e quando Willian percebeu minha tensão, disse:
– Tudo bem, você sabe que não precisa ficar nervosa comigo.
As mãos dele foram se aproximando do meu sutiã, e só então me lembrei de que nós estávamos no primeiro andar do meu prédio, onde um vizinho podia aparecer a qualquer momento.
– Willian, pare com isso! – falei mais alto do que gostaria.
A expressão dele mudou em uma fração de segundos para um semblante estranhamente inocente.
– Oh, quer ir para um outro lugar?
– Não! Mas é claro que não!
Willian riu, provavelmente do meu rosto envergonhado e da minha falta de jeito. Então ele puxou o meu queixo novamente e falou:
– Quer ver uma coisa que os vampiros sabem fazer?
Que aquele não era um beijo comum foi a primeira coisa que reparei. Bastou um contato inicial para que os sentimentos de Willian migrassem para mim.
Primeiro o meu corpo inteiro queimou, e foi uma mistura de desejo e ódio. Naquele instante desejei tê-lo na minha cama, nos meus lençóis. Então veio um vazio, uma sensação de incompletude no peito. Havia uma sombra pairando sobre nós, uma escuridão que eu não conseguia entender. E aquilo foi doloroso de uma forma que eu não sabia explicar, ainda mais porque eu não compreendia aquele sentimento.
Enquanto ele me beijava, era como se eu assumisse uma personalidade diferente, não conseguia me achar em meus próprios pensamentos. Demorou um pouco para entender que se tratava de mim. Tudo o que sentia era Willian, ele estava passando pra mim todos os seus sentimentos. Toda aquela vontade incontrolável de me secar e ao mesmo tempo de possuir o meu corpo, toda aquela angústia por nunca estar completo, como se o seu fardo fosse viver eternamente procurando por uma razão que não existia. De repente eu estava chorando e arranhando os braços dele por toda aquela angústia que havia em seu coração.
— Você entende, Elie? O caminho do “viver para sempre” é muito longo quando se está sozinho.
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