Lá fora, o céu já estava escuro. Era uma noite fria, e por mais que o interior do bar fosse um pouco mais quente, ainda desejava usar um casaco por cima do uniforme.

A roupa de trabalho consistia em uma blusa preta, saia e saltos. A pele do rosto deveria estar maquiada e nós deveríamos exibir uma boa aparência.

O bar não era um ambiente familiar, afinal. Nós tínhamos contatos com todos os tipos de pessoas, ouvíamos o que queríamos ou não escutar e precisávamos manter um sorriso no rosto. “Os clientes sempre tinham razão” era o pior lema de todos, mas não que algo pudesse ser feito em questão. Entretanto, com todos os problemas, eu ainda gostava daquele lugar. Meu chefe era uma boa pessoa e estaria disposto a defender seus empregados se fosse o correto. Havia Alberta, minha melhor amiga, e até João. Além do mais, aquele foi o emprego mais fácil que consegui, em um período de grande necessidade, e estar lá me privou um pouco da solidão e da dor de perder meus pais.

— Eleonora!

Alberta nunca me chamava de Eleonora em uma ocasião normal, logo, usar meu nome próprio podia significar que ou ela estava brava ou já tentava chamar minha atenção há um tempo. Foi um alívio olhar para a ruiva e ter a certeza de que era a segunda opção.

— Você está mesmo distraída.

Voltei a olhar para a janelinha da dispensa, encarando o fundo escuro lá fora, e me afastei.

— Isso é por causa do seu namorado?

— O Willian?

— Vocês estão juntos mesmo?

— Não... Quero dizer...

— Um relacionamento complicado? Tudo bem, entendo. – Alberta mordeu o lábio inferior, sua expressão ficou triste de repente. – O João ficou chateado...

– Isso me deixa mal, mas...

— Mas você não pode parar sua vida por ele – completou.

— De todo jeito, não sei se Willian e eu...

— Bem, ele está lá no bar te procurando.

— O quê? Willian está aqui?

Não esperei por uma resposta, saí quase que inconscientemente da dispensa e fui procurar por Willian. No entanto, ao chegar ao salão do bar, não o vi. Rodei o lugar e tudo o que encontrei foram aqueles mesmos clientes clássicos que não sabiam a hora de parar de beber e, vez ou outra, teciam algum comentário malicioso.

Voltei à dispensa, lembrando que os barris de cerveja não iam se encher sozinhos e eu havia sido encarregada de fazer aquele trabalho. Foi no exato momento em que minha mão tocou uma das garrafas de cerveja que senti uma presença atrás de mim.

— Você se enganou, Alberta – falei sem olhar para trás –, ele não está lá.

— Saia comigo.

Meu corpo gelou ao ouvir aquela voz grave e precisei buscar apoio na estante de bebidas.

— O-O quê?

— Você está bem?

— O que você disse? – fui seca.

— Eu quero que você saia comigo.

— Por quê?

— Por que você deveria.

— Isso não é resposta, Willian. E por que eu deveria?

Por que vocês pertencem um ao outro.

As sobrancelhas dele caíram para os lados, dando-lhe um ar um tanto inocente. De fato, por mais que ele estivesse sério e falasse com muita firmeza, não parecia nada arrogante ou presunçoso. Na verdade, era como se as palavras simplesmente saíssem de sua boca sem qualquer maldade.

As pálpebras superiores dele caíram, os olhos ficaram imóveis e ele assumiu uma expressão que eu não consegui decifrar exatamente. Ele estava ali e ao mesmo tempo não estava.

— Você quer que os pesadelos vão embora?

Meu coração acelerou.

— Você pode pará-los?

— Não sei...

O silêncio pairou sobre nós. Depois de alguns minutos pensando, perguntei:

— Como sair com alguém que me diz que é um vampiro?

Willian apenas sorriu maliciosamente, certo de que eu acreditava naquela história toda, querendo ou não.

— E como saber que tipo de vampiro você é?

Aquele sorriso provocante novamente e foi o suficiente para arrepiar todos os pelinhos do meu braço.

— Você precisa descobrir por si mesma. – De sedutora a expressão em seu rosto passou para serena, e ele continuou: – No entanto, eu posso jurar pelo meu próprio sangue que nunca machucaria você, nem mesmo se esse fosse o meu desejo.

As palavras saíram da boca dele de uma forma doce. Seus olhos miraram um ponto qualquer entre o meu nariz e o queixo e, embora Willian imergisse em uma estranha abstração, ele ainda parecia inteiro ali.

Podia ser a maior mentira do mundo, mas eu me desmanchei completamente. Era irresistível, Willian acabava com todas as minhas forças, destruía as minhas barreiras e eu simplesmente era atraída pra ele.

— Willian, eu...

O momento foi quebrado por João, que entrou na dispensa já puxando Willian pela camisa e o pressionando na parede. O loiro não fez nada. Ele parecia ainda esperar por uma resposta...

— Só funcionários podem entrar aqui!

— João – puxei-o pelo braço, mas não adiantou –, por favor, solte-o!

— Ele é seu namorado, Elie?

— Sim – Willian respondeu.

— Nós não!...

— Por que, Elie? Eu sempre estive aqui pra você, mas...

— Mas eu não te amo, João! Você pode entender isso, por favor?

Foi como um balde de gelo. A expressão que João fez foi tão terrível que me arrependi no mesmo instante do que tinha dito.

— Não foi o que eu...

João não ouviu, saiu da dispensa antes que eu terminasse de falar. Continuei observando a saída, mesmo depois de um bom tempo de João ter saído. Eu estava tão arrependida das minhas palavras, do meu tom.

Mas eu não estava completamente errada, não é? Por mais que fosse uma grosseria, uma hora ou outra João teria que encarar aquilo.

— Preciso voltar ao trabalho – disse sem qualquer vontade.

Um toque extremamente gelado, a mão de Willian tocou a minha por uma fração de segundos. Então ele recolheu as mãos no bolso, abaixou a cabeça e, antes de sair, disse:

— Amanhã às 18 horas.

******

Willian não podia aparecer. As palavras dele claramente se tratavam de um encontro, só que eu não havia aceitado – ou recusado –, e, portanto, ficava pensando o que ele realmente faria.

As horas foram passando e me deixando ansiosa. Eu não queria dar um bolo nele, mas não havia um acordo entre nós. Além disso, não achava realmente que ele apareceria – ou era o que me forçava a acreditar. Se eu me arrumasse e ficasse esperando em vão, certamente ficaria bastante decepcionada.

O desejo de me tranquilizar foi apenas um pretexto para cair debaixo do chuveiro. Por mais que não quisesse admitir, pensei que pelo menos já estaria de banho tomado caso ele resolvesse aparecer. Então eu sentei no sofá com uma roupa de ficar em casa e esperei. Dez minutos se passaram da hora dita e concluí que aquilo era um sinal de que Willian não daria as caras. Só depois que lembrei que meu relógio estava pelo menos uns vinte minutos adiantados.

Pontualmente às 18h, a campainha tocou.

— Você está pronta?

— Não, eu... Como você sabia o meu apartamento?

— Você não se esqueceu do nosso encontro, não é?

— E-Eu apenas achei que você não viesse.

— O quê? Eu nunca faltaria minha palavra com você!

— Bem, ontem foi no mínimo estranho, sem contar que eu não cheguei a aceitar...

— Ora, ora – balançou a mão no ar –, chega de desculpas! Eu espero você se arrumar!

Arregalei os olhos.

— Eu disse que não aceitei!

— Então não saio daqui até você aceitar.

— Vou fechar a porta! – ameacei sem muita firmeza.

— Entro pelas janelas.

— Eu posso fechá-las!

— Elie – sorriu maliciosamente –, eu sou um vampiro. Não vai conseguir fugir de mim.

— Outra vez essa história...

— Eu já disse, no fundo você acredita. – Willian passou por mim quase sem que eu notasse. – E se você precisa ver com seus próprios olhos, eu posso mostrar. Hoje.

— Hum – cruzei os braços, meio desacreditada –, vai me levar pra um “programa vampírico” então?

Willian riu. Em menos de um minuto ele estava à minha frente, segurando o meu queixo e me deixando completamente nervosa e vacilante.

— Se você preferir, podemos ficar aqui mesmo – sussurrou –, e daí você me cede uma de suas veias.

Minhas pernas tremeram, e foi no impulso que dei dois pulos pra trás e saí correndo para o meu quarto, completamente vermelha.

Escolhi um vestido azul de alças e botas de cano curto. A maquiagem em meu rosto se resumia em um rímel e um batom de tom rosado e meus cabelos ficaram soltos, ainda um pouco molhados.

— Você está bonita – Willian disse, aparentemente admirado. – Muito bonita.

— Não fale isso com essa expressão de espanto! – falei, tentando disfarçar a vergonha. – Vamos logo!

Willian riu baixinho antes de se levantar e se colocar ao meu lado. Quando chegamos à rua, ele puxou a minha mão e eu o recusei, soltando-o rapidamente. Ele riu e nós continuamos a caminhar em silêncio até o cinema da cidade.

— Qual filme você quer assistir?

Mirei os cartazes acima da bilheteria.

— Não faço questão de escolher – disse sinceramente. Estava bastante desatualizada naqueles dias e não conhecia nenhum dos filmes em exibição.

— Tudo bem, eu escolho.

– Willian, isso é mesmo necessário?

Willian não respondeu, apenas me puxou pela mão até o guichê e comprou dois ingressos, embora eu tivesse batido o pé para pagar o meu. Ele era um maldito cabeça dura.

Nós fomos logo para a sala de cinema e Willian começou a falar sobre a produção do filme e o enredo. Ele parecia inteligente, sabia bastante sobre técnicas da filmografia e clássicos do cinema, e eu gostei de escutá-lo. Só que não demorou para que eu perdesse o foco. Minha atenção se voltou para duas pessoas na terceira fileira à nossa frente. O homem se sentou rapidamente e eu só pude reparar em seus cabelos castanhos e ondulados, mas a mulher permaneceu de pé por um tempo, aparentemente nos encarando. Seus cabelos loiros eram partidos ao meio no topo da cabeça e desciam lisos e um pouco bagunçados até a cintura. A boca era grossa, o nariz empinadinho, e ela possuía olhos pequenos e verdes.

A mulher sorriu de repente e se sentou logo que as luzes foram apagadas. Mas apesar de não mais vê-la, por alguma razão a imagem dela não saiu da minha cabeça por um bom tempo.

Tão perfeita quanto Willian.

— Elie – a voz chegou suspirada à minha orelha –, está pronta para ver um pouco de ação?

Sem que pudesse responder, fui puxada pelo pulso inesperadamente. Precisei ser rápida para puxar minha bolsa e tentei – em vão – não esbarrar em ninguém enquanto era arrastada para fora do cinema. Eram sete horas quando deixamos o cinema. Willian parecia se divertir às minhas custas, rindo enquanto eu tentava me soltar e reclamava da situação.

Nós entramos em uma ruela escura e vazia, e a dificuldade de enxergar me fez parar o combate com Willian e agarrar o braço dele com força. O loiro sorriu, cheio de satisfação. Willian era muito convencido.

No final da rua apenas conseguia ver a luz fraca de um poste, mas, ao me aproximar, reparei uma cena um tanto estranha. Havia alguém se debatendo no chão e duas pessoas sobre ele. A mulher do cinema mantinha uma perna para cada lado do homem, imobilizando seus braços. À frente estava seu companheiro, com os braços cruzados sobre os joelhos e aparentemente impaciente.

— Você está atrasado – o homem comentou, levantando-se.

A loira se levantou logo depois, libertando sua vítima por alguns segundos. Ele correu até mim, seu rosto ficou a poucos centímetros do meu, mas antes que pudesse se aproximar mais, seus braços foram puxados com força e ele deu dois passos para trás. A mulher o abraçou por trás, contendo-o. Ela parecia mais forte que o normal e não demonstrava qualquer sinal de dificuldade com o que fazia.

— Oh – ela arregalou os olhos, cheia de uma espécie de admiração –, você é mesmo uma humana bonita!

A frase saiu estranha, porque ninguém em sã consciência ia usar a palavra “humana” naquele contexto.

Meus olhos se fixaram no homem que era contido pela loira. A expressão de seu rosto era de pura loucura. Ele mostrava os dentes, os caninos pontudos, mordia o ar e babava. Sua pele era tão branca que parecia que tinham jogado farinha nela, as veias da sua face estavam ressaltadas e seus olhos se resumiam em duas bolas escuras e avermelhadas. E ele me olhava como um cão faminto olharia para um pedaço de bife.

— Você deve imaginar o que ele quer – Willian disse. – Olhe bem, Elie, você acha que ele é um humano normal?

Foi como se eu perdesse todos os sentidos. Meu corpo ficou imóvel e não consegui raciocinar direito. Não tinha como ser mentira, não era mais um dos meus pesadelos. Aquela pessoa estava bem à minha frente e eu não conseguia pensar em outra explicação para seu comportamento.

Vampiro.

Havia fome naquele olhar sombrio, e a comida era eu.

— Você tem certeza agora? – Willian perguntou.

Não era como se eu pudesse duvidar. Aquela imagem me deixou chocada, perplexa. De repente minha cabeça fez um clique e eu me dei conta de que se era mesmo real e aquelas pessoas eram vampiros, todos deveriam desejar o meu sangue, certo? Mesmo que Willian nunca tivesse me olhado daquele jeito feroz – não que eu me lembrasse –, não significava que ele não desejasse como comida.

Não pensei antes de sair correndo. O caminho era escuro e perdi completamente a noção de rumo, eu apenas queria sair dali, fugir daqueles três. Entretanto, não consegui escapar por muito tempo. Algo bateu com força em minha cabeça e eu caí ali mesmo.