Rosa dos Ventos
14 XIV • Arriscamos a vida por um pote de sorvete
Notas iniciais

COMEÇAR O MÊS DE MAIO COM UM PÉ apontando pro seu rosto talvez não seja a maneira mais usual, mas foi exatamente assim que aconteceu.
— Então, mocinha, espero que fique mais esperto da próxima vez. — Disse o professor Hudson, seu dedão a cinco centímetros do meu nariz. Ele tirou-o dali com um movimento rápido, deu um giro de 360º ao redor de si mesmo e terminou com uma pose que faria Jackie Chan chorar de desgosto.
— Pode deixar que eu vou. — Respondi, tentando controlar o riso. Ele pareceu satisfeito e inclinou o tronco pra frente, com os braços junto ao corpo, num gesto de saudação. Em seguida, apertou a faixa do quimono e sentou-se no tapete de ginástica no chão. Todos os alunos na roda em que eu estava fizeram o mesmo.
— Muito bem. Se meu relógio não estiver enganado, faltam cinco minutos para terminar a aula, e eu vou aproveitar esse tempinho para dar alguns avisos a vocês.
Até então, quase ninguém estava prestando atenção nele, ou por estarem ansiosos para ir almoçar ou conversando, mas, assim que o professor falou isso, todos viraram-se em sua direção na mesma hora. Eu sabia o motivo, e fiquei igualmente atento. Tentei absorver cada palavra que o professor Hudson disse.
— Caso alguém aqui faça parte de algum time do colégio, deve estar sendo alvejado de avisos de seus colegas veteranos a respeito de uma competição chamada Intercolegiais de Junho. Que... bem, acontecem em Junho, óbvio, e como falta exatamente um mês, eu gostaria de anunciar... — ele deu duas tossidas para fingir modéstia — que serei o encarregado oficial do Rosa dos Ventos.
Os alunos bateram palmas, animados. A informação não era nenhuma novidade: o professor Hudson era convocado todo ano para as Intercolegiais de Junho, simplesmente porque nenhum outro professor tinha paciência suficiente para passar duas semanas num clube de esportes no interior coordenando um bando de crianças correndo pra lá e pra cá. A desculpa de que ele era chamado por ser professor de Educação Física e Marcial ajudava, claro, mas não era o fator preponderante.
— Ok, ok, vocês me amam, eu sei. Mas, além disso, é minha obrigação fazer com que o colégio alcance um resultado esplêndido, e é por isso que eu sempre começo a observar os treinos dos times nesse período do ano. Então... vejamos — ele disse, pegando uma prancheta e percorrendo o papel com o dedo, de cima a baixo. — quem joga xadrez, luta karatê ou judô, e os times de futebol e vôlei... me procurem ainda essa semana para me passar seus dados e para que eu entre em contato com os pais de vocês para pedir autorização. Ao longo desse mês vou passar outras informações sobre a competição... agora vão! Corram, porque o almoço não vai se comer sozinho. Beijooss e até a próxima aula.
Em meio a conversas sobre as Intercolegiais, todo mundo arrumou as coisas e foi tirar o quimono para colocar uma roupa normal e ir almoçar. Exceto uma pessoa, que se levantou com pressa e saiu andando de supetão até a porta, sem nem olhar para trás. A maioria de nós não estranhou esse comportamento, já que ele já estava se repetindo há alguns meses. Ninguém mais conseguia se aproximar dele para qualquer coisa.
Eu já estava de saco cheio daquilo. Quer dizer, não que eu me importasse com qualquer coisa relacionada a ele, mas não foram poucas as vezes que eu havia tentado conversar sobre o que acontecera e levei um fora. Mas daquela vez não ia ser assim.
— Ei, Denis, espere! Volte aqui! — Eu gritei, assim que saí da quadra. Ele já estava subindo o primeiro degrau de Titã, e, por algum motivo, resolveu fazer o que eu disse. Ele ficou parado, embora de costas para mim, esperando eu me aproximar.
Assim que eu já estava perto o suficiente para ver seu rosto, ele se virou e me encarou com indiferença.
— Escute, eu sei que aquilo pelo que você passou não foi agradável, mas não precisa fugir das pessoas como se elas estivessem esperando para te lincharem. Pelo que eu sei, e você deve saber disso também, você não foi o único. Então pare de ser idio...
— Você não entende mesmo, não é? — Ele me cortou, com a face dura.
— C-como assim?
— Você continua achando que o motivo de eu estar fugindo de você é aquele afogamento ridículo. Mas não é.
Aquela informação me pegou de surpresa.
— Não? Mas então...
— Imagino que não tenha pensado nisso porque me considera alguém cruel... e, bem, talvez eu seja mesmo. Mas Ulisses, quando eu lembro que foi você que me salvou... isso me faz ter vontade de vomitar... — ele falou, e eu tentei entender em que sentido ele estava querendo dizer aquilo.
— Vomitar de nojo de mim mesmo. Apesar de eu ter quase abusado de você quando mal havíamos nos conhecido, você não hesitou em se jogar na piscina e me tirar de lá, sendo que podia ter sua vingança sem sequer mover um dedo ou ser culpado por isso. Entende como isso é injusto? Eu merecia ter morrido de verdade só por causa dessa situação.
— Mas... mas, não precisa se sentir assim, eu teria feito isso por qualqu...
— Sim, poderia, mas eu estou em dívida com você. E acho que nunca vou poder pagar por isso. Então, para seu bem e para o meu, não chegue perto de mim de novo. Eu não vou... não vou... — nesse momento, Denis fez uma cara de fúria, urrou de raiva e saiu correndo Titã acima, pisando com força nos degraus de mármore.
Só me deixou ali, parado, confuso, e tentando entender se era com o mesmo Denis de dois meses atrás que eu havia acabado de conversar.
...
O resto do dia passou preguiçosamente. À tarde, encontrei com Samuel e tentei disfarçar o incômodo que eu estava sentindo internamente em relação a Denis.
— Hunn, é impressão minha, ou isso é uma carinha de preocupação? — ele falou, sentando-se à minha frente na mesa e franzindo o cenho à lá Sherlock Holmes. Hesitei em responder por um segundo.
— Preocupação? É claro que não... enfim, por que não apareceu aqui no almoço?
Samuel me escaneou com o olhar, mas aparentemente decidiu deixar o assunto para mais tarde.
— Eu fui conversar com o professor Hudson. Não vou poder ir às intercolegiais de Junho porque vou viajar com meus pais para... tchan tchan tchan tchaaan: Havaí! Sim, pode ficar com inveja.
— Ei, ei, ei, espera aí. Como assim Intercolegiais de Junho? Desde quando você faz esporte? — perguntei a Samuel, sem entender nada.
— O quê? Meu filho, eu sou o maior campeão de xadrez que esse colégio já viu, não me diga que nunca ouviu falar de minha soberania enxadrista?
— Não, nunca...
— Bom, agora já sabe. De qualquer forma, não nos veremos em junho. Espero que se divirta lá no clube Outubro.
— Outubro? Espere... eu lembro desse nome.
— Sim. Foi onde eu e... Júnior nos conhecemos. Lá naquele clube de esportes no interior. Onde eles jogaram basquete.
— Ah! — Falei, surpreso. Nunca ia imaginar que as competições fossem ocorrer naquele lugar polêmico samuelmente falando. — E quem é que vai no seu lugar?
A sirene que anunciava a primeira aula da tarde, para aqueles que a tinham, soou pelo colégio, machucando os ouvidos dos alunos com o som de cornetas tocando uma sinfonia militar de um milhão de anos atrás.
— Cruz-credo, eu tenho reforço de matemática agora. Vou indo, senão é capaz de o professor Beremiz começar a se tremer e ter outro ataque de pânico se eu chegar atrasado. Tchau, até mais tarde!
Despedi-me dele e fiquei mais algum tempo sentado por ali, conferindo coisas no celular, até que, antes que eu entrasse em coma profundo provocado pelo tédio, fui andar pela escola.
O primeiro ano era o único que, dia de sexta, não tinha aula à tarde, por isso o colégio estava bastante vazio. Eram mais ou menos catorze horas, e uma brisa fresca já começava a dissipar o calor do meio do dia.
Atravessei o corredor que levava do saguão de entrada ao bloco das salas de aula, na intenção de chegar aos jardins, quando uma mão surgiu na minha frente e encostou no meu peito, interrompendo meu caminho.
— Eu tenho um plano. — Nathan disse, do nada, e saiu correndo pra dentro do refeitório.
— O que... ei, o que você está fazendo? — Eu falei indo atrás dele ao perceber que ele estava pulando o balcão e entrando na área proibida para alunos: a cozinha.
— Fique aí de guarda. Se alguém chegar você grita: Vomitamos na piscina! E eu volto correndo.
— Grito... o que? Ei, espere, volte aqui agora mesmo! — gritei, entre dentes, nervoso. Se alguém aparecesse ali estaríamos muito ferrados.
Apesar de meus protestos, Nathan correu até a cozinha e desapareceu pela porta platinada. Eu sentia que aqueles, definitivamente, eram meus últimos minutos de vida. Não tanto pelo Rondarolli, que já não mais me assustava, mas pela cozinheira, dona Zelda (sim, Zelda), uma velhinha de duzentos anos de idade que não teria um pingo de pena em nos triturar e servir como ensopado no jantar.
Fiquei ali parado, sem saber o que fazer, sentindo minhas esperanças de uma vida longa e saudável se esvaírem, quando Nathan voltou correndo de lá de dentro, segurando um pote enorme na mão. Ele pulou novamente o balcão e veio em minha direção, dando gargalhadas.
— O que diabos você... — eu comecei a perguntar, mas ele passou direto por mim e foi em direção aos jardins.
— Se ficar aí, vão pegar você! — foi só o que ele disse.
Quando vi dona Elza andando pelo corredor em direção a onde eu estava, saí correndo atrás dele sem pensar duas vezes.
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A área externa mais próxima ao bloco das salas de aula ficava num ponto estratégico, fora da vista de qualquer uma das janelas da diretoria. Eu não gostava de lá, pois era quente e desconfortável, além do que, obviamente, eu não ia perder uma oportunidade de deixar o Rondarolli furioso, por isso, disse a Nathan para ficarmos sentados bem perto de um dos cantos, no final da área dos jardins, onde havia uma árvore que projetava uma sombra ótima e o vento circulava perfeitamente.
Naquele espaço havia também uma escultura em alto-relevo de uma rosa dos ventos gigante, que chegava quase aos meus joelhos e certamente podia ser vista por alguém na Lua. Nathan e eu fomos correndo até lá e nos sentamos, ofegantes, até recuperar o fôlego.
— Você poderia... me explicar... o que deu nessa sua cabeça oca? — Eu falei, me apoiando na rosa dos ventos. Nathan segurava um vasilhame cilíndrico com cores pastel embaixo do braço, e, assim que fiz a pergunta, ele segurou-o na altura dos meus olhos e deu um sorriso brincalhão.
Consegui ler o que dizia na embalagem:
SABOR NAPOLITANO CREMOSO
Nathan tinha roubado um pote de dois litros de sorvete.
— Eu e você vamos devorar isso até o final, sim ou claro? — ele tirou uma colher não sei de onde e bateu com ela duas vezes na tampa.
— Você só pode ser maluco. — eu concluí, mas acabei entrando na brincadeira.
Nos aconchegamos da maneira que pudemos sobre a rosa dos ventos (sem brincadeira, cada uma das pontas da rosa tinha a minha altura em comprimento) e ele abriu o pote de sorvete. Não imaginei como nós dois conseguiríamos dar cabo daquilo tudo.
— Você não deveria estar na aula? — perguntei quando ele enfiava a colher pela primeira vez no sorvete.
— Prefiro gastar meu tempo com algo que eu esteja a fim. — ele respondeu, enigmático, ou assim me soou, devido ao sentido que ele poderia ter empregado naquele “a fim”.
— Ahn... — tentei mudar de assunto — também vejo que você só trouxe uma colher. Como espera que... — não pude concluir a frase, pois ele levou a colher à minha boca fazendo sons de aviãozinho, como mães fazem com os filhos.
— Mas o que...
— Meu pote, minhas regras. — ele disse, daquele jeito meio sacana. Não consegui ficar com raiva.
O tempo passou muito depressa naquela tarde. Isso sempre acontecia quando eu conversava com Nathan, tanto é que, mal percebemos, o sol já estava se pondo e o céu começava a escurecer.
— Isso é estranho, sabia? Nos conhecemos há uns quatro meses e não sei quase nada de seu passado, sua família, sua escola antiga... — ele catou os últimos resquícios de sorvete que haviam sobrado. Em seguida, deitou-se ali mesmo. Fiz o mesmo, pois minhas costas estavam me matando.
— Bem... eu... sei lá, não consigo lembrar de nada interessante. O que você quer saber?
— Qualquer coisa... Por exemplo, você tem irmãos?
— Não. Ok, meu pai tem um filho anterior a esse casamento, mas é uma mulher que eu só vi uma vez e que mora na Argentina.
— E seus pais ainda são casados?
Pensei um pouco antes de responder àquela pergunta. Esse assunto me deixava confuso, e até mesmo irritado. Desde que cheguei no Rosa dos Ventos, evitei ao máximo pensar nos meus pais e no que eles estariam fazendo. Se estariam se divertindo ou tristes sem mim. Provavelmente estavam se divertindo.
Há uns cinco anos eles pararam efetivamente de se falar, mas ainda não haviam entrado com o divórcio. Talvez nunca fossem, já que não tinham pretensão nenhuma de se ver algum dia.
— Oficialmente sim, sentimentalmente não. — respondi, finalmente. Nathan pareceu entender o que eu quis dizer. — E você? Como é sua família?
Nathan deu uma risada antes de me responder.
— É engraçado você perguntar isso. Nestor, meu irmão, você já conhece, obviamente — afirmei com a cabeça —... já meus pais... Você sabe que minha mãe é militar, não é? — afirmei novamente, lembrando da tarde de estudos em que Nathan me ensinara Moral e Cívica e me contara sobre isso — Eles se conheceram no exército mesmo. Já ouvi boatos que o casamento foi arranjado... mas não tenho certeza. Eles conviviam bem, até que se separaram quando eu e meu irmão tínhamos oito anos e cada um foi pra um lado. Eu fiquei com a minha mãe e Nestor com o meu pai. Mas, se prepare que ainda não contei a parte mais engraçada.
Ele fez uma pausa dramática, e finalmente disse.
— Antes de meu pai, um dos namorados de minha mãe foi o Leal.
Preciso dizer que fiquei uns bons segundos processando a informação. Quando ela foi assimilada pelo meu cérebro, não consegui controlar a gargalhada.
— Eu não acredito! Hahaha!
— Pode acreditar. Ela nunca me contou detalhes do que aconteceu realmente, mas na única vez em que ela veio aqui e eles se encontraram... digamos que os olhares não foram muito amistosos.
Continuei a rir da situação até entrarmos em outros assuntos. Começamos a falar de nossos colégios antigos e Nathan me perguntou alguma memória marcante de um deles.
Matutei por um tempinho até que cheguei a uma conclusão. Era uma recordação estranha e que se mantinha na minha cabeça há vários anos, desde que o incidente ocorrera. Tudo bem, por causa disso eu havia sido expulso do colégio, mas, mesmo assim, o modo com que aquela lembrança ficara marcada era meio estranho.
— Bem, certa vez... isso aconteceu no internato em que eu conheci a Cynthia. Meus amigos e eu havíamos feito bagunça no refeitório...
— Defina “bagunça”.
— Pegamos vidros de ketchup e desenhamos órgãos genitais em todas as mesas.
— Justo. Continue.
— Então, na hora em que os funcionários chegaram, cada um de nós correu pra um lado e eu acabei indo parar na sala de artes. Desconfiei do motivo de ela estar aberta, mas mesmo assim me escondi lá dentro. Acontece que já era de noite, e estava tudo escuro, e eu percebi, depois de algum tempo, que não estava sozinho. Dois olhos me encaravam no escuro, tão assustados quanto eu. Não dava pra ver quem era.
“Foi então, depois de a situação esfriar, que fiquei com receio de quem estava ali e resolvi ir embora. Mas, assim que eu dei impulso para correr para fora, um vulto se jogou sobre mim e ambos caímos sobre uma porção de telas, cavaletes, papéis e tintas. Houve um pequeno momento em que tudo ficou parado no tempo e eu vi dois fios desencapados criarem um arco fantasmagórico do tamanho de uma moeda, que tocou nos papéis e então tudo começou a pegar fogo.
“Foi instantâneo. Por pouco nem eu nem o outro garoto conseguimos sair dali, mas escapamos ilesos. Aparentemente a cota de Pôr A Sala de Artes em Combustão por aluno não passava de uma vez, pois eu fui expulso no dia seguinte. Não sei o que aconteceu com o menino. E nem sei porquê essa história ficou tão marcada na minha mente.”
Nathan estava com os olhos arregalados.
— Uau... isso foi... sinistro. Você pôs fogo na sala de artes. Não é tão inocente quanto eu pensava.
— Ei, foi sem querer. E eu fui empurrado junto com as coisas perto dos fios.
— Ok, ok, está perdoado. — ele levantou as mãos em rendição.
Já deviam ser umas oito e meia da noite quando percebemos que estávamos ali há tempo demais. Havíamos tomado tanto sorvete que decidimos não ir jantar e ficar conversando. Foi bem legal porque não apareceu ninguém ali durante todo o tempo.
— Eu acho que... imagino que seja bom irmos para os nossos dormitórios. Já está ficando tarde. — eu disse, conferindo a hora do celular. Em vez de se levantar, Nathan, ainda deitado, se aconchegou, esticou-se todo e pôs as mãos atrás da cabeça, para apoiá-la. Eu tinha consciência de seu corpo a dois palmos do meu e de seu cotovelo tocando no meu ombro.
— Eu dormiria aqui. A noite está muito bonita. — ele falou, seus olhos verdes encarando o céu.
De fato, o domo celeste estava limpo e escuro. Eu era apaixonado por astronomia, e por isso me peguei hipnotizado por cada uma das constelações visíveis dali: Virgem, Libra, Centauro, o Cruzeiro do Sul... Se ficássemos ali até duas da manhã veríamos a constelação de meu signo, Aquário.
— Eu odeio as estrelas. — Nathan soltou, de repente.
— O quê? Como assim? — não fiz questão de disfarçar a revolta em minha voz.
— Elas são uma enganação. Pretensiosas, como se fossem uma fórmula romântica. É um dos clichês do amor.
Eu estava incomodado com a observação, mas reconheci que Nathan não deixava de ter razão.
— Bem, se você acha isso....
— A vida na Terra é mais interessante. O amor está nos seres humanos. Não vejo como os símbolos influenciam nisso.
— Eu imagino que às vezes precisamos fugir da realidade. Pôr a culpa em algo que não nós mesmos.
— Pôr a culpa nas estrelas?
— É... algo assim.
Fiquei pensando naquilo. Eu tinha a mentalidade realista, mas as estrelas sempre haviam sido minha válvula de escape para a imaginação. Como se elas me levassem a outros mundos, outras vidas...
Passamos alguns minutos sem falar qualquer coisa, apenas olhando para o céu. Alguns grilos criquilavam inspirados e ansiosos para preencher o silêncio.
Então, algo passou pela minha cabeça. Lembrar-me da tarde de estudos com Nathan reacendeu uma inquietação dentro de mim. Eu queria muito perguntar a ele, desde aquele dia, o motivo verdadeiro de aquilo ter acontecido. Se aquilo significava... se significava que ele gostava realmente de mim.
Qualquer que fosse a resposta, imaginei que eu ficaria atormentado do mesmo jeito. Mas isso não me impediu de ter coragem para perguntar.
Inspirei fundo e, assim que senti as palavras tocarem a minha língua, eu ouvi.
Um grito desesperado. Muito longe, quase inaudível. Mas era um grito.
E eu lembrava de quando tinha ouvido um igual pela primeira vez.
Sem pensar duas vezes, saí correndo atrás da nova vítima do Gênio da Porta ao Lado.
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