Rosa dos Ventos
15 XV • Nossa lagoa encantada
Notas iniciais

NATHAN PULOU ANTES DE MIM.
Bem, isso certamente configura uma situação completamente nova em relação ao meu posto de super-heroi quase oficial do Rosa dos Ventos. Embora, obviamente, eu tenha sentido um alívio imenso ao vê-lo se jogar na piscina para salvar o pobre coitado que sofrera mais um ataque, não pude deixar de ficar preocupado. E se ele fosse atacado também?
Depois de um bom minuto de desespero em que apenas vi uma confusão de braços e pernas se debatendo, o cabelo loiro de Nathan reapareceu. Ele trazia consigo alguém que aparentemente não gostara de ter sido salvo, ou algo do tipo, pois o garoto continuou jogando água pra todos os lados e gritando.
— Ahn, me ajude aqui... pelo amor de Deus. — Nathan falou, ao chegar na borda. Parecia ter nadado duzentos metros.
— Me dá seu braço! — gritei para ele, talvez um pouco alto demais. Eu estava muito nervoso. Ele segurou em minha mão e, usando todas as forças que tinha, dragou o corpo do garoto junto com ele para fora da água.
Os dois caíram na beira da piscina, cuspindo água e tossindo. Nathan ficou mais alguns segundos se recuperando, mas o outro menino se levantou imediatamente. Encarei a cena, sem acreditar no que via. E em quem via. E, ainda por cima, o que eu via.
Primeiro notei que ele estava totalmente sem roupas. Tipo, totalmente mesmo. Bom, eu já havia visto ele assim algumas vezes, mas naquela situação foi algo totalmente inusitado e assustador. Ele tentou escapar correndo, mas o chão liso e molhado fez com que não passasse do primeiro passo.
Torugo se encolheu, molhado e acuado, aos meus pés.
Aquilo tudo era tão bizarro e insano que a primeira coisa que me veio à cabeça foi me abaixar para ajudá-lo a se levantar e carregá-lo até o vestiário antes que alguém aparecesse e o visse assim. Sem entender o motivo, temi até mesmo que Nathan o visse assim, se é que faz algum sentido considerando que ele o havia salvado. Torugo, pareceu estar igualmente desconfortável com o fato de Nathan estar ali, pois me pôs entre si e ele, escondendo-se como um louco faria. Era sinistro vê-lo daquele jeito.
— Saiam daqui... saiam d... saiam! — Torugo gritou, apontando apenas para Nathan apesar de se referir a nós dois. Eu não fazia a mínima ideia do porquê de ele estar se comportando daquela maneira, mas fiz o que me pareceu mais certo.
— Eu acho melhor... você ir lá em cima e pegar algumas toalhas para se secar. Traga algumas também. — eu falei a Nathan, tentando transmitir a ele a informação de que “Eu cuido das coisas por aqui. Não se preocupe”. Ele pareceu entender e caminhou, cambaleante e molhado, pelo deck até desaparecer na porta que dava para a quadra.
Sem mais demora, agarrei Torugo pelo tronco e o levei, aos trancos e barrancos, até o vestiário, que ficava a poucos metros de onde estávamos. Procurei feito um louco pelas roupas dele em qualquer lugar e por evidências de que alguém estivera ali há pouco, mas não encontrei qualquer uma delas.
Assim que entramos, deixei Torugo sentar-se em um dos bancos, procurando desviar meu olhar das partes... hun, íntimas dele. Seu cabelo, outrora cheio e volumoso, estava baixo e escorrido por causa da água, a franja quase cobria-lhe os olhos, que pousavam em qualquer lugar à exceção dos meus.
Permaneci de pé, observando-o com preocupação. Toda essa história de Gênio da Porta ao Lado era tão revoltante que eu tinha vontade de descobrir quem era esse filho da puta só para fazer com ele exatamente o que ele estava fazendo pessoas como Torugo passarem. Tudo era uma incógnita: sua identidade; o modo como atacava e desaparecia sem explicação quase imediatamente; qual era o significado desse pseudônimo; ou até mesmo os motivos de estar fazendo algo assim. Não tinha sentido algum naquilo tudo.
Ver meu amigo daquele jeito fazia algo se revolver dentro de mim. Eu queria justiça, eu queria vingança.
— Torugo... será que você poderia...
— Não! — ele gritou, antes que eu pudesse terminar de perguntar quem havia feito aquilo com ele. Fiquei acuado na mesma hora com seu comportamento subitamente bruto.
Torugo pareceu notar minha mágoa pela resposta grossa e afundou o rosto nas palmas das mãos, soluçando. Ele murmurou desculpas várias vezes, o que me fez pensar em ir até ao seu lado e abraçá-lo, dizer que não tinha problema, pois seu estado era terrivelmente triste, mas fiquei encabulado de me aproximar por ele estar nu.
Ouvi os passos de Nathan lá fora, que foram ficando mais lentos à medida que ele se aproximava, claramente hesitante de chegar perto e fazer Torugo ter outro ataque.
— Eu... ahn, trouxe as toalhas. — ele falou de lá de fora. Fui até a porta e as recebi, dizendo-lhe baixinho para que voltasse lá para cima, que eu resolveria tudo. Apesar de relutar muito, ele concordou e foi embora. Olhou para trás duas vezes antes de sumir pela porta.
— Aqui, cara. Cubra-se com isso. — entreguei duas toalhas a Torugo, que ainda não me olhava nos olhos. Ele se levantou e amarrou uma delas na cintura. Seu corpo era tão perto dos padrões de beleza que a maioria das pessoas se matariam para ter que tive que admitir que era muito bonito. Sua pele branca não tinha qualquer imperfeição.
Já coberto, ele sentou-se novamente no banco e eu, mesmo que desconfiado de sua reação, sentei-me ao seu lado.
— Ulisses... — ele falou, e eu cheguei mais perto para ouvir direito. — você tem que me prometer. Me prometa que não vai contar isso a ninguém. Por favor...
Mesmo sem ter a mínima ideia do que poderia ter realmente acontecido, disse a ele que prometia.
— Não conte... por favor. — ele insistiu e encostou a cabeça no meu ombro, caindo no sono em seguida. Seu cabelo molhado causava uma sensação desconfortável, mas não me afastei.
Agora eu só conseguia pensar em duas coisas:
A promessa que fizera a Torugo.
E a que fizera a mim mesmo de descobrir quem era o Gênio da Porta ao Lado, e fazê-lo pagar por cada vítima.
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Deviam ser umas duas da manhã quando eu e Nathan conseguimos levar Torugo ao meu dormitório. Obviamente, ele achou muito estranho o fato de eu sugerir caminhar pela escola durante a madrugada, sem qualquer medo de ser pego pelo diretor, mas desconversei o assunto e ele pareceu aquiescer.
— Foi um dia bastante produtivo, não acha? — ele falou, depois de discutirmos a respeito do que havíamos presenciado mais cedo. A ideia de Nathan a respeito daquilo era tão lógica que chegava a assustar.
Sua teoria era de que, de algum modo, o Gênio levava os garotos para fazer alguma coisa na piscina, possivelmente transar, e quando chegavam lá, os afogava. Talvez tivesse sido esse o motivo de Torugo ter ficado com medo de Nathan: certamente o confundira com Nestor e ficara com medo de que os hardcore descobrissem que tinha transado com um garoto.
Isso fazia tanto sentido que me peguei pensando seriamente sobre cada detalhe, embora aquilo não explicasse como ele nunca estava por perto ou por que as vítimas, não somente Torugo, se recusavam a falar sobre o assunto. Denis não teria nenhuma vergonha de dizer que havia feito sexo com um garoto, por exemplo.
— Nem me fale. — respondi a Nathan, sentindo a exaustão tomar conta de mim.
Nós dois estávamos no primeiro piso de Titã, na parte em que a escada se separava em duas e cada lado levava para um lado diferente. No caso, Nathan para a Ala Leste e eu para a Oeste.
— Se precisar de qualquer coisa, venha até meu quarto, por favor. — esperei que ele fizesse uma piadinha a respeito de eu visitá-lo no quarto, mas isso não aconteceu.
— Eu irei, sim. — ok, agora eu me senti tentado a fazer a piadinha, mas me controlei.
— Bom, até amanhã então. — ele estendeu a mão para um aperto. Geralmente nos despedíamos de outras formas, mas atendi ao gesto ainda assim. Ficamos um tempo anormalmente longo segurando a mão um do outro. Um tempo que serviu para eu notar que ele estava com a mão começando a suar frio. E que havia uma insegurança em seu olhar.
— Ahn... tchau, até.
— Erh... boa-noite, então. — continuamos com as mãos unidas. Por um momento, esperei que ele se inclinasse até mim e me beijasse. A eletricidade entre nós dois era tão forte que eu considerei inclusive seriamente a possibilidade de eu me inclinar e beijá-lo. O pensamento mexia com meu estômago tanto no sentido bom como no ruim.
Entretanto, apesar do lapso de tempo consideravelmente grande em que ficamos de mãos dadas, olhando um no olho do outro, Nathan pareceu desistir da ideia e me soltou lentamente. Ele deu um sorriso e saiu andando escada acima. Pude notar que alguma coisa mudara naquele momento. Dentro de mim e entre nós dois.
Assim que ele desapareceu para dentro do corredor da Ala Leste, virei-me para o lado das escadas que davam para meu próprio corredor e as subi, o pensamento a mil. O dia tinha sido realmente longo e cheio de informações a serem digeridas.
Se eu não tivesse tão distraído com tudo que havia acontecido, talvez tivesse notado o corpo que se materializou no ar na minha frente antes de trombar com ele.
Meu cérebro pareceu se contorcer, pois a primeira sensação que tive foi de o mundo girar, ou voltar no tempo, pois Nathan havia se teletransportado do outro corredor diretamente para a minha frente. Ele estava encostado de lado na parede, bem na esquina de quem entra no corredor, com os braços cruzados e o rosto fechado.
Ele não falou nada, e não precisou, pois dali era perfeitamente possível ver qualquer coisa no lance de escadas abaixo. Nestor me encarou através dos meus olhos até minha alma. Encontrei uma promessa em sua íris. Uma promessa que não me agradou nem um pouco.
Sem dizer qualquer coisa, apressei o passo através do corredor da Ala Oeste, sentindo o olhar de Nestor me perfurar as costas.
✧
Acordei no dia seguinte com a sensação inerente aos domingos: o corpo dolorido, a mente dolorida, tudo e nada para fazer ao mesmo tempo. Assim que senti que já estava acordado, abri vagarosamente os olhos, procurando o volume debaixo dos lençóis da cama ao meu lado que indicava que Nestor ainda estava dormindo, sendo que, de fato, ele ainda estava lá.
Levantei-me silenciosamente, praguejando a qualquer rangido que a cama fazia. Eu não queria ter que olhar na cara de Nestor tão cedo, por isso escovei os dentes e desci em menos de cinco minutos.
Meus planos para aquele dia já haviam sido devidamente traçados durante a meia hora em que eu ficara ruminando na cama antes de dormir, e a perspectiva de ir torturar mais uma vez a pessoa em questão saciava meus instintos de vingança por enquanto.
— O que você quer? — Rondarolli falou assim que me viu entrar em sua sala. Cheguei perto de sua mesa, onde ele ficava eternamente sentado, encarando-o de cima e fazendo um gesto de ‘calma’ com as mãos.
— Uou, uou, vamos com calma aí, garotão. Hoje eu só vim fazer perguntas. Não precisa se exaltar.
Rondarolli empertigou-se, encarando-me com raiva à medida que eu me aproximava de sua mesa. sentei-me em cima dela de propósito, olhando-o de lado. Peguei uma de suas canetas e brinquei com ela com as mãos.
— Diga logo o que você quer saber. — ele falou, ríspido. Sua cara redonda se retorcia de ódio, convergindo para o bigodão debaixo de seu nariz.
Imaginei qual seria a reação dele ao que eu ia perguntar. Eu já sabia que Rondarolli não ficava nem um pouco feliz com aquele assunto.
— Me diga o que você sabe sobre o Gênio da Porta ao Lado.
Sua expressão se transformou na mesma hora. Percebi que eu tocara em um ponto extremamente sensível em diversos aspectos, a maioria relacionado, provavelmente, ao medo de receber uma denúncia de que a escola não era segura.
— Oras... o Gênio...— ele gaguejou, balançando a cabeça várias vezes — Não sei do que você está falando.
— É claro que sabe. Bem, a menos que eu esteja enganado, daí eu teria que te explicar direitinho o que é. Acho que a polícia... — ao som da palavra polícia ele deu um arquejo e ficou vermelho como um pimentão.
— Argh, tudo bem. O que você quer saber sobre esse... essa praga? — ele cuspiu as palavras.
— Me conte tudo que você sabe. Se faz ideia de quem é, do motivo de fazer isso. Quem já foi vítima. Qualquer coisa.
Rondarolli respirou fundo e permaneceu quase um minuto em silêncio até falar alguma coisa.
— Isso começou a acontecer há uns quatro anos. Interditei a piscina depois do primeiro ataque e eles pararam de acontecer por um tempo, mas os pais estavam começando a questionar a falta de treino para os alunos que praticavam natação e tive que reabri-la. Eu já tentei de todos os jeitos possíveis descobrir quem é a peste que está fazendo essas coisas, mas ele não deixa nenhuma pista no local dos ataques.
— E porque você simplesmente não chamou as autoridades ou algo do tipo?
— Será que você não entende? Iam fechar a escola até descobrirem o que aconteceu. Um escândalo nacional! Eu não podia deixar o Rosa dos Ventos...
— Então você está deixando garotos se afogarem aos montes simplesmente por que não quer ver seu precioso colégio afundar? Sério? Já passou pela sua cabeça que algo muito pior pode acabar acontecendo?
Rondarolli parecia prestes a explodir de raiva. Ser subjugado pelas palavras de um aluno devia estar sendo uma situação excruciantemente dolorosa para ele.
— Bah, o que mais você quer saber? Diga logo. — ele disse, finalmente. Encarei sua cara brilhante de suor por dois segundos teatrais.
— Preciso de uma lista de quantos e quais alunos já foram vítimas do Gênio e das fichas deles. Onde posso encontrar isso?
O diretor suspirou, claramente fazendo algo contra a própria vontade, e abriu a gavetinha da mesa. Sua mão escavou as coisas lá dentro até tirar um molho de chaves pequenininho. Ele as estendeu para mim.
— As fichas você vai encontrar ali dentro — e apontou para um armário de arquivo de metal encostado na parede, à minha direita. — e as vítimas não estão em ordem. Evitei juntá-las para que não ficasse óbvio caso alguém mexesse nas fichas. Você vai ter que procurar.
Eu não acreditei no que estava vendo. O Rondarolli estava realmente me dando as fichas com todas as informações dos alunos. Aquilo era bom demais pra ser verdade. Falei, tentando controlar a ansiedade:
— Ok. Vou levá-las para o meu quarto para poder encontrar alguma coisa. Ah, não se preocupe, vou tomar cuidado para ninguém ver. — e peguei as chaves de sua mão. Desci da mesa e caminhei extasiado até o armário. Eu lembrava de ter respondido um questionário imenso antes de poder me matricular no Rosa dos Ventos, e até hoje tinha um pouco de medo de algumas perguntas íntimas demais que tinham nele.
Enfiei a chave e a girei duas vezes, no que a gaveta fez um clique. Lá dentro havia uma porção de pastas e papéis, arrumadas alfabeticamente. Aquela gaveta correspondia aos alunos dos últimos cinco anos, ou seja, exatamente a que eu ia precisar.
Tive um pouco de dificuldade de tirar os papéis de lá de dentro, pois eram muitas folhas. Deviam ter umas cinco páginas para cada aluno. Apesar do esforço, consegui tirar tudo de lá de dentro.
Foi quando percebi que havia uma ficha presa pela metade no mecanismo detrás da gaveta. Será que ela estava dentro da gaveta que eu abri ou da que ficava logo abaixo? Na dúvida, resolvi puxá-la.
Não foi uma boa ideia, pois acabei rasgando a primeira página de um lado a outro. Quando fui observar quem tinha sido o aluno com a ficha avariada, quase caí duro no chão.
Aquela foto... não, não era possível. Pisquei duas vezes e olhei novamente a foto 3x4 colada no canto do papel. Olhei o nome. Não tinha dúvidas, era ele mesmo. Dei uma risada. Nunca imaginaria que ele tinha sido aluno do Rosa dos Ventos... bem, talvez realmente fizesse lógica.
A turma era de mais de vinte anos atrás, mas resolvi guardar o papel mesmo assim. Seria bom ter algumas informações secretas a respeito do Professor Leal.
— Caio Castanheira Leal, hein? Eu realmente não deveria estar surpreso. — falei a Rondarolli, e ele rolou os olhos, com desprezo.
— Ande logo, vamos. Se alguém vir você com esses papéis vai desconfiar.
— Ok, ok. Já estou indo. — agachei-me para pegar a pilha de papéis que havia colocado no chão, mas com o pensamento concentrado naquela ficha com a primeira página rasgada.
Caio Castanheira Leal. Era estranho pensar naquele homem com um nome de pessoa tão jovem, Caio.
Antes de sair da sala do Rondarolli, antegozei a possibilidade de ter qualquer tipo de poder sobre o Leal. Isso me fez ir aos céus.
Desci as escadas correndo, ansioso para o que estava prestes a descobrir.
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