Rosa De Sangue
4 Vulto ou Demônio?
Notas iniciais
Eu gostaria de poder dizer que não ligo para Haros e que também não sabia da existência de demônios. Existe um velho ditado que diz "querer é poder", mas para a minha desgraça, ele não se encaixa na minha situação.
Um demônio... Que pode ser dito como um dos mais perigosos... No meu sonho. Na droga do meu sonho. Tantos outros sonhos para ele aparecer, como o de criancinhas feito a Arme ou até patricinhas feito a Amy, mas não. Ele tinha que aparecer logo no MEU sonho. E, de quebra, me deixar com medo e pensando nisso pelos próximos três dias.
O pior de tudo era que eu não estava lembrando por simplesmente querer, mas sim por estar sendo observada. Quero dizer, eu não tinha certeza, mas eu estava com a terrível sensação de que tinha algo ou alguém me observando. Você aí, leitor, que por algum milagre do destino ou falta do que fazer ainda está perdendo o seu tempo lendo isso daqui, provavelmente já deve ter se sentido observado em algum momento de sua vida. A maioria das pessoas já se sentiu assim, mas se você faz parte da minoria que nunca experimentou isso, sinta-se sortudo.
O que eu sentia mesmo era um misto de medo com a certeza absoluta de que eu iria morrer a qualquer momento. Acordava com isso na cabeça, tomava café da manhã e fazia as outras atividades diárias, evitando ficar muito tempo sozinha por conta desse medo escroto. O que podia acontecer, afinal? Eu não sabia. E exatamente por não saber e da falta de vontade de descobrir, preferia ignorar o que estava acontecendo e evitar ficar sozinha.
Estava tudo indo muito bem até eu resolver me distanciar do grupo porque não aguentava mais as provocações da raposa azul, que ao invés de ficar tentando superar o Jin, resolvera tirar o dia para me atazanar. E eu te garanto que você não sabe o que é ter um Azin te irritando a cada segundo.
Distanciei-me e meus medos pioraram. Era como se eu tivesse chegado no exato lugar onde seria o último que eu iria estar, não sei, mas era algo assim. Cheguei a até cogitar a possibilidade de isso ser realmente algum tipo de aviso de Agnécia, mas parecia surreal demais por não ter nenhuma justificativa aparente.
Foi aí que o vi pela primeira vez. O vulto dos pesadelos finalmente resolvera me fazer uma visita fora dos sonhos.
"Belos instintos, garota. Agradeça a Agnécia por dá-los a você."
...
Certo, aquilo não era mais um sonho. Não tinha como manter a calma diante daquilo. A voz grave ressoou em minha mente, juntamente com uma gargalhada suficientemente sádica a ponto de me fazer estremecer. Olhei novamente para onde estava o tal vulto, e agora podia ver claramente.
Era um rapaz alto com a digna postura de um assassino. Seu tom de pele não era normal, e suas orelhas eram levemente pontudas. Seus olhos... Incrivelmente vermelhos, curiosamente me lembravam a rosa em meus pesadelos. Seu traje tinha cor predominante vermelha, exatamente como eu me lembrava de ter visto. Em seus lábios surgiu um assustador sorriso que ao mesmo tempo que era irônico, transmitia certa ameaça.
– Quem é você e de que inferno você brotou? — Não foi exatamente a frase mais amigável a se dizer a um suposto assassino, mas eu não tinha muita escolha.
– Não se preocupe, revelarei segundos antes de te matar, reencarnação de Agnécia. — O sorriso brincava em seu rosto tenebroso.
– Já perdi a conta de quantos já acharam que iriam me matar, e olhe, ainda estou viva! Faça-me o favor... Não tem alguns pirralhos pra você assustar ou algo do tipo? — De maneira alguma eu iria demonstrar algum tipo de medo para aquele projeto de gente, mas o rapaz pareceu enxergar fundo em meus olhos o medo que eu sentia. E isso só piorava a situação para mim.
– Não esconda seu medo... Posso senti-lo daqui. — Ele não parecia estar mentindo, e duvido que realmente estivesse.
– Vai fazer o quê agora? Atacar-me? — Até hoje me pergunto por que diabos eu falei isso.
Aquela foi a deixa perfeita para ele investir contra mim. Sacou suas Scarlets, exatamente como eram no sonho, e pôs-se a atirar na minha direção em uma velocidade tamanha que custei a me dar conta do que estava acontecendo. Apenas peguei meu leque e, invocando algumas fracas rajadas de vento, repeli grande parte das balas. Mas uma conseguiu me acertar o ombro esquerdo.
– Belos reflexos, garota. Conseguirá sobreviver por quanto tempo mais? — Sua voz parecia ficar mais assustadora a cada segundo que passava. Ele estava me testando.
– Tufão! — Não pensei duas vezes antes de lançar esse ataque, o que pareceu ter feito o haros se afastar. Mas apenas pareceu mesmo.
Quando me dei conta ele estava atrás de mim.
– Delegar! — O som me fez pensar que ele disparara um único tiro, mas o impacto e dano que recebi fora equivalente a dez tiros focados em apenas uma região das minhas costas. Fui arremessada e caí no chão.
– Só isso? Não me faça arrepender de ter pegado esse trabalho. Levante e lute como alguém que ainda tem amor à própria vida.
"Não me faça arrepender de ter pegado esse trabalho.", ele disse. Mari estava certa.
Levantei-me decidida a não deixar aquela provocação me atingir, avançando contra o maldito sem pensar duas vezes. Abri meu leque e ataquei-o com tudo o que tinha.
Alguns de seus tiros eram repelidos, mas eu não posso dizer que o tal demônio era lento. Pelo contrário, ele devia ser mais rápido do que eu. Ficamos batalhando por bastante tempo, eu simplesmente não via o tempo passar. E sinceramente, não queria ver; aquela devia ser uma batalha boa de ser assistida.
Eu já estava perfurada por muitos tiros, enquanto por outro lado o haros aparentava estar incrivelmente cansado. Mas alguma coisa me dizia que ele não tinha dado tudo de si nessa batalha, e depois de ver meu pesadelo se tornar realidade na minha frente, decidi que não é uma boa ideia ignorar pressentimentos quando se tem uma Deusa aprisionada em si.
Justo no momento em que achei que ele iria me pegar desprevenida, ele retrocedeu seus passos.
"Bela brincadeirinha. Sua morte será uma das melhores, afinal."
E sumiu no meio da mata.
Apenas caí de joelhos, incrédula e cansada demais para ter algum outro tipo de reação. Minhas pupilas estavam dilatadas tamanho fora o susto.
Talvez eu estivesse mesmo à beira da morte.
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