Rosa De Sangue
5 Salva pela Tecnomaga
Notas iniciais
Acordei embalada de qualquer jeito em um pequeno cobertor. No primeiro momento não consegui distinguir a paisagem, mas depois consegui perceber que estava naquela mesma floresta, encostada em uma árvore. Ainda lembrava do ocorrido de antes, mas não fazia ideia de como diabos eu teria parado ali; por acaso eu levei algum cobertor antes de resolver vir para a floresta?
- Oh, hm... Você acordou.
Aquela voz me era familiar. Virei lentamente o rosto e me deparei com a figura incrivelmente baixinha e azulada de Mari.
- Sente-se melhor? — Ela sentou-se ao meu lado, segurando aquele trambolho inútil que ela chama carinhosamente de "Manual". Nunca vi necessidade em ficar carregando um livro sendo que se tem mais outros três tipos de armas muito mais efetivas, mas a garota simplesmente não se importava.
- Hã... Ahn... Sim...? — Foi tudo o que eu consegui dizer. Ainda estava atordoada demais com tudo o que tinha acontecido antes.
- Você estava caída no chão ensanguentada quando te encontrei. Seu corpo estava coberto de tiros... — A baixinha pegou um pequeno saquinho com algo brilhando dentro dele. — E não eram tiros normais. Está vendo? Isto é essência demoníaca. Apenas os haros do Submundo possuem armas que exalam esse tipo de magia.
- Acertou em cheio... — Estava incrivelmente fraca, mal conseguia falar; mas a tecnomaga não pareceu se preocupar muito com isso, visto que tinha a magia dos demônios em suas mãos. Nunca entendi a escala de valores dessa garota.
- Lin, por acaso encontrou um portal para o submundo? — Seu olhar era frio e penetrante. Mari sempre teve essa horrível característica.
- Não encontrei... E não espere que eu entraria nele caso encontrasse. Um demônio me... — Soltei um pequeno grito de dor antes de continuar. — ... Atacou.
— Não se esforce muito, você está muito ferida.
Realmente estava, mas não tinha percebido o quanto. Meu corpo estava cheio de buracos, onde imaginei que as balas estavam alojadas; Mari devia tê-las retirado enquanto eu estava desmaiada. O impacto fazia a dor chegar aos meus ossos, o que não era uma boa coisa. Você aí, leitor, se acha que já sentiu alguma dor de verdade na vida, estou aqui para desmentir e dizer (ou escrever) que a sua maior dor nunca chegou aos pés da causada por inúmeras balas demoníacas perfurando sua pele.
- Conte-me essa história direito. Como assim um demônio te atacou? — Nesse momento eu cheguei a acreditar que ela estava preocupada comigo.
- Era um... Haros... — Fitei o chão à minha frente. — A-Aqueles olhos vermelhos... — Uma só palavra descreve o sentimento repentino que me veio enquanto tentava contar: medo.
- Acalme-se, Lin. — A voz dela soou minimamente autoritária. — Continue contando.
- Eu estava caminhando na floresta quando ele me atacou. — Continuava fitando o chão; era incapaz de olhar nos olhos da tecnomaga depois de demonstrar tanta covardia. — Como você disse, usava um par de Scarlets... Queria me matar... E disse algo sobre ter aceitado uma missão. — Ao fim da última sentença resolvi encarar a menor, esperando uma resposta. E tive uma surpresa quando vi a preocupação estampada em seus olhos bicolores.
- Oh... Isso não é bom. — Arrumou seus óculos no rosto, tensa. — O Caçador de Recompensas deve ter aceitado a missão de capturar a alma da deusa Agnécia. Como ela não está em sua forma divina e sim no corpo de uma garota mortal, isso facilita bastante. — Pela primeira vez a vi soltando aquele livro, deixando-o no chão. — Mas como descobriram o paradeiro da deusa? — Seu olhar agora estava perdido.
- Não me pergunte, não sei nada sobre demônios. Só lembro deles me atacando na minha antiga vila.
- Escute, Lin. — Seu olhar estampava pura preocupação. — Não fique sozinha em hipótese alguma, fique em algum lugar onde os membros da Grand Chase possam te ver. Caçadores de Recompensas são impiedosos e só atacam aqueles que possuem algum valor em seu mercado negro.
- E como farei para sair da mira do capeta? — Meu tom não soara nada amigável, mas eu estava conversando com a Mari. Ela não se importa muito com isso.
- É preciso vencê-lo em batalha para que ele desista da ideia e vá procurar outro alvo. O problema é que alguns Caçadores são bem teimosos e não desistem facilmente. — Voltou a segurar o grande livro.
- Mari... Eu não vou sobreviver a outra batalha dessa. — Por mais que não queria admitir, aquela era a verdade. Se em uma primeira batalha eu já saíra tão debilitada daquela forma, em uma segunda vez era praticamente impossível sobreviver.
- Hm, sim, o inimigo é poderoso. Mas você tem a Grand Chase para lhe... Ajudar. — Sorriu minimamente mas hesitou em dizer a última palavra, talvez com medo de eu xingá-la por achar que ela estava me subestimando. Mari sempre foi calculista; E só sorria daquele jeito quando estava tentando consolar alguém. Soava falso, mas era a falta de costume.
- Você tem razão. — Eu disse, depois de um longo suspiro. — Terei que aguentar o Azin me atazanando se não quiser morrer. Tudo certo, eu dou um jeito, não sou eu a maldita reencarnação de Agnécia que está sendo caçada? — Tentei dar uma risada sem graça, mas meus ossos não permitiram.
- Hm, não é seguro você ficar aqui na floresta. — Raciocinava Mari. — ... E eu também não consigo te carregar. — Ela olhou para mim, decepcionada.
- O que é? Está me chamando de gorda? — Bufei, encarando-a.
- Oh, em hipótese alguma. — A tecnomaga ajeitou novamente os óculos. — Irei até o acampamento pedir ajuda, peço para que não saia daqui e tente fazer alguma loucura.
- Eu pareço em condições para sair daqui? — Encarei-a incrédula dessa vez.
- Certamente não. Bom, serei rápida. — Invocou algumas de suas máquinas, que soltaram uma espécie de energia azul a fazendo sumir dali em poucos segundos.
Os minutos ali foram os mais eternos possíveis. Eu estava atônita, pensava ver uma sombra em cada ponto cego; essa sensação é realmente horrível. Estava com medo? Impossível, eu nunca tive medo. Mas existia outra explicação para o incrível nervosismo? Creio que não.
Mari voltou com Sieghart, que riu da minha cara antes de me carregar de volta para o acampamento. Já devia esperar por isso, o imortal às vezes chegava a ter um senso de humor pior do que o de Azin.
Fui levada até a minha cama improvisada da barraca, onde permaneci pelo resto do dia. Não demorou muito a anoitecer, por sorte baixinha azulada havia feito os primeiros socorros nos meus ferimentos, restando a mim apenas descansar bastante. Sob os olhos da Grand Chase eu podia me sentir protegida... Mas ter que ser protegida não é muito legal. Não sou assim tão inútil.
Tudo o que eu queria era dormir para esquecer esse problema. Não demorou muito para que eu caísse no sono, logo já estava contando carneirinhos em meus sonhos; cheguei até a ter uma pequena ponta de esperança. Mas ainda não tinha certeza de nada.
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