Rosa De Sangue
2 Uma Ideia Idiota
Notas iniciais
Fim de tarde, a calmaria reinava em toda Ernas, ao menos por enquanto. Oh, a Grand Chase está exausta? Por que não caminhar por aí sozinha até escurecer? Ora, nada poderia acontecer com a grande e toda poderosa descendente de Agnécia. Brilhante ideia, Lin. Realmente genial.
Por um lado, você nunca espera que haja algum perigo que seja de fato ameaçador nas florestas de Vermécia. Em minha mente, o máximo que poderia acontecer era uma gosma verde e gosmenta pular em cima de mim e tentar me matar com o seu fedor descomunal. Nada que um simples movimento para o lado — ou um soco bem dado — não resolvesse a situação. Mas isso deve perder a validade a partir do momento em que você sonha com rosas e sangue.
Como eu não tinha preocupação nenhuma e estava mais que ciente que poderia lidar até com Ernasis, saí andando e adentrando uma das imensas florestas, logo depois do final da Floresta do Desafio. Confesso que foi indescritivelmente irritante ter que lidar com gosmas horrendas e cogumelos andantes que, com aquelas perninhas gordinhas e baixinhas, tentavam me derrubar a todo custo. Acabei soltando um Ventos da Divindade em alguns deles, para evitar mais estresse.
Fui andando aleatoriamente até me deparar com uma parte mais escura isolada a poucos metros de onde eu já estava. Isso era no mínimo estranho, já que ainda era dia; e além disso, as folhas das árvores pareciam ficar mais murchas à medida que iam ficando próximas do que parecia ser realmente uma região isolada. Era incrível como as folhagens de todo o ecossistema, que era tão belo e verde, ia perdendo a cor e a vida — ou vontade de viver — ao redor do lugar. Como eu não tinha nada a temer, resolvi investigar. Talvez achasse algum idiota que me permitisse um ato heroico.
Tudo ali podia ser facilmente descrito como sinônimos de solidão e morte. As plantas não tinham mais vida e haviam se rendido à fraca coloração amarelada ou até mesmo amarronzada. Não havia pássaros, gosmas ou até mesmo cogumelos; não havia nada além do frio e mortal silêncio que tirava toda a graça de... Tudo.
Foi ali que o vi pela primeira vez.
Mas o que diabos era aquilo? Não sei. Eu simplesmente não sentira nenhuma magia, era como se não houvesse. Aquilo tinha que ter alguma explicação.
Foi um vulto, agora eu tenho certeza de que aquilo era um vulto, mas não consegui cogitar a possibilidade naquele momento. Era algo sombrio e traiçoeiro, que por algum motivo desconhecido havia feito minhas pernas tremerem. Soprou um vento desgraçadamente frio em meu rosto quando aquela coisa passou, o que de certa forma me assustou mais ainda.
Você deve estar se perguntando: mas por que não fala logo o que era? Haha, meu caro leitor mortal, perderia toda a graça da história se eu revelasse agora o que era essa coisa. Seria a mesma coisa de um grande escritor revelar ao público o final de sua obra, sendo que esta nem ao menos chegou em sua metade. Mas bem, deixando comparações inúteis de lado, você terá que continuar lendo caso queira descobrir isso. Tenho ciência de o quanto sou chata, por isso se você conseguiu chegar até aqui, meus parabéns.
Voltando ao meu passeio desnecessariamente tenebroso, concluí que o melhor a se fazer naquela situação era sair correndo o mais rápido possível. Algo que eu não fiz, por não querer dar o braço a torcer e admitir que aquilo realmente tinha me assustado. E antes que você venha me dizer algo como "poxa Lin, era só um vulto", aquilo nunca seria apenas um vulto. Nada nunca me passou tanto medo quanto aquilo, e posso dizer que sei sobre essas coisas, pois fui atacada por demônios por quase toda a minha vida. Devia ter lembrado disso antes de sair por aí sozinha achando que podia desbancar Ernasis.
Limitei-me a caminhar calmamente por aquele brejo em que tinha me metido na direção do que eu imaginava ser a saída, e para a minha surpresa — ou desgraça, entenda como quiser — o vulto resolveu me assombrar de novo. Acelerei meus passos, e tive a impressão de ver certo ponto brilhante vermelho na copa de uma das árvores mortas. Isso foi o suficiente para me convencer a sair correndo o mais rápido que podia dali, antes que algum capeta resolvesse dar as caras e tentar enfiar suas garras em mim. E se quer saber, foi aí que percebi o quanto sou sedentária por lutar apenas com um leque utilizando ventos.
Cheguei até o mini acampamento da GC tão desconsertada e descabelada que a primeira coisa que ouvi foi:
– Era muito grande?
Entendedores entenderão.
– O quê? — Olhei Azin um pouco confusa pela falta de raciocínio proporcionada pela correria. Minha voz saiu tão esganiçada que o maldito começou a rir.
– O sanduíche... — Ele insistia em tirar sarro da minha cara.
– Ah, suma daqui. — Eu disse por fim, finalmente entendendo a piada e saindo dali, indo me sentar perto de uma macieira.
Arrumei meus cabelos com os dedos enquanto tentava organizar as minhas ideias, e mesmo sem expressar um pingo de emoção a azulada veio me perguntar se eu tinha visto algum fantasma ou se eu só era louca mesmo.
Expliquei-a sobre o lugar onde tudo estava morto, falando em seguida sobre o vulto — assombração — que havia me assustado e me dado motivos de sobra para sair correndo e chegar ali naquele estado. Ela ajeitou os óculos e pegou seu grande livro, começando mais uma de suas aulas tediosas sobre a biologia de Vermécia.
Claro que eu não prestei atenção em quase nada, só me chamou a atenção quando ela falou de um grande acidente que ocorrera naquela área. Segundo ela, há muitos anos Calnat havia criado um atirador de mísseis de longo alcance e precisava testá-lo. Sem saber as dimensões que uma única bala poderia causar, os pesquisadores resolveram atirá-lo naquela área mesmo. A magia foi tamanha que sugou toda a vida daquele pedaço do mapa de Vermécia. Vendo que as consequências eram graves e que a vida naquele pedaço de terra tornara-se impossível devido à radiação, os cientistas abandonaram o projeto.
Sobre o vulto, ela me disse que eu estava apenas com medo e que devia ir dormir. Resolvi seguir esse conselho, já que estava devidamente cansada. Arrumei uma árvore qualquer perto do acampamento e adormeci.
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