Roots
9 Capítulo 8 - "The Fall"
Notas iniciais
— E então? — Pergunto a Kevin, assim que ele pisa nos degraus da Casa Grande. Seus olhos estavam vermelhos, provavelmente porque havia chorado, porém sua postura estava tranquila.
— Teremos que ficar pelo menos dez metros de distância um do outro a partir de agora. — Ele suspira.
— Vai ficar tudo bem. — Nos abraçamos. — Não deixe um cara idiota te derrubar. Você é forte, já passou por coisas muito piores e deu a volta por cima. Não vale a pena ter seu sorriso radiante e seu jeito incrível de ser afetados por isso. — Seguro suas mãos com delicadeza. — Mas saiba que eu e os outros estamos aqui para o que precisar. E, caso precise de um ombro amigo, serei a primeira a oferecer.
— Obrigado. Eu não sei o que seria de mim sem vocês. — Ele dá um sorriso tímido. — Mas, sério, eu vou ficar bem, como você mesma disse. Não tem necessidade de perder uma noite de sono por isso. Afinal, já está tarde, e você vai precisar de energia para amanhã, conselheira-chefe. — Eu rio.
— Tem certeza que vai ficar bem?
— Sim, tenho. Não se preocupe. Pode ir tranquila. — Eu sorrio, me rendendo.
— Certo, vou confiar em você. Se precisar de mim, é só chamar.
Despeço-me com um “boa noite” e saio em direção ao meu chalé, acenando um tchauzinho.
Ao chegar, todo cuidado para não fazer barulho, pois alguns dos meus irmãos já dormiam.
Deitada na cama começo a pensar sobre tudo o que havia acontecido nas últimas horas. A “Voz” ameaçando a segurança do acampamento, o sumiço de Ártemis, Wendy com sua dracma de teletransporte, a briga dos dois, minha decisão de aceitar ser conselheira...
Senti um leve frio na barriga.
Antes desse verão, eu era só... eu, a garota estranha que gostava de ouvir músicas estranhas com seus amigos mais estranhos ainda. E então, de repente, a vida que eu julgava “perfeita” mudou completamente. Como se as coisas não tivessem o mesmo brilho de antes. Precisava lidar com o luto, com responsabilidades, precisava, mesmo que com todas as dores e conflitos internos, estar bem e segurar a barra para todos os meus amigos. E bem, não que eu esteja reclamando, porém todas essas mudanças me davam certo medo. Não saber o que aconteceria a seguir, ter um futuro incerto é um tanto quanto desesperador.
Que ironia.
Logo eu, uma filha de Apolo, com medo do futuro.
— É Cecília... — Penso alto. — Talvez essa seja a graça da vida.
Afinal, o que mais eu tinha a perder?
***
Suspiro, cansada, observando as pessoas bêbadas à minha volta.
Não que eu também não tivesse ingerido um pouco de álcool, mas alguns ali realmente haviam perdido o controle, e já estava ficando desagradável.
Percebo que Mel também está incomodada. A conhecia muito bem para saber que estava muito desconfortável no meio daquela festa cheia de pessoas estranhas cheirando à bebida e cigarro.
A música também não estava lá àquelas coisas. Eu já estava de saco cheio, e com um pouco de dor de cabeça.
— Vamos sair daqui? — Falo em seu ouvido para que ela conseguisse me escutar.
— Por favor, estava esperando você falar. — Levantamos da mesa e fomos até a saída de mãos dadas.
Assim que nos afastamos alguns metros do local da festa, ela comenta:
— Cara, aquela festa estava uma porra!
— Nem me diga. — Chegamos até o estacionamento que tinha deixado minha moto.
— A chave está com você. — Apalpo os bolsos da calça jeans até localizar o molhinho de chaves. — Quer ir para algum lugar antes de voltarmos para casa?
— Tá a fim de tomar um milk-shake? Tem uma lanchonete vinte e quatro horas aqui perto. — Respondo, colocado o capacete.
— Pode ser. — Ela fecha o zíper da jaqueta de couro e dá partida, então abraço sua cintura.
O vento traz às minhas narinas a fragrância de seu perfume misturado ao meu.
Observo as ruas praticamente desertas pela hora, e os postes de luz e semáforos clareando toda a cidade.
Ao passo que nos aproximamos da lanchonete, a moto vai desacelerando, até pararmos em frente ao local.
— Dois milk-shakes de chocolate então senhora? — Me pergunta a moça do caixa que claramente estava muito entediada por ter ficado com o turno da madrugada.
— Isso. — Sorrio, tentando parecer simpática.
— Digite a senha por gentileza. — Sua voz soa robótica, como se sua alma já nem existisse mais. — Ótimo, pode retirar o pedido ao lado. — Diz, entregando- me o cartão.
Pego os dois copos, murmurando um “muito obrigada” para o cara que me entrega, me concentrando para não derrubá-los.
— Aqui está, docinho. — Coloco um deles em frente à minha namorada que já piscava os olhos de uma maneira sonolenta.
Sento de frente para ela, tirando o canudo do papelzinho.
— Me desculpe por hoje, só queria fazer um esquema legal antes de você voltar para casa.
— Imagina. — Ela dá um sorriso discreto. — Coisas assim acontecem. Teremos outras festas para ir mais para frente. Por hoje, apenas estar com você já fez o meu dia ser perfeito. — Entrelaçamos nossos dedos em cima da mesa.
— Desse jeito vou acabar ficando diabética. — Puxo sua mão com delicadeza e deposito um beijo.
Ficamos nos encarando em silêncio de um jeito fofo enquanto tomamos os milk-shakes. Ela acariciava as costas da minha mão com o dedão. Um momento para se guardar para sempre na memória.
Num estalo, tenho uma ideia.
— Feche os olhos. — Peço, e assim ela o faz.
Pego o papelzinho do canudo e amarro no seu dedo anelar.
— Pronto, pode abrir. — Ela olha para a mão, sem entender. — Melissa, meu amor. Aceita se casar comigo um dia, mesmo que esse seja daqui a anos? — Ela solta uma risada gostosa.
— Sim, aceito. — Responde, selando seus lábios nos meus.
Então, um estrondo alto me tira daquele sonho lindo. Levanto de supetão com o susto, batendo a cabeça no teto da beliche.
Pelas expressões assustadas percebo que todos também foram acordados pelo barulho.
Corro até a janela do chalé. Outro estrondo, dessa vez consigo identificar o som. Era um trovão, e estava muito, muito perto.
Logo, grossas gotas de chuva começam a cair, e o vento canta de tão forte, formando uma tempestade em questão de segundos.
— Chuva? No acampamento? — Alguém murmura.
— Como é possível? — Outra voz responde.
— O que vamos fazer? — Dessa vez, a pergunta vem de outra direção.
Os demais também tem reações parecidas, formando um coro desesperado. Perto de mim, uma garotinha de mais ou menos seis anos cai no choro. Era Mabel, a mais nova entre os filhos de Apolo. A pego no colo, encostando sua cabeça na curva do meu pescoço.
— Por favor, mantenham a calma! — Faço minha voz se sobressair no meio da algazarra. Surpreendentemente, todos param de falar. — Olha, isso deve ser só um mal entendido. Logo saberemos o que está acontecendo. Agora é importante que não entrem em pânico, só vai piorar a situação.
As pessoas continuam me encarando, esperando que eu faça alguma coisa.
Coloco Mabel no chão e me agacho para ficar da sua altura.
— Não precisa se preocupar docinho, vai ficar tudo bem. É só uma chuva. Está segura aqui. — Ela assente, fungando. — Fiquem aqui e cuidem uns dos outros, principalmente dela. — Digo, novamente de pé. — Vou até a Casa Grande tirar satisfações sobre isso. Alguém tem um guarda-chuva? — Logo, me entregam um, roxo vibrante. — Obrigada. Não saiam daqui até que eu volte, e preparem as armas para qualquer imprevisto.
Respiro fundo, tomando coragem, e abro a porta do chalé.
A tempestade parece ficar pior, como se estivesse me chamando para a briga. “Vai mesmo encarar? Otária”.
Engulo seco.
“Ah seu vou.”
Saio correndo, o pobre guarda-chuva não suportando todo o poder da chuva.
Chego até a entrada, completamente encharcada. Aparentemente, outros conselheiros tiveram a mesma ideia que eu.
De todos, o único que estava seco era o Jackson.
Por que será, não?
Quíron, senhor D. e meu pai aparecem, suas expressões sérias, porém com um fio de preocupação.
— Ainda não sabemos de nada. Vamos esperar mais um pouco, talvez haja uma explicação para tudo isso com o decorrer do dia. Por enquanto, voltem para os seus chalés e tentem manter a ordem. — Quíron se pronuncia, deixando todos desapontados.
***
— Manter a ordem? Isso é mesmo sério? — Pergunto aos meus amigos, indignada. — Isso por acaso está virando uma ditadura? Não é como se os meus irmãos fossem um rebanho de vacas que não podem sair dos limites da fazenda.
— Calma Ceci... As coisas estão difíceis para todos. — Sebastian coloca as mãos no meu ombro.
— O que eu menos tenho agora é calma. Isso tudo já está passando dos limites. Será que eles já pararam para pensar que a nossa ajuda seria útil? Afinal, é para isso que servimos: limpar as cagadas dos deuses.
— Você tem razão, mas, pelo que nos contou, todos ficaram desesperados só com um trovão. Se isso não passa de um detalhe no meio de toda essa confusão, capaz de acontecer a terceira guerra mundial só pelo desespero dos semideuses.
— Nós sobrevivemos à Cronos e a guerra contra Gaia. O que pode ser tão pior do que isso a ponto de nos esconderem a verdade? — Ele responde.
Todos ficam em silêncio.
— Ótimo. — Suspiro, passando a mão no rosto. — É isso, vamos nos render e esperar o mundo acabar? — Todos me encaram, com uma cara de “é aquele ditado, né?”. — Qualé gente, eu esperava mais de vocês.
Encaro o relógio. Meu tempo tinha acabado.
— Não posso ficar muito tempo aqui em baixo, vão notar minha ausência lá no chalé. — Kevin se levanta.
— Eu... Vou com você. — O encaro por um segundo.
— Tá... Pode ser. — Dou de ombros e abro a porta, a escuridão me dando um oi.
Começamos a caminhar em silêncio.
Percebi pelos passos descompassados e pelas repetidas vezes que levava a mão até o topo da cabeça para arrumar alguns fios rebeldes que estragavam seu penteado perfeito que algo o inquietava. Não tinha certeza se era algo que ele queria falar, ou se tinha relação com tudo que estávamos passando, ou se era apenas os túneis que o deixavam incomodado.
Acreditem, era compreensível.
Para mim era somente uma das várias paranoias que eu tenho na cabeça, mas tenho sempre a impressão de estar sendo observada quando caminho por ali. Pelo visto, não era a única afetada pelas vibrações do lugar.
— Está tudo bem? — Pergunto por fim.
— Sim... — Ele responde distante. Era triste vê-lo tão para baixo, pois nada conseguia tirar seu sorriso do rosto, e um idiota feito o Elliot teve a audácia de fazer isso.
— Ei, vem cá... — O envolvo num abraço, o que o surpreende num primeiro momento, mas depois ele se rende e retribui. — Vai ficar tudo bem, okay?
Ele começa a chorar, colocando para fora tudo que estava preso, sufocando-o.
Ficamos assim até suas lágrimas e soluços cessarem. Eu acariciava suas costas para ajudá-lo a se acalmar.
— Eu estou aqui para o que precisar, lembre-se disso. Somos melhores amigos.
— Tudo bem... Chega de drama. — Disse abanando o rosto e respirando fundo. — Vamos voltar para a realidade. O show tem que continuar.
— Tudo bem então. — Dou de ombros e nós rimos.
Continuamos nosso caminho, agora um pouco mais tranquilos.
Ao chegarmos na escada da saída, ele puxa meu braço.
— Posso te pedir um favor? Promete que não vai ficar chateada comigo? — O encaro em dúvida.
— É... Acho que sim... Pode pedir.
Ele suspira, e fala calmamente, como quem se dirige a uma criança:
— Esteja no Q.G. às oito da noite de hoje, sem falta. E nem pense em sair de lá antes da meia-noite. Relaxa que eu resolvo o lance de estar no chalé ao toque de recolher. Apenas faça a sua parte que eu faço a minha. Combinado? — Analiso a situação por um momento. O que poderia acontecer de tão ruim? Eu não tinha nada a perder mesmo.
— Tudo bem. Combinado. — Selamos nosso acordo com uma jura de dedinho.
***
Nos despedimos e fomos cada um para o seu lado. Observo-o ir de encontro com duas antigas amigas, as gêmeas do chalé de Deméter, Brenda e Bianca, antes de tomar meu rumo.
Decido, então, ver se estava tudo ok na tenda da enfermaria, já que era o lugar mais próximo de onde eu me encontrava.
Devo admitir aquele não era nem de longe meu lugar favorito do acampamento. Ao contrário de alguns dos meus irmãos, eu não gostava nem de chegar muito perto.
Tive más experiências com hospitais num passado nem tão distante assim, e agulhas perfurando minha pele mais do que suficiente para uma vida inteira. O lado bom disso tudo é que eu quase nunca fico doente, e parte disso se dá pela parte divina do meu DNA (muito obrigada pai).
O lado ruim é que todas as poucas vezes que aconteceu algo comigo sempre tive que ser internada, pois corria risco de morte.
Então, dá para perceber que Cecília e hospital na mesma frase não é algo que me agrada muito, a não ser que eu tenha que ficar bem longe dele.
Na entrada, duas pessoas conversavam. Não conseguia ver seus rostos pela posição que estavam, e suas vozes soavam tão baixas que era quase impossível ouvir. Ao me aproximar, tento pegar alguma coisa da conversa, até perceber que ela estava em outra língua. Era antiga, até mais que o grego, isso eu tinha certeza, porém não sabia dizer de onde vinha, muito menos com o que se parecia.
Eles ignoraram minha presença. Não moveram um músculo quando me aproximei. Seria a mesma coisa se uma lufada de vento tivesse passado por ali.
Despercebida.
Decidi ignorar e continuar meu caminho.
Estranhamente, não havia ninguém lá dentro. Todas as luzes estavam apagadas. As macas, vazias.
Um arrepio percorreu minha espinha. Algo muito estranho estava acontecendo ali.
Percebi uma fraca iluminação esverdeada vindo do vão da porta de um dos quartos. Ela piscava num tipo de padrão ou código, com espaços de tempo iguais entre uma e outra.
Minha curiosidade venceu meu medo, e eu decidi conferir o que era. A minha pior decisão naquele dia.
Deitado na maca havia um corpo. Não respirava, não se movia, e a pele estava pálida. Não existia vida ali.
Me aproximei cautelosamente.
Meu coração parou ali. Meus braços e pernas não respondiam os comandos do meu cérebro.
Ali, com o rosto desfigurado e cheio de cortes estava Melissa.
Eu não entendia. Como era possível? Ele havia desaparecido na explosão do avião, como poderia estar ali?
Encarei seu rosto novamente, ainda sem acreditar no que estava acontecendo.
— Melissa... — Sussurro involuntariamente, sentindo meus olhos serem invadidos pelas lágrimas.
Em um impulso, seguro sua mão. No mesmo instante, ela abre os olhos.
Só que não eram seus olhos. Estavam verdes, assim como a luz que antes piscava. Vidrados e sem vida.
Como um robô, ela sentou-se, ainda me encarando.
Uma névoa da mesma tonalidade dos seus olhos começou a nos envolver. O pior era que eu reconhecia aquela névoa de algum lugar.
“Seu tempo está se esgotando”
Ela fala, com uma voz demoníaca. A mesma que havia ameaçado o acampamento quando Apolo foi possuído.
“Eu irei atrás de todos, um por um, até que não sobre mais ninguém. Até quando vai conseguir se esconder? Você tem trinta dias.”
A névoa envolveu completamente o quarto. Parecia um gás tóxico invadindo meus pulmões. Minha visão começou a embaçar, eu perdi completamente o senso de direção. Meu equilíbrio era precário.
Caí, batendo a cabeça em algo.
Coloquei a mão no lugar da pancada, e ela se encheu de sangue.
A imagem à minha frente escureceu, e então, eu perdi completamente os sentidos.
***
— Olha, ela tá acordando! — É a primeira coisa que ouço assim que abro os olhos, devagar.
Assim que minhas pupilas se ajustam à quantidade de luz, tudo volta a ter foco.
A primeira coisa que vejo são os olhos cinzas de Sebastian me encarando em uma expressão de preocupação e alívio.
— O que aconteceu...? —Pergunto, ainda levemente desorientada. Minha cabeça ainda doía onde eu havia batido anteriormente, mas pelo jeito alguém havia feito um curativo ali, pois já não sangrava mais. — Há quanto tempo estou desmaiada?
— Duas horas. — Quem responde dessa vez é meu pai. Ele está virado de costas, me impedindo, assim, de ver seu rosto. — Nós te encontramos caída sobre uma poça de sangue. Tem alguma coisa que queira nos contar?
Respirei fundo e então contei tudo que havia acontecido, desde as pessoas estranhas que conversavam na entrada até a parte da névoa. Sobre a voz e o que ela havia dito, e como eu perdi tão facilmente os sentidos assim que vi Melissa.
Ele me encarava confuso, porém, prestando atenção em cada palavra. Parecia estar tentando relacionar aquelas informações, tentando encontrar algum sentido naquilo tudo.
— Ela já acor... Cecília! — Lana entra sem aviso prévio no quarto, e corre para me abraçar. — Eu fiquei tão preocupada...
Apolo pigarreia, chamando nossa atenção.
— Trouxe o que eu pedi Lana? — Ele é propositalmente ríspido. Qual era o problema dele?
— Ah... Claro. Aqui está... — Ela entrega um envelope bege. — Acho melhor eu ir indo... Preciso resolver umas coisas com os meus irmãos. — Assim que diz, ela entra na sombra da parede e some.
—Mas o que...? — Pergunto.
Os dois me ignoram, e eu fico com aquela clássica cara de bunda.
— Preciso ir avisar Quíron do que aconteceu, acho que você já está bem o suficiente, não precisa mais de mim aqui. — Ele dobra o envelope no meio. — Em todo caso, se algo estranho acontecer, me procurem. —Ele também sai, só que pela porta da frente dessa vez.
Levanto com ajuda de Sebastian, ainda um pouco tonta. Noto pela sua expressão que ele estava pensando em algo.
— Alguma ideia do que pode ter sido isso?
— Para falar a verdade, sim.
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