O dia estava perfeitamente frio. Mas ao entrar no metrô senti o calor humano de muitas pessoas juntas em um lugar fechado.

Sentei na única vaga que havia, esfreguei uma mão na outra tentando esquentar.

Suspirei e relaxei no banco. O metrô começou a se movimentar novamente quando todos terminaram de entrar nos vagões.

Coloquei a minha mochila no meu colo e olhei pra multidão ali dentro, poderia ter mais de um milhão de pessoas e mesmo assim eu a reconheceria de longe.

Lá estava ela com seu gorro amarelo desbotado, seus cabelos castanhos caindo pelos ombros, seu sorriso radiante, como sempre, seus olhos castanhos escuros brilhavam mais do que eu poderia já ter visto. E eu já vi muitas vezes aqueles olhos brilharem, com o choro que estava por vir.

Me encolhi no banco duro ainda olhando pra ela que sorria pra alguém.

Sorria para um homem alto, com cabelos negros na altura do ombro, com cachos pesados e sedosos, usava uma touca escura, a barba estava bem feita e seus olhos claros refletia o sorriso dela.

Não sei quem ele é, mas sei que ela esta feliz em seus braços.

Ela é linda, perfeita. Meu amor é tão brilhante, mas está com outro homem.

Sinto a vontade imediata de me levantar e sair dali, mas não posso pois o metrô ainda esta em movimento e se encontra tão cheio que até eu conseguir sai dali eu provavelmente desmaiaria, por levantar rápido demais, me senti enjoado só de pensar, mas meus olhos continuavam fixos nela.

Ela é tão linda.

senti um embrulho no estomago.

Mas é verdade, ela é linda.

Senti minha mente ir no passado e voltar, minhas memórias passando desesperadamente através de meus olhos, embaçando minha visão.

Fiz tanto ela chorar e agora tudo o que eu queria era ser a razão do sorriso dela, de sua felicidade.

Mas no meio da multidão ela estava com outro homem, abraçada e sorrindo para um outro homem.

Eu não sei o que fazer, meu desespero é profundo. Mil pensamentos passam por minha mente junto com as memórias que tive ao lado dela.

Eu não sei o que fazer.

— Eu te amo, por favor! — ela implorava aos prantos enquanto eu evitava olha-la nos olhos, evitava ver seu brilho de desespero.

— Eu quero ficar sozinho, esse é o meu destino. Eu não poderia fazê-la feliz! — sussurrei deixando-a caída no tapete felpudo cinza da sala.

Com essa ultima lembrança eu quase me contorci com a dor no peito.

Eu quero fazê-la feliz! onde eu estava com a cabeça ao dizer aquilo? Eu quero fazê-la feliz!

Eu já fui o motivo da felicidade dela e hoje não sou mais.

E a amo. Eu ainda a amo!

Ela o beijou delicadamente e ao se afastar seu olhar encontrou o meu. Seu sorriso se esvaiu na hora, mas no mesmo segundo ela sorriu pra mim, sorriu como se tivesse me avisando que eu estava certo e que também estava perdoado por ter deixado-a, mas pelo pior, por ter feito ela sofrer tanto.

Meu coração apertou e então reparei que o metrô parou em alguma estação e antes dela sair do vagão acompanhada com o homem ao seu lado, ela acenou pra mim e se virou.

Fiquei paralisado perdendo-a de vista, tive vontade de levantar e segui-la, de me ajoelhar aos seus pés e lhe pedir perdão mesmo já sendo perdoado, de pedir para ser o motivo de sua alegria, mas deixei ela ir, porque eu não sabia o que fazer, tudo porque descobri o quão a amo.

o balanço do vagão me fez voltar a realidade, a uma que ela não pertencia a meu mundo.

Eu jamais voltaria a vê-la novamente.