Romances Inacabados
6 A dor da traição
Notas iniciais
Corro o mais rápido que posso, como se fosse impossível parar um dia. Corro até chegar no restaurante dela, digo, o restaurante que ela sempre toda café.
Hoje ela esta do lado de dentro, pois a chuva está densa aqui fora, os pingos gelados caiem brutos, como se quisessem penetrar na minha pele e arrancar toda dor dentro de mim.
Ela está bem agasalhada, seu sorriso estampado no rosto enquanto ler algum livro no qual não consigo ver.
Eu já errei tanto e mesmo assim ele sempre esteve ao meu lado, ela ficou ao meu lado até eu fazê-la chorar.
Ela sempre quis entrar no meu mundo, me ajudar de coração aberto, ela via meus pensamentos, mas não os ouvia. Ela jamais entrou no meu mundo, mas agora, era tudo o que eu mais queria e eu não me importaria se ela vasculhasse cada canto do meu mundo a procura de consertar tudo aquilo que está quebrado. eu iria adora, eu iria me sentir vivo.
— você está saindo da minha vida! Aos poucos você vai embora. — suas lagrimas naquele momento não me espantaram.
— Eu não estou saindo da sua vida, não está me vendo aqui? Não estou aqui?? — gritei como se ela fosse incapaz de me ouvir.
Ela simplesmente se virou e foi para o quarto e eu soquei a parede com raiva.
Na época eu achei que ela queria um motivo pra ir embora, mas na verdade ela estava me alertando pra não deixa-la ir embora. E eu não a ouvi, eu a deixei ir. Na verdade eu que a deixei primeiro.
Quando ela simplesmente foi embora de casa, deixando apenas um bilhete que dizia "Se eu ficar mais tempo aqui isso ira terminar em uma tragédia. Você pode me achar louca por te amar tanto e quer cuidar de você, mas era só amor. Não me procure." No começo achei que ela se referia a brigas, mas hoje descobri que a tragédia poderia ser a morte dela, causada por mim, mas feita pelas próprias mãos dela.
No começo fiquei apenas furioso e não fui atrás dela, como o pedido, mas depois de um tempo a saudade bateu e fui procurar aquele sorriso em outros sorrisos, mas jamais encontrei um que chegasse aos pés do dela.
Ela estava o tempo todo aqui ao meu lado e eu nunca vi. eu nunca quis ver.
Depois de todas as traições, de todas as vezes que cheguei tarde da noite gritando e falando coisas ruins, mesmo depois disso tudo ela ainda estava de pé, suportando o monstro que eu era. Com a sua armadura já desgastada de tanto que a maltratei, não fisicamente, isso jamais, mas sentimentalmente. Ela era e ainda é uma mulher forte.
Vejo que antes ela era como um brinquedo pra mim no qual eu usava quando queria, mas que idiota eu fui! é claro que ela não queria ser tratada como brinquedo. Por que eu a tratei assim? Por que não fui o cara perfeito pra ela?
Por isso não importa o tempo que faz eu sempre venho aqui pela manhã e a observo tomando seu maravilhoso café é da manhã, sem jamais perturba-la, sem jamais falar com ela ou deixar ela saber que estou ali. Ela está feliz, não quero tirar esse sorriso lindo de seu rosto.
— Olá moço.
olhei pro meu lado onde um senhor me encarava debaixo de um guarda-chuvas preto e bem refinado, era o senhor que ficava na porta, recebendo seus clientes.
— Desculpe, mas o senhor não pode ficar ai parado. — ele me olhou de cima a baixo e não o culpo pela cara que ele fez de talvez desprezo. Eu estava um maltrapilho, barba grande e cabelos grandes, o cheiro de álcool era forte e as roupas sujas e molhadas lhe dizia que eu não era um cliente apropriado para aquele restaurante — Você quer comer algo? — ele perguntou, agora com tão de voz gentil.
Franzi o cenho e balancei a cabeça em negação.
— Não, obrigada. — e sai dali correndo, deixando a chuva me bater.
Eu estava cansado daquilo, eu perdi a pessoa que mais me amou nesse mundo e eu não podia ir mais atrás dela porque não seria justo.
Gritei querendo o mundo me ouvisse, querendo que o céu me ouvisse.
Cai de joelhos na lama, abaixei a cabeça aos prantos.
Hoje eu não tomaria mais nenhuma dose pensando nela. Só por hoje eu não choraria mais e nem abriria mais essas feridas dentro de mim, essas que parecem ser impossíveis de se fechar ou se curar com a ausência dela na minha vida.
Essa abstinência, essa necessidade precisa parar, precisa parar agora.
Olho pro céu nebuloso quando o som da buzina chega aos meus ouvidos.
sinto o chão tremer cada vez mais forte.
A buzina está mais alta.
O barulho dos trilhos ficavam mais ritmados pela aproximação.
— Desculpa. — sussurrei pro céu e um clarão me tomou por inteiro.
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