Roman Diaries

8 Capítulo 8 - A vida é feita de riscos?


O beco atrás da lanchonete onde estavam costumava ser vazio. Isso porque, além de caixas vazias e duas lixeiras grandes, nada havia lá. Era escuro, frio, e cheio de ratos. Qualquer pessoa que se preze não aproveitaria bem o seu tempo naquele lugar. Em uma noite como aquela, na qual a lua se escondia e as nuvens cobriam toda a extensão do céu, não era agradável observar aquele beco. Não porque era vazio, mas porque dava a impressão de que não estava vazio. Não dava pra saber se o que causava essa impressão era a presença dos fortes ventos, ou dos pedaços de papel que voavam pelo perímetro, ou por causa da estranha falta de barulho. Provavelmente cada um daqueles itens era responsável pela tamanha estranheza do beco atrás da lanchonete.

A janela pela qual Elisabeth olhou não era grande: era quadrada, de metal e o vidro estava sujo, mas a sujeira não foi o suficiente para distrair a romana da visão que teve. Ela até chegou a cogitar a própria loucura, mesmo por um breve segundo, ao permitir que o próprio cérebro processasse as informações que estava recebendo. Sabia que a mente era capaz de projetar coisas monstruosas o suficiente para a assustar, sabia que alucinações eram reais e sabia que a simples condição de ser uma semideusa a deixava infinitamente mais propensa a ser vítima de transtorno pós-traumático, mas... O que estava vendo era real. Sabia disso porque, ao contrário do que o cidadão comum pensa, grifos são reais.

As criaturas eram aladas. Tinham asas gigantes, majestosas, que pendiam no ar como se fossem alheias às leis da gravidade. Longos bicos afiados, olhos vermelhos como rubis e rostos de águia. O corpo delas, no entanto, era de leão, e a coisa mais fora de comum naquele episódio todo era que, além de serem criaturas mitológicas altamente mortais, elas quebravam precedentes e eram todas de um intenso pigmento preto, como o vácuo. Haviam quatro delas, e mesmo que fosse só uma aquilo já seria o suficiente pra fazer que Elisabeth se alarmasse... Foi por isso que correu tão urgentemente.

Depois de as luzes terem se apagado, a primeira coisa que ouviram foi a voz de um dos funcionários da lanchonete.

— Como é que eu vou bater ponto sem energia nessa porra?

Aí veio a luz. Não das lâmpadas, da mão de Elisabeth. A romana tinha uma esfera invisível de mini raios nascendo e morrendo na superfície da sua pele, podiam ouvir o som que eles faziam quando eles cortavam o ar, mas como eram filhotes era quase não identificável. Falou antes de qualquer um dos seus amigos.

— Quatro grifos lá fora — Tinha tamanha perícia em identificar criaturas mitológicas porque como estudou dentro de um Acampamento romano, algumas das disciplinas que teve foram Estudo Sobre as Criaturas Monstruosas Que Podem e Provavelmente Vão Te Matar I e II. — Eles são grandes, são majestosos e acho que querem nos matar.

Por fim, os quatro outros semideuses tiveram tempo de reagir. Marshall se levantou, Mark se levantou, Therony se levantou e Rose deu mais um gole no seu milkshake, só então se levantou. Olhavam ao redor da lanchonete pra identificarem as pessoas presentes, como qualquer semideus treinado faria antes de iniciar uma batalha: três funcionários da lanchonete e três pessoas sentadas no canto mais distante. As janelas estavam bloqueadas por o que parecia ser neblina lá fora, e os ventos continuavam intensos.

— Vocês — Marshall gritou para as pessoas presentes; os funcionários e os clientes — Vão pra alguma sala de estoque, qualquer lugar seguro. Só saiam quando a gente mandar.

E eles nem esperaram ele falar uma segunda vez pra que pudessem sair correndo. Enquanto isso, Mark tinha subido em uma das mesas e encarava o lado de fora, tentando enxergar alguma coisa. Só fumaça.

— Gente, paciência. Me ouçam: grifos são perigosos? Sim, eles são perigosos — Rose começou a falar, usando o tom que alguém usaria se estivesse tentando acalmar os amigos — E são fortes. E rápidos. E extremamente mortais. E... Inteligentes, muito inteligentes...

Não estava acalmando ninguém, AO CONTRÁRIO! Therony arregalou os olhos.

— Maaaas?

— Não tem “mas”. — A garota tirou uma medalha dourada do bolso. A medalha tinha uma águia e uma suástica desenhadas. Lançou-a no ar e quando a apanhou o que tinha na mão era um gládio de Ouro Imperial, o dourado da lâmina iluminando a escuridão ao seu redor — Grifos são fodas.

Enquanto isso, Elisabeth estava perto de uma tomada, ainda tinha a esfera de raios improvisados na mão, mas sabia que seria difícil sustentar uma batalha no escuro. Não pra Marshall, mas pros outros sim. Ela e Therony sempre podiam contar com a visão aguçada de águia que tinham herdado do pai, mas era melhor não arriscar.

— Cortaram a energia lá fora — Therony comentou, se aproximando da irmã enquanto a mais velha tentava causar alguma reação das lâmpadas. Theo sabia disso porque logo quando a energia caiu, tentou reacender as lâmpadas, mas não foi possível. Os fios provavelmente tinham sido cortadoos. Elisabeth balançou a cabeça negativamente.

— Droga — Olhou ao redor — Sustentar esse tanto de lâmpada enquanto lutamos não é sensato. O certo era dar um pico de energia em algum objeto e deixar ele fazer o resto.

A loira concordou, estavam na mesma página quanto aquilo. Mas aí notou outra parte do diálogo.

— Enquanto lutamos? Acha que vamos lutar?

— É claro que vamos lutar.

Os outros na lanchonete viraram sua atenção pra conversa das duas. Rose franziu o cenho.

— São quatro grifos. Contra cinco legionários.

— É, eu sei — A morena não parecia estar preocupada. Pegou um tanto de guardanapos e soltou uma faísca neles, o suficiente para os incendiar e Elisabeth deixar a fogueira improvisada sobre a mesa, só por tempo o suficiente pra conseguirem pensar em uma estratégia. Tinham a vantagem de tempo porque os grifos estavam atrás da lanchonete, no beco, e provavelmente ainda acreditavam que fariam um ataque surpresa.

— Você não “sabe”, Elisa — Rose fez aspas com os dedos — Você VIU quatro grifos. Não dá pra saber o que mais tem por aí.

— Nós somos semideuses, do Acampamento Júpiter — Elisabeth disse com todas as palavras, apagando a esfera de energia na palma da sua mão, tudo o que tinham agora era a luz do fogo — Treinamos todos os dias pra combater monstros, pra sermos capazes de lutarmos contra criaturas maiores e mais fortes... Ataques como esse são as nossas provas. Se não lutarmos, do que adianta ficar treinando o dia inteiro, no sol, usando armaduras quentes?

— Isso não é uma prova. Essa é a vida real. Ao contrário dos treinos, um golpe errado aqui acarreta em bem mais consequências do que só uma advertência do centurião. Somos legionários treinados, sim, mas nós não estamos preparados. Você trouxe sua armadura completa?

— Não trouxe.

— Exatamente, porque não está preparada. Se podemos evitar uma luta desse porte, eu voto por evitar.

— Nós não somos os melhores, mas somos fortes, Rose. Nós somos semiDEUSES. Você é filha da guerra, eu e Theo do deus dos deuses, Marshall do próprio demônio — Olhou pra Marshall — Sem ofensas, Marsh.

— Não ofendeu — O rapaz deu de ombros. Elisa continuou:

— E Mark é filho do cara que domina os mares. Podemos derrotar alguns monstros. A vida é feita de riscos. E se nós deixarmos eles a solta eles podem atacar gente mais indefesa. Gente que não vai conseguir lutar e que... Vai morrer. Por negligência nossa.

— É por eu ser filha da guerra que eu consigo identificar quais batalhas lutar. Você fala sobre gente indefesa... E se nós não formos fortes o suficiente? E se formos nós a morrer?

Silêncio por um breve momento.

— Nós podemos lutar — Therony quebrou o voto invisível de silêncio — Mas precisamos de uma boa estratégia. E rápido, bem rápido, o tempo tá passando.

Nessa hora, Therony desejou que o tempo passasse tão devagar quanto estava passando no jantar.

— Eu acho que a Rose tá certa — Marshall comentou, enquanto procurava no bolso seus anéis — Ser cauteloso nunca é demais. Pra quê ficar e lutar quando temos a chance de conseguir voltar pra casa sem derramar sangue?

— A vida é feita de riscos — Mark repetiu as palavras de Elisabeth, se colocando ao lado dela. Quando a sua boca se fechou, uma arma se materializou nas suas mãos: era uma espada quase transparente, azulada... De gelo. Tinha a adquirido em uma missão, a espada era capaz de tornar gelo tudo o que cortasse. — Vamos destroçar esses bastardos!

Elisabeth olhou pra Rose, tinha as sobrancelhas franzidas em súplica.

— Podemos fazer isso. Confia em mim. Se as coisas não derem certo... Eu assumo a responsabilidade das consequências.

A romana mais nova fechou os olhos com força, assim como os punhos, e seu rosto ficou vermelho de raiva. Por fim, abriu os olhos.

— Eu confio em você. — E a unanimidade foi alcançada. Por mais que Marshall tivesse concordado com Rose, 4x1 era um ratio esmagador, e Elisabeth sabia que o melhor amigo também era um apreciador de lutas emocionantes. — Mas me reservo o direito de dar um discurso de “eu te avisei” se as coisas forem terríveis.

Elisabeth exibiu as covinhas em um sorriso. Amava Rose, até quando tinham opiniões contrárias, e principalmente nessas circunstâncias. Agora, lutariam e precisavam de estratégias. Fortes ou não, a inteligência sempre é a melhor forma pra se vencer uma batalha.

— Tá bom. — Olhou para o rosto de cada um dos quatro ali — Ideias?

— Alguém pode distrair os grifos e eu ataco por trás. — Marshall chutou. Finalmente tinha achado seus anéia e agora tinha duas espadas, cruzadas nas suas costas como se fossem katanas.

— Luz forte o suficiente pra cegar eles — Therony gesticulou as mãos pra que visualizassem a sua fala — E aí a gente pléu. Soco neles.

— Eu posso molhar eles e vocês eletrocutam — Mark se dirigia a Theo e Elisa.

— É difícil eletrocutar grifos, eles voam — Therony respondeu-o.

— A gente só precisa prender eles. Em uma esfera de água, por exemplo.

— Sabe quantos litros de água você ia precisar usar pra prender quatro grifos em uma esfera de água? — Elisabeth que perguntou, a confusão expressa no seu rosto era impagável.

— Muitos litros de água, Elisabeth, obrigado por notar, mas... Acho que eu consigo.

— Você acha?! — Rose balançou o seu gládio na direção de Mark. — Achar não vai nos levar a nada. A Therony e a Elisabeth podem criar a fonte de luz para os cegar, Marshall e eu podemos atacar por trás e o Mark pode dar suporte de longe, caso algo ruim aconteça.

Therony cruzou os braços e olhou ao redor. Aí franziu o cenho.

— Ou a gente pode explodir a lanchonete — Seus olhos agora estavam presos em Elisabeth.

Os semideuses se entreolharam.

— Therony, o papo é sério — Marshall começou a tentar a censurar a garota, mas ela ergueu o dedo e apontou pra cozinha.

— O que tem lá?

— Facas e batata frita — Rose respondeu.

Os adolescentes estavam confusos, sem entender porquê Therony faria uma pergunta desse tipo no meio de um planejamento importante.

Elisabeth arregalou os olhos — Botijões de gás.

As duas irmãs trocaram sorrisos, e aí todo mundo olhou para a chama dos guardanapos que começava a se extinguir. Gás e fogo resultam em...

— Nós só precisamos atrair eles aqui pra dentro e explodir tudo. — Elisabeth terminou o raciocínio da Harkness, só provando o quanto estavam em sintonia, o tempo todo.

— Os mortais? — Mark questionou, ainda estava tentando processar a ideia de explodirem todo um estabelecimento.

— Nós os tiramos antes de explodir — Rose quem explicou, estava começando a acreditar que aquele era, na verdade, um plano muito bom.

— Temos um plano — Elisabeth deu a discussão encerrada, apontando pra Therony pra que dissesse as palavras finais. A romana só exibiu um sorriso de novo, sapeca, e criou algumas faíscas na palma da mão.

— Vamos explodir tudo. Hoje... Nós teremos frango frito.