Roman Diaries
9 Capítulo 9 - A falta de um pai
A coisa mais importante sobre o episódio recorrente na até então pacata lanchonete mortal era que, além de o ato de lutar com grifos ser incrivelmente perigoso quando executado por cinco semideuses romanos adolescentes, as chances a favor da vitória dos semideuses não são as melhores. Os monstros, por sua vez, têm ao seu favor a completa indiferença em relação ao póstumo estado do local em que vão lutar, completa indiferença a segurança dos envolvidos seculares (no caso, os mortais) e é claro, a vantagem biológica. Provavelmente existem estudos que aleguem o quão mais fácil é pra uma águia-leão gigante vencer uma batalha do que é pra alguns adolescentes metidos à besta, falantes de latim e com pais ausentes vencerem uma batalha.
Felizmente, apenas duas dos três pontos favoráveis aos monstros se faziam presente naquela batalha. Isso porquê se tratando daquele grupo em específico, o estado póstumo do local não importava, tanto que tudo o que sobraria daquele local seria carbono. Esperançosamente, é claro.
As melhores chances deles dependiam de boas explosões, a sorte era que tinham Therony. A fumaça branca (névoa) que abundava os arredores do restaurante tornava difícil a visão do lado de fora, mas nenhum dos cinco precisava ver alguma coisa pra ter certeza de que aquele era um sinal de que as coisas só piorariam.
Elisabeth foi a primeira a se dispersar do grupo, se sentia responsável por tomar a liderança porquê a) era assim que tinha sido a vida toda e b) tinha convencido os amigos a ficarem, lutarem e correrem o perigo de sofrerem uma morte terrível. Se fosse pra alguém sofrer uma morte terrível, que fosse ela a ser a primeira da fila. A filha de Júpiter virou o boné pra trás, fuçou o bolso da sua calça e tirou de lá uma adaga. Pequena, pouco maior do que uma mão e que só estava protegida por uma capa quase despedaçada de couro. A lâmina era dourada e brilhava sem necessidade de reflexo de luz algum; era a magia do Ouro Imperial. Vendo que caminhava sozinha em direção a porta, Marshall se apressou a ir atrás com o passo mais rápido, até que a alcançou. O rapaz tinha uma das mãos apoiada na bainha de uma de suas espadas que pareciam até itens decorativos nas suas costas.
— Ei, o que nós vamos fazer? — Anunciou a própria presença quando já estavam prestes a passar pela porta. O informalmente denominado demônio estava acostumado a acompanhar Elisa para batalhas. Geralmente porquê estava entediado, tinha perdido uma aposta pra Mark ou só, sabe, sendo um bom amigo.
— O que NÓS vamos fazer? Você eu não sei, mas eu vou distrair os grifos para Rose levar os mortais pra um lugar seguro — Respondeu até com mais entusiasmo do que se espera de alguém que está caminhando pra uma luta suicida. Estranhamente, Elisabeth se sentia muito confortável nesse tipo de situação. Provavelmente essa condição estava relacionada ao seu vício por adrenalina, mas ela nunca saberia disso porquê nunca, na sua vida, se submeteria a passar por um psicólogo. É o ditado: os traumas e distúrbios que você tem não existem se você não ficar sabendo deles.
— Parece bom. Bora lá — Ele aceitou o convite, embora não estivesse sendo convidado de maneira alguma. Passou na frente da amiga correndo e fez questão de abrir a porta. Então disse com a maior educação, ou a simulou — As damas primeiro.
A romana não conseguiu evitar uma risada contida, achava engraçada a situação na qual estavam — É, em caso de batalha as damas primeiro, sempre. Bom garoto, aprendeu direitinho!
A primeira visão que tiveram do lado de fora foram dois pares de olhos vermelhos parados no meio da fumaça branca. Ouviu-se o som das duas espadas de Marshall deixando as suas bainhas e o que aconteceu em seguida foi o que geralmente acontece quando seres semidivinos são confrontados pelos seus arqui-inimigos naturais.
Dentro da lanchonete, Therony estava na cozinha e Rose e Mark se preparavam para o momento exato em que seria mais seguro para tirar de dentro do local os mortais. Mark bradava a sua espada de gelo contra o ar, enquanto Rose andava de um lado para o outro.
— Há! — Dizia o semideus, enquanto dava mais um golpe no que parecia um fantasma que o tinha deixado muito irritado. Isso ou o ar, mas é preferível acreditar que é a primeira opção porque assim ele não fica com tanta cara de louco. — Hei! Háaaaaa!
Deu um pulo e girou no ar só pra quando cair no chão estar com a espada apontada para o rosto de Rose.
— HÁ...
— Para, miséria! — Respondeu, irritada com a situação. A paciência não era sua maior característica. — Não é pra vocês estarem levando isso na brincadeira.
— Não estou levando na brincadeira, só tô tirando o melhor da situação. Vai mesmo tentar me fazer acreditar que lutar não é divertido? — Ele costumava ser assim, debochado mesmo.
— Você não faz ideia do que uma luta de verdade é — Rose o certificou, ficando repentinamente mais séria do que o normal. Apesar de perceber isso, Mark era irreverente.
— Já entendi, você tem mais experiência na guerra do que eu. “A Rose é filha do deus da guerra, nossa!”... Não faz um pingo de diferença pra mim — Deu de ombros. Se tinha uma coisa da qual tinha certeza era da própria capacidade. Era filho de Netuno, o deus dos mares, da água, das correntezas. Nem mesmo Marte podia interromper o poder que nele havia. A romana estreitou os olhos na direção do colega de Legião.
— Não me tenta agora. Não agora.
— Se não o quê?
Rose abriu a boca pra responder, mas antes que pudesse fazer isso foram interrompidos pelo som de uma janela quebrando com tudo. Algo a atravessou em grande velocidade e tudo o que antes era uma grande janela para a rua agora era só cacos. Entre os vestígios do passado, do outro lado do restaurante, uma Elisabeth se levantou. Tinha acabado de ser arremessada contra uma parede e essa não era, definitivamente, uma atividade que indicava. Seus cabelos tinham cacos de vidro, suas roupas rasgos e a testa sangrava. Olhou para os amigos, ergueu um jóinha e isso foi só o que fez antes de sair correndo na direção do mesmo lugar de onde tinha vindo. Antes de sumir de vista, deu tempo de gritar: — Boa hora pra vocês tirarem os mortais. Os grifos tão distraídos!
É, claramente. Rose saiu correndo pra cumprir a sua responsabilidade e Mark, vendo que a filha de Marte conseguiria cuidar da tarefa sozinha, foi atraído pela batalha do lado de fora. Não podia deixar toda a diversão para Marshall e Elisabeth; talvez ele também quisesse ser arremessado por uma janela.
No campo de batalha, ou na mais comumente conhecida como rua, era difícil enxergar alguma coisa. A névoa ainda era abundante e as coisas que mais chamavam a atenção, porquê eram atualmente as únicas fontes de luz fora a lua, eram as faíscas saindo de algum lugar que se movia com rapidez. No caso, indicativas de Elisabeth Bertolazzo. Marshall estava em cima de um carro no final da rua lutando com um grifo, e embora seja um pouco estereotipado que filhos da escuridão não se dão bem com seres alados, é verdade. Podia não ser o maior medo de Marshall ou, é claro, não estar nem perto disso, mas o Imperione definitivamente não gostava daquelas criaturas.
O monstro tinha acabado de subir aos céus em uma velocidade assustadora, enquanto o rapaz posicionava as suas lâminas em forma de defesa na frente do seu rosto, enquanto acompanhava com toda a sua capacidade de prestar atenção cada movimento do oponente. Não tinha medo de errar, só tinha medo de cometer um erro tão grande que fosse a causa da sua perda. Errar era normal, perder não. De repente, o grifo desceu inicialmente em planada, mas conforme descia ia girando ao redor do próprio corpo e tão rápido quanto já não se era mais possível de acompanhar, parecia um redemoinho de matéria negra, descendo na direção de Marshall, que embora estivesse preparado para o ataque não podia lutar contra a força iminente de um grifo motivado. A ave quando atingiu a altura do semideus exibiu as suas garras de leão das patas e fazendo tanta força que nem o mais forte entre os mortais seria capaz de bater, passou através da defesa das lâminas a ele apontadas e cravou as unhas no peito do rapaz, que sentia tanta adrenalina passeando pelas suas veias que felizmente não sentiu a dor de ser atacado por um rei da selva. Para um cidadão comum, isso provavelmente seria o sinal de que era hora de desistir da batalha, já que não é fácil arrumar motivação pra continuar lutando quando você está literalmente nas garras de um grifo, mas semideuses romanos não são comuns.
Ao invés disso, Marshall sentiu dentro de si a sede de sangue se intensificar e nem conseguiu conter o grito irracional que deu ao puxar com tudo as espadas pra longe do grifo. Era a hora de revidar, enquanto ainda estava perto do monstro. Tinha tudo a perder, mas o grifo também. Era 50/50. Tão rápido quanto puxou as espadas, passou os braços por baixo das patas do grifo e quando os ergueu acompanhados pelas lâminas, cortou o monstro. A boa notícia é que o corte foi o suficiente pra fazer a criatura soltar Marshall, a má notícia é que o corte não foi tão eficiente pra o machucar em um grau mais profundo, porquê ao ser cortado ainda teve força o suficiente pra empurrar o semideus contra o capô do carro e se atirar com o bico na direção do seu rosto. A meta agora era bicar até não sobrar mais carne, e Marshall notou a intenção do monstro. Péssima situação pra estar metido em. O rapaz ergueu novamente as espadas acima do rosto em posição de defesa, mas agora estava entre as patas do grifo e o monstro começava a se inclinar violentamente contra a cabeça dele. Era uma criatura pesada, mas nada era tão assustador quanto o seu bico. Pareciam ser feitos de metal e Marshall teve o gosto disso quando a primeira bicada atingiu seu antebraço. Boa parte da sua carne no local que foi atingido foi arrancada e o vazar de sangue foi imediato. O rapaz se alarmou e conseguiu segurar a defesa com as espadas por alguns segundos antes de ter uma ideia. Sem anúncio puxou apenas uma espada para fora da posição de defesa e a fincou no local onde o pescoço do grifo devia ser. Felizmente, o golpe pareceu fazer efeito e o monstro se desorientou o suficiente para Marshall rolar de baixo do seu predador e cair no asfalto. Sangrava muito por causa da bicada e do fato do seu peito ter marcas de garra sangrentas, assim como as suas roupas.
Por sorte ou destino, quando caiu no asfalto foi a tempo suficiente de Mark chegar correndo em forma de apoio extra ao amigo. A espada do filho de Netuno soltava uma fumaça gelada que se misturava a neblina, e estranhamente o tom do gelo era parecido com o dos seus olhos.
— Luta com alguém do seu tamanho — Gritou para o grifo, que agora alcançava voo pela segunda vez.
— Somos do mesmo tamanho, Mark! — Marshall respondeu indignado do chão.
— Cala a boca, Imperione. O cavaleiro dourado chegou pra te salvar.
E tão quanto Mark terminou de dizer isso, Elisabeth voou pelo espaço pela segunda vez. Dessa vez, junto com um grifo. A situação pareceu muito bem como um avião caindo, mas ao invés disso era um monstro mitológico sendo montado por uma adolescente. Pousou de forma nada gentil e não apenas resultou em arranhões e ossos quebrados para o grifo, mas também para um carro estacionado na rua, que não tinha nada a ver com o assunto.
— Alguém chamou um cavaleiro? — Gritou do meio da poeira que tinha levantado com o pouso forçado do seu grifo. A boa notícia é que estava viva, a má é que o grifo odiava brincar de cavalinho e agora tinha uma dívida pessoal com a semideusa.
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