Roman Diaries
7 Capítulo 7 - Acho que estamos sozinhos
Notas iniciais
Não é a coisa mais divertida do mundo perder uma partida de Laser Tag pra amigos competitivos. Amigos normais ficam felizes com a vitória, comemoram por uns dez minutos e esquecem, já amigos competitivos... Eles não te deixam esquecer. Nunca. Mais. Os adolescentes estavam em uma lanchonete próxima ao edifício do Laser Tag. Era um lugar casual, confortável, com bancos almofadados e uma aura muito parecida com um Hard Rock Café. A decoração era predominantemente em rosa e haviam muitas lâmpadas no teto: mais lâmpadas do que haviam clientes. Um dos funcionários enxugava um copo, atrás do balcão, enquanto olhava pelas janelas como se visualizasse um futuro melhor, outro limpava uma mesa do outro lado do restaurante e ainda outro estava voltando pra trás do balcão, depois de ter levado um pedido para a mesa cheia de adolescentes. Batatas, hambúrgueres, refrigerantes... Todos pagos pelo dinheiro de Therony, Elisabeth e Rose.
O jukebox tentava tocar acima do tom das vozes dos romanos, que conversavam constantemente sobre um tópico em específico. A música tocando era I Think We’re Alone Now, mas mal dava pra ouvir, eles falavam muito alto.
— Acho que foi a partida com mais reviravoltas que eu já vi na minha vida — Mark comentou, fazendo com que o seu cúmplice Marshall risse. As garotas olhavam para os dois com cara de poucos amigos.
— Vocês só ganharam porque um garotinho com excepcional raciocínio estratégico salvou tudo — Therony foi quem respondeu, tomando um gole do copo de refrigerante na sua frente. Rose saboreava um milk shake gigante de chocolate.
— Aquele pirralho... — Resmungou a alemã, balançando a cabeça negativamente, como se estivesse puta da vida. Acabou por exibir um sorriso, orgulhosa — Ele vai ser um ótimo legionário, no futuro. Não sabia que tinha tanto potencial.
— O excepcional raciocínio estratégico dele não seria necessário se a Srta. Therony Bin Laden não tivesse causado todo aquele caos — Marshall enfiou um hambúrguer na boca depois de dizer, tinha um meio sorriso no rosto.
— Não sei se isso foi um elogio ou uma PÉSSIMA tentativa de ofensa — A loira franziu o cenho.
— Foi um... — Marshall tomou refrigerante no canudinho (biodegradável, beleza?), levando algum tempo até deixar o copo de lado — Vocês lutaram bem.
Rose e Therony olharam uma pra outra, confusas. É sério que Marshall estava sendo um bom competidor? Depois de tanto dizer que ia esfregar a vitória pra sempre na cara delas, depois de dizer que ele e Mark eram os melhores jogadores de Laser Tag da história, depois de dizer que elas não ganhariam NEM SE estivessem jogando contra chimpanzés? Estranho...
— Até você, Elisa — Mark olhou para a garota. Ela estava sentada na ponta da mesa, com a cabeça encostada na janela e enfiando batatas fritas na boca, uma de cada vez, como se tivesse cumprindo uma pena divina. — Sabe, isso até o CAN’T TOUCH THIS, PANANA...
E a turma começou a rir, enquanto Mark detalhava o que tinha rolado no labirinto. Enquanto isso, Elisabeth nem tinha notado que a ela alguma palavra tinha sido dirigida. A semideusa mantinha os olhos fixos na janela, olhando pros carros passando, para os dois caras de preto parados no ponto de ônibus e para as árvores balançando, ventava muito. Também prestava atenção na música e em como a batida era chiclete, e qual devia ser o nome daquele mendigo que estava passando? Quem sabe Jerry? Ou Cameron, Thom...
Uma batata frita bateu na cara de Elisabeth.
Ela acordou do próprio transe, olhando para os amigos como se cada um ali presente fosse um E.T.
— Ei!
— Foi você quem deu a ideia de virmos pra nos divertimos — Therony apontou os fatos, pegando a batata que caiu no prato de Elisabeth e a colocando na boca em seguida. O quê?! Batatas não são DE GRAÇA. — Então você tem que interagir e se divertir. É lei.
— Qual lei?
— É lei, Elisabeth — Therony a garantiu, agora franzindo as sobrancelhas em preocupação. — O que você tem?
— Só cansaço — Mentiu. Olhou pra Therony, Marshall, Rose, e seus olhos passaram por Mark como se ele não estivesse ali. Fingiu que ficou mais interessada em ver um grupo de três pessoas que entrou na lanchonete, usavam roupas pretas e bonés, igualmente preto. Estranho, usar boné de noite. Elisabeth ajeitou o boné que usava, voltando a olhar pra Therony — Vou lavar o rosto no banheiro. Não comam as minhas batatas!
Não havia muito o que podiam fazer a respeito de Elisabeth se levantando. A garota colocou as mãos dentro dos bolsos do próprio casaco e foi a passos lentos na direção do banheiro, só conseguiu ouvir Marshall dizendo, baixo.
— É, ela realmente tá estranha a noite toda...
E a garota fechou a porta do banheiro. O som da música parou, abafado, e tudo o que ela conseguia ouvir agora era o som da ventania lá fora, isso e a água correndo nos canos. O banheiro estava vazio, assim como o restaurante, nada incomum. Parou na frente do espelho, pouco interessada na própria aparência. Cabelos escuros bagunçados, lábios descascando por causa da falta de hidratação, olhos verdes apagados. “Sem dúvidas porque ele não gosta de você, Elisabeth” foi o que pensou, fechando os olhos e procedendo em juntar água nas palmas da mão e a passar no rosto. Ao abrir os olhos novamente, seus cílios estavam mais escuros do que geralmente eram e a romana se esticou pra pegar papéis pra enxugar o rosto. Enxugou, enrolou o papel em uma bolinha e lançou a bolinha na lixeira, entrega perfeita. Até mesmo comemorou, silenciosamente. O vento lá fora ainda era forte, e alto. Se sentia um pouco mais alerta, quem sabe bem o suficiente pra voltar a interagir com os amigos... Olhou pra uma cadeirinha ao lado da pia, solitária, como se estivesse lá por obrigação. Ficava logo abaixo de uma das janelas, e o som do vento estava tão atrativo que... Elisabeth se sentia compelida a olhar pra fora.
Devagar, foi até a cadeira, a colocou contra a parede e subiu nela. Não era alta, só que com a cadeira era capaz de olhar através da janela e...
Elisabeth desceu da cadeira e saiu correndo na direção da porta, os olhos arregalados e o coração batendo rápido, mais preocupada em ver os amigos do que qualquer coisa. Ao voltar pra dentro da lanchonete, o tempo que teve foi o suficiente pra ver uma fumaça branca envolver as janelas do estabelecimento, viu Therony jogando duas batatas na cara de Marshall, teve tempo de ouvir o último “I think we’re alone now, doesn’t seem to be anyone around... I think we're alone now, the beating of our hearts it's the only sound”, e aí as luzes apagaram. Escuridão, breu, nem mesmo a luz de fora entrava naquele lugar e...
Aparentemente, não estavam sozinhos.
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