Roman Diaries

4 Capítulo 4 - California Love


Notas iniciais
Eu tenho uma amiga desenhista. O nome dela é Giovanna e ela é a criadora da Therony, personagem que faz parte dessa fanfic. Ás vezes ela faz desenhos sobre alguns momentos divertidos nos capítulos e eu vou começar a compartilhar aqui. Se ela fizer um desenho sobre uma situação que aconteceu no capítulo 1, por exemplo, eu posto o desenho no capítulo 2, pra não dar spoiler. Todos os créditos do desenho pertencem a ela e aproveitem e sigam ela nas redes sociais, o arroba dela é @giocmartins.

Existem algumas verdades absolutas que são consenso entre as pessoas da Terra. A primeira é que as pessoas não devem matar umas às outras deliberadamente, a segunda é que o Sol é bem maior do que a Terra e a terceira é que, bem, o tempo passa mais devagar quando você está ansioso por uma coisa. Por isso aquele jantar foi insuportável. Pelo menos pra Elisabeth, que a cada segundo olhava pro relógio no seu pulso, enquanto comia, pra se certificar de que os segundos estavam respeitando as leis do tempo. Ainda que estivesse sentada na mesa com as pessoas que estariam no Laser Tag, lá a energia era diferente, sabe? Dentro do refeitório precisavam ouvir as palavras do Pretor sobre a agenda da semana, e ouvir a apresentação de novos probatios e, que legal, Lionel foi aceito pela Primeira Coorte!, mas... Nada era tão excitante quanto estar atirando nas pessoas que você mais gosta, as vendo gritar de dor e aproveitar a adrenalina que era estar com quatro semideuses fora do perímetro seguro do Acampamento que impedia que fossem devorados por monstros.

— O lar da minha Coorte disse que eu não deveria sair hoje á noite — Marshall comentou com os amigos, tinha a boca suja de molho de macarrão e comia como se não houvesse amanhã. Ele sempre foi assim, um comilão nato. A única coisa que o separava de pesar 150kg era a rotina pesada que tinham na Legião. Estava sentado entre Elisabeth e Mark, longe de Therony só por precaução, mas nada impedia os dois de trocarem olhares assassinos.

— Nossa, o da minha também — Quem respondeu foi Elisabeth, olhando pra Mark e Rose só pra que eles confirmassem a sua fala, já que estavam ao lado dela quando ouviram a opinião do ser espectral. Estavam saindo do quartel da Coorte, já vestidos para irem até San Francisco e só precisando passar no Refeitório pra se encontrarem com Marshall e Therony.

— Onde vão, arrumados assim e sem a manta roxa? — Foi a pergunta de um dos lares. Era vestido como um soldado romano e tinha um olhar bastante soberano. Era parente de Marco Antônio, um aliado de Júlio César.

Os três semideuses se entreolharam, quase como se fazendo perguntas mútuas sobre se deviam ou não omitir, ou mentir. Mark quem tomou iniciativa, tinha uma boa fama entre os lares, então se sentia mais confortável em conversar com eles.

— São Francisco, vamos passar a noite lá. Não se preocupe, estaremos de volta antes do amanhecer.

— Não deviam — O lar disse o quanto antes, parando na frente dos três enquanto o vento parecia querer dissolver a sua forma. Apesar disso, era só impressão; ele não podia ser dissolvido. — O futuro de Roma não tem motivos pra se envolver com o mundo mortal. Deviam ficar em Nova Roma, onde é seguro. Aqui também tem diversão, por que não vão até a pizzaria do Carlinhos?

Dessa vez foi Elisabeth quem se pronunciou — Ele foi notificado pela vigilância sanitária por ter pedaços de barata no meio da massa... — Mark colocou uma mão no ombro da garota pra que ela pudesse parar de falar.

— É só uma noite, Caio — Explicou pro lar, paciente. — Se o futuro de Roma não consegue se defender do mundo mortal, então somos inúteis.

Então Rose tomou a iniciativa e começou a falar também.

— Aliás, já tentou ter uma luta com um mortal? É como tirar doce de criança. Eles não apenas caem no chão como começam a chorar alto. Atrai atenção, os pais te ameaçam com a possibilidade de chamar a polícia e algumas delas ficam extremamente vermelhas, como se estivessem sufocando pela simples dor de ficarem sem um doce. Pelos deuses, é só um pirulito, criança! Você não vai morrer se ficar sem um pouco de açúcar. EU TAMBÉM GOSTO DE PIRULITO, É EGOÍSMO NÃO O DAR PRA MIM, POR ISSO QUE EU TOMEI ELE DE VOCÊ, PORQUE EU QUERIA PIRULITO. SABE, NÃO É TÃO DIFÍCIL ASSIM RACIOCINAR. O MUNDO NÃO É SOBRE AS CRIANÇAS, TEM OUTRAS PESSOAS VIVENDO NELE TAMBÉM E...

Foi Elisabeth quem colocou uma mão no ombro de Rose, que respirava fundo e parecia ter se perdido na própria narrativa. Caio olhava para os três, perplexo. O lar balançou a cabeça negativamente.

— Mortais são como formigas. — E dito isso, saiu voando, como se nada tivesse acontecido. Os três se olharam, deram de ombros e saíram andando em direção ao Refeitório. Elisabeth terminou de narrar o episódio pra Therony e Marshall, que pareciam confusos. Todo mundo na mesa esperou por um ou dois segundos pra terem tempo de refletir e então estouraram em gargalhadas. Pfff, lares, sempre enigmáticos e malucos!

Poucos minutos depois, estavam andando no meio do mato pra chegarem até o estacionamento de carros de legionários, que ficava próximo ao Monte Diablo. Não dava pra entrar de carro pelo Túnel Calldecot, mas dava pra dar a volta no Acampamento Júpiter, por isso tinha aquele estacionamento lá. Era escondido em uma colina, e o portão era ativado com uma chave especial. Therony e Rose andavam na frente do grupo, a filha de Júpiter segurando uma lanterna gigante. Marshall andava no meio de Mark e Elisabeth, e o garoto das sombras falava que ia sim dirigir até o Laser Tag. Elisabeth negava veementemente e o garantia que só por cima do seu cadáver. Ao chegarem até a entrada do estacionamento, a discussão se intensificou enquanto o portão abria, mas tudo se resolveu com pedra papel tesoura. Elisabeth ganhou o direito de dirigir o Mustang GT até San Francisco, e ela via esse dever como uma vitória absoluta.

California Love estourava nos alto-falantes e os adolescentes pareciam ter muito sobre o que falar. Assuntos que não podiam adereçar no Acampamento Júpiter, por exemplo. Fofocas, piadas ruins e breve menções a como acabariam com os outros na partida de Laser Tag.

— Quem perder paga a conta do restaurante depois da partida — Elisabeth deu a ideia. Uma das suas mãos estava no volante e a outra regulava o som do rádio, tinha um sorriso enorme no rosto pela simples menção a possibilidade de comer de graça, e por estar sorrindo suas covinhas ficavam expostas. Adoráveis e fofinhas, mal combinavam com ela.

— Tá mesmo disposta a deixar seu melhor amigo desembolsar uma quantia dessas? — A loira no carro quem rebateu, nem precisando olhar pra Marshall pra saberem que era dele quem estava falando. Tinha desabafado no Diário, mas não era o suficiente pra que seu desgosto por ele sumisse totalmente. Sinceramente, acreditava que esse desgosto nunca sumiria.

— Olha aqui, Harkness — O rapaz ergueu um dedo pra falar, se inclinando um pouco pra conseguir olhar pra garota. Estavam separados por um Mark balançando a cabeça ao som do rap que tocava. — Você vai se arrepender de tudo o que está falando quando eu ganhar de você. E vai pedir desculpas pra mim! Tudo o que vai volta, sabia?!

— Tudo, menos aquela menina que você pegava, a Emily — Mark o lembrou, e Marshall levou uma das mãos até o peito em uma expressão de surpresa. Não acreditava que estava sendo traído daquela forma, todo mundo dentro do carro riu, menos ele.

— Era pra você estar do meu lado.

— Eu estou do seu lado. Só tô dizendo que não é TUDO que vai volta. Não tecnicamente. A Emily, por exemplo, você achou que ela fosse voltar, mas ela não volt... — Mark parou de falar porque notou que estava deixando a situação pior, mas ao invés de se desculpar só deu um sorriso e continuou a curtir a música.

Enquanto isso, na frente, Rose encarava os botões no painel de controle no carro. Eram tantos, e tão brilhantes, as possibilidades de resultados se um fosse apertado era infinita!

— A única coisa que vai voltar é você humilhado. — Therony disse.

— Eu sei que a nossa discussão não foi a das melhores, mas sinceramente, não há muito o que eu possa fazer! Tudo o que eu posso fazer é...

— CALIFORNIA LOVEEE — Elisabeth cantou, balançando o corpo no ritmo da música. Perigoso, uma adolescente dirigir enquanto dançava, mas ninguém pareceu se importar.

— Esperar que você me peça desculpas.

Therony ergueu o punho como se fosse o deitar na porrada ali na traseira do carro mesmo, mas Mark se sentou ereto no banco, criando uma barreira entre os dois ali.

— Quem quer ouvir uma piada?! — Ninguém respondeu. — Tá, eu conto uma piada pra vocês! Marshall, você sabe por que tem árvores na floresta?

Marshall franziu o cenho.

— Ahn... Por quê, Aestus?

— Porqu... — E antes que ele pudesse responder, o carro derrapou na pista.

O som foi alto, a visão confusa e eles provavelmente sentiram enjôo enquanto faziam dois giros perfeitos na pista. Elisabeth tinha os olhos arregalados ao final, Rose segurava o cinto de segurança com força e os três atrás estavam mais confusos do que se é humanamente aceito estar confuso. O silêncio durou por alguns breves segundos, enquanto a poeira ao redor do carro abaixava e o rádio dava início a música seguinte na linha de reprodução: Kung Fu Fighting.

— ELISABETH? — Marshall gritou, esperando uma explicação pra quase morte pela qual tinham passado.

— EU NÃO SEI O QUÊ ROLOU.

— Você acabou de dar dois cavalinhos de pau... — Mark checava a própria pressão arterial, tinha dois dedos no pescoço.

— O CARRO SÓ DERRAPOU. EU FIZ OS CAVALINHOS PRA GENTE NÃO CAIR LADEIRA ABAIXO. — Apontou para o volante, confusa.

Rose ergueu uma mão, todo mundo ficou em silêncio. No rádio, a música gritava “And everybody was kung fu fighting!”.

— Eu apertei um botão no painel.

Todo mundo se entreolhou.

— A vida é feita de riscos. Ninguém morreu, morreu?

Elisabeth pensou em dar uma bronca na amiga, mas de fato, ninguém tinha morrido. Deu de ombros e voltou a dirigir como se nada tivesse acontecido. Therony olhou pra Mark, que ainda parecia estar se recuperando do susto.

— Qual o final da piada?

O filho de Netuno encarou-a e levou um dos dedos até sobre os próprios lábios, como se pedisse silêncio.

— Esqueça, Therony... — Sussurrou como se estivesse contando um segredo, ou tentando a hipnotizar — Esqueça...

Aí a loira não teve outra opção senão murmurar pra si mesma, enquanto sentia o vento vindo da janela bagunçar seus cabelos.

— Distúrbio de pinga na cabeça. É isso o que esses garotos tem, distúrbio de pinga na cabeça...