Roman Diaries
3 Capítulo 3 - O Diário
Notas iniciais

Enquanto Therony e Elisabeth caminhavam pelos corredores do Túnel, apenas iluminado com a luz de tochas que nunca apagavam, a loira ainda expressava o seu desgosto pelo italiano abusado que ousava a lhe dirigir a palavra.
— Ele é bobo — Elisabeth tentou justificar as ações do melhor amigo e de praxe acalmar Therony.
— Vou acabar com ele. Atirar tanto que ele vai ficar traumatizado quando ouvir o som de um gatilho. Vou pegar a cara dele e fazer assim — A romana apertou as mãos como se estivesse amassando um pão, enquanto fazia uma careta de raiva. Sua irmã observava o ato com medo, mas respeito. Valorizava atos de violência.
— Por que não escreve sobre isso no Diário, hm? Pode te ajudar a extravasar um pouco do ódio enjaulado!
E por mais que Therony estivesse cega pelo ódio, assentiu no que se dizia respeito a aquela ser uma ótima sugestão. O diário? O diário, aquele diário em especial, era o dispositivo mais genial inventado pela civilização nos últimos dez anos. Não um diário comum, O Diário existia com propósitos documentais mais importantes do que os sonhos e medos de uma garotinha. Não só de uma pessoa, mas do coletivo, ele servia como um refúgio para todos os legionários que sentiam que precisavam dizer algo. Não pra si mesmos, não pra alguém em específico, mas para todos que compunham aquela Legião.
O Diário não era oficial, era algo underground, então geralmente era possível encontrar páginas com rabiscos e xingamentos, juras de amor e segredos entre as páginas, então... Era sempre interessante o ter em mãos. Ninguém nunca sabia onde ele estava, ou com quem estava, a única coisa que sabiam era que da próxima vez que o pegassem, descobririam coisas das quais nunca teriam ideia de. Foi pelo Diário que descobriram quem tinha sido a primeira garota a beijar Octavian Augustus, por exemplo. Pobre Penny, da Segunda Coorte.
Era um caderno roxo, com o desenho de uma águia na frente (Therony quem desenhou) e com mais folhas do que se é aceitável em um caderno, porque algumas tinham sido coladas. Podia ser queimado, mas se regenerava (as marcas de queimadura ficavam), podia ser molhado, mas não dissolvia (mas as letras se borravam), podia ser cortado, mas os pedaços se colavam novamente (os riscos do corte permaneciam). Na capa, em letras garrafais, estava escrito “ROMAN DIARIES”.
A loira envolveu os ombros da irmã com um dos braços e deu risada.
— Vou fazer isso. Só preciso descobrir com quem ele tá hoje — E ao dizer isso, o sol quase cegou seus olhos, porque finalmente tinham chegado ao fim do túnel e, agora, surpreendentemente, estavam ao ar livre, em um lugar mais fantástico do que se é possível acreditar. O Acampamento Júpiter é um lugar difícil, sabe? A rotina é pesada, o treino levemente desumano, a hierarquia te deixa louco, mas existem mais motivos pra amar o Acampamento Júpiter do que o odiar.
Na frente das duas garotas, enquanto seguiam o caminho, havia um vale gigante. Era verde, cheio de concentrações de miniflorestas, com um rio cristalino o cruzando e, ao meio desse, uma aglomeração de edifícios. Ao longe, se erguiam duas colinas arborizadas, bonitas, como se tivessem sido esculpidas. Era o Monte Diablo, majestoso, agradável aos olhos, e ele envolvia aquele vale como se fosse seu segurança particular. A aglomeração de edifícios era muito mais do que uma simples cidade. Havia uma cidade propriamente dita, com casas adoráveis e grandes, com escolas e até mesmo um identificável como hospital, mas também haviam templos com colunas gigantes, um Coliseu, pistas de corrida... O paraíso romano. A uma distância considerável, ainda, havia uma outra aglomeração de edifícios, só que essa era facilmente identificável como uma aglomeração militar. Edifícios retangulares com muros altos, espigões e arames sobre eles, os protegendo. Essa aglomeração, inclusive, era cheia de bandeiras roxas com números romanos e símbolos não identificáveis ao longe.
Era tudo majestoso, tudo sincronizado, quase como se saído de um sonho de verão, e era tudo real. Um refúgio para semideuses e legados em plena vista. Uma civilização autossuficiente que, mesmo tendo defeitos, era perfeita pra quem os seus fins eram dedicados.
— O último boato que ouvi era de que estava com a Rose. Ela e o Bryce entraram numa discussão gigante sobre o diário. — A italiana tinha uma careta de preocupação. Rose e Bryce eram... Difíceis. Rose era meio diferente, mas legal. Bryce era super diferente, e um cuzão. Ambos com imenso potencial de supervilões. — Alguém escreveu que eles deviam namorar.
Um detalhe que você já deve ter notado: romanos são fofoqueiras natas. É de se esperar isso de um povo que mantém pessoas mortas passeando pela cidade, só pra que possam contar histórias e segredos de imperadores caídos. Você acha que as senhorinhas da esquina são fofoqueiras? Isso porque ainda não conheceu os lares. Eles sabem de t-u-d-o.
— Oh, no...
— É. Eu sei. Ela tá inclusive fazendo trabalho comunitário pra pagar os danos da briga deles. Falaram coisas ruins na frente de criancinhas e... Foi uma bagunça. Quer procurar ela depois de deixar a armadura no arsenal?
— Só se fizermos uma pausa pra um sorvete antes. Já provou sorvete de abacaxi?
Elisabeth quase revirou os olhos, mas o amor de Therony por abacaxi era tão puro que não dava pra se irritar, mesmo com ela falando repetidamente sobre abacaxi. Elisabeth perdoava até o amor da irmã por pizza de abacaxi! Surpreendentemente, Therony se sentia da mesma forma sobre Elisabeth com carros, em geral.
Dentro do Acampamento, uma garota de pele branca e cabelos escuros na altura do ombro era seguida por um grupo de crianças. Todas elas pareciam assustadas, mas animadas, e na frente havia uma em específico que carregava consigo uma câmera fotográfica. O garotinho tinha olhos gigantes e sempre parecia estar sob o efeito de crack, de tão agitado que era. Prestavam atenção na garota de cabelo escuro.
— ...Perguntas só são aceitas se forem extremamente importantes, não vou admitir ninguém ficando pra trás e se você tiver vontade de ir ao banheiro... Vai ficar com vontade, esse não é o jardim de infância e ninguém tem uma vida fácil aqui, TÁ BOM?!
Uma das crianças choramingou porque estava morrendo de vontade de ir ao banheiro, mas não ia poder porque não estavam no jardim de infância. O garotinho com a câmera fotográfica ergueu a mão, tinha um sorriso gigante no rosto. Esperou a permissão pra finalmente falar.
— Qual seu nome, tia?
— Rose Campbell, Lionel. É ROSE CAMPBELL. EU JÁ DISSE, VOCÊS NÃO OUVEM NADA DO QUE EU DIGO?!
Lionel só continuou sorrindo e tirou uma foto da cara da criança que queria ir no banheiro e que acabou se mijando um pouquinho. Agora iniciavam uma caminhada, na rua onde ficavam os quartéis de cada coorte. As crianças eram probatios recém chegados, e a instrução fazia parte do trabalho voluntário que Rose estava fazendo pra pagar a sua briga com Bryce. Tinha sido... De baixo calão.
— Nós estamos passando agora na frente dos quartéis — Indicava os prédios com a cabeça conforme iam andando. Nas varandas deles, haviam legionários brincando de UNO, tomando refrigerante e fazendo danças estranhas, mesmo que na época ainda não houvesse Fortnite. Adolescentes sempre foram estranhos. — Cada quartel é de uma coorte, e hoje a noite vocês vão ser designados pra uma. É com a sua coorte que vão treinar, com ela que vão lutar, com ela que vão perder e ganhar. Uma vez que entrarem na coorte, vão ser chamados de probatio. Alguém sabe o que é um probatio?
Um garotinho ergueu a mão. Era redondo e bochechudo, tinha cara de quem sempre estava pronto pra fazer uma piada.
— Probatio é quando o seu tio pergunta o que você tá fazendo e você fala “Tô fazendo prova, tio”.
Ninguém riu, nem mesmo uma criança. Todos só olharam pra ele, em conjunto com Rose, que pensou em responder, mas... Não valia a pena. Eventualmente, e com sorte, aquela criança ia superar o fardo de ter nascido estúpido. Só ignorou.
— Probatii são vocês. Os recrutas, os menores na cadeia alimentar. Vocês vão aprender a se portarem no Acampamento Júpiter, na Legião, e aí vão virar Legionários. Um legionário é um soldado, eles compõem a maioria aqui. Logo acima deles vem os centuriões, que são as pessoas responsáveis pela sua coorte, e são eles quem vocês devem obedecer. Dois de cada coorte, servem pra liderar e ajudar. Por fim, temos os pretores, que são os chefes da Legião. Eles comandam as operações, o ritmo do acampamento e da administração, em geral.
Conforme andavam, alguns legionários davam risadinha por verem tantas crianças juntas, mas era comum. Probatios eram o que não faltava naquele lugar. Rose descrevia cada edifício pelo qual passavam, detalhava o regime da vivência e, uau, quem diria que a Campbell conseguia ser uma ótima professora?
— Todo dia, vocês vão acordar, comer, vão estudar na escola em Nova Roma e quando as aulas acabarem, vão cumprir suas obrigações como probatios. Vão treinar, vão cuidar de animais e vão limpar banheiros, que é pra incentivar o crescimento de caráter de vocês...
Na realidade, não. Era só porque era o trabalho menos desejável. Agora estavam na frente da Via Praetoria, a entrada da estrada que levava até Nova Roma. Havia grande fluxo de pedestres nela e, parado ao lado da rua, estava um jovem segurando placas e entregando folhetos. Dava pra ler em algumas placas “AVE O IMPÉRIO”, “O SENADO MENTE” e “DIRETAS JÁ”. Ele tinha cabelos extremamente escuros e os olhos escuros dele se destacavam no seu rosto pálido, algumas pessoas evitavam passar perto pra não serem abordadas.
— O IMPÉRIO É INEVITÁVEL, A EXPANSÃO É O QUE NOS ESPERA, PRECISAMOS PROGREDIR E SÓ CONSEGUIREMOS ISSO ATRAVÉS DO ESFORÇO CONJUNTO. VEM AQUI, MINHA SENHORA, MEU SENHOR, ASSINE A MINHA PETIÇÃO PRA GENTE CONSEGUIR DERRUBAR OS PODEROSOS NO PODER — Ele gritava, tentando entregar o panfleto pra alguém.
— Quem é aquele, Rose? — Uma garotinha na instrução perguntou.
— Um garoto que vive falando em Império. Ele acha que o nosso sistema democrático não funciona e tenta convencer os outros. — Rose explicou, com muita paciência. — Não tirem sarro dele, mas também não cheguem perto. Ele tem problemas mentais, não há nada pra ver aqui.
Lionel tirou uma foto do rapaz e... Continuaram com o trajeto. Algumas das crianças ficaram intrigadas com o cara do Império, mas deixaram passar: era só não dar palco. Chegando as casas de banho, Rose parou de andar e as crianças pararam também.
— Essas é a Casa de banho, e caso seja difícil de descobrir... É aqui que vão tomar banho. — Olhou pro rosto de cada uma das crianças. Pareciam menos amedrontadas a respeito de Rose. Lionel ergueu a mão de novo. Rose suspirou.
— O que foi, Lionel?
— Você é uma boa professora. Posso tirar dúvidas com você, se eu precisar?
— Primeiramente, você é romano. Não vai precisar pedir ajuda de ninguém, tem Roma no sangue. Mas... Se forem dúvidas triviais, você pode tirar elas com os seus centuriões, eles servem pra isso.
— Mas e se eu quiser pedir pra você?
Rose ficou em silêncio por um breve segundo. Lionel era chato, mas era dedicado e motivado, eram boas características.
— Pode, Lionel. Mas eu não facilito. — E Lionel tirou mais uma foto, dessa vez de Rose. Ela não sorriu pra foto, nem reagiu a ela. — Perguntas? Não, né? Dispensados.
E antes que pudessem falar qualquer coisa, Rose saiu andando de perto do grupo de crianças. Fofas, mas insuportáveis. Por coincidência ou destino, conforme fazia o caminho de volta pra perto dos quartéis, acabou se encontrando com Therony e Elisabeth. As duas já não vestiam elmos e ao invés disso tinham sorvetes na mão. Therony tinha um de abacaxi e Elisabeth um de cereja.
— Quer sorvete? — Elisabeth foi logo enfiando o sorvete bem perto do rosto de Rose. Rose deu uma lambida no doce. Tinha uma relação complicada com doces, mas abria exceções.
— Nós estávamos te procurando — A loira entre as três disse, saboreava o seu sorvete de abacaxi como se não houvesse amanhã.
— Pra quê?
— A Therony quer escrever sobre o Marshall no Diário. — Disse “o diário” em tom mais baixo, como se fosse segredo. Não era. Todo mundo sabia que ele existia e a maioria já tinha colocado as mãos nele, mas fingiam que era só alucinação coletiva.
— Vai se declarar?!
Therony engasgou com o sorvete, como se isso fosse possível. Olhou ao redor, como se estivesse se perguntando se Rose tinha mesmo dito isso pra ela.
— Garota?! Eu? Me declarando pro Marshall?
Rose e Elisabeth se entreolharam. Elisabeth até riu um pouquinho. Todo mundo shippava Marrony, só Marshall e Therony que não.
— Digo, tá bom, eu sei onde tá o Diário. — A de cabelos curtos se rendeu.
— Aliás, hoje você vai jogar Laser Tag com a gente, né? — Elisabeth tentou se certificar, agora entregando o sorvete pra Rose só pra que pudesse ficar com as mãos livres e começar a dar tiros imaginários de metralhadora nos pedestres, que só a olhavam como se fosse maluca. “Pew pew pew” dizia. Assoprou a ponta dos dedos quando terminou. Boa parte da vida de Elisabeth se resumia a imitar o som que armas fazem, e carros. Alguns legionários da Primeira Coorte podiam jurar que ela era parcialmente sonâmbula e ficava falando “vrumm vrummm” durante a madrugada.
— Vou, com sorte não me tiraram a folga por causa de... Do que aconteceu. — Tinha a exata expressão de uma pessoa que não quer entrar em detalhes, e completou a sua fala com — O Diário tá embaixo do Aqueduto, se alguém não pegou.
— Nós vamos lá — Therony se apressou em dizer, não podia perder a chance de extravasar sua raiva no Diário. Quem precisa de redes sociais, amores?
— Nos vemos mais tarde, Rose — A italiana completou, deixando o sorvete com a amiga, ela merecia. Saíram as duas irmãs pelas ruas do Acampamento Júpiter, determinadas a encontrarem o bendito Diário.
Acontece que, realmente, ele estava no aqueduto, mas não foi tão difícil assim o obter. Foram necessários alguns tombos, uma Elisabeth cheia de lama e arranhados na perna de Therony, pra finalmente encontrarem o caderno roxo, tão desejado.
A filha de Júpiter mais nova abriu o diário em uma página aleatória, com as bordas levemente queimadas. Estavam as duas sentadas no topo do Aqueduto, sentiam os cabelos se bagunçarem pelos ventos fortes e ouviam o barulho do Pequeno Tibre logo abaixo. Sacou furiosamente a caneta roxa anexada ao caderno e começou:
"Marshall Imperione é um grande idiota. Sua prepotência e ego competem para ocupar o lugar de defeito mais irritante, contudo arrisco dizer que esse prêmio vá somente para sua famigerada existência. Imperione é um grande ponto de interrogação para ambas as partes que o compõem: humana e deus. Para a parte humana, não se sabe o mistério atrás de sua concepção, pois foi comprovado que suas funções centrais são ativadas por uma pipoca com dentritos nervosos no lugar onde deveria haver um cérebro. Essa complicação intervém na parte divina, que ativa-se como se Plutão estivesse jogando The Sims com uma de suas proles, com ações aleatórias e inconvenientes e sem nenhum tipo de estratégia que envolva um pouco de pensamento crítico. Marshall só não pode ser considerado o indivíduo mais burro vivo porque o Guinness Book ainda não o encontrou. Quando não estamos brigando, estou pensando em como posso fazer isso, num dos milhares de universos paralelos nos labirintos da minha mente.
Ps: mesmo falando latim, ele não sabe a diferença básica entre francês e espanhol. "
A loira sorriu sem mostrar os dentes, sustentando as maçãs rosadas tempo demais numa expressão de deboche. Com a ponta dos dedos, depositou o diário nas mãos da italiana como se fosse uma meia suja e fedorenta. Therony presumia que era assim que o objeto deveria se sentir após ter uma de suas páginas ocupadas com uma descrição tão verdadeira e precisa sobre a pessoa a qual sentia total repúdio no ambiente de convivência. Mas não, o Diário não se sentia uma meia fedorenta. Ele se sentia glorioso, amava ser o objeto de comunicação entre semideuses cheios de ânimo. Elisabeth ergueu o Diário como se ele fosse Simba, o submetendo aos ventos fortes. Quase começou a cantar a trilha sonora de Rei Leão, mas arregalou os olhos verdes e se interrompeu, trazendo o diário pra perto de si novamente.
— Quer ver se tem fofoca nova?!
— Eu achei que nunca fosse perguntar... — Therony ajeitou um óculos imaginário no rosto, esperando pelo "tea".
E que a sessão de fofoca começasse, porque não são apenas os lares que são fofoqueiros, as romanas também são.
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