Roman Diaries

2 Capítulo 2 - Au Revoir


E ao ouvir aquelas palavras, foi quase automático que Therony levasse uma das mãos até o elmo da própria cabeça, como se estivesse se estapeando por ter dito o nome dele. Era sempre assim, sempre assim! Toda vez que dizia aquele nome maldito, coisas ruins aconteciam!, coisas ruins como... Ele aparecendo.

— Viu? Tá vendo como é difícil a minha vida? Mesmo quando eu estou longe da praga, a praga me persegue. Me sinto como uma europeia na época em que eles tinham medos de ratos! — Desabafou, assistindo a cena de Elisabeth cumprimentando Marshall com um abraço e só olhando para Mark, como se o saudar não fosse necessário. Era impressionante como em um grupo pequeno de quatro pessoas podiam haver tantas relações paralelas e plots twists.

Elisabeth Bertolazzo, a garota de olhos verdes e comumente conhecida como a louca dos carros, era uma semideusa filha de Júpiter, original da Itália, dezoito anos de idade, legionária da Primeira Coorte. Tinha vindo para o Acampamento Júpiter com apenas três anos porque tinha uma família mafiosa que não a apreciava muito. Nas palavras deles, mesmo sendo adorável e inteligente, tinha tendências caóticas e isso não é desejável em situações de risco como as que estavam submetidos diariamente.

Therony Harkness, a loira de olhos azuis que inventou o famoso golpe da beyblade, também era uma semideusa filha de Júpiter, dezesseis anos de idade, legionária da Segunda Coorte. A sua família, no entanto, não tinha nada a ver com a máfia e consistia em uma organização milenar internacional, facilmente comparável aos Iluminatti, que tinha bases por todo o globo terrestre e uma organização militar.

Marshall Imperione, o rapaz alto que tinha quê de Imperador, era prole de Plutão e, coincidentemente, também italiano, dezoito anos de idade, legionário da Terceira Coorte. Sua família era envolvida com venda de armamentos pesados e... Ilegalidades, no geral. Coisas que não devem ser citadas em uma história bonitinha.

Mark Aestus, vulgo o que sempre tinha um sorriso sapeca no rosto e olhos tão azuis quanto o mar em um dia agitado, era filho de Netuno, dezoito anos de idade, legionário da Primeira Coorte. Tinha uma personalidade conflitante e, ao mesmo tempo em que era um legionário exemplar e um soldado de tirar o chapéu, do quartel para fora era o maior badboy que o acampamento já tinha chegado a conhecer e, é, vou ter que dizer, tinha uma PÉSSIMA boa fama entre as garotas.

As relações eram as seguintes: Elisabeth e Therony eram, além de irmãs por parte de pai, irmãs por convivência. Tinham se conhecido quando ainda eram pequenininhas por causa de relações comerciais entre as famílias, e se tornado melhores amigas desde então, exceto por um terrível incidente pela qual elas se conheceram. Um incidente que envolveu carrinhos da hotwheels e mordidas. As duas eram como carne e osso.

Marshall e Elisabeth também se conheceram muito cedo, por causa de relações entre as suas famílias, ambas italianas e envolvidas com atividades ilícitas. A relação de irmandade se estabeleceu quase que imediatamente e, não apenas melhores amigos, consideram um ao outro como irmãos. Os dois têm cabelos escuros e olhos verdes, o que inclusive incentiva as pessoas a acreditarem que são irmãos de sangue.

Mark e Marshall encontraram um no outro mais características em comum do que admitiam. Não apenas na escola eram parceiros, mas na Legião e no todo resto também. Aprontavam juntos, batiam em pessoas juntos, saíam com garotas juntos... Parceiros pra vida toda, como diziam. Alguns espectadores até chegavam a acreditar que eram gays e que no futuro iriam assumir o amor de um pelo outro em um casamento com muita bebida e strippers.

Therony e Marshall eram... Complicados. Se conheceram por causa da melhor amiga que tinham em comum, ainda muito pequenos, e desde então deixavam claro o desapreço que tinham um pelo outro. De modo respeitoso, é claro. Sempre competiram, em tudo. Rivais natos. Se Therony engolisse uma pimenta, Marshall engolia um pote. Se Marshall desse um tapa na cara de uma galinha, Therony a despenava. Se Therony colocasse um salto, Marshall se vestia de drag... E assim por diante. Apesar disso, justamente pelo espírito competitivo, formavam uma ótima dupla. Juntos, eram imbatíveis.

Elisabeth e Mark, por fim, não gostavam um do outro, sem motivos específicos. Mark dizia que Elisabeth era estranha e mal educada, Elisabeth dizia que Mark era galinha e sem respeito, e ambos diziam que eram o verdadeiro amor e melhor amigo(a) oficial de Marshall. Quando não estavam se xingando, estavam ignorando a presença um do outro, mas mesmo assim eram obrigados a conviverem por estarem no mesmo grupo de amigos. Ou pelo menos, era nisso o que as pessoas acreditavam.

Era uma amizade conturbada, a daqueles quatro, cheia de subidas e descidas, mas rendia muitas gargalhadas e memórias divertidas. Querendo ou não, compartilhavam um laço que jamais seriam capazes de quebrar: o amor que tinham por Roma, pela Legião da qual faziam parte.

— Já acabou, Therony? — Marshall a respondeu, com cara de poucos amigos e logo em seguida fazendo uma careta que remetia a ela ser uma chorona. Ao menos, pra ele era. Elisabeth ergueu as mãos pra chamar a atenção das duas crianças presentes ali.

— Nós todos vamos sair hoje — Deixou bem claro, antes que Therony pudesse se pronunciar ou cair no soco com Marshall, pra que não houvessem confusões sobre isso — Vamos ter um ótimo passeio, vamos nos entupir de comida, vamos jogar laser tag, vamos esquecer que somos semideuses e... Vamos matar monstros, se for necessário.

E provavelmente seria necessário. Todos assentiram positivamente em resposta a última frase, porque era um risco real.

— Esse é o meu último pedido em vida. O mínimo que podem fazer, como bons amigos, é o acatar.

Foi Mark quem franziu o cenho, confuso com o rumo que aquela conversa tinha tomado.

— Você tá morrendo, Elisabeth?

— Sou uma semideusa. Pelo o que eu sei, eu podia morrer... — E deu uma pausa, olhando pro céu como se esperasse por um raio. Fechou os olhos com força — AGORA!

Não teve raio nenhum. Ela abriu os olhos e só viu os seus amigos a encarando como se fosse maluca. Os três pareciam as garotas debochadas daquele gif da mini pastora. Therony se virou pra Marshall.

— Eu não vou — Disse pra todo mundo, mas todo mundo ali sabia que esse diálogo dizia respeito á eles e... A coisa estranha que tinham. Elisabeth olhou pra Mark, quase como se dissesse “Quer vazar?”, Mark assentiu positivamente e deu uns dois passos pra trás, como se fugisse de uma granada.

— Bem a sua cara, sacrificar a nossa folga porque não consegue ficar perto de mim sem reconhecer que eu sou melhor que você...

— O que isso tem a ver comigo não querer ir?

— Você tá com medo de perder no laser tag, Therony!

E Elisabeth também deu dois passos pra trás. Ao finalmente estar do lado de Mark, deu dois soquinhos no ombro dele e apontou para os amigos discutindo. Quase como se dissesse “Dá pra acreditar nesses dois?”. Ele riu.

— Você não disse isso! — Exclamou a loira, os olhos arregalados como se tivesse ouvido sua mãe ser xingada. Olhou para Mark e Elisabeth, como se buscasse por certificação de que tinha ouvido direito.

— Ele disse sim — O filho de Netuno a garantiu.

— Aham. Disse, Therony — Elisabeth completou.

Therony voltou a se virar para a criatura das trevas na sua frente.

— Não apenas vou te HUMILHAR na partida de laser tag, mas como também vou te fazer estabelecer o maior precedente de perda humilhante naquela arena. A perda que você vai sofrer não vai ficar só marcada na sua mente. Vai ficar marcada na mente de cada funcionário, de cada jogador, de cada pessoa que pisar o pé naquele lugar. E toda vez que você voltar lá, vão apontar pra você e dizerem “Olha, não é esse o cara que sofreu aquela perda humilhante?!” e alguém vai responder “Sim, realmente, esse é o cara que sofreu aquela perda humilhante!”.

E quando terminou de falar, Therony pegou na mão de Elisabeth e a puxou ao abrir a porta de manutenção. Saíram em uma saída tempestuosa, do tipo que você vê em filmes. A última coisa que ouviram foi Marshall gritando.

— Au Revoir, otária!

A porta bateu com tudo e Marshall olhou pra Mark. Mark olhou pra Marshall. Marshall explicou:

— Au Revoir é espanhol pra “Te vejo no inferno”.

Notas finais
Aceito reviews 'u'