Roman Diaries

1 Capítulo 1 - Prólogo


Um raio de luz de sol viaja quilômetros até chegar na Terra. Ele atravessa o espaço sideral, desvia de detritos galácticos e sonha com o seu lugar de chegada, sonha em conhecer as plantas da Terra, em tocar o mar e fazer com que árvores cresçam, mais fortes e saudáveis. A viagem desses raios solares, apesar de breve (oito minutos), é brava, e toda partícula de luz que já tocou a terra, provinda do sol, teve o mesmo sonho que as outras. Quando você vê a luz do sol refletida, no entanto, isso significa que algo interrompeu a jornada dela e, portanto, seu propósito foi cumprido. Algumas partículas de sol ajudam plantas a fazerem fotossíntese, algumas refletem nos olhos de recém-nascidos e algumas até queimam formigas, auxiliadas por crianças sádicas com lupas, mas... Algumas acabam na Califórnia.

Elas fritam o asfalto, queimam marcas de biquíni em loiras suburbanas, refletem no elmo romano de jovens semideuses, infernizam a vida de estagiários obrigados a usar roupa social em pleno verã... Espera. Refletem no elmo romano de jovens semideuses?

É.

Duas garotas estavam paradas na frente da porta de manutenção, entre duas crateras que juntas consistiam no Túnel Caldecott. As duas vestiam armaduras por cima das roupas casuais (calça jeans e camisetas roxas) e tinham elmos pesados na cabeça. Uma era loira e a outra morena, a loira era um pouco mais baixa do que a morena, ambas seguravam armas brancas. Mas é claro, essa era a visão que você teria se, bem, se você fosse um semideus. Os mortais que passavam por ali só enxergavam duas adolescentes mendigas segurando placas de papelão com os dizeres “O FIM ESTÁ PRÓXIMO” e “ELVIS NÃO MORREU”. Felizmente, elas não eram mendigas, eram soldadas de um exército romano e estavam cumprindo obrigações. Normalmente não seriam elas a guardarem a, sabe, porta de manutenção, mas na noite anterior um ataque de monstros tinha acontecido e tirado a vida de dois probatios, que lutaram bravamente mas não sobreviveram, então a decisão do exército do qual faziam parte foi a de colocarem pessoas mais capacitadas.

No caso, aquelas duas.

— Mercedes — Disse a morena, apontando pra um carro passando pelo túnel, como se aquele exercício de descobrir fosse o mais divertido do mundo e ela fosse um gênio por estar o executando.

— Audi! — Exclamou de novo, gotas de suor corriam pelo seu rosto por baixo do elmo, mas não havia nada o que fazer. Aquela era a Califórnia, na Califórnia fazia calor.

— Ferrari — Mas quem disse dessa vez foi a loira, e ela exibiu um sorriso orgulhoso logo depois de proferir essa simples palavra. A morena não pareceu ficar muito feliz por ter perdido essa partida, mas mesmo assim fingiu que estava limpando uma lágrima de orgulho.

— Estou te infectando. Você agora conhece os carros. Essa sempre foi a minha meta, Therony, te levar para o caminho da luz — E disse com tanta convicção que dava pra acreditar que aquela situação se tratava de uma questão moral. Não, a morena estava falando sobre gostar de carros.

E Therony até pensou em rebater, dizer que conhecia os carros porque conhecia e não porquê tinha sido influenciada, mas... Dizer isso seria mentira. Quando você cresce com uma garota que é viciada em carros e não tem vontade de falar em nada além disso, você acaba aprendendo sobre carros. A loira fez uma pequena reverência, como se tivesse acabado de apresentar uma peça de balé. Sabia fazer esse tipo de reverência porque quando era criança praticava balé.

— Obrigada, Elisabeth, obrigada.

Podia não parecer, usando uma armadura romana completa, mas Therony sabia ser muito delicada quando queria. Apesar disso, se engana quem acha que balé só serve pra exalar delicadeza.

Um dos seus golpes mais eficazes e originais tinha nascido do balé. E Elisabeth até fez parte do teste da sua aplicação, inclusive. Isso evocava a época em que ainda eram crianças. Podiam lembrar claramente da situação: estavam em uma viagem do Colégio de Nova Roma, pra estudar a engenharia de pontes e como a física era importante no mundo material.

— Hm... Não, Elisapeste, não vi sua miniatura de Ferrari...

A garota tinha jogado o carrinho num caminhão com britas que passava abaixo da ponte. Ainda estava inclinada sobre a barra de proteção da ponte e seus cabelos loiros balançavam ao vento, ela parecia estar em um clipe de música suave. Dava pra saber que não estava, no entanto, porque ao mesmo tempo em que ela parecia um anjinho, sustentava um sorriso maléfico nos lábios.

Elisabeth ajeitou o capacete verde que usava na cabeça e se inclinou sobre a barra também, olhando pra baixo, curiosa. Depois olhou para a menor e semicerrou os olhos verdes gigantes, contorcendo a boca em um gesto raivoso. Tinha certeza de que ela estava mentindo.

— Ou você devolve meu carro ou eu boto fogo naquele teu robô amador, sua... — pensou em uma ofensa — Boba!

Foi automático o ato de Therony de soltar uma risada alta e dar alguns pulinhos animados. Tinha comido muitos doces no ônibus, quando estavam vindo. Sob o efeito de tanto açúcar, era louca.

— Ele está fazendo uma viagem só de ida ao paraíso das construções. — sorriu, largamente, exibindo as falhas laterais com os dentes ainda em crescimento — Oh, sim. Pode queimar o Thomas Edilson. Aquela bateria de lítio dele é boliviana, bem chula mesmo. Eu estou precisando de coisas mais relevantes em meu inventário... — e andou de um lado para o outro, apoiando a mão no queixo, pensativa — UMA BARRA DE URÂNIO SERIA PERFEITA!

Elisabeth ouviu as palavras atentamente, e se lembrou de uma conversa que tinha ouvido da sua mãe com seu avô, escondida na porta. "Se eles não estão cooperando com a diplomacia, vamos partir para a agressividade". É claro que o contexto dessa conversa uma hora vai ser adereçado nessa história, mas por hora não é relevante. Tudo o que é relevante é que foi esse conselho que motivou a garotinha a pular em cima da outra, sem dó.

— MEU CARRO! — era esse o grito de guerra dela.

— É só um carr...

Bem, a frase morreu com o ataque furioso de uma mini tempestade de 1,30. Theo deu uma risada alta, já estava acostumada em apanhar de garotas maiores. Começou a girar rapidamente, que nem beyblade mesmo. O quê? Tinha que usar o balé pra alguma coisa!

— É BEYBLAAAAADE! — exclamou o projeto de Harkness em miniatura, proclamando todo o seu poder de aprendiz ninja de filmes do Jackie Chan.

Foi só Elisabeth tocar em Therony que caiu no chão, afetada seriamente por aquele ataque inteligente, fatal, calculista. Felizmente, a morena estava tão ligada no gás que enxergou, arriscando, uma oportunidade de não levar um tombo sozinha e, quando Therony cessou seu ataque giratório e se colocou em posição defensiva, gritando igual ao Liu Kang, Elisabeth aproveitou que ela estava ocupada na sua performance e... Passou uma rasteira nela. Therony caiu de bunda no chão.

Por um momento, as duas se encararam. Olhos verdes em olhos azuis, a franja de Elisabeth estava bagunçada e as roupas de Therony amassadas. Aí... Desabaram em gargalhadas, chamando até a atenção das outras crianças no passeio.

— O ATAQUE DA BEYBLADE? VOCÊ TEM QUE ME ENSINAR! — Exclamou a garota com o capacete.

— NÉ? INCRÍVEL. FOI IMPROVISO, EU JURO. CAGADA MESMO. — E a loirinha rebateu, mal conseguia respirar por estar rindo tanto.

— Vocês duas! — A voz de uma adulta pairou sobre as duas. Era a responsável pelo passeio, Sra. Cornwell, a professora de física no Colégio de Nova Roma — Ou param com esse show de loucuras ou sem Feira de Ciências pra vocês!

E essa é a maior ameaça que se pode fazer para pessoas como Elisabeth e Therony. Isso e impedí-las de participarem dos Jogos de Guerra do Acampamento. As duas se levantaram como foguetes, de tão rápido, e foram ainda mais rápidas em abaixarem as cabeças como um pedido de desculpas velado.

— Desculpa, Sra. Cornwell — Declararam, em uníssono.

Agora, fazendo guarda da porta de manutenção na entrada do Túnel Calldecot, as duas riam por terem tido, sincronizadamente, memórias da infância.

— Ai, ai... — Elisabeth passou a mão no elmo como se ele fosse sua testa e estivesse tirando suor. — Você vai sair com a gente hoje á noite, né? Eu não vou sozinha.

Se referia ao passeio que alguns legionários da mesma idade fariam em São Francisco. O sistema dentro do Acampamento era bem simples: trabalhavam como soldados, mas recebiam salários e folgas. Tinham obrigações, mas também bonificações.

Therony olhou para o céu e performou barulhos não inteligíveis, como se estivesse sendo castigada pelos deuses.

— Quem vai?

— Rose, Mark-e-o-Marshall... — Disse a última palavra com bastante rapidez e em tom mais baixo, tentando esconder os fatos.

— Desculpe, não entendi?

— Vai a Rose, o Mark, eomarshalltambémvaimasachoqueelevaisecomportar...

A loira semicerrou os olhos azuis, tentando enxergar o que se passava dentro da cabeça de Elisa. Veja bem, era complicado. Marshall e Therony juntos era como pólvora e fogo, como ácido e carne, como açúcar e sal e, na opinião de Elisabeth, metades de uma mesma laranja. Uma laranja radioativa e defeituosa, mas uma laranja!

— VocêtinhameditoqueoMarshall NÃO VINHA — Rebateu. E aí... A porta de manutenção se abriu pelo lado de dentro. Dela, saíram dois rapazes, usando o mesmo uniforme que as duas e um deles parou na frente de Therony. Tinha um sorriso provocativo no rosto e há quem diga que uma aura demoníaca.

— Me invocou?

Aquele era Marshall, e ao seu lado estava Mark. Troca de turno no timing perfeito, eba!

Notas finais
Oi, galera, beleza? Eu jogava RPG com os meus amigos em uma plataforma de Heróis de Olimpo, onde a maioria de nós éramos romanos, isso em meados de 2013/2014. Os personagens eram tão interessantes e as interações tão cativantes que recentemente tive a ideia de começar a escrever sobre eles, coletivamente, com a permissão dos criadores de cada um dos personagens. Basicamente, tudo o que está sendo descrito aqui ou aconteceu em cena ou está sendo adicionado á história com propósitos de entretenimento. Se você não conhece os personagens ou não está familiarizado com a história, tudo bem, porque tudo vai ser apresentado, e se você conhece, se divirta lendo sobre eles! Aceito reviews construtivos, opiniões de qualquer gênero e qualquer feedback. 'u' Espero que tenham gostado.