Roman Diaries
6 Capítulo 6 - Sai do caminho!
Notas iniciais

Elisabeth estava com um grupo de três pessoas, primeiro andar, andavam devagar, ficavam atentos a qualquer barulho ouvido e tinham as armas na mira, gatilhos destravados. A romana tinha enviado um grupo de reconhecimento para o labirinto que não voltou e agora estava indo se certificar por si mesma, entender o que estava acontecendo. Enquanto se esgueirava pelas paredes apertadas e colocava um pé sobre o outro, uma sirene começou a tocar do outro lado do corredor e ela arregalou os olhos, compartilhando um sentimento de curiosidade e preocupação com os acompanhantes. Isso até que uma das pessoas notar algo pequeno no chão: uma esfera que brilhava. Não era uma granada porque Elisabeth sabia como granadas eram e não eram daquele modo, parecia... Algo que dava pra ser adquirido no segundo andar, nos barris de prêmio. Por um breve momento, pensou em não tocar naquele objeto desconhecido, mas seu instinto foi mais alto e... Ela pegou a esfera. Ergueu-a na altura dos olhos e franziu o cenho, até identificar que o som de sirene tinha vindo de lá e, no mesmo momento em que se deu conta, outro som começou. Dessa vez, uma música.
— CAN’T TOUCH THIS, PANANANA — A esfera tocou e, ao mesmo tempo, uma luz intensa envolveu todos os quatro participantes. Não apenas quase foram cegados, mas também sentiram uma dor intensa causada pelo raio do quê quer que fosse aquilo. Quando a luz abaixou e olharam um para os outros em choque, uma garota gritou de raiva.
— NÃO, DROGA! — As armaduras tinham apagado: eliminados. A música continuava a tocar. Elisabeth jogou a esfera no chão, com raiva.
— PORCARIA — E saiu pisando forte. Sair nos primeiros vinte minutos era... Humilhante, simplesmente humilhante. Atrás do corredor, escondido, Mark Aestus assistiu a cena de camarote e não conseguiu deixar de exibir um sorriso vitorioso. Ergueu a mão pra um high-five com Marshall. O som das palmas se chocando era música para os deuses da discórdia.
No segundo andar, que era o principal foco da batalha, as balas rolavam soltas. Eram crianças gritando ordens, pessoas caindo no chão, balas atingindo a parede e pessoas largando as armas no chão por terem sido eliminadas. Rose Campbell estava atrás de um barril, dividindo o espaço com mais duas garotas do seu time. Estavam sendo alvo de inimigos duros, implacáveis, o som das balas atingindo o barril chegava a ser perturbador.
— Você vai pela esquerda — A romana começou a dar as ordens pra garota da esquerda — E você pela direita — Disse pra outra — Eu vou subir e tentar acertar eles enquanto vocês os distraem. Não tem como isso dar errado.
Dito e feito, a garota da esquerda e a da direita saíram ao mesmo tempo, sincronizadas, e começaram a disparar uma rajada de balas à medida que iam na direção dos inimigos, gritando. Uma bala atingiu a da esquerda, que gritou de dor, outra bala acertou a da direita... E aí veio o que os inimigos não esperavam por. Rose se levantou com uma machine gun e nem precisou anunciar a sua presença. As pessoas viram, as pessoas sentiram a sua aura de filha do deus da guerra... Foi uma carnificina. Eram quatro pessoas do lado inimigo, mas não foram páreos para ela. Acertou tiros certeiros: na cabeça e no peito, e mesmo com as armaduras apagadas Rose continuou atirando, pra se certificar de que estavam mortos mesmo. O som das balas acertando nas armaduras era um pouco perturbador, mas ela não se importava. Queria ver todos exterminados! Queria que jamais tivessem a coragem de pisar os pés naquela arena novamente. Seus olhos brilhavam com a visão do caos e ela até deu uma risada maléfica, mais assustadora do que se era comum ouvir por ali.
— CALMA, ISSO É SÓ UM JOGO — Um dos garotos sendo metralhado suplicou, erguendo as mãos em rendição. Ninguém jamais saberia porque ele estava de capacete, mas o garoto chorou um pouquinho. Rose deu alguns passos até se reunir com as garotas e se aproximar das vítimas para os saquear, agora pegavam as armas deles enquanto os garotos saíam da arena.
— Isso mesmo, corram! — Gritou pra eles.
— É UM JOGO, GAROTA! — Um dos meninos se pronunciou antes de sair, por fim.
Rose estava ajoelhada no chão, separando as balas que ia pegar e entregando as outras para as garotas. Uma delas fazia a segurança e a outra guardava as coisas na mochila. Estava tudo pacífico, muito pacífico...
Obviamente, algo aconteceu.
Tão rápido quanto um raio e tão inesperado quanto uma traição. As duas garotas perto de Rose caíram no chão, assustadas, sincronizadamente, e Rose foi rápida o suficiente pra se levantar a tempo e levar o dedo até o gatilho da sua arma, mirou na sua vítima e...
Olhou para o próprio abdômen. Seus olhos se arregalaram com a dor e ela caiu de joelhos, mal acreditando no que tinha acontecido. Sua armadura já não tinha mais cor e ela já não tinha mais esperanças. Eliminada, quando menos esperava. O seu assassino se aproximou a passos lentos, tinha pouco menos do que 1,50 e parecia muito confortável, no seu elemento. Rose nunca tinha visto tiros tão certeiros, tiros tão rápidos.
— SE FODEU, CARALHOO — Gritou a voz infantil, o motivo da morte de Rose. Aí deu risada e foi saquear as coisas dela enquanto a romana saía da arena. Aquele jogo de merda!
O jogo estava perto do fim. Os últimos embates estavam sendo travados e era difícil saber qual time ganharia. Os números de participantes eram semelhantes e as armas especiais divididas de modo balanceado, o que era um péssimo sinal. A esse ponto, o jogo era de qualquer um. Mark andava pelo labirinto como se estivesse em um passeio escolar. Cantarolava uma música aleatória e de vez em quando usava a metralhadora que segurava como microfone. Se via alguém do time azul, a pessoa morria. Se via alguém do time vermelho, fazia um jóinha, a vida era boa. Terminou a sua patrulha no labirinto e subiu as escadas correndo até que estivesse no QG, onde boa parte do time vermelho se reunia e se preparava para a batalha final. Alguns adolescentes estavam jogados no chão recarregando as armas, outros bebiam água e mais alguns estavam ao redor da mesa de reunião.
— As armadilhas? — Foi Marshall quem perguntou como se exigisse um relatório, suas mãos estavam sobre a mesa.
— Todas foram eficazes, Senhor — Um garoto de pouco menos de treze anos respondeu — O time azul está desestabilizado, mas agora eles só saem em grupos.
— Viu alguma movimentação estranha, Mark?
— Não, acho que eles estão no QG deles também. Acho que esse seria o momento perfeito pra atac...
— Não, não, eles esperam isso.
Outra pessoa entrou na roda de conversa. A criança que tinha matado Rose. Tinha mais armamento do que todo o resto e dois seguranças atrás de si: armamentos compram isso. Se você tem, você tem.
— Nós devemos atacar. — Ele se pronunciou. Sua voz era estridente. — Se nós ficarmos dentro dessas paredes seguras, a guerra nunca termina. E o propósito de toda guerra é trazer a paz. Enquanto a guerra não terminar, nós não estaremos livres. Por isso digo: ATAQUEMOS.
E um grupo de pessoas urrou em apoio. Uma pessoa falou o que estava na mente de várias outras:
— Isso é Laser Tag... Estamos JOGANDO laser tag, não tem guerra nenhuma — E essa pessoa foi escoltada pra fora. Isso ou seria vítima de um motim.
— O que você sugere? Que cheguemos por trás deles e os ataquemos, como covardes? — Uma garota perguntou pro garotinho.
— Exatamente isso! O ataque é a melhor defesa! — Ele exclamou, bastante convicto.
Marshall e Mark olharam um pro outro, desconfiados. Aquilo era o que uma criança romana diria.
— Então é isso, todo mundo concorda em ataque? — Marshall perguntou para o coletivo, que em maioria concordou. Certo, aquela era a vontade do povo.
— VAMO QUE VAMO, TIME VERMELHO — Mark gritou, e todo mundo respondeu com as mesmas palavras.
Saíram em conjunto, abatendo as pessoas do time azul que estavam sozinhas e mandando algumas pessoas na frente, pra se certificarem de que a área estava limpa. A batalha final geralmente acontecia no segundo andar, mas dessa vez ia acontecer no QG do time azul. Tinham armas levantadas, gritavam palavras ofensivas para o outro time e estavam com sangue nos olhos. Estranhamente, conforme se aproximavam do QG do time alheio, a quantidade de ovelhas desgarradas parecia diminuir. Tudo estava quase deserto, de tão vazio. Mark segurou o braço de Marshall enquanto caminhavam, deixando que o grupo fosse na frente até que estivessem sozinhos na arena.
— Tá estranho. — Comentou, franzindo o cenho.
Marshall também tinha notado isso, por isso não ficou surpreso.
— As meninas já foram eliminadas?
— A Elisa eu sei que sim, matei ela. A Theo e a Rose...
Deu de ombros. Não dava pra saber. Marshall abriu a boca pra falar alguma coisa, mas no momento em que o fez... O imenso barulho de explosão e de pessoas correndo. Depois, veio o som de rajadas de tiros, as pessoas do time vermelho estavam voltando correndo, mas eram bem menos do que antes.
— SAI DO CAMINHO, PORRA. MULHER BOMBA, CORREEEEE — Gritou um garoto que passou correndo por entre Marshall e Mark, os empurrando. Os dois olharam um pro outro. Oh, não...
Saíram correndo na direção de onde as pessoas estavam fugindo, procurando entender o que estava acontecendo, mas jamais seriam capazes de entender.
Os únicos que entenderiam eram os que estiveram presentes naquele acontecimento.
Tudo começou no QG do time azul, a minutos atrás, Therony e uma equipe que se formou organicamente estavam plantando os explosivos por toda a extensão da entrada do local. Era uma jogada perigosa, mas estavam dispostos a se arriscarem.
— Se alguém pisar aqui, é eliminado na hora — A romana comentou com as pessoas por perto, apontando pra um ponto em específico. — Todo mundo entendeu isso, né? Eu não vou avisar mais de uma vez e se alguém se matar foi por estupidez própria.
— Você vai mesmo fazer isso? — Um garoto se aproximou da loira, carregava dois baldes de explosivos e foguetes, obtidos em batalhas no segundo andar. Os deixou aos pés da semideusa.
— É preciso. — Estava convicta. Pegou fita isolante que estava na mesa e se sentou em uma cadeira pra começar a amarrar os explosivos no próprio corpo. — Sabem o que vão fazer, né?
— Sim, Therony. — Algumas pessoas disseram em coro.
— Expliquem pra mim, então.
— Vamos nos espalhar na arena.
— Pra quê? — Deu pra ouvir o som de ela puxando a fita isolante.
— Pra atacarmos eles quando saírem correndo daqui.
— Por quê?
— Porque aí eles vão estar desorientados e lobos solitários são mais fracos do que uma matilha.
— Isso... — A semideusa estava começando a se parecer com uma mulher bomba.
— Eu não entendi até agora essa metáfora dos lobos.
— Não precisa entender, Carlton. Agora vão!
Algumas pessoas saíram pela porta, mas Carton ficou. Olhou pra Therony, pesaroso. Ela era o mais próximo de um herói que já tinha conhecido. Era uma pessoa excepcional, altruísta, disposta a se sacrificar pelo time para os levar a vitória. Quem mais teria coragem de fazer uma jogada como aquela?
— Quero te agradecer. Está trazendo honra para toda uma geração, Therony. Os jogadores dos próximos jogos vão saber do seu sacrifício, vão fazer cantigas sobre você, vão louvar seu nome como se fosse uma deusa...
— Unhum — Ela deu a resposta genérica, amarrou um foguetinho no capacete.
— Sempre vou lembrar de você. Obrigado por nos dar uma oportunidade. Obrigado por ser o coração do time.
— Valeu...
— Posso te pedir uma última coisa, Therony?
— Diz.
Carlton tirou o capacete só pra exibir uma cabeleira loira e um sorriso de galã.
— Me dá seu número? Você é mó gata.
— Não, Carlton.
E aí ele saiu da sala, a deixando sozinha pra realizar a tarefa brava. A garota suspirou ao terminar de se armar. Estava pronta. Tinha bombas e foguetes presos ao seu corpo, e carregava consigo a fé em si mesma, a fé de que era maior e que ia vencer aquela batalha. Levar o seu time a vitória, porque era isso o que importava. Colocou os pés pra fora do QG, vazio, silêncio, e tudo o que se ouvia era o som das pessoas do time vermelho se aproximando. Eles nem sabiam o que ia os atingir.
Minutos depois, Therony encarava várias pessoas reclamando daquela jogada e saindo do jogo, porque estavam eliminadas. Não demorou muito pra que desse de cara com Marshall e Mark, que vieram correndo lá de trás. Já era tarde demais, no entanto. Boa parte do time restante deles tinha sido apagado. Therony tirou o capacete, também tinha sido eliminada. Afinal de contas, aquela era uma jogada suicída.
— Eu sou romana também, sabia? Ataque é a melhor defesa — Riu na cara deles — Teria funcionado se estivessem jogando com graecus.
Fingiu cuspir, mas não, foi só ar mesmo. Tinha uma expressão orgulhosa no rosto.
— Vocês não vão vencer — Terminou o seu discurso.
— É o que veremos, Harkness — Disse Marshall, passando por cima de alguns armamentos pra conseguir sair dali. Tinha sido tamanha carnificina que ninguém tinha restado pra saquear as coisas. Os dois rapazes saíram correndo, deixando uma filha de Júpiter orgulhosa pelo trabalho que fez ali. Tinha lutado brevemente, e saído vitoriosa na própria concepção. Agora estava na hora de se juntar a suas amigas do outro lado... E não olharia pra trás.
Conforme Mark e Marshall corriam, o som de tiros se intensificava, e vinha do segundo andar. De repente, várias batalhas se travavam ao mesmo tempo, e era difícil se manter concentrado em só uma. Aparentemente, o time azul tinha criado toda aquela distração pra conseguir recuperar as próprias forças e, aparentemente, estavam conseguindo.
O time vermelho, ainda chocado com as mortes dos companheiros e amigos, lutavam com pouca vontade e estavam recuados em uma só barricada, enquanto o azul tinha pessoas por toda a extensão do campo. Tiros eram trocados, granadas lançadas, pessoas caíam no chão... Um cenário de destruição. Mark estava encostado em uma barricada, recarregava a arma enquanto Marshall estava com a cabeça pra fora e atirava nos indivíduos do time azul.
— SÃO MUITOS! — Se abaixou, frustrado, tendo que gritar porque o barulho era alto.
— Nós não vamos ganhar — Mark se convenceu, agora levantando pra cumprir o seu turno de tiros. Abateu uma ou duas pessoas, mas não era suficiente. A diferença de números era gritante. O time azul tinha aproximadamente quarenta pessoas enquanto o vermelho tinha dez.
— Podemos até não ganhar, mas vamos lutar até que não seja mais possível — O filho de Plutão disse para o amigo quando esse voltou a se abaixar. Marshall olhou ao redor antes de se erguer de novo, e aí... Aí viu uma coisa impressionante.
Coisa que julgou ser fruto da sua imaginação.
Da escada, desciam pessoas com armaduras. Seguravam armas de artilharias pesada, baldes de explosivos e... Esbanjavam a cor vermelha. Vinham gloriosos, bradando gritos de guerra, e atirando quaisquer uns que estivessem na sua frente. Eram cruéis, impiedosos, criados para matar. E não apenas amedrontaram o time azul, mas como também os estavam eliminando. Era um... Milagre?
Marshall coçou os olhos pra ver se o que estava assistindo era real, e não parecia real. Isso até ele ver a última pessoa que desceu da escada: uma criança, carregando armas pesadas demais até pro seu tamanho e disparando rajadas de bala. Era aquele... Maldito! Maldito genial! Quando o time vermelho estava se dirigindo na direção do QG do time azul, o garoto chamou alguns dos seus colegas mais próximos e foram se esconder no labirinto, enquanto a luta acontecia. Tinha tomado essa decisão porque sabia que o time azul estava planejando alguma coisa e não podia correr o risco de perder. Portanto, teve que deixar alguns colegas de time serem vítima de uma terrível morte por mulher-bomba pra, só então, alcançarem a vitória.
A vitória, portanto, era do time vermelho, graças a estratégia impecável do garotinho que matou Rose.
Poucos minutos depois, as luzes estavam acesas e os jogadores saíam da arena. Marshall, Mark e a criança caminhavam um perto do outro, o garotinho ainda não tinha tirado o capacete, mas conversava com eles.
— Nossa, cara, então você sacrificou metade do time pra fazer essa jogada? — Mark perguntou para o garoto, que deu de ombros.
— É, mano, pra termos bons resultados nós temos que tomar decisões difíceis. — Parecia bem maduro agora, falando depois do final do jogo.
— Por que não falou pra gente? — Foi Marshall quem o questionou.
— Eu precisava criar pânico. Fazer vocês acreditarem que não tinha mais jeito, porque só assim iam conseguir segurar a batalha até eu chegar com o reforço.
Mark e Marshall olharam um pro outro, impressionados. Puta criança inteligente.
— Qual é seu nome, baixinho? — Perguntou Mark.
E aí ele finalmente tirou o capacete. Tinha um sorriso enorme e olhos ainda maiores. Era tão hiperativo que sempre parecia estar sob o efeito de crack e...
— Lionel.
Os dois se lembraram dele sendo apresentado na reunião do Acampamento. O probatio que entrou na Primeira Coorte!
— Sabia que você era romano — Marshall deu dois tapinhas no ombro dele, impressionado — A gente se vê por aí, cria.
— É nóis, tio.
Tinha sido um jogo produtivo.
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