Rolling Girl
2 Não te deixarei mais rolar.
Notas iniciais
Por que a tratam assim? Uma garota tão bonita e legal, estudiosa... Não sei por que fazem tudo isso com ela.
Eu queria ajuda-la, mas não sou forte. Não conseguiria bater de frente contra aqueles três.
E também sou tímido. Só fico no meu canto observando a classe, com meu único amigo. Ele também não sabe o motivo de zoarem tanto essa garota.
Ele entende, pois ele mesmo já foi alvo de zoações na escola. Mas sua irmã sempre o protegia. A irmã dele deve dar medo nos outros garotos, já que nunca mais mexeram com ele.
Quanto a mim, eu não entendo o que ela passa. Não que nunca tenham me zoado, mas não fazem da mesma forma que fazem com ela.
De vez em quando me chamam de gay, idiota, nerd, coisas assim, mas não é sempre.
Hoje, mais uma vez estavam mexendo com ela. Xingando-a de vadia, coisas do tipo. Eu queria muito ajuda-la, mas já disse, não posso. Então apenas a observei sofrer.
As aulas acabaram, então me despedi de meu amigo Len, e fui em direção a o parque que leva em direção a minha casa. Olhei de canto, e a vi. A garota que todos zoam, sem motivos. Estava andando normalmente, até ser empurrada por aquele idiota...
E então vi algo que eu não queria ter visto... Ela ser espancada por aqueles três... Eu não sabia o que fazer... Queria ajudar, mas não consigo... Só o que pude fazer foi correr para minha casa, e ficar no quarto pensando na besteira que fiz deixando-a lá.
Não consegui dormir, fiquei com aquela cena na minha cabeça, ela sendo espancada por aqueles três inúteis...
Como fui tão covarde a ponto de deixar ela lá?
No dia seguinte, ao chegar à escola, a vejo toda machucada, com curativos no rosto, nos braços...
Senti-me muito mal, eu tinha culpa nisso, eu não ajudei ela quando ela precisava.
Não aguentava a ver assim, então subi as escadas e fui para a biblioteca.
“Esses vândalos quebraram o vidro de novo...” pensei enquanto olhava alguns livros, até que o silêncio foi quebrado pela porta sendo aberta com força, e fechada com força logo em seguida.
Fiquei assustado, e me escondi atrás de uma prateleira. Quando resolvi dar uma espiada, era ela. A garota de cabelos verdes, que uma vez foram compridos, mas agora estão mais curtos, devido às agressões que ela sofreu.
Ela se sentou no chão e encostou-se na parede, chorando. Eu não sabia o que fazer, tinha medo de falar com ela. Até que a vi com um caco de vidro na mão. O que ela ia fazer?
Meu coração quase parou ao a ver levando a ponta do caco ao pescoço. Não podia a deixar fazer isso, então rapidamente segurei seu braço. Ela olhou pra mim espantada, e voltou a chorar. Eu tirei o caco da mão dela, me ajoelhei e a abracei. Vi que ela estava surpresa, mas não demorou muito para ela retribuir o abraço, enterrando seu rosto em meu peito, e chorando.
–Calma... – eu falava baixinho para ela. – Está tudo bem, ninguém vai te fazer mal aqui...
E foi com palavras calmas e bem escolhidas, que o choro dela cessou. Ela novamente se sentou e encostou-se à parede, eu sentei do lado dela.
–O que estava pensando fazendo aquilo?
–Eu só... Queria acabar com tudo...
–Com tudo o que?
–Eu não... Não queria mais rolar...
–Rolar?
–É, rolar...
–O que está dizendo?
–Você já parou pra pensar se bolas de futebol tivessem vida? Não acha que elas sofreriam, rolando pra lá e pra cá, por horas e horas?
–Bom, elas não tem vida, e mesmo se tivessem, foram feitas pra isso.
–É... Vai ver eu sou como uma bola... Criada para rolar pra sempre... – Ela dizia olhando para o chão e dando um pequeno sorriso com sua boca machucada.
–Não acho que você deva sofrer pra sempre...
–Por que não? Olha pra mim, toda enfaixada, parecendo uma aberração de circo... Acha que um dia eu terei um final feliz?
–Acho.
–...
–Todos tem um final feliz.
–Eu não estou inclusa nesse “todos”.
–Está sim, todos estão inclusos, você também.
–Pare de falar bobagens.
–Não acho que sejam bobagens. – dei uma leve risada. – Hatsune Miku, né?
–Sim. E você é o Kaito.
–Isso.
–Bom, já estamos aqui há um tempo... Devíamos ir pra aula.
–É, tem razão. – Disse me levantando e estendendo a mão para ela, que segurou e se levantou.
Fomos para a sala de aula, e ao entrar, fomos recebidos por um olhar de morte do professor e risadas dos alunos. Pedi para Miku se sentar, e fui falar com o professor. Tentei inventar alguma coisa para justificar o atraso na aula. Apesar de o professor parecer não acreditar muito, decidiu deixar essa passar.
Me sentei no meu lugar. Havia um lugar vago atrás de mim, então resolvi chamar Miku, mas estávamos longe. Ela estava do outro lado da sala.
Enquanto o professor explicava a matéria (e nenhum aluno prestava atenção, naquela bagunça de classe), resolvi tentar chama-la.
–Psiu... – Tentava emitir algum som não tão alto, para não chamar a atenção do professor. – Psiiiu!
–Cara, o que você tá fazendo? – Len, que se sentava a minha frente, virou pra mim e perguntou.
–Tentando chamar a Miku.
–Por quê?
–Nós conversamos um tempo, é uma longa história. Queria que ela se sentasse aqui atrás de mim.
–Bom, nesse caso... – Len arrancou uma folha de seu caderno e a amassou fazendo uma bolinha.
–Ei, o que vai fazer?
–Chamar ela. – Len mirou e atirou a bolinha, que atingiu em cheio a cabeça da garota, que se virou pra nós com uma aura maligna.
–Senta aqui. – Falei baixinho apontando pra carteira atrás de mim. Miku apenas balançou a cabeça negativamente. – Veeem! – Continuava sussurrando, até ver que Miku pegou seus fones de ouvido, conectou no celular e colocou nos ouvidos. Suspirei e me virei pra frente de novo.
Resolvi uma abordagem mais direta. Arranquei uma folha do meu caderno, e peguei uma caneta.
“Fique atrás da quadra no intervalo.
–Kaito”
Amassei a folha e joguei na cabeça de Miku. Podia ver os xingamentos em sua cabeça quando ela olhou para mim. Movimentei as mãos indicando para ela abrir a folha. Ela revirou os olhos e abriu a folha. Leu, suspirou e fez que sim com a cabeça antes de amassar a folha novamente e joga-la no lixo. Dei um pequeno sorriso e me virei para frente.
–Len, tem como você ficar com sua irmã no intervalo hoje?
–Hein? Por que?
–Porque eu vou encontrar a Miku atrás da quadra, pra conversar mais com ela.
–Hmmmmmm... – Len fez um olhar malicioso, eu apenas bufei.
–Não é o que você está pensando. Quero que ela comece a ter amigos, e eu vou ser o primeiro. Depois você também fala com ela.
–Ok, ok. Só não vá trocar os amigos por garotas.
–Certo cara. – ri.
O sinal do intervalo tocou. Peguei minha bolsa e desci em direção ao pátio. Olhei em volta para ver se encontrava Miku, mas não a via em lugar nenhum, então fui direto para trás da quadra, achando que ela já estava lá. Mas ela não estava, então apenas me sentei no chão esperando-a.
Um tempo depois ela veio segurando um hambúrguer. Ela andou até mim olhando para baixo.
–O que você quer, hein? – Miku perguntou abocanhando o hambúrguer.
–Conversar com você, ué. Como amigos.
–Você não é meu amigo.
–Como não?
–Você só impediu um suicídio, não quer dizer que sejamos amigos. – Miku dizia de boca cheia.
–Engula a comida antes de falar. – Ela bufou. – Pra mim somos amigos.
–Pra mim não. Por que quer ser amigo de alguém que é zoada por todos?
–Porque você é legal, diferente do que todos pensam.
–Você só começou a conversar comigo hoje, idiota. Não pode dizer se sou legal ou não.
–Claro que posso.
–Não, não pode.
–Quem vai me impedir de dizer que você é legal?
–Ah, quer saber, cale a boca. Você não é meu amigo, apenas.
–Posso não ser agora, mas vou ser. – Disse pegando o hambúrguer de sua mão e dando uma mordida.
–Ei! – Ela tomou o hambúrguer de volta. – Se está tentando ser meu amigo começando assim, está fazendo errado!
–Só estou com fome, e amigos dividem as coisas.
–Você não é meu amigo!
–Sou sim, você só não quer enxergar isso. – ao dizer isso ouvi o sinal tocar. – Vamos voltar pra sala, e, a senhorita vai se sentar atrás de mim.
–Não vou não.
–Ah, vai sim.
–Você não vai me obrigar, caramba!
–Veremos. – Disse me levantando e pegando minha bolsa. – Vamos, não quero me atrasar de novo.
Entramos na sala, e Miku já ia se sentar no lugar de sempre. Segurei o braço dela, e a puxei para onde eu sentava.
–Me larga! Seu doente!
–Não. – Disse colocando ela sentada na carteira atrás da minha. – Fique aí, vou pegar sua bolsa. – Ela apenas bufou e cruzou os braços. Ri e fui pegar sua bolsa. – Aqui. – Disse entregando a bolsa a ela. Ela tomou de minha mão e colocou debaixo da carteira.
–Não vou enxergar nada daqui. – Ela dizia olhando para baixo.
–Você tem óculos, não tem?
–N-Não...
–Você tem miopia, não é?
–Q-Que? Não...
–Eu sei que tem, você se senta lá a frente por isso. E sei que você tem óculos também, e estão na sua bolsa.
–Andou espionando minha bolsa?
–Não, mas eu já vi você de óculos. Pare de mentir pra mim.
–Tá... – Ela bufou e abriu a bolsa, tirando um par de óculos de dentro dela, e colocando-os. – Feliz?
–Sim. Você fica mais bonita de óculos. – Sorri e ela corou um pouco.
–Cale a boca...
–Ok, ok. – ri.
Se depender de mim, você não irá mais rolar, Miku.
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