Rolling Girl
20 Capítulo XX - "Verão Precoce"
Notas iniciais

— Então é assim? — Yohio perguntara, limpado um fio de sangue que escorria da lateral de sua boca com as costas da mão e já se levantando do tombo. — Você já vai embora?
Len virou-se, ainda com a fúria estampada em seu rosto, já não aguentava mais ver o sorriso debochado nos lábios de Yohio. Miku, a essa hora, estava sem reação.
— Isso não é da sua conta. — Len falou.
— Não é? Certeza? Porque quem levou o soco aqui fui eu. — o mais velho arqueou as sobrancelhas. — Já que você parece realmente não se importar, me pergunto do porque tanto interesse em saber se eu e Miku estamos mesmo em um relacionamento.
— Yohio, já chega. — a garota pediu, com a voz tão baixa que quase passara por um sussurro.
Agora já de pé, o mais velho lhe direcionou uma piscadela, que fora muito bem notada pelo loiro a sua frente. Yohio começou a dar alguns passos em direção à Len e, quando estavam mais próximos, fez questão de falar baixo o suficiente para que Miku não o ouvisse.
— Eu não sei o que ela viu em você e, acho que nem ela mesma sabe, mas, devido às circunstâncias, vou fazer de tudo para fazê-la pensar duas vezes em se quer olhar para você, vai ser divertido ficar com ela em quanto te vejo morrendo de ciúmes.
— Se você tentar fazer qualquer coisa com ela... — sibilou, se segurando para não desferir outro golpe.
— E se eu fizer, o que vai acontecer? — o outro o cortara. — Até onde sei, você perdeu a chance de torna-la comprometida com você e, caso essa chance me aparecer, não vou jogá-la fora.
Com o término dessa fala, a paciência de Len se esgotou e novamente tentou acertar Yohio que, dessa vez, fora rápido o suficiente para desviar, ainda que por um triz. As suas costas, ambos puderam ouvir Miku guinchar, protestando contra a briga, sem saber ao certo o que fazer em quanto os dois rapazes continuavam a se ferir.
O mais velho se recompôs, desviando de outro golpe de Len e acertando a região das costelas do mesmo com uma cotovelada. Dominado pela adrenalina, a dor mal fora sentida, e o rapaz de olhos azuis esquivou-se de outros golpes para, em um momento de descuido do adversário, agarrar-lhe o pescoço com a mão direita em quanto Yohio tentava desvencilhar-se do sufoco.
Desamparada, Miku interviu finalmente.
— Len! Solta ele, já chega! — implorava com a voz embargada, agarrando-se ao braço do rapaz e puxando em direção contrária de Yohio.
Finalmente notando a presença de Miku, o loiro pode notar o quão ela estava desesperada, notando as prováveis lágrimas que surgiriam nos cantos de seus olhos. Por fim, deixou-se soltar o mais velho em quanto Miku o arrastava para uma distância segura.
A azulada fez questão de avaliar se o Kagamine estava bem e dividiu um olhar preocupado para Yohio, que apenas observava. Ainda estava com uma feição pós-pânico e respirava pesadamente com o intuito de se acalmar e, nesse momento, Len sentiu-se culpado.
=/=
Miku se encontrava sentada em um banco próximo ao shopping que a alguns meses visitara com o loiro. Sua cabeça ainda girava com os acontecimentos passados que envolviam Yohio. Len deveria estar terrivelmente irritado com todo aquele episódio de mais de uma semana atrás, desde aquele momento, Miku não conseguia nem mesmo olhar para o loiro, que já estava sentindo-se um pouco de arrependimento devido às próprias ações.
A garota contara tudo a IA e Rei, como era óbvio que faria, mas não teve reações muito diferenciadas das anteriores. Miku estava praticamente destruída interiormente e totalmente desorientada, mal saberia diferenciar direita e esquerda.
Há sua volta o dia se encobria com um determinado ar de sábado à tarde. Mais uma vez Haku lhe havia tirado de sua tão amada casa para fazê-la respirar um pouco do ar que já estava a ficar quente, abrindo-se para o verão. A garota brincava com uma de suas madeixas que naquele dia decidiu não prendê-las em caudas gêmeas como o costume, deixando seu cabelo escorrer livremente pelas suas costas.
Fazendo questão de seguir o conselho da albina, Miku levantou-se do banco, seguindo em direção para a entrada do shopping. Já não se importava se ia ou não ser avistada por olhares indesejáveis, talvez aquela convivência anterior com Len tivera-a feito parar de dar tanto valor para uma coisa tão trivial.
No interior do alto prédio o ar ficou mais abafado, mas a temperatura ainda chegava a ser agradável. Miku descartou o celular do bolso, fingindo fazer alguma coisa de importante com o mesmo, afinal era aquilo que adolescentes sem nada para fazer nem ninguém para conversar faziam, certo?
Deixou seus pés a levarem para qualquer parte do shopping em quanto se mantinha entretida fazendo desenhos aleatórios com a tela de bloqueio de seu celular. Seus pensamentos ainda vagavam sem rumo.
“Ficaria bem, certo?”
Passara anos sem se comunicar com Len, mesmo guardando algum sentimento que nunca tivera certeza do que era e, em sua mente, passar mais algum tempo sem falar com o rapaz deveria ser mais fácil do que aparentava.
“Mas, mesmo assim, não tinha com o que se preocupar, não é?”
Afinal, ainda teriam muitos garotos por aí, até mesmo Yohio parecia ser interessante. Len era apenas uma paixonite escolar que iria embora em um piscar de olhos.
“Ainda assim, quanto tempo demoraria até o último resquício do loiro lhe deixar?”
Miku balançou a cabeça, tentando esvaziar sua linha de pensamento. Tinha certeza que ficaria bem. Já passara por coisas piores que isso e iria conseguir superar, alguma hora.
Sim, ela não precisaria se preocupar, o tempo curaria as feridas que os outros lhe causaram.
Quando a mesma se recuperou, desviou seu olhar da tela do celular para ver onde estava e, num lapso de memória, se deu conta de que estava no mesmo lugar da praça de alimentação onde esbarrara com Len da primeira vez e, pelo cúmulo da coincidência, o mesmo estava parado a sua frente, observando-a com os olhos igualmente arregalados e segurando o celular com uma das mãos e carregando o usual fone de ouvidos em seu pescoço.
O tempo pareceu congelar quase como se esperasse a primeira reação de cada um... Que proveio de Miku. Esta girou nos calcanhares, rapidamente dando as costas para o loiro e tomando um passo rápido para que pudesse sair dali o mais rápido que seus pés conseguiriam, mas tentou ao máximo não correr, apenas se prendendo em uma caminhada rápida.
Ouviu-o chamar seu nome, mas o ignorara sem mais nem menos. Começara a desviar das pessoas que apareciam a sua frente. Miku já queria desaparecer dali, já tivera o suficiente de “diversão” por um dia, Haku deveria aceitar isso.
Quase se sentindo mais segura, Miku foi surpreendida com um puxão forte no pulso, o que quase a fizera cair caso não fosse a mão que apoiara seu ombro e o peito em que suas costas bateram contra. Por instinto, levantou seus olhos a fim de observar a piscina de cerúleo que devolvia-lhe o olhar com a mesma surpresa.
Ela engoliu em seco.
Como na velocidade de um raio, ela sentiu-se ser arrastada pelo mesmo até o tão familiar beco escuro. As memórias já invadindo sua mente.
— O que você que agora? — arriscara, uma vez que ele já havia lhe soltado.
Len desviou seus olhos para o rosto da garota a sua frente.
— Nós podemos conversar? — pediu, insinuando para que ela se sentasse.
Ela o fez sem se quer olhar para ele, ajoelhando-se ao lado do armário e apertando a barra de seus shorts, quase como se implorasse para que pudesse voltar magicamente para casa.
Len agachou-se a sua frente, o que ainda conseguia o deixar alguns centímetros mais altos que ela, que teimava em não desviar o olhar de suas mãos.
Já irritado com a atitude petulante de Miku, segurou o queixo da mesma com o polegar e o indicador, fazendo-a estremecer com o toque e, dessa vez, a obrigando a dirigir-lhe seu olhar.
— Olha, me desculpa! Tá legal? — segurou a vontade de sorrir ao notar a feição de Miku se transformar para a pura surpresa. — Eu sei que fui um idiota ciumento e que eu não tinha o direito de fazer tudo o que eu fiz, mas eu... Eu não queria estragar tudo dessa vez. Então... Você poderia me perdoar... Só mais essa vez?
Ela ficou em silêncio, ainda absorvendo as palavras do loiro. Ele parecia mais próximo e ela sentia um leve formigar ao sentir o cheiro costumeiro de canela que Len tinha. Para Miku, aquele aroma já fazia parte da identidade do rapaz.
— Eu não vou me arrepender, vou? — perguntou, com um sorriso quase imperceptível tomando conta de seus lábios.
Com um sorriso maior iluminando seu rosto, Len inclinou-se rapidamente em direção da menor, selando os lábios depois de várias semanas. Ele enlaçou sua cintura fina com um dos braços e o outro viajou até que sua mão alcançasse a nuca de Miku, esta tinha ambas as mãos agarradas ao casaco do rapaz. Ele mordeu de leve o lábio inferior da garota, sentindo-a estremecer em seus braços antes de ceder a passagem que fora pedida.
Len prensou-a contra a parede e ele, sentindo-se mais perto dela do que nunca. Sem Miku perceber, Len estava mudando ambas as posições e, depois de um tempo de confusão, ela se encontrava sentada em seu colo, com cada um de seus joelhos se apoiando nas laterais do loiro. Sentiu a mão do mesmo se perder em seus cabelos turquesa.
O rapaz quebrou o beijo, fazendo com que Miku notasse a extrema urgência de ar, e viajou seus lábios pelo pescoço da garota, fazendo a mesma arfar quando sentira a sucção na região entre a clavícula e o pescoço. Ela fechou os olhos, aproveitando as sensações das carícias diversas e mordendo o lábio inferior, impedindo a saída de qualquer ruído. Sentiu Len voltar a trabalhar na área onde havia, provavelmente, deixada roxa da primeira vez e reconheceu a mesma sucção de antes. Realmente, ela não sabia o quão a área do pescoço chegava a ser sensível.
Foi quando se apercebeu de uma coisa importante. Ainda estavam no shopping e, a contragosto, afastou-se do loiro, mas ainda não desfez a posição.
— Len... Estamos num shopping. — disse, ainda ruborizada e arfante.
— Ah! Claro. — o rapaz se mostrava levemente corado, e Miku soubera na hora que não era de vergonha, porque a vermelhidão também tomava conta de seu rosto, pois, de um minuto para o outro, a temperatura do local pareceu subir tanto que quase julgou que o verão havia chegado.
Eles se levantaram e Miku depositou a ponta do dedo indicador e médio na área do pescoço em que Len abusara, notando estar levemente sensível.
— Ahn... Tá muito visível? — perguntou, obviamente sem jeito.
Len observou a marca avermelhada que logo viraria um roxo vibrante. Sim, daria para ver. Então ele fez algo que Miku não achou que aconteceria. O loiro retirou os fones pretos e depositou no pescoço da garota e, graças a isso, a marca fora tapada.
— Muito melhor. — sua voz estava tão suave quanto seu olhar. Ele ainda segurava os fones com as mãos e, em um lapso de coragem, Miku depositou suas mãos sobre as deles e, no ímpeto, Len se aproximou, depositando na testa da garota um beijo tão terno e delicado que quase nem pareceu ter existido.
— Melhor a gente sair daqui agora. — disse, entrelaçando sua mão com a da garota.
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