Rolling Girl
4 Capítulo IV - Contos do passado
Notas iniciais

[ Normal’s PVO ]
“[...]amanhã, na minha casa, depois das aulas.”.
A garota teal disse em um sussurro profundo ao mesmo tempo em que fitava o teto branco de seu quarto com os olhos semicerrados. Não estava necessariamente triste, apenas pensativa.
Haku havia ficado preocupada com o silêncio contínuo de Miku que chegou tarde e ainda com um semblante sério. Chegou até a pensar que a azulada tivera mais problemas no período escolar, porém a ausência de telefonemas desmente esta hipótese.
Miku brincava com uma de suas madeixas azul petróleo em quanto deixava seus pensamentos vagarem descoordenados por aí.
Um som agudo tilintou, trazendo-a de volta a realidade e a fazendo fitar a tela do computador.
Mine-Kun: Heeeeeeeeeey!!!!!!!!!!!
Miku deu um pequeno pulo de susto antes de levar seus dedos e digitar com agilidade pelo teclado.
Rolling Girl: Ah! Desculpa!
Estou um pouco distraída hoje...
Mine-Kun: Devo perguntar o que aconteceu, garota séria?
...
Rolling Girl: Hããn. Acho melhor não.
Mine-Kun: Hmm....Tudo bem, vou entender isso como mais uma deixa para não me meter
Rolling Girl: Hahaha, incrível que já me conheça tão bem.
Mine-Kun: Claro, sinto que já consigo te ler como um
livro, mesmo por trás de uma tela.
Rolling-Girl: Não seja tão exibido.
Miku continuava batendo boca com o desconhecido em quanto que, no andar térreo da casa, a mulher de olhos vermelhos segurava uma pequena carta de trabalho com o nome de seu superior assinado logo em baixo.
Haku deixou-se desabar na poltrona amarela da sala enquanto continuava a ler pela milésima vez aquele PAPEL
. O trabalho pela qual fora chamado era fora do país, mais necessariamente na China. Haku trabalhava como assistente social, ela fora chamada para trabalhar por algum tempo em uma divisão para auxiliar na adoção das crianças sem família por lá.
Amava seu trabalho. Gostava de poder ajudar crianças a achar seus lares. Principalmente quando tinha certeza que seus futuros pais dar-lhe-iam o amor necessário que não fora dado em sua primeira família. Era tocante ver os múltiplos sorrisos todos os dias. Além de lidar com adoções, também podia se envolver em várias coisas ligadas às demais relações sociais.
A albina não era exibida, mas orgulhava-se de dizer que era muito boa no que fazia, tanto que fora chamada para a nova, e temporária, divisão, mas, não importa o quanto ela goste do seu trabalho, Haku ainda tinha sua própria “órfã” para tomar conta.
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A chuva do outro dia parecia ter dado uma leve pausa naquela manhã quando Miku havia levantado de sua cama. Seus longos cabelos estavam uma bagunça ao vê-los espalhados pelo TRAVESSEIRO
. Os olhos esverdeados rodearam pelo quarto, como se esperasse que alguém estivesse ali.
Não havia ninguém.
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— Miku, já falamos sobre isso. — IA disse ao tomar a frente da garota teal no corredor da escola. — Não sou tão boa em química e, mesmo se fosse, Lily-sensei não iria deixar você me trocar com o Kagamine, além de que, eu não sei ensinar direito e estou com meus próprios problemas em matemática.
— Mas IA... — Disse Miku, manhosa. — [...] eu tenho medo de que eu e ele acabemos nos matando hoje a tarde e você sabe mais do que ninguém que isso é bem possível.
A rosada bufou, descontente, com a petulância da garota. Mas conhecendo bem sua amiga, preferiu ficar em silêncio ao chegar à sala e se preparar para uma longa aula de Língua Japonesa.
Hoje a aula estava lotada se comparada a ontem. As duas garotas chegaram a sentir um certo desconforto vindo de Rei em meio a tanta gente desconhecida, mas o mesmo parecia não ligar muito para as coisas a sua volta, tanto que as duas resolveram deixa-lo quieto.
Quando Miku finalmente havia sentado em sua carteira, o casal não oficial, que vira se pegando no dia anterior, cruzou a porta da sala. Len e SeeU apenas andavam lado a lado e, quando ela se distanciou para ir a sua mesa, plantou um beijo no canto dos lábios do louro que sorriu malicioso ao ver a garota tomando distância de si. Miku, que observava de longe, contorceu o rosto em desprezo com a cena.
O loiro sentou atrás dela, como de costume.
— Sabe... — Ele começou dizendo, sem desviar o olhar dos materiais que estava retirando da mochila. — Do jeito que você olha as coisas, até parece uma menina de 9 anos e não uma adolescente com 16.
Miku virou-se abruptamente com um olhar de descrença.
— Pelo menos não tenho a mentalidade de um galinha com tendência a morrer solteiro. — Disse-a. Foi a vez da sobrancelha dele se arquear.
— Ouvi direito? — Perguntou retoricamente. — Você sabe que eu posso ficar com qualquer garota que eu queira, a qualquer hora.
— Sim, só porque te acham bonito e “popular”... — Disse ela, gesticulando as aspas com os dedos indicador e médio de ambas as mãos. — [...] algum dia você vai ficar tão velho e manco que não me surpreenderia se em seu enterro não fosse ninguém.
Ela sabia que havia passado dos limites quando os olhos azuis pareciam ser tingidos com ódio, mas ele mereceu por tudo o que tinha feito com ela nos últimos tempos. Porém Len parecia saber mascarar bem suas emoções, porque o ódio fora embora tão rápido quanto viera, pois em seu rosto veio um sorriso irônico.
— Fala a garota cercada de amigos. Ah, espera, não, me enganei. Você não passa de uma deslocada cuja presença é tão desprezível quanto à de um inseto. —disse, deixando Miku em pedaços a cada palavra, mas ela continuava dura em seu assento. Ele continuou. — E, como eu já falei, posso ficar com qualquer garota a qualquer momento. Até com você se eu quisesse, mas obviamente eu nunca, repito, nunca, iria ficar com alguém como você, nem eu nem ninguém, pois você é uma simples perda de tempo.
Miku ia rebater, porém o professor Hiyama Kiyoteru chegara antes que percebesse, cortando toda a conversa que se estabelecera na sala.
Quando a garota voltou-se para frente ainda sentia o olhar azul e frio do loiro às suas costas.
Miku não sabia a sensação de estar sendo ameaçada com uma fria lâmina de uma faca em suas costas, mas aquela sensação com certeza era muito semelhante.
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— [...] e foi isso que ele disse. — Miku disse à IA. Ela, a rosada e Rei (que parecia praticamente ausente em seu silêncio) estavam sentados no mesmo lugar que almoçaram no dia anterior quando Rin e Gumi chegaram para tentar falar com o garoto novo. Miku se encontrava abraçada à seus joelhos, fitando a amiga.
— Não pode culpa-lo, você também não foi muito gentil. — Lia disse em baixo tom.
— Era o Kagamine! Eu não tive culpa. É ele que está sempre lá pra me importunar. Ele, a irmã, a Megpoid, a SeeU e todos os seus seguidores retardados que me dão ânsia. — Desabafou.
O silêncio se fez presente até que a voz calma e tétrica de Rei foi ouvida.
— Devo perguntar o que aconteceu?
IA e Miku se entreolharam, notando que fora a primeira vez que ouviram o moreno naquele dia. A rosada achou que ele ia receber uma resposta irônica da amiga, que continuava parada, ponderando se preferiria manter sigilo ou contar ao desconhecido.
— Aconteceu há menos de dois anos. Eles nunca foram realmente legais comigo, mas tudo piorou naquele ano...
[ FlashBack ON ]
A jovem garota, no fim do ensino médio e ainda com 15 anos, corria desesperada pela casa. Era fim de novembro, uma das épocas favoritas de todos os estudantes. Fim das aulas chegando, fim das provas, fim de trabalhos e professores. Mas havia um festival final pelo qual todos se empenhavam ao máximo e todos eles faziam-no para comemorar a chegada do inverno.
Havia apresentações de vários tipos. Do clube de teatro, de música, exposições do clube de artes e até vendiam mercadorias gastronômicas feitas com os produtos cultivados pelo clube de jardinagem e preparadas pelo clube de culinária. Tudo feito pelos alunos em parceria com a escola e alguns pais, mas o principal evento era o show de talentos.
Vários alunos de diversas idades participavam, fazendo incontáveis tipos de apresentações. Desde danças, truques de mágica, lógica, criatividade e, no caso de Miku, música.
— Miku, se acalme. — Haku pediu pela milésima vez naquele dia, vendo o borrão azulado correr de um lado pelo outro na sala de estar.
— Eu não consigo. Estou tão nervosa! — Disse a menina, nem dando-se conta do alto tom que usara. Seus cabelos naquela época estavam mais curtos, batendo um pouco depois de seus ombros e seu corpo ainda não tinha a estrutura que ela teria aos 16 anos que normalmente não era notado graças aos uniformes largos.
— Quer que eu vá com você?
— NÃO! — Gritou, pegando suas coisas e saindo porta a fora, vendo sua amiga Galaco, que no fim do ano se mudaria para Tokyo.
— Você vai chegar atrasada! — Disse a loira.
— NÃO VOU! — Gritou mais uma vez, correndo rápido feito o vento pela calçada.
☼
Já na escola, Miku respirou fundo. Arrumando seu traje, constituído por uma saia simples da cor de seus cabelos, uma camiseta social branca com uma gravata negra com detalhes brancos e vermelhos. Também usava um casaco rosa, cujas mangas tinham detalhes em azul e mínimos laços. Suas meias eram ¾ e continham um laço na barra. Calçava os mesmos sapatos da escola, só que pretos*. Seu cabelo era preso por um rabo de cavalo que chegava aos ombros.
O lugar onde ela permanecia já estava um caos, com pessoas correndo para lá e para cá, apavoradas com a primeira vez no palco. Seu próprio estômago doía de ansiedade e aquelas pessoas só pioravam.
Com o passar do tempo cada um dos candidatos estavam sendo chamados e, quando só estava ela e mais três meninas, seu nome fora chamado. Ela petrificou na cadeira. Suando frio. Podia ouvir as conversas altas da plateia.
Quando levantou, conseguiu andar em direção ao palco e dar uma leve bisbilhotada nos assentos, todos lotados. Podendo ver o pessoal de sua turma, assim como Galaco, que parecia compartilhar o nervosismo de Miku.
O nome da garota fora chamado uma segunda vez e algumas pessoas olhavam curiosas para o palco, talvez se perguntando onde estaria a candidata. Até que a mesma saiu das cortinas e andou a passos rápidos até o microfone.
“Talvez aquilo não tivesse sido uma boa ideia.” Uma voz pensou no fundo de sua mente. “Já chega”, a mesma voz disse.
A música começou a ser tocada, tomando a atenção das pessoas ao redor. A deixa de Miku passou, ela já deveria ter cantado, mas não. Ficou de boca calada. Olhando tudo atônita. O homem responsável pela música parou e perguntou se deveria dar replay e se Miku já estava pronta, mas ela não respondeu. Continuava petrificada.
Para todos os lados que ela olhava, as pessoas pareciam que iriam devora-la, graças aos olhares que recebia. Miku estava sozinha agora. Não conseguindo dar um passo ou dizer uma palavra.
Em um dos primeiros assentos um riso foi ouvido em meio ao silêncio da plateia, tal risada originou mais uma. Esta originou outra que originara ainda mais risadas, até que todos se encontravam rindo do pavor da menina que só podia ter saído correndo assim que conseguira se mover novamente.
A primeira risada não foi de ninguém menos que Kagamine Len.
☼
[ Flash Back: OFF ]
— Nos dias seguintes eu já era considerada a piada da escola. Todos criaram piadinhas de mau gosto e continuavam a conta-las, só porque o Kagamine continuou me importunando. — Disse Miku, deixando o silêncio pairar no ar, até quebra-lo novamente. — Lembro que quando eu passava pelos corredores ficavam falando “mais um fracasso, mais um fracasso” ou coisas do gênero. Ficava muito braba.
— Pessoas são assim Hatsune, somos loucos para ver nossos semelhantes em estados piores que nós mesmos, isso nos faz sentir melhores. Dizer ser superior só coopera para aumentar o próprio ego de maneira inteiramente negativa.
Miku e IA piscaram para o moreno, um tanto admiradas.
O sinal soou, dizendo que o horário de almoço havia acabado.
— Hora de voltar para a aula. — Disse IA com um meio sorriso.
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Quando o sinal soou novamente para o término das aulas, Miku sentiu a alma deixar o corpo imaginando que teria que seguir o Kagamine para as aulas particulares.
Ela deu um último olhar suplicante para IA que sorriu para dar conforto a amiga. Miku podia ver os lábios de IA parecendo sussurrar um “boa sorte”, antes de ver a cabeleira rosada dar as costas e sair da sala.
A garota teal soltou um longo suspiro antes de empurrar os cadernos para dentro da pasta e ouvir a cadeira de Len sendo arrastada para trás, indicando que o mesmo acabara de se levantar.
A sala estava vazia quando ele disse.
— Vamos logo, quanto mais rápido chegarmos em casa, mais rápido o inferno vai acabar.
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