Rolling Girl
1 Capítulo I - Yuronoro
Notas iniciais

[ Miku’s POV ]
Eu estava cantando para uma multidão! As luzes, os gritos e a música que se instalaram naquela noite eram de “arrasar”. A fumaça de gelo seco impregnava o ar a minha volta. Ouvia os gritos de incentivo. Cada um em sua própria histeria. As estrelas brilhavam no manto azul que era o céu. A lua estava divina em sua fase crescente.
Eu pulava no palco, cantando e agitando minhas mãos a cada timbre que eu retirava do fundo de minha garganta.
“MIKU”
A multidão gritava eufórica. Gotas de suor desciam pela minha testa. Eles continuavam a gritar meu nome em quanto eu dava a última das notas. Não me cansei, continuei a cantar.
“MIKU”
“MIKU”
“MIKU”
.
.
.
– MIKU, ACORDE! Vai se atrasar para o primeiro dia de aula. – A voz de Haku invadiu meu quarto junto as repetitivas batidas que a albina direcionava à porta do aposento.
– Já estou indo Haku-san. – Falei ao me levantar com a voz embargada pelo sono da manhã. Pisquei cinco vezes até me acostumar com a desconfortável luz matinal que adentrava pelos vidros da janela. Meus cabelos azuis petróleos escorriam pelas minhas costas e desabavam na cama desarrumada, alguns fios levemente espetados e emaranhados, outros lisos e delicados.
Meu nome era Hatsune Miku. Como meus pais viviam viajando, já que trabalhavam para uma importante empresa de transportes e viagens. Os vejo apenas em datas comemorativas, como Páscoa, Natal, entre outras.
Sempre quando estão fora (ou seja, durante todo o ano) eles me deixam na casa da Haku-san, amiga dos Hatsune, a mesma trabalha como assistente social. Ela sempre me recolhe de braços abertos, cuida de mim como se fosse sua filha. Irônico, não?
Retiro o uniforme do meu armário. Este era inteiramene preto, com exceção da gola e o laço, ambos de cor branca. A saia rodada era negra e curta, chegando na metade das chochas. As meias ¾ eram brancas e eu calçava pequenos sapatos de boneca.*
Prendi minhas longas madeixas azuis petróleo em duas Marias-chiquinhas. Meu cabelo aparentava ser longo, mas não era tanto quanto diziam. Ele NÃO chegava até meus tornozelos como alguns falavam. Na verdade, quando ele estava preso, não passava muito além das minhas costelas, quando é solto, escorria pelas minhas costas até chegar à metade de minhas cochas.
Desci as escadas ao mesmo tempo em que ajeitava minha pasta escolar. Enfiando meus cadernos, estojo, entre outras coisas necessárias.
– Ohayoo Haku-san. – Disse ao ver a albina na cozinha.
– Acordou tarde. – Informou desaprovadoramente. – Sua amiga já esta lá fora te esperando. Melhor correr.
Enfiei uma torrada na boca, apenas para não ir de barriga vazia. Passei pela sala de estar cor creme rapidamente, porém, ao dar-me conta de que esqueci de algo importante dei meia volta e corri para o balcão da cozinha.
– Sua marmita. – Disse Haku.
– Eu sei! – Pego o embrulho e empurro para o fundo da pasta. Vou pelo caminho que estava seguindo antes de voltar. Saio porta a fora e vejo uma garota de longos cabelos branco-róseos parada em frente à casa de Haku. A garota tinha lindos orbes azuis-piscina.
– IA! – Chamei a garota de longos cabelos róseos translúcidos. – Obrigada por me esperar.
Eu sorri sem jeito perante a garota. Ela era minha única amiga. Não me dou muito bem com os outros alunos devido a incidentes do passado. Não entendo muito bem o motivo, mas quando IA chegou ano passado como uma aluna nova foi sorte minha eu conversar com ela antes do restante da turma, se não eles teriam feito-a me ignorar, como quase todo o resto da escola. O nome verdadeiro dela era Akasaka Lia*², mas todos a chamavam de IA. O porquê disso? Não faço a mínima ideia.
Saímos andando normalmente em direção à escola até que a rosada me pergunta:
– Já decidiu em que clube entrará esse ano?
– Claro que vou tentar o clube de música. Acho que isso é meio... óbvio. — Soltamos longas gargalhadas depois de minha fala. – E você?
– Estava pensando no clube de Teatro ou o de música, mas não tenho certeza.
– Participe dos dois. – Respondi animada, tomando a frente e andando de ré para olha-la. Ela fitou-me com um sorriso gentil nos lábios.
– Não acho que isso seja possível Miku. – Sua voz soou sem animação.
– Tudo é possível. – Insisti infantilmente
=/=
Chegamos à sala de aula faltando menos de três minutos. Como todo começo de ano letivo havia os típicos grupos de garotas histéricas gritando coisas como: “Eu senti tanto sua falta durante as férias” ou “Ah quanto tempo amiga!”, sendo que se encontraram quase todos os dias para torrar dinheiro no Shopping.
Quase todas as carteiras já estavam ocupadas menos duas que, logicamente, estavam reservadas para mim e IA.
Acho que o destino estava mais uma vez zombando de minha cara. A sala era constituída de cinco fileiras de classes. As únicas cadeiras que sobraram se localizavam a certa distância. Uma se encontrava no meio da sala, perto dos grupinhos chatos de meninas mais chatas ainda que sempre cismavam por causa de uma unha quebrada.
A outra estava recostada na parede do lado direito, do lado para a janela.
– Eu fico com aquela. – Falei apontando para a da direita. IA grunhiu algumas palavras de baixo escalão, mas não me impediu de ir ao lugar escolhido. Ao sentar na cadeira e prender a alça de minha pasta no encosto, eu voltei-me para o quadro branco e suspirei. – Que os jogos comecem.
– Veja quem está aqui esse ano. – Uma voz provocativa soou em meus ouvidos, fazendo-me franzir o cenho.
– Kagamine. – Soei sem animação, nem ao menos dar o luxo de me virar e fitar o louro que sentava a minha diagonal.
– Hatsune. – Ele cumprimentou de volta antes que uma garota viesse a sua mesa com o rosto corado e, praticamente, se jogando nos braços dele. Não vou entrar em detalhes com aquele idiota.
Eu não gosto dele.
Ele não gosta de mim.
=/=
Era intervalo do almoço quando eu consegui sair do corredor cheio de alunos com a rosada e dar uma escapada para as quadras de basquete e então, finalmente, comermos nosso lindo almoço em paz.
Foi até difícil nos livrarmos dos corredores infestados de estudantes ensandecidos por comida e partirmos para fora do prédio. Ninguém nos parou durante o trajeto. Passamos pela área arborizada e pelos canteiros de flores até chegarmos em uma pista de cimento pintado de azul. Nas frentes da quadra havia sextas de basquete e, dos lados da quadra, grandes arquibancadas de metal.
– Vejo que não se esqueceu de sua bentô hoje. – IA sorriu ao meu lado.
– Depois da ultima vez... nunca mais. – Suspirei. Lembranças nada agradáveis voltaram a minha mente.
– Pelo menos olhe pelo lado positivo. – Arqueei uma sobrancelha para minha amiga. – Aquelas garotas não vieram nos chatear outra vez.
– Até porque eu arrebentaria com a cara delas. – Abri meu almoço e então comemos em paz, até que, do nada, ouvimos conversas e altas gargalhadas.
Ao olhar para a direção das vozes nos deparamos com um grupo de garotos, acompanhado das mesmas garotas das quais estávamos falando mais cedo. Os meninos vestiam roupas de basquete e o grupo de meninas estava vestido de líderes de torcida.
Ao total eram cinco meninos e quatro meninas, reconheci quase todos.
Tentarei descrevê-los. Dois dos meninos eram do terceiro ano do ensino superior, sendo que eu era do segundo ano. Eu reconheci os dois. Eram Kaito e Gakupo, dois dos garotos mais desejados da escola INTEIRA. Outro dos meninos era Usee, que era da minha classe, era loiro, bonito e caladão. O quinto garoto chamava-se Piko, ah, de todos eles tenho certeza que é o mais gentil, porém tem uma aparência sugestiva.
O quinto garoto, infelizmente, era da minha turma. Seu nome era Kagamine Len e era o mesmo que estava me importunando no primeiro tempo. Também é gêmeo de uma das garotas cuja geração de hoje chama de “popular”. Kagamine não era nada gentil. Ele era mimado, mesquinho e idiota. Eu sei muito bem disso, ah, como eu sei.
As garotas eram: Gumi, uma garota meiga com lábios rosadinhos e cabelos verdes, parece muito legal e boazinha, se não fosse o tipo de garota que acaba namorando todo mundo em apenas uma noite de festa, pergunte a qualquer pessoa o número de com quantos garotos ela ficou e cada um vai dar uma lista que dura até o dia seguinte.
Havia SeeU, esta é gêmea de Usee, animada e riquinha. Também tinha uma garota, do terceiro ano, chamada Luka, nunca conversei muito com ela ou ela comigo, então não tenho o que falar. A quarta garota era a loira que, até minutos atrás, tomara minhas memórias melancólicas. Então, seu nome era Rin, e, por ironia do destino, ela estava ali também, pulando animadamente e chacoalhando os pompons idiotas que toda líder de torcida carregava.
Juntos, esse pessoal formava o grupo que na escola era chamado: Os Populares!
Clichê, muito clichê.
– Era só o que me faltava. – Eu falei antes do olhar da garota loira finalmente notar minha presença no local.
Os orbes azuis de Rin me fitavam com uma sobrancelha arqueada, apenas ela tinha visto que eu e Lia estávamos ali, o resto do pessoal estava perdido em suas próprias conversas e risadas.
– Miku. – Rin chamou, com falsa modéstia, a atenção de seus amigos e foi então que nossa localização foi entregue por completo. Não que estivéssemos escondidas, estávamos apenas sentadas nas arquibancadas como quem não tinha nada melhor a fazer.
– Já estamos de saída. – Respondi irritada e ríspida. Eu estava prestes a puxar IA daquele lugar quando a voz de Kaito foi ouvida.
– Porque a pressa? Pode ficar aqui se quiser. Não vamos incomoda-las.
Nem todos os “populares” tinham más-intenções, só quase todos eles, mas Kaito era exceção, já até conversei com ele uma vez. Hora ou outra IA tende a me perguntar se gosto dele (assim como toda a parte feminina da escola gostava), mas sempre torno a dizer: “Não sou interessada por ele ou qualquer outra coisa do gênero, ele é bonito e gentil, mas não daria certo”.
Voltei a sentar no assento e observei os garotos que se preparavam para jogar uma partida de Basquete de 2x2. Um teve que ficar de fora, este foi o Kagamine. Em quanto os quatro garotos jogavam na quadra, as piranh... digo, lideres de torcida, agitavam seus pompons. O loiro subiu na arquibancada, ficando a algumas fileiras de distância de onde eu estava sentada, duas, para ser mais exata.
– Quem diria que você ainda está aqui. – O louro disse com a voz irônica. – Pensei que ia sair correndo de novo que nem no passado. –Riu secamente.
– Len, por favor... – IA começou, mas eu a interrompi.
– Cale a boca Kagamine. – Falei, já perdendo a compostura. Ele se voltou para mim e me fitou com aqueles intensos olhos azuis cerúleos, qualquer garota na escola ficaria derretida e teria a vontade imensa de mergulhar neles, mas eu não.
– O que foi Hatsune, já perdendo a voz? – Ele gargalhou. Antigas lembranças tornaram a minha mente. Certos atos impensados que sempre faziam meus olhos arderem. Meus lábios tremeram perante o olhar do loiro que encarava tudo com um sorriso divertido. Ele falou mais alguma coisa, foi quando algo quente escorreu dos meus olhos e percorreu pela minha bochecha até pingar no meu colo.
– E-...eu
– Pelo visto sim, só cuide para não começar a chorar que nem naquele dia.
Levantei-me bruscamente, com os punhos cerrados. Dei as costas e sai correndo dali em quanto ouvia os risos divertidos do louro. Senti os orbes azuis piscina de IA me fitando com preocupação em quanto eu sumia de vista.
=/=
Passei correndo pelos terrenos da escola. Corri pelo gramado e entre as árvores verdejantes que farfalhavam com o vento quente de fim de verão. O sol estava quente hoje. O canto dos pássaros era lindo, porém eu não prestava atenção. Tudo ao meu redor se tornou morto, como o verão que chegaria logo.
Eu sentia meu corpo frio, mas meu rosto quente. Algumas lágrimas desceram silenciosamente pelas minhas bochechas quando memórias imprevisíveis retornaram em minha mente. Como um flashback. A cada vez que ele terminava era como se acionassem o botão de replay e tudo recomeçava.
Cheguei ao único lugar que uma estudante podia desabar em paz: O banheiro!
Apoiei-me na bancada e olhei minha própria imagem no espelho. Eu estava deplorável. Meus olhos estavam ficando inchados e vermelhos. Abri a torneira e lavei-me o rosto com água gelada, mas nada mudou.
Ouvi conversas no corredor e estas vinham lentamente em direção ao banheiro feminino. Não queria que ninguém me visse naquele estado. Com os olhos arregalados eu fui em direção a uma cabine do banheiro. Tranquei-a, sentei no vaso sanitário, já fechado, e levantei meus pés para não me notarem.
– [...] você realmente fez isso, Iro-chan? – Uma voz aguda e infantil disse.
– Sim Yuki-chan. – Disse outra voz, esta parecia estar lavando as mãos.
“Iro-chan? Yuki-chan?” Ah, sim. Agora me lembro, são garotas do quinto ano do ensino elementar. Nekomura Iroha e Kaai Yuki.
– Eu vi a Miki-nee-san... – Miki? Essa eu também conhecia, uma garota chata da mesma idade que eu, sorte que éramos de classes diferentes! Continuei prestando atenção na menina. – [...] então eu peguei o link e entrei. Se você pesquisar “Yuronoro.chat” na internet tenho certeza que vai achar.
– Mas ainda não entendi o que é isso.
– Yuki-chan, eu já te falei. Você se cadastra no site com um nome aleatório e você pode conversar com qualquer pessoa que estiver online. Esta virando moda!
– Parece incrível, Iro-chan, mas não é perigoso? Quero dizer. Você conversa com um estranho. Não sabe se é garoto ou garota. Adulto, criança ou adolescente. – A voz da garotinha chamada Yuki soou com medo.
– Que nada! Basta ter cuidado. – Riu a tal “Iroha”.
E então elas saíram.
Os passos ficaram longínquos e a única coisa que sobrou foi o silêncio, minha respiração quente, porém calma, também se silenciou.
– Yuronoro... .chat? – Perguntei a mim mesma.
Fale com o autor