Rolling Girl
25 Capítulo XXV - Volta ao passado
Notas iniciais
Talvez Rei não estivesse em seu juízo perfeito quando dera a ideia de IA investigar sobre seu passado. Afinal, o que ela provavelmente encontraria não seria algo realmente muito bom, se quer satisfatório. Se ela sofresse, no fim, seria por culpa dele.
Mas agora não poderia simplesmente voltar no tempo, pois já estavam abordo do metrô, indo para o outro lado da grande cidade. Visto que moravam em uma área mais residencial, temia acabar se perdendo naquela confusão que era a parte comercial, entretanto, quem diabos constrói um orfanato lá?
IA permanecia recostada em seu ombro, com os olhos fechados, logo ele pensou que a garota não seria acostumada a acordar tão cedo, ou não dormira o suficiente na noite passada. Perguntou-se como alguém conseguiria dormir naquela situação, onde o metrô parava constantemente com guinadas bruscas e a circulação de pessoas era alta. Talvez ela não estivesse realmente dormindo, só estivesse suficientemente cansada, mas isso não diminuíra o desconforto do rapaz, uma vez que ela estava usando seu braço como apoio.
Determinado a pensar em outra coisa, deixou seu cotovelo no braço do assento, apoiando seu queixo com a mão e olhando para o lado de fora, observando a paisagem do subterrâneo, o que mal deveria ser classificado como paisagem.
Já deveriam estar quase chegando quando sentiu IA se remexer em seu antebraço, abrindo olhos azuis e deixando-os semicerrados.
— Onde nós estamos? — perguntou, esfregando as costas de seu punho em um dos olhos, contendo um bocejo.
Ela estava dormindo afinal.
— Perto da nossa parada. — disse com a voz baixa.
O silencio entre os dois apareceu novamente, entretanto, não era como se não estivessem acostumados, na verdade já até começaram a se sentir confortáveis com a situação, embora, entre ficar calado ou continuar o diálogo, IA preferisse a segunda alternativa.
— Eu pareço calma? — a voz doce da garota havia lhe chamado a atenção, fazendo-o desviar os olhos para ela.
— Você está nervosa? — disse, ignorando completamente a pergunta da garota.
— Eu pareço estar? — voltou com a tentativa, continuando com aquele jogo de perguntas.
— Parecer ou não parecer, isso não me interessa. No final, o que importa é como você está se sentindo.
IA se prendeu no lugar, sentindo o coração falhar uma batida e as bochechas corarem de leve. Não soube o porquê, nem como, mas o instinto a levara a despencar no peito de Rei, que já esperava por isso, tudo o que fez foi envolvê-la com o braço o qual não estava lhe apoiando o queixo no braço do assento. Não podia ver seu rosto, mas sabia que os olhos cristalinos estavam lacrimejantes.
O metrô parou com uma guinada, fazendo a rosada levantar a cabeça para ouvir a chamada que informava qual parada estavam.
— Vamos? — chamou Rei, recebendo um positivo silencioso da menor.
=/=
IA não soube responder onde estavam se não fosse pelo mapa. Fazia muitos anos que não estava ali, provavelmente a última vez foi há seis anos, quando tinha apenas dez anos de idade e sua mãe adotiva a levara para ajudar a escolher um presente de natal para seu pai. Agora as coisas pareciam maiores, mais barulhentas e assustadoramente agitadas, com buzinas apitando, pessoas falando alto no celular ou apenas cruzando seu caminho com uma cara fechada. Ela nunca gostou de lugares assim, preferia bairros calmos, com pouco tráfego e que desse para se avistar o céu estrelado durante a noite.
“Assustador”.
Pensou, apertando a ponta da camiseta de Rei, que andava a sua frente. Este parou confuso com o ato, mas bastou olhar para IA que já supôs que ela não estava acostumada com cidades agitadas.
— Está tudo bem. — disse, pegando a mão da garota, trazendo-a para seu lado.
Riu-se pensando nela morando em Oslo, na Noruega. Oslo não chegava a ser tão movimentada quanto as grandes cidades japonesas (pelo menos não em seu ponto de vista), mas de longe era mais naturalista. Até os metrôs cruzavam paisagens que proporcionavam vista para as florestas ou lagos. Às vezes até mesmo as pistas de esqui. Rei gostava de esqui, havia dias que chegava a subir as montanhas para ficar lá até depois do anoitecer, onde as trilhas eram iluminadas para maior aproveitamento, uma vez que o dia era curto e a noite se iniciava mais cedo. Mas mesmo a noite, a cidade ainda oferecia entretenimento, bastava saber onde procurar.
— Você está sorrindo. — IA disse sem largar a sua mão, cortando a linha de pensamento nostálgico. — No que está pensando?
— Na minha cidade natal. — sorriu.
— Você deve sentir saudades, quero dizer, deixar tudo lá, amigos, escola e até mesmo parte da família. — IA não tinha certeza se era bom lembrar essas coisas, porque deveria ser um assunto um tanto quanto complicado para se abordar com alguém que acabara de chegar em outro país com uma cultura tão diferente.
— Nem tanto. Eu não tinha muitos amigos, na maior parte do tempo ficava sozinho.
— Oh... — ela murmurou, dando fim ao assunto.
Eles andaram por uma boa meia hora, sendo que dez minutos foram apenas para se acharem no mapa. No final tiveram de pedir algumas informações e logo já estavam no caminho certo.
Em uma rua um pouco mais afastada da correria da avenida principal havia uma casa de dois andares e bem ampla. Com um quintal espaçado e, provavelmente, os fundos sendo o dobro do tamanho.
Rei sentiu IA endurecer ao seu lado, provavelmente tendo a onda de memórias nostálgicas que ele também teve minutos atrás, mas não sabia dizer se eram memórias boas ou não.
— Você quer mesmo ir? — perguntou.
— Já viemos até aqui, não é mesmo? — disse com certa aflição, sem despregar o olhar da porta de entrada.
Como num filme, eles andaram lentamente até o local, quase como se sentisse em câmera lenta ao bater na madeira da porta de aparência pesada.
A senhora que abriu a porta parecia não ter muito mais idade que sua mãe e demorou apenas alguns instantes para reconhecer IA. A mulher tinha olhos em um verde floresta brilhante, com longos cabelos em um tom de rosa mais forte que o de IA. Trajava um vestido verde que lhe caía até a cima dos joelhos e um avental branco com um tope rosa-avermelhado.
— IA-chan! A quanto tempo! O que anda fazendo aqui? E quem é esse rapaz? Por acaso não é seu namorado, é?
— Mo-Momo-san! Não! E-ele é meu colega de aula. O nome dele é Rei. Kagene Rei.
— Hm... Prazer, sou Momone Momo. Cuidei dessa garotinha até seus seis anos de idade. — disse sorrindo com o dedo indicador apontando para IA. — Vamos, entrem, entrem. As crianças adoram visitas, embora agora muitas delas estejam brincando no jardim dos fundos.
A mulher adentrou na casa, dando espaço para eles fazerem o mesmo. Momo os levou para uma sala um pouco bagunçada com brinquedos e então se retirou para a cozinha.
Por ela estar fora, um pequeno grupo de três crianças de no máximo cinco anos chegou de manso, olhando os visitantes com curiosidade, até que um deles se aproximou. Um pequeno garoto com cabelos acinzentados e olhos claros semelhantes a cor do cabelo.
—Meu nome é Ryan. Aquela ali é a Uta... — disse indicando uma garotinha de curtos cabelos roxos que segurava algo semelhante a uma prancheta de desenhos. — [...] e aquela é Ooka Mika. — apontou então para a garotinha que trajava um casaco rosa cujo capuz dava a impressão de ter orelhas caninas, segurava em suas pequenas mãos um pequeno cachorro de pelúcia meio velho. E vocês?
Rei e IA se entreolharam antes de fitar novamente o pequeno.
— Eu sou a Lya, mas sou mais chamada de IA e ele é o Rei, meu colega de classe.
— Vocês não vieram aqui pra adotar, não é? Parecem muito novos pra isso. — a garota nomeada de Uta disse com uma voz suave.
— É, viemos aqui pra saber de algumas coisas. — IA tentou explicar.
— Que coisas? — Ryan pediu, com os olhos brilhando em curiosidade.
— Vejo que vocês já conheceram esses três. — Momo irrompeu a sala, trazendo consigo uma bandeja com dois copos de chá japonês e um prato com pedaços de bolo.
— Momo-Obaa-san, nós estamos conversando com a nee-san e o nii-san, parece que eles estão procurando alguma coisa. — Ooka disse, correndo para as pernas de Momo, abraçando-as e logo em seguida olhando para os convidados com a mesma curiosidade de Ryan.
— Ah é? E o que seria? — Momo perguntou, com um pingo de interesse remanescente.
— Não sei, eles ainda não disseram. — Ryan respondeu.
Momo olhou para IA com uma sobrancelha erguida, um pedido silencioso para que ela perguntasse o que queria. A rosada mais velha se sentou e logo Ooka subiu em seu colo, sem ao menos precisar receber uma palavra da senhora.
— Na verdade, que queria saber algo sobre meus pais biológicos.
Foi o suficiente para que Momo travasse na poltrona. Encarando a rosada com um olhar semelhante ao de descrença.
— O que? Por quê? Aconteceu alguma coisa relacionada aos seus pais adotivos que eu precise saber? — a mais velha exaltou-se, formulando teorias em seu consciente que pudessem explicar a ação repentina da antiga órfã.
— Nã-não. Eu só... eu só acho que já está na hora de eu saber de alguma coisa.
Momo pareceu ponderar um pouco antes de tudo. Enfim, retirou gentilmente Ooka de seu colo.
— Crianças, vocês podem dar um tempo para mim e a IA-chan conversarmos? É uma coisa que precisa ser acertada sem interrupções.
Desapontados, Uta, Ryan e Ooka saíram da sala, deixando somente os dois colegiais e a senhora para trás.
— IA, o que você está me pedindo é muito sério. Seria desrespeitoso da minha parte para com seus pais te dar informações desse grau.
— Mas Momo-san... — IA foi interrompida pela mão da mais velha, que fora levantada, indicando um sinal de silêncio que fora ensinado para todas as crianças do orfanato. Quanto Momo levantava a mão, era ela quem falava.
— Olha, eu não sei muito da vida dos seus pais biológicos, meu trabalho é saber como você veio parar aqui e cuidar de você até que arranje uma família. — a rosada explicou. — A única coisa que sei é que no dia doze de janeiro, há anos atrás, uma assistente social de cabelos brancos veio e me disse que tinha outra criança de dois anos para eu cuidar e foi só após quatro anos que ela encontrou uma família. — Momo fez uma pausa para respirar. — As únicas coisas que fiquei sabendo era que o nome dessa garotinha era Aria, mas quando chegou aqui recebeu o nome de Lya, afinal, já que era nova seria fácil mudar seu nome para que ela não tenha memórias do passado, isso ajudaria a aceitar melhor e, no fim, acabaria esquecendo. Isso não é novidade para você Lya, quando você ainda estava aqui, eu te falei sobre isso.
Outra pausa, dessa vez mais longa para que Momo pudesse se certificar de que IA estivesse absorvendo tudo da maneira correta. A rosada mais nova teve tempo de formular uma ideia e, cruzando seu olhar com o de Rei, viu que não era apenas ela a pensar o mesmo. Mulher de cabelos brancos...
“Haku”
— Bom, tendo em mente que você já saiba disso, no dia que você veio parar aqui, a mulher que te trouxe me disse muito pouco sobre seus pais. E eu também não quis perguntar, entenda, o quanto menos eu souber sobre isso melhor vai ser...
— Momo-san, você sabe onde se encontram os pais de IA? —Rei indagou impaciente, já cheio daquela enrolação.
A mulher fechou os olhos em uma ação dolorosa, escolhendo bem as palavras.
— Cemitério municipal, na avenida Yūhi.
— Oh... — a menor dos três deixou soltar.
IA nunca sentira aquilo. Foi algo semelhante a levar um balde de água gelada a qual escorria lentamente pelo seu corpo, chegando a encharcar talvez até mesmo sua alma, suas mãos e pernas chegavam a tremer, mesmo sendo um dia quente de verão.
— Com licença. — Momo se levantou, deixando os dois estudantes sozinhos na sala.
Novamente aquele silêncio de cortar a pele. Mas dessa vez IA nem estava se dando ao trabalho de senti-lo, estava tão petrificada que, provavelmente, nem percebera Momo saindo da sala.
Rei também estava em choque, afinal a garota era sua amiga, certo? Era por isso que estava tão preocupado, certo?
— Acho que no fim não foi uma ideia tão boa assim. — disse, mantendo cautela com o tom de suas palavras, recebendo um negativo silencioso da rosada.
—Não é isso, no final acho que foi o certo, mas... — suas palavras eram tão baixas que ele teve de se aproximar para poder ouvi-la. — [...] o fato de ser certo não significa ser o que menos doa. — finalizou apertando os lábios, tentando conter o soluço que se sucederia.
Antes mesmo de derramar a primeira lágrima ela já sentiu o calor excessivo do abraço do moreno.
— Mesmo que seja o certo, eu sinto muito por estar fazendo você passar por isso. — sussurrou ao plantar um beijo demorado na testa de IA, que já se encontrava a derramar lágrimas silenciosas.
— Rei, você acha que foi o certo? — ela pediu.
A resposta não veio rapidamente, ao invés de palavras, sentiu os dedos do rapaz viajando até seu queixo, redesenhando as curvas de seu rosto delicadamente antes de puxá-lo suavemente para que ela pudesse encará-lo com seus olhos transbordantes. Assim ele colou a sua testa sob a dela.
— Não importa o que eu acho, lembra? Importa o que você acha. — murmurou.
Agora fora a vez de IA deslocar suas mãos até o rosto de Rei, que suavizou o olhar, quase que fechando seus olhos em deleite do toque.
Talvez, ceder só agora fosse a coisa realmente certa a fazer.
Foi o que os dois pensaram antes que a linha de raciocínio se dissipasse completamente quando ambos os lábios se tocaram.
=/=
Em um lugar muito longe daquela cidade agitada, num chalé de praia bem conservado e confortável, dois irmãos se ajeitavam no hall de entrada.
O som de um carro parando a frente da casa foi o suficiente para ambos petrificarem por alguns segundos, mas assim que ouviram o som das portas do automóvel se fechando, correram para abrir a entrada. Dando de cara com três adultos, sendo que um estava trajado como um serviçal.
O serviçal carregava pesadas malas.
— Senhor Mikuo e senhorita Miku, o senhor Leon e a senhora Lola estão aqui.
Bastou um segundo para que, no ímpeto, Lola se atirasse em seus filhos.
—Ma-mamãe! — resmungaram ambos, recebendo, em prol, uma risada rouca do pai antes que Lola decidisse soltá-los.
— Eu fiquei tão preocupada em deixa-los sozinho nesse último dia. E culpada também. Sinto muito, mas a tia de vocês teve um problema com o licenciamento da exportação de...
— Lola. — Leon chamou a atenção da esposa. — Nada de trazer negócios para as férias.
A mulher sorriu.
— Okay, okay, vamos entrar.
— É verdade. — Mikuo disse, lembrando-se de algo. — Vocês estavam na França, como vai a tia Alys?
— Vai indo na dela, como sempre. —Lola deixou soltar um suspiro ao pensar na irmã mais nova. — E quais são as novidades?
— Acho que nada de mais. Eu e a Miku fomos bem na escola, embora hajam alguns deslizes de vez em quando. Vou começar a fazer estágio no próximo semestre e adivinhem quem conseguiu amigos novos na escola? Sim a filinha de vocês. — Mikuo disse orgulhoso em quanto bagunçava o cabelo da irmã, que protestava.
— Sério? Vejo que estão progredindo, e o que mais? — indagou Leon, ao se colocar para dentro do chalé.
— Além de amigos, acho que a Miku também está andando com um garoto...
— Quê?! — Mikuo fora cortado pela pergunta estridente do pai, que antecedera a risada do irmão mais velho.
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