Roleta Russa
4 Girl On Fire
Notas iniciais
Sonya Grigorovich Komissarova
Graças a um mau estar incomum, uma vez que sua saúde sempre foi muito bem, passou dois dias inteiros com febre e aquilo bastou para dar ao rosto já cansado dela um ar muito doente.
Shuri estava prestes a invadir o quarto e cuidar dela por si só, quando Sonya acordou as três da manhã se sentindo ótima. Logo que abriu os olhos deu de cara com sua pantera deitada sobre a cama no aguardo de seu despertar.
— Acho que algo está muito errado comigo. E você? — perguntando ao seu animal de estimação recebe um resmungo calmo.
Provavelmente ele estava concordando também. Ou apenas a mandando ir dormir pois nenhuma boa coisa saía após as duas da manhã.
— O que acha de posar para os meus desenhos? — pediu a mulher em tom baixo sendo ignorada pelo felino ingrato.
Mostrando que não estava disposto a posar para seus desenhos Oxossi virou para o lado contrário dela e voltou a dormir, deixando sua dona só.
— Droga.
Incapaz de ficar deitada, uma vez que já havia dormido por tempo o suficiente, Komissarova pegou papel, lápis e borracha e saiu a procura de algo que pudesse desenhar naquele lugar tão grande.
Ao encontrar uma porta entreaberta, resolveu bisbilhotar o que estava do outro lado. Onde o Rei estava em meio a livros parecendo procurar algo muito importante.
A expressão dele, aliada a sala em si, que na verdade parecia ser uma biblioteca, acabou a levando sem se dar conta a começar a esboçar usando a parede como apoio a cena que via, logo que pegando os detalhes mais importantes, saindo de fininho para não ser flagrada em plena madrugada se esgueirando por aí.
Usando sua memória razoável, lembrou o caminho que fez e chegou ao seu quarto onde se colocou a desenhar T'Challa em silêncio por horas até finalmente dormir debruçada sobre o desenho.
— Como você pode ver, ela está bem. — a voz masculina falou em tom muito baixo. — Dormiu fazendo alguns cálculos inclusive. — acrescenta a lembrando do desenho que fez.
Constrangida, Sonya abriu os olhos, jogando o desenho para debaixo de seu corpo, onde o manteve por alguns segundos.
— Parabéns. Você a acordou, seu mané.. — Shuri em claro tom de repreensão o dá um beliscão sorrindo desconcertada.
— Desculpa o incômodo. Já estou ótima.— ela sorri confiante para ambos que correspondem.
Ele um tanto sem jeito e sua irmã com a benevolência de sempre.
— O Parker está no quarto dele impaciente pelas suas instruções, doutora. — o homem comentando sério respira fundo.
Peter Parker entediado era quase como uma usina nuclear em ponto de colapso. Nunca dava em boa coisa.
Pedindo que o trouxesse lá, foi se arrumar de maneira decente, que a forçou a usar maquiagem para disfarçar sua cara péssima, antes que seu auxiliar entrasse.
— Hey, sentiu minha falta? — saúda o rapaz enquanto termina de passar o seu batom.
— Senhor Stark me disse que sua exposição foi um fracasso. — Peter foi direto ao assunto em tom baixo.
— Acha que consegue me ajudar a refazer tudo? — ignorando a falta de jeito do assistente se vira para ele que sorri.
— Sim senhora. A propósito...
— Já usou seu novo traje? — questionou Sonya animada.
— Sim! Ele ficou incrível. Muito obrigada!
Se fosse para o garoto sair por aí prendendo criminosos que fosse usando um bom traje e nada de panos simples que costumava a usar por aí.
— Ótimo.. Vamos logo colocar a mão na massa. — terminando arrumar sua cama, Sonya saiu com o garoto logo atrás lê contando tudo sobre o que passou até o final das aulas.
O lado bom de andar com os gênios mirins era que conseguia suprir um pouco do amor maternal que sempre dava a seu irmão mais novo.
O que a lembrava que o rapaz completaria em breve seus doze anos, isso se ainda estivesse vivo.
— Você vai se alimentar certo? — Shuri a seguindo juntamente com o seu assistente recebe um sinal negativo.
— Vou acertar algumas coisas com o bonitão aqui e já vou. Vai ser jogo rápido. — mentiu a doutora com seu sorriso mais forçado.
— Oi. Eu sou o Peter. — tentando se fazer presente o adolescente estendeu a mão para a moça que fez uma careta.
— Tá.
— Seja amigável. Parker é um bom garoto. — comenta com a mesma que sorri.
— Ele é um colonizador. — a princesa retrucando séria o olha de soslaio desconfiada.
— Um o quê? — Peter quase gritou atraindo olhares das duas.
— Vai por mim, esse aqui é dos nossos...
Agora em revendo detalhes de seu projeto, irtemediou conversas entre os dois até que Peter pareceu finalmente desistir de impressionar a moça, uma vez que ela o rejeitou diversas vezes e focou em coisas a cerca do circuito da máquina.
Em determinado momento, que não tinha ideia de qual foi, o Rei pareceu se interessar pelo que faziam, de maneira que se juntou ao trio e se limitou a ficar sentado numa cadeira observando em silêncio o que estavam a falar e executar.
Se levantando num pulo, o Peter tirou seu celular da bolso e mostrou a Sonya que revirou os olhos ao ver o nome na tela.
— Mimi, senhor Stark está ligando. — Parker contou o óbvio a ela que acenou.
— Se for importante, ele sabe qual meu número. Não se preocupe, Peter. — dando de ombros voltou a mexer em uma peça, antes de sentir seu pulso, onde ficava o comunicador que mantinha linha direta com seu patrão, Tony Stark.
Com calma, terminou de mexer no que fazia e só então ligou o comunicador que exibia um holograma do homem irritado.
— Por que criar uma comunicação direta se não me atende? — o herói reclama a olhando de cima a baixo.
— Por que usar uma linha direta até mim a fim de me repreender quando sabe que estou a trabalhar? — Komissarova retrucando no mesmo tom sorri com ironia.
— Soube que estava morrendo ou algo do tipo? — olhando a pra algum ponto longe da câmera o homem pareceu perguntar sobre o estado dela.
— Estou bem, obrigada por se preocupar, Potts! — trazendo a noiva dele para a conversa o vê rir desconcertado.
Pegar Tony Stark no flagra era algo que não acontecia todos os dias. Precisava rever as gravações a cerca daquilo mais tarde.
— Você é horrível para disfarçar, Tony. — Pepper, a mulher que conseguia aturar aquele projeto de executivo diz entrando na chamada.
— Okay, caras. Vocês são lindos juntos, mas qual o propósito da ligação? — chamando a atenção do casal que fica sem jeito, Sonya ri.
— O veredito de seu julgamento saiu ontem . — a ruiva falou a deixando apreensiva.
— E...?
Nao tinha culpa por ter sido usada por um lunático, especialmente quando seus instintos a levaram a tal coisa, mas só esperava que o argumento do advogado de Stark tivesse sido convincente sem entrar nesses detalhes específicos.
— Parabéns, você vai pra cadeia. — em tom animado ele a deu a notícia que a mulher não torcia pra acontecer tal coisa.
— Sério? Não posso nem mesmo recorrer? — rebateu ansiosa encarando os dois que pareceram brigar pelos olhares que trocavam.
— Você só foi oficialmente deportada, o que tínhamos ideia que poderia vir a acontecer... — Pepper confessa em tom baixo. — Sempre tem a opção de continuar com o home work, podemos arrumar um lugar para que você se instale se não me engano, Vancouver é linda essa época... — continua a falar receosa.
Dado o fato de seus pais serem parte de uma família importante Russa, após a morte deles e de seu irmãozinho, num acidente muito peculiar que ela tinha certeza ser sabotagem, recebeu ordens do governo regente no país para que não voltasse até que os responsáveis fossem pegos. Coisa que sabia não acontecer nem tão cedo, logo não lhe restava outro lugar senão a África. Sua terra de origem é o único lugar no mundo onde ainda parecia ter algo a fazer.
— Não há necessidade. — nega com educação fingindo estar tranquila com a decisão do júri.
Todos os anos de carreira consolidada jogadas no lixo por uma noite que fugiu de seu controle. Só não se matava por medo de Oxossi não conseguir sobreviver por si só na savana.
— Se precisar de qualquer coisa... — Stark começa a falar após receber um beliscão.
— Encher a cara é tudo que eu preciso, mas obrigada. — encerra o momento de pena que todos pareciam sentir.
Deu seu máximo por anos, trabalhou duro, lutou muito e finalmente conseguiu se superar e ser uma mulher que não dependia de ninguém além de si mesma para se reerguer, logo não havia nada a sentir pena. Assim como já havia feito antes, daria a volta por cima e recomeçaria o mais rápido possível.
Não havia tempo a perder e precisava acabar aquele maldito projeto pra se livrar de uma vez por todas dos Estados Unidos.
— Se quiser posso lhe mandar um whisky de presente. — mais animado Tony oferece a doutora que assentiu rápido. — Acompanhado de minha companhia para ser seu ombro amigo. E o que mais precisar. — brincou com a mulher que revira os olhos.
Ali estava o patrão imbecil que ela muito bem conhecia.
— Bonito laboratório, senhor Stark. — em tom sério o Rei se fez presente.
— Ah. É? Tem algo como um desses por aí em Wakanda? — Tony rebateu com deboche evidente.
— Sim. Em toda escola primária. — observando no mesmo tom, T'Challa faz sua irmã gargalhar com a resposta.
— Isso é demais pra mim. — repreendendo ambos Sonya desliga o comunicador e volta a trabalhar, o quebrando em menos de quinze minutos por Tony Stark continuar a ligar.
Provavelmente por não ter tido a oportunidade de responder ao Rei de Wakanda, ainda sim, ela não suportaria ouvir aqueles dois trocando farpas.
— Sugiro que vocês dois vão achar outras coisas. Mimi tá precisando de um tempo dela. — Parker pediu aos irmãos que acabaram atendendo ao rapaz.
— Não há nada de errado em chorar quando se sente frustrada. — sentando no chão Peter comenta a fazendo sorrir.
— Se chorar vou borrar a maquiagem e meu rimel é mais importante que toda essa desgraça em série que se tornou minha vida. — Komissarova limita-se a falar séria.
— Certo, certo, certo. Vamos ao trabalho então. — o rapaz animando se coloca de pé.
Com toda sua atenção, ambos trabalharam no projeto, usando-se das habilidades de Peter Parker para levantar coisas pesadas e das máquinas que eram muito úteis.
Sem se dar conta, ficaram horas a fio confinados numa sala conversando, algumas vezes cantando e até mesmo desenhando a cerca dos detalhes da arrumação da máquina, até que Shuri, muito bem vestida o que logo atraiu a atenção de ambos bateu palmas ao ver o esqueleto do que seria a máquina.
— Vocês vão jantar conosco e nos poupar de ouvir os papos tediosos do conselho certo? — ela quase implorando recebe um olhar pensativo dos dois.
— Se não for muita ousadia falar a respeito do projeto a mesa, por mim tudo bem. — Peter deu de ombros rindo.
— Você? Ousado...? Conta outra, Parker. — Sonya o provoca dando um tapa na cabeça do sujeito. — Vamos só tomar um banho e iremos, sua alteza. — sorrindo para a amiga faz um sinal de respeito guardando sua ferramenta.
Ainda rindo um do outro, Peter e Sonya de despediram em seus quartos onde se arrumaram e aguardaram a vinda de alguém para os levar ao jantar.
O primo do Rei, que ela não tinha visto até então e parecia bem estranho e a Guarda-costas dele, que era o papel desempenhado por Okoye e só agora Komissarova sabia, guiou os convidados a uma sala enorme onde além do Rei, a princesa e a rainha, haviam senhores que pareciam os avaliar como se fossem itens exóticos.
— Perdão pela demora, nos perdemos no tempo enquanto trabalhávamos. — usando toda sua instrução falou na língua de Wakanda que Shuri vinha a ensinando a alguns anos, mas muito mal conseguia a praticar.
Exceto quando ela estava a conversar com o seu irmão mais velho e Rei de Wakanda, entendia muito bem o que a jovem dizia e conseguia manter uma boa conversa com ela por meio de chamada de vídeo.
— Você sabe falar a língua deles? — surpreso o adolescente pareceu se sentir mais aliviado com a descoberta.
— Se importa de falar a respeito do que está a desenvolver em nossos laboratórios, senhorita.? — uma senhora a questiona em tom calmo.
— Não acho que isso seja algo... — tentando soar desinteressado o Rei falha em dar fim ao assunto.
— Bem, uma tecnologia que revolucionará questões a cerca de velocidade de transporte... — começa a responder em inglês sendo interrompida por um senhor.
— Se importa de falar em nosso idioma?
— Prefiro usar um dos idiomas que melhor domino para explicar melhor, mas creio que Shuri pode traduzir o que digo... — respondendo com muito cuidado, temendo ser rude, recebe uma risada de Peter Parker.
Sempre que ela começava a tentar não ser rude acabava em um péssimo clima, pois não tinha paciência alguma pra ir até o final com toda educação que seus pais lhe deram. E como seu auxiliar o rapaz bem sabia disso.
— Foi mal. — constrangido ele volta a fitar seu prato.
— Estou falando algo engraçado, criança.? — O senhor, que levou como deboche a risada a faz respirar fundo.
— Não, mas... — Peter tentando falar é interrompido pelo mesmo senhor mais uma vez.
— Seu povo subjuga, maltrata e trata o meu como mercadoria e ainda assim você acredita que vê graça no que digo? — O repreendeu tirando o pouco de paciência que restava a mulher.
— Não culpe os jovens de hoje pelos erros de seus ancestrais. — impede o seu assistante de perguntar sobre o que o velho dizia.
— Tô muito ferrado? — Parker sussurrou para a princesa que riu.
— De maneira alguma. Acabou de tornar o jantar mais interessante. — divertindo-se com a situação é repreendida por sua mãe.
— Shuri... — ralha o irmão da moça parecendo preocupado com a integridade dos seus convidados.
Como sempre, ele a via como uma genuína ameaça e provavelmte deveria a essa altura estar se odiando por não ter a despachado enquanto havia tempo.
— Onde há uma má educação... — a única mulher do grupo tentou concordar com o senhor sendo logo cortada.
— Podemos só jantar em silêncio? — a mãe dos dois irmãos tenta amenizar a situação.
— Onde há educação não existe margens para má interpretações, — fitando o senhor que agora parecia prestes a atacar alguém começa Komissarova a falar. — tampouco para rancor por coisas que a muito aconteceram e aqueles que hoje estão por aqui, tentam a todo custo reparar os danos. — pegando seus talheres finge achar algo de interessante no prato.
— Mais do que ninguém, você por crescer em meio a eles deveria....
— Deveria mostrar que preconceito, xenofobia e ódio gratuito não são a solução das divergências entre nós.? — sorri pegando um pedaço de carne e mastigando.
— Você age como se todos eles não a julgasse por sua cor no primeiro erro que comete. — um outro convidado a alfineta a distância.
Aquilo era verdade em alguns casos, mas colocar a maioria das pessoas no mesmo patamar dos que faziam esse tipo de julgamento era loucura.
Preferia se manter otimista com suas conclusões, caso contrário desistiria do mundo e viveria apenas reclamando a respeito dele, conformada demais com as desgraças para fazer algo a respeito.
— E só por isso devemos julgar qualquer um que se difere a nós por uma simples questão de melanina? — o encarando de soslaio recebe um olhar irritado dos senhores.
— Nossa. Isso aqui está ótimo. — comendo como um desesperado o pobre rapaz tenta mudar de assunto.
— Isso não é o que...
— De qualquer forma, prefiro julgar por ações e pelo caráter e sugiro que passem a fazer o mesmo. — voltando a atenção para seu prato, pega algumas coisas que sabia do que se tratar. — Wakanda vive em constante mudança e já é hora de vocês se reciclarem também. — encerra a conversa por definitivo voltando a comer.
— Alguém vai querer sobremesa? — Peter quebra o silêncio sepulcral na mesa onde todos comiam.
Tentando melhorar o clima, o Rei de Wakanda fez uma piada e com sua irmã, o assistente da doutora e sua mãe rindo, dissipou a tensão na mesa de jantar.
Quem diria que uma simples refeição poderia se tornar um campo de batalha?
Bem, ela não diria, mas foi o que aconteceu e agora era um pouco tarde pra fingir que não havia nada de errado.
Peter Parker além de um simples ajudante, era um dos muitos jovens que Sonya decidiu adotar como "irmão postiço" e jamais deixaria qualquer um dos seus serem constrangidos por quem quer que fosse. Quer fossem membros de um conselho ou não.
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