Rodrigo e o horror de Scuti
15 Triton-33: A joia azul da Terra de Baixo
Mais de mil soldados de variados países asiáticos sucumbiram numa batalha mortal no sul da Índia diante de uma facção de espectros muito mais devastadora do que a que invadiu a Oceania. Os monstros faziam parte do governo do Capitão Cthu, um espectro marinho que adorava transformar as suas vítimas em corais.
A tartaruga gigante emergiu do oceano e nadou para Taiwan. Dentro do seu casco montanhoso, o recinto do Capitão Cthu e seus asseclas.
— Capitão, limpamos todo esse país. Não há mais nenhum humano resistente — disse um astroom vestido com uma roupa de mergulho.
— Vamos fincar a nossa bandeira aqui — respondeu o espectro ainda sentado na sua cadeira em forma de ostra.
A tartaruga entrou no litoral de Taipei e avançou sobre as ruas, destruindo tudo pela frente.
— Chegamos, capitão.
Cthu se levantou e caminhou para fora da tartaruga.
Vários humanos foram presos e colocados no centro de uma praça. Cerca de quarenta pessoas.
O Capitão Cthu desceu a rampa que saía do lado do espectro e caminhou para perto dos prisioneiros. Todos viram a sua aparência grotesca: da cintura para cima era humanoide e vestia uma farda militar branca com várias barretas no peito esquerdo, o rosto era de lula, com tentáculos como se fossem o "bigode e a barba", chifres de touro; seus braços possuíam tentáculos no lugar de dedos. Duas asas de dragão nas costas. Da cintura para baixo, corpo de caranguejo com seis patas afiadas.
O vilão pediu a um salamandrian para entregar o seu cachimbo dourado. Ele acendeu o objeto e passou a fumar compulsivamente.
Salamandrian era uma raça parecida com reptilian, mas sua pele era elástica, conseguia respirar debaixo d'água e se parecia uma salamandra gigante chinesa bípede.
Astrooms da facção de Cthu eram os únicos que vestiam roupa de mergulho em vez de astronauta.
— Número exato de quantos são.
— Mestre... aqui temos 40 humanos. Eles são os últimos remanescentes do exército desse país.
O capitão fumou mais um pouco e levantou o braço esquerdo. Seus dedos-tentáculos se multiplicaram em muitos tentáculos finos e fincaram nos corpos dos humanos. O vilão fez seu olho brilhar e uma rajada de energia vermelha saiu do seu corpo e foi na direção das vítimas. Os humanos se transformaram em criaturas monstruosas e com corpos deformados como se fossem feitos de crostas e corais.
— Ordene-os a construir o meu palácio aqui.
— Sim, mestre.
Os humanos transformados em corais ambulantes obedeciam às ordens do Capitão Cthu sem contestar.
...
Triton-33 era a base principal da facção do Capitão Cthu. Não era o lar natal do mensageiro, mas era um território que o favorecia, pois era um planeta com 90% da superfície com água e 10% de terra. A água era totalmente igual a dos oceanos terrestres.
O Chevette pousou no meio do oceano único do planeta. Ficou em modo anfíbio.
— Tem alguma referência costeira, Eins?
— Nah! Eu tentei verificar com o drone, mas não achei nada em um raio de 200 quilômetros.
— Bem como disseram. Esse planeta é o quartel-general de um mensageiro especialista em água. O que faz?
Eins transformou o carro em um submarino.
— Melhor submergirmos, nya — ele acionou o controle do agora submarino. O veículo desceu.
À profundidade de 20 metros, os dois exploraram sem o auxílio das lanternas frontais do carro. Era visível algo no fundo.
— Que foi?
— Olha o tamanho disso! — Eins mostrou o monitor. Eles viram uma anêmona com quase cinco metros de altura. — É quase dez vezes o tamanho de uma anêmona terrestre.
— O que são essas coisas brancas longe? — Rodrigo apontou para o monitor, mas percebeu o que era.
Um grupo com milhares de águas-vivas surgiu ao redor deles. As criaturas estavam paradas na água. Tinham mais de cinco metros.
— Enormes!
— Não sei do que essas criaturas são capazes, mas aposto que não podem ser tocadas. Farei um teste.
O veículo liberou uma bola metálica do tamanho de uma bola de tênis. O objeto encostou no espectro e sofreu uma descarga elétrica.
— São quase 1 milhão de volts. Incrível.
— Eins, não podemos encostar nelas. Elas fritariam a rede elétrica do carro.
— Eu sei, nya! Não sei quanto de fundo tem esse oceano. Meu submarino só aguenta até 1 quilômetro.
A rota entre as medusas foi desafiadora. Encostar em qualquer uma seria a pior fatalidade possível, haja vista o veículo poderia parar de funcionar, afundar e os dois ficarem presos no fundo de águas desconhecidas.
— Ai ai ai ai ai!
— Não fale isso, seu gato feio — Rodrigo puxou a orelha do bichano. — O que esses "ais" significam?
— Tem algo grande na nossa frente.
Rodrigo viu no monitor, mas não notou nenhuma criatura viva. Eins avisou que poderia ser algum espectro gigante.
A corrente aumentou. As medusas foram levadas numa correnteza que mais parecia uma sucção. Isso deixou Eins confuso.
— Que foi isso?
— Segura. Vou ativar o turbo — Eins ativou o modo turbo e fez o Chevette ir contra a força.
Um barulho estranho ecoou. De repente, algo como uma baleia com uma bocarra aberta surgiu. Era a criatura que sugava as medusas.
— Esse bicho deve ter uns 90 metros de comprimento.
— Isso é três vezes maior do que a maior baleia-azul. Eins, vamos sair daqui.
— Eu tô tentando, nya.
A criatura sugou as águas-vivas elétricas com tremenda facilidade. Seu corpo era imune ao choque e não teve problema de ingerir.
O submarino aumentou o seu turbo e saiu da rota da correnteza.
— Essa foi por pouco. Nunca tinha visto um espectro marinho tão grande... nya.
— Deve haver alguma civilização por perto. Não é possível que esse planeta seja apenas reduto de animais selvagens. As Marias confirmaram que aqui ficava o antigo Q.G de um dos mensageiros.
— Nya... a gente vai ter que procurar.
Os dois continuaram a busca por civilização.
Sealand — Território Leste
Triton-33 era governado pelo exército do Capitão Cthu há 50 anos. Antes da chegada do império, o povo das águas viviam sob o regime de um rei tritão conhecido por sua boa governança e senso de justiça.
Os povos managuas eram parecidos com humanos, exceto por terem guelras atrás da orelha, dentes afiados e membranas interdigitais. Eram criaturas boas no nado e respiravam tanto no ar quanto na água. Sob o regime de Cthu, os managuarianos pagavam altos impostos para os lacaios do mensageiros, pois a recusa do imposto desencadearia prisão ou despejo.
As ilhas artificiais foram construídas pelos managuarianos após a tomada do poder pela facção de Cthu. Antes, eles moravam em cidades submersas chamadas de atóis. No entanto, o mensageiro tomara todas as atóis para si, incluindo a atól mais conhecida: o lar do antigo rei do planeta.
E com a marginalização dos managuarianos, várias gangues e grupos surgiram na superfície. Vez ou outra havia guerras entre gangues, destruição de ilhas artificiais e até sequestros.
Existia uma ilha prisão que funcionada sem a supervisão do império. Era um lugar liderado por managuarianos sem a interferência direta do governo de Cthu. O lugar era circular como um estádio de futebol, no meio havia o chamado lago central onde os barcos eram estacionados. Ao redor do lago, o prédio circular com até dez andares. Toda a estrutura era feita de pedra porosa e metal.
— É a gangue do Hopper! — gritou um guarda na guarita.
As vestimentas dos managuarianos eram feitas da pele de um peixe comum no planeta, servindo para fazer roupas de mergulho. Além disso, usavam algas para a confecção de casacos, calças ou até mesmo sapatos.
Os barcos foram construídos com madeira das árvores aquáticas e motores de submarinos velhos do governo Cthu. A eletricidade era abundante por causa das medusas.
— Abram o portão — falou o responsável pela prisão.
Numa parte da prisão, uma porta grande de ferro submergiu com a ajuda dos trabalhadores que giravam alavancas.
Cerca de uma dúzia de barcos com vários gangueiros surgiram no horizonte. Era a Gangue Hopper. Conhecidos por serem servos extraoficiais do império. Eram conhecidos como traidores da raça por se aliarem aos vilões. Hopper era o chefe e o homem mais temido da parte leste do planeta.
— Chefe, abriram o portão — disse um outro homem-peixe chamado Prisco.
— Perfeito. Eles sabem que não se deve brincar conosco. Prisco, quantos já entregamos aos lacaios do presidente?
— Acho que mais de 100 desde que nos convertemos em subordinados.
— Tem mais alguns presos lá. Vamos arrancá-los e não vamos ter dó nem piedade só porque somos da mesma raça.
Hopper era careca, com íris grandes e pretas, dentes afiados, pele cinza, orelhas pontudas com brincos parecidos com presas de tubarão. Usava um colar cheio de dentes afiados, camisa florida, bermuda branca e chinelo. Nas suas costas existia uma barbatana retrátil, usada apenas quando mergulhava.
Os barcos entraram no lago da prisão. A gangue pulou para a calçada interna e ameaçou iniciar uma guerra. Os responsáveis do presídio pediram a Hopper para não iniciar uma luta dentro do local, pois seria um grande desastre.
— Mostra os filhos da mãe — disse o homem-tubarão branco ao agarrar o diretor da prisão pelo colarinho.
O chefe da gangue arrombou uma porta com um chute e entrou numa ala cheio de celas. Os cinco sujeitos foram identificados e "soltos". O bando de Hopper levou os cinco escoltados e algemados.
— Aqui está o que prometi — Hopper deu um punhado de moedas ao diretor da prisão. — Qualquer cretino desse que surgir, avise-me.
— Sim, senhor.
O dinheiro em Triton-33 era inteiramente feito de moedas. Dinheiro de papel era inexistente por causa da obviedade de se viver num país quase totalmente de água.
Hopper e seus asseclas voltara para os barcos e saíram do presídio.
Ainda no submarino-carro, Rodrigo escutou algo que era inaudível até mesmo para um espectro gato. Eins perguntou se era algo da cabeça dele, pois seria impossível ouvir qualquer som numa profundidade de quase 200 metros.
— É como se alguém me pedisse ajuda. É uma fala angustiante.
— Eu agora estou com medo, nya. Vai saber se você virou esquizofrênico.
Rodrigo pediu para Eins descer mais ainda. O gato foi ate o fundo daquela parte do oceano.
O fundo era repleto de rochas e corais. Os corais eram luminosos e possuíam luminescência. As criaturas aquáticas eram, em sua maioria, peixes.
— E agora?
— Silêncio. A voz tá pedindo para irmos até uma fenda. Deve haver alguma por perto.
O veículo se aproximou de algo parecido com um canyon. O fundo era de uns 100 metros. Isso deixou Eins mais preocupado, pois estavam a quase 300 metros.
— Olha ali. O rei deve viver ali — Rodrigo apontou para um tipo de castelo vermelho na profundeza.
— Isso e impossível. Não era para o castelo real estar aqui. Segundo pesquisei, o rei vivia numa cidade subaquática.
Quanto mais se aproximavam, maior o castelo ficava. Imenso, o castelo vermelho era dez vezes maior do que qualquer um que os dois haviam visto. Era como se um gigante morasse ali.

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