Rodrigo e o horror de Scuti
16 Companheiro cetáceo
À medida que o submarino-carro se aproximava do castelo vermelho, menor ficava em relação ao ambiente. Tudo era grande. As algas possuíam mais de dez metros e peixes com o tamanho de um elefante. Havia uma escadaria enorme na frente da residência. Cada degrau era maior em altura do que a altura do carro.
— Nunca vi um castelo tão grande. Será que algum espectro gigante vive aqui?
— Eins, podemos entrar em segurança?
— Não sei... Argh! É por isso que odeio água. Só tomo banho porque a minha língua espinhosa não e suficiente quando me lambo.
Eles subiram os degraus e foram para a entrada. Um portal negro e sem porta surgiu.
A bomba de luz foi lançada pelo gato, iluminando boa parte do interior da entrada. Era um ambiente parecido com de um castelo medieval. As paredes eram feitas por pedras do tamanho do carro, encaixados umas sobre as outras.
Rodrigo avisou que a voz era oriunda de mais distante. Era como se fosse na parte mais profunda daquele lugar.
— Espera. Tem alguém por perto. Melhor ativar o modo furtivo — Eins ativou a invisibilidade do veículo e parou no canto da parede.
— Detectou algo?
— Silêncio, nya.
Um grupo com dezenas de submarinos pretos saíram das profundezas do castelo e saiu para o vasto oceano.
— Com certeza são subordinados de um mensageiro. Quase fomos descobertos.
— Eins, tu acha que eles vão pra onde? Aposto que vão aonde pousamos. Lembra que existiam satélites na órbita de Fuji-10?
— Talvez seja isso. Agora eu fiquei com um cagaço.
O castelo em que os heróis estavam era uma antiga fortaleza-prisão que servia para confinar os piores criminosos do reino managuarianos. A única diferença era a cor vermelha, pois era a cor oficial do império. Antes, porém, a fortaleza tinha um tom amarronzado.
A fortaleza ainda servia como prisão, mas de uma única pessoa. Os servos do Capitão Cthu trabalhavam para que a tal pessoa jamais fosse liberta. No entanto, nunca previram a chegada de Rodrigo e Eins, sobretudo numa região perto da fortaleza.
Enquanto isso, o grupo de capangas chegou ao exato local em que fora detectado um objeto voador não identificado. Os submarinos eram controlados pelos astrooms.
— Muito estranho. É certo que captamos a aterrissagem desse ovni.
— Será que foi defeito do satélite?
Um terceiro astroom num outro submarino avisou que o Bloop estava por perto e que era perigoso. Bloop era a baleia gigante que se alimentara de medusas elétricas.
— Continuaremos a vasculhar todo o perímetro. A região tem um raio de 10 quilômetros.
De volta à fortaleza...
— Olha esses móveis — disse Rodrigo ao apontar por móveis feitos de um material muito parecido com pérola.
— Temos que achar um jeito de descer, nya — Eins utilizou um braço mecânico para abrir uma porta grande.
A voz se tornava mais alta. Rodrigo não aguentava e tapou os ouvidos, mas a voz ia direto para o cérebro.
— O que é aquilo? — Eins mostrou algo brilhante.
Havia uma masmorra no fundo da fortaleza. No meio, algo brilhando. Era uma orca... A tal orca brilhava numa intensidade verde nas partes brancas.
— Aquele animal está falando contigo? Que esquisito.
— Isso vindo de um gato?
— Nya... eu sou um espectro com vida inteligente, não um bicho qualquer.
O animal estava amarrado com várias correntes. Seus olhos abriram, brilhando. A voz era oriunda desse animal.
— Quem é você? — Rodrigo perguntou.
— Sou...
Rodrigo arregalou os olhos.
— O que ele disse, nya?
— Ele falou que é o antigo rei de Triton.
O gato riu da cara de Rodrigo e zombou do que o herói disse. Como um simples animal seria o antigo rei?
— Eu sei lá! Ele apenas disse.
— Já fazem décadas que o império destronou o rei. Ele já deve estar morto e os seus ossos no fundo de um vale oceânico. Não seja ingênuo, nya.
Mas algo em Rodrigo queria acreditar no animal.
...
A gangue de Hopper possuía uma sede localizada numa pequena ilha do tamanho de um campo de futebol. O ambiente fora construído inteiramente por placas de metal e era um tipo de prédio comprido com cinco andares. Havia um tipo de píer onde os gangueiros embarcavam.
— Tragam eles — falou Hopper aos seus subordinados.
Prisco foi em seguida até a sala pessoal do seu chefe. O homem-tubarão branco sentou na cadeira metálica e se debruçou sobre a mesa do mesmo material.
— Como vai o contato?
— Eles chegarão em algumas horas — falou Prisco.
Prisco era o braço direito do chefão da gangue. Era um espectro humanoide que tinha pele azul e dentes afiados. De resto, era parecido com um humano.
Um submarino pilotado por astrooms emergiu no píer da sede. Astrooms saíram e foram até a sala de Hopper.
— Queremos ver os cadáveres — falou o astroom (ele estava acompanhado de mais dois).
— É claro.
Hopper guiou os três até uma sala e mostrou os cinco indivíduos com perfurações de arpão no corpo.
— Como podem ver, aqueles que se rebelaram contra o presidente Cthu pagaram com suas vidas. E a nossa recompensa?
Um saco de pano com muitas moedas foi entregue para Hopper. O dinheiro era suficiente para viver o resto da vida de maneira plena.
— Faça bom proveito.
Os vilões voltaram ao submarino e submergiram.
— Ainda falta muito para eles chegarem?
— Não muito, chefe — respondeu Prisco.
Ainda dentro da sala com os supostos cadáveres, Hopper pediu ao mágico que aparecesse. Um homem vestido com terno preto e cartola saiu detrás de uma capa da invisibilidade. O mágico chamado Copperfield estalou o dedo e fez os corpos virarem peixes. Na verdade era uma ilusão.
— Mais uma vez, obrigado.
— Não seja tão sentimental. Eu quero a minha parte.
Hopper deu dinheiro ao tal Copperfield.
Em seguida, Hopper entrou numa outra sala e pediu aos cinco que saíssem em segurança. Os ex-prisioneiros eram da resistência anti-imperial liderada por... Hopper. O homem era o líder da resistência e se disfarçava de leal a Cthu.
— Nós pensávamos que a história sobre você ser o capacho do presidente era verdade.
— Eu sou um capacho, apenas na aparência. O que pretendo é fazer a maior revolução nesse planeta desde que o presidente se foi. É a nossa chance de tomar o nosso planeta natal — respondeu Hopper.
Algo surgiu no céu do planeta. Uma nave espacial aterrissou perto da ilha. Dois espectros alienígenas com mais de dois metros surgiram e mostraram uma mala cheia de apetrechos para a formação de armamento de ponta.
— Essa é a minha deixa. Tenho as minhas próprias preocupações no meu planeta — Copperfield retirou o chapéu numa saudação e pediu carona aos aliens.
Os objetos comprados foram cruciais para a fabricação de pistolas de plasma. O plasma era o projétil mais letal do universo e era amplamente usado pelo exército imperial mesmo debaixo d'água.
— Quando atacaremos Atlantika? — perguntou Prisco também montando as armas.
— Em breve. Essa será uma guerra em homenagem ao meu avô, o antigo rei.
— Você tá querendo ser rei? Sabe que o povo te vê com maus olhos, não é?
— Esse foi o preço que paguei para chegar até aqui. Eu não tinha outra escolha. Agora é seguir em frente. E não pretendo me autointitular rei de Triton.
...
Ainda no fundo da fortaleza...
— Precisa libertá-lo.
— Rodrigo, sua mãe é a pessoa que eu mais admiro. Mas não é por isso que vou aceitar todas as suas estupidezes. Melhor sairmos daqui antes que os inimigos voltem.
— Eu arrombo a porta desse carro. Sabe que tenho força para isso.
O gato ficou incrédulo. Era completamente oposto à ideia de libertar um espectro marinho.
— Confia em mim.
— Nya... ara... ara! Tudo bem.
O braço mecânico do submarino segurou uma corrente e fez pressão. A corrente foi partida. Porém, sobraram ainda muitas outras.
Eins não queria soltar a criatura, mas Rodrigo insistia muito. E a cada corrente quebrada, a apreensão aumentava.
A orca luminosa se libertou da prisão. Aproximando-se do submarino e agradecendo exclusivamente Rodrigo pela soltura. Segurou o veículo com as duas barbatanas e nadou numa velocidade absurda. O cetáceo quebrava as paredes com extrema facilidade.
— Vamos morrer!!
— Se segura, Eins.
Nem mesmo os astrooms nos submarinos puderam conter a força do animal.
A orca destruiu a parede externa da fortaleza e subiu até a superfície.
— Acho que vou morrer... nyah... Ei, aonde vai?
— Vou falar com o meu mais novo amigo.
Rodrigo abriu a porta e subiu no capô. Sentiu o ar e o vento. Era bem melhor do que ficar horas dentro do Chevette.
— Valeu por nos dar essa carona.
— Eu que tenho que agradecer, kyu. Fiquei preso lá embaixo por longos 50 anos.
— Você disse que já foi rei desse planeta? Não tava mentindo só pra que eu pudesse te soltar?
A orca afirmou outra vez que era o antigo rei de Triton. Rodrigo pediu uma prova a ele, mas a orca negou.
— Volta pro carro, nya.
— Calma.
— É verdade que já fui rei desse planeta, mas fui amaldiçoado por um mensageiro a ficar nessa forma animal, kyu.
— Maldição? Não me parece especialidade do Tatsunootoshigo. Então foi o mensageiro que govena este planeta?
— Negativo, kyu. Foi um mensageiro chamado Servespina. É uma bruxa que ajudou o Capitão Cthu a me derrotar.
Rodrigo sabia que existiam outros mensageiros, mas nunca imaginou que ajudavam entre si.
— Olha... não sei o que a sua soltura vai te ajudar a voltar ao normal. Eu não sei como se quebra uma maldição — falou Rodrigo um pouco desmotivado.
— Eu sei, kyu. Apenas um descendente de sangue pode me fazer voltar à minha antiga forma.
— Agora fiquei curioso pra saber o seu nome.
— Meu nome, kyu? Azuro. Azuro Atlantika II.
Eins buzinou e pediu para Rodrigo sair de cima do carro. O homem voltou.
— Azuro, pretende voltar a governar Triton?
— Talvez não, kyu. Quando me transformei em espectro-besta, a minha idade era de 78 anos. Já era um ancião.
— Vai voltar a ser um velho, nya. Melhor continuar sendo peixe.
— Eins, orcas são golfinhos, não peixes. E não fale assim!! Ele é da realeza.
O gato deu de ombros.
— Tenho que achar um descendente meu, kyu. Cinquenta anos atrás, deixei 20 filhos. Mas acho que quase todos morreram, exceto o meu caçula, que tinha 10 anos.
— Ele estaria com 60 anos hoje. Também já e uma idade avançada.
— Não, kyu. A expectativa da minha raça é 120 anos. Então ele está na metade da vida. Mas onde achar? Talvez Atlantika? Lá é a minha antiga cidade, mas agora é a morada do mensageiro.
Rodrigo avisou que ajudaria Azuro a voltar ao normal, para o desgosto de Eins.
A primeira parada era alguma concentração de moradores que viviam na superfície. Encontrar homens-peixes em ilhas artificiais era um trabalho muito difícil, haja vista a população managuariana não era grande.
— Quando governei, a população era de 300 mil habitantes. Mas quando o império invadiu Triton, matou muitos dos meus súditos, kyu.
— Isso é um problema, Azuro. As chances da sua família já não mais existir é grande — falou Rodrigo ainda sendo o único ao ouvir a voz do espectro.
— Eu sei, kyu. Mas ainda tenho esperança.
A primeira ilha a ser encontrada era uma artificial contendo poucas casas (as casas eram feitas com chapas de metal). Havia passarelas entre as casas para os habitantes caminharem. Os moradores se enconderam ao verem a chegada dos visitantes.
— Terra firme. Que saudade estava em pisar em algo firme — falou Rodrigo ao subir numa passarela.
Eins continuou no carro e Azuro deu a volta na ilha.
Rodrigo bateu palmas em frente das portas das casas. Ele começou a falar que estava ali para pedir esmola.
— O que ele tá fazendo? Virou mendigo, nya.
— Por favor, sou apenas um viajante comum. Alguém tem comida para me dar?
Os moradores (cerca de 50 pessoas) saíram das casas e deram comida ao herói, que agradeceu pelo bom gesto dos habitantes.
— Eins, chega aí.
O bichano saiu do carro e pulou imediatamente para a ilha. Ele ficou com os pelos eriçados só de ver o oceano.
— Ele é o meu amigo. Como pode ver a aparência dele, não somos deste planeta. Agora podem me responder algo?
— Sim, senhor — falou um managuariano idoso.
— Eu queria saber se o antigo rei desse planeta deixou descendentes.
Os moradores não souberam responder, mas 1 garoto se aproximou e disse que muitos quilômetros dali existia uma prisão flutuante e que seu pai havia trabalhado lá.
— Ele me disse uma vez que o neto do rei era o único sobrevivente da antiga família real. Não sei se é verdade. Papai tava bêbado depois de beber rum.
— Seu pai é um mau exemplo — gritou uma garotinha.
— Cala a boca!! Meu pai é trabalhador...
Rodrigo apartou a briga das crianças e perguntou se o pai do guri ainda trabalhava na prisão. Ele respondeu positivamente.
Após a informação, os heróis retornaram para o carro. Rodrigo escutou os lamentos de Azuro sobre a notícia de que o seu neto, filho do seu filho caçula, era o único da sua linhagem a estar vivo. O agora orca não fazia ideia de quem era o seu neto.
— Quando "morri", meu filho tinha apenas 10 anos. Óbvio que não conheci o meu neto, kyu.
— Azuro, pensando bem... Se o seu filho teve um filho, ele pode ter constituído uma família. Nem tudo está acabado.
— Kyu... Nem tente me animar. A propósito... Vocês vieram aqui pra quê?
Rodrigo olhou para Eins e respondeu que o objetivo era acabar com a raça do mensageiro. Mas Azuro duvidou da capacidade de Rodrigo.
— Não duvide de mim. Eu já matei um mensageiro antes.
Azuro arregalou os olhos. Nadou por baixo do veículo e o levantou logo à frente da sua barbatana dorsal. O espectro era grande suficiente para levar o Chevette nas costas.
— Vocês andam muito devagar. A vantagem dessa maldição é que sou muito veloz no oceano, kyu.
Os três foram numa velocidade muito grande, assustando Eins. Rodrigo, por sua vez, adorou a carona.
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