Roderick e seus doze irmãos
10 Legitimidade
Notas iniciais
1585
Todas as manhãs, com o nascer do sol, os guardas que protegiam o castelo de Gayern se reuniam na Torre Leste da muralha, para descansar e fazer a troca de turnos. Roderick decidiu que seria melhor encontrar Abigail lá do que interrompê-la em seus afazeres.
Ele conseguiu ouvi-la muito antes de abrir a porta da sala principal. Abigail ria e gritava:
— Vamos seus cabrões, batam a minhas cartas agora, quero ver! Aposto tudo!
Depois de alguns segundos de tensão, a sala explodiu em vivas e xingamentos, provavelmente por parte dos guardas que perderam suas moedas para Abigail. Roderick abriu a porta lentamente, e assim que o primeiro homem o viu, todos se calaram. Os guardas todos puseram-se de pé e ficaram em posição de sentido. Abigail limitou-se a virar sua cadeira para encarar o irmão.
— M-meu lorde, peço desculpas… — balbuciou o chefe, distinguido pelas insígnias costuradas em seu colete – Este é um mero momento de lazer, garanto-lhe que temos homens suficientes no resto da muralha a fazer suas vigílias…
— Descanse, senhor, eu não penso que vocês passam o dia a jogar cartas – Roderick assegurou, gesticulando para que eles se descontraíssem – Vim apenas falar com a minha irmã. Abigail?
Ele indicou a porta com o olhar. A bastarda se levantou, se despedindo dos guardas com um aceno e uma chacoalhada provocativa do saco de moedas que carregava. Roderick andou com ela até um corredor, e parou, mas antes que pudesse falar, Abigail o puxou pelo braço.
— Aqui não – disse – Estes homens são mais fofoqueiros que uma roda de velhas rendeiras. Vamos para outro canto.
Desceram a torre, até o pátio de treinamento, que estava vazio naquelas horas da manhã. Abigail pegou uma espada de madeira do chão, e brincou com ela um pouco, riscando o chão de terra e balançando-a no ar.
Ela tinha ganhado forma desde que começara a treinar. Podia não ser muito mais alta do que as outras mulheres, mas as roupas masculinas que usava para treinar estavam bem ajustadas e revelavam os músculos potentes de seus braços e pernas. Seu cabelo loiro, que escurecera com o passar dos anos – ou com a constante sujeira – estava sempre preso numa trança firme, para não a atrapalhar enquanto trabalhava.
— Então, o que queria dizer?
— Só vim perguntar como vão as coisas – Roderick disse, despretensiosamente – Soube que tiveram uma conversa com Fionna ontem que não correu bem.
Abigail deu um sorriso de escárnio.
— Queres dizer que Fionna te mandou aqui me investigar.
— Investigar não. Eu só queria saber como estás.
— Tu e ela são como piolho e cão, um não faz nada sem o outro estar metido no meio. Não mintas Roderick.
— Está bem – ele suspirou – Mas eu também estou genuinamente interessado. O que aconteceu?
A bastarda deixou sua espada de lado, e cruzou os braços, lábios contorcidos num bico. Ela mudou o peso de um pé para o outro, lentamente, e Roderick quase conseguia ver rodas girando em sua cabeça enquanto ela escolhia o que dizer.
— Eu aprecio a proposta dela. Nos legitimar, mesmo depois de tanto tempo… querendo ou não, vai nos dar seriedade – recontou Abigail – Devias ter visto o discurso dela. Disse alguma coisa sobre os pequenos tordos-negros sayenos, e não sei mais o quê…
— Os pequenos tordos-negros sayenos, que sozinhos não são nada, mas que juntos afugentam até ursos – Roderick continuou, com um riso – É o mesmo discurso que o pai fazia sempre que tinha que pedir algo a alguém.
— Bem, teve o efeito desejado. Kenna e o Alister concordaram na hora. O Conall, pela carta dele, também deve estar mais do que contente em ter um sobrenome de nobreza.
— Mas tu…
Mais um suspiro pesado.
— O conde nunca quis nada conosco. Ele nunca nos perdoou por simplesmente existirmos – disse, lentamente – Se eu aceitasse ser legitimada, sua maior injustiça seria desfeita, perdoada, sem que ele sequer tivesse o bom caráter para tomar tal iniciativa. Não vou lhe conceder essa dignidade. Tu e Conall são mais meu pai do que ele.
— E não aceitarias a legitimidade e o nosso sobrenome para honrar a mim? – Roderick insistiu.
Abigail deixou sua postura amolecer levemente, mas foi o suficiente para que seu irmão notasse sua expressão envergonhada, como uma criança valentona pega por um adulto.
— Eu sou grata por tudo que fizeste por mim, Roderick. Mas tu cuidaste de nós apesar do conde, não por causa dele. Acolheste-nos porque és boa pessoa, não por causa da nossa relação de parentesco – ela assegurou – Espero que meus serviços como guarda pessoal para ti e para nossos irmãos possa um dia compensar todo o tempo que dedicaste a nós. Mas de novo – eu faço isso porque eu amo vocês, não graças ao nosso pai.
Roderick assentiu, pensativo. Não havia surpresa nenhuma ali. Abigail era a mais arisca dos bastardos, seria esquisito que ela falasse bem e perdoasse as indelicadezas do velho conde. Ela podia ser uma adulta, mas ainda tinha o seu feitio de adolescente abandonada. Era sua barreira de proteção contra o mundo — e sua última rebeldia contra o pai.
— Bom, não posso te forçar a nada. Mas me contento em saber que não guardas rancor contra o resto da família por causa das ações do meu pai – ele disse, cruzando os braços.
Ela deu um risinho seco.
— Não te preocupes, Rod, eu não vou dar uma de Finley e trair a família – Abigail disse, trazendo a voz para um sussurro ao mencionar o nome do irmão renegado – Eu posso odiar o conde, e não ser uma Donne. Mas eu sou sayena, até os ossos. O que me lembra – peguei alguns homens emprestados de castelos vizinhos, para reforçar a guarda no teu casamento. Tudo deverá correr sem incidentes.
— Obrigado, Abi. E tiveste notícias do Conall?
— Sim, uma carta chegou esta semana. Ele está em Weiland, se divertindo com os condes e barões… ou melhor, com suas esposas e filhas, imagino eu. Disse que não chegaria a tempo da festa, aquele vagabundinho ingrato. Depois de tudo que fizeste por nós…
— Não fico ofendido. Eu já tive a idade de Conall, eu teria feito o mesmo – Roderick assegurou — Além disso, mandamos as notícias muito em cima da hora, ele está demasiado longe, aproveitando seu dinheiro suado dos navios.
— E agora, com um sobrenome importante – Abigail ressaltou – És demasiado bonzinho com ele.
Com isso, ela recuperou sua espada, e num gesto rápido, cutucou o peito do irmão. Roderick cambaleou para trás, e levou uma mão ao local atingido, dramaticamente encenando um ferimento.
— Faz anos que não lutamos um contra o outro – Abigail observou, girando a espada de madeira habilmente.
— Eu tenho tido mais o que fazer da vida, não sei se reparaste, minha querida irmã.
— É verdade. E além disso, agora não posso te deixar cheio de hematomas, imagino que sua noiva irá reclamar se te encontrar todo roxo na noite de núpcias.
— Estás muito confiante se achas que conseguirias me bater tanto assim – ele disse, sabendo perfeitamente que Abigail era melhor esgrimista do que ele algum dia já foi.
Ela chiou e cuspiu no chão, pondo os pés na posição de combate.
— Queres descobrir? – perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Roderick riu.
— Como eu disse, tenho mais o que fazer da vida. Mas aliás – como anda o teu pombinho? É o William, não é? – provocou o jovem lorde.
O rosto de Abigail ficou vermelho feito uma maçã, e ela deu mais um empurrão em Roderick com a ponta da espada, o que só o fez gargalhar mais.
— William não é… ugh, és terrível. Foi o Alister que te contou esta história? Ele é um idiota, eu juro que ainda o vou matar. Só estou a ensinar o William a se defender, já que ele é tão desajeitado que até um ramo o derrubaria.
— É claro, é claro, nunca duvidaria das tuas boas intenções.
Um sino tocou, à distância, distraindo Abigail antes que pudesse mudar de ideias sobre poupar Francisca de receber um marido espancado em sua noite de núpcias.
— Bem, se não tens mais nada de importante a dizer, vou voltar para o meu posto – ela disse, com acidez – Vá, até mais, Roderick.
— Até mais, Abi.
Ela marchou de volta para a torre, parando para dar um beliscão no irmão antes. Enquanto Abigail se afastava, um arrepio fez o corpo de Roderick se engessar, tomado por um pensamento sombrio.
Talvez fosse melhor não ter o sobrenome Donne quando a guerra começasse.
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